quinta-feira, dezembro 15, 2005

“Paris num dia de chuva” – legenda para um quadro de Caillebotte




O episódio tem lugar no dia 14 de Dezembro de 1904.

Diz quem passa momentos da sua vida a observar o quadro no Musée d’Orsay que, contrariamente às aparências, o par retratado não se trata de qualquer comum casal parisiense.

Trata-se de gente de bem – isso é ponto assente. Ela, no meio dos seus quarenta, teria ficado viúva há alguns anos. Ele, sensivelmente pela mesma idade, é um solteirão militante.

Devido a circunstâncias não apuradas, nem sequer relevantes para o caso, começaram a corresponder-se há algum tempo... e a escrita levou-os a concluir dos muitos gostos e interesses em comum, da similar forma de encarar a vida, a natureza, a arte. Cada missiva trocada, contribuía para um sentimento de necessidade de partilha, que ía crescendo em ambos, ao mesmo tempo que lhes instalava um sorriso na alma.

Nesse dia, o registado na imagem, tinham decidido encontrar-se para, finalmente, se conhecerem enquanto pessoas que, para além de espírito, também possuem um corpo.

Combinaram um almoço num restaurante ao acaso. Ele chegou pontualmente, Ela atrasou-se sobremaneira, facto que a deixou um pouco nervosa até ao momento em que se viram.

Apesar do estado de espírito com que ela chegou, o almoço decorreu com a maior tranquilidade. Quem os visse, diria que eram amigos de longa data. Eles próprios tiveram esse sentimento e comentaram-no, com serenidade e um olhar cúmplice. Quando a refeição chegou ao fim, e o empregado trouxe a conta, tiveram a sensação de que apenas uns breves minutos tinham passado. Não falaram disso na altura.

À saída do restaurante, foram apanhados por uma providencial forte chuvada. Ela, feminista ousada, não tardou em enfiar o braço no dele, para se proteger melhor da chuva e sentir o calor do corpo daquele homem alto e elegante, que tivera a felicidade de acabar de conhecer presencialmente. Ele, cavalheiro, cedeu-lhe o braço com gentileza, tentando fruir, secretamente, daquela inocente intimidade momentânea.
Dizem ainda, os tais apreciadores do pintor que passam horas a admirar o quadro, que, uns metros à frente, o par se separou, com o à-vontade e alegria de amigos que passaram um bom momento juntos e terão, certamente, muitas outras ocasiões de o repetir. Tinham caminhos diferentes a seguir naquela tarde - ele: inúmeros afazeres no Banco, ela: o chá-canasta de todas as sextas-feiras com as amigas.
Poderiam, no entanto, ter decidido continuar a passear à chuva pelas ruas de Paris, abeirar-se do Sena, atravessar uma das muitas pontes e parar, bem no meio, a observar a força da corrente, sem trocar uma palavra, ela com a cabeça no ombro dele, ele a aspirar o perfume dos seus cabelos, com o pensamento em uníssono. Depois seguiriam, em silêncio, durante muito tempo, até que se separariam, inevitavelmente, ao caír da tarde, com sinceras palavras de prazer pelo facto de terem vivido bonitos momentos juntos. A primeira vez de muitas... quiçá!!!
Comentário:
Quem vai para o Musée d’Orsay apreciar os quadros dos seus impressionistas preferidos pode ficar dias inteiros a imaginar histórias à volta das imagens que vê. Os argumentos podem até ir variando, na mente de uma mesma pessoa, face ao mesmo quadro, dependendo do estado de espírito que o preenche naquele dia.

Quanto à pintura, apenas uma certeza podemos ter: Caillebotte encontrou, naquele par com quem ocasionalmente se cruzou numa rua de Paris, algo que levou consigo para a sepultura mas, decerto, suficientemente interessante para o fazer captar a imagem daquele momento, registá-la e reproduzi-la na tela, para ser apreciada e sobre ela serem inventadas histórias por qualquer um de nós.

Maria, 15 de Dezembro de 2005 (um século e um dia depois)

1 comentário:

Mel de Carvalho disse...

Existem momentos em que sentimos tão íntimas as imagens que não sabemos como nem de onde as conhecemos...
As palavras voltam a nós como se nossas fossem, ou nos tivessem destinadas a ler, desde a raiz dos tempos.
E geram textos como este, capazes de nos tocar, sobremaneira.

Gratidão, Maria.
Bem-hajas, sempre
Beijo
Mel