terça-feira, maio 02, 2006

Fragmento


O voo planado da gaivota;
o azul indescritível

das águas profundas
que separam a costa da ilha-rosa,
logo ali,
a duas braçadas e meia de lonjura;
as mãos que avidamente se procuram
para agarrar
um momento inesquecível.

Riem de si próprios
e as gargalhadas ecoam como os gritos dos corvos e das gaivotas.

No abraço em que se enlaçam
os beijos molhados têm o sabor salgado
das lágrimas que algures,
no percurso dos rostos,
se misturam.

Em silêncio, sem palavras, eles sabem.


Sempre souberam da impossibilidade de guardar
a memória etérea de um instante feliz num relicário;
da incapacidade de qualquer alquimia materializar,
para esconder na caixa dos pequenos-grandes tesouros,
um fragmento de eternidade:
único e irrepetível.


7 comentários:

L. Rodrigues disse...

Evoca-me um imaginário muito Hugo Pratt, este poema... gaivotas, corvos, mar profundo e tesouros.... e provavelmente nem te passou isso pela cabeça. É assim, as palavras não são nossas...

João Villalobos disse...

Ó Luis, se visitares o Baleal e as Berlengas, verás que Corto Maltese poderia perfeitamente ter passado por ali :)

maria disse...

Amigos Luís e João,

Embora seja grande apreciadora das aventuras de Corto Maltese e, consequentemente, da BD de Hugo Pratt, confesso que não me passou, sequer remotamente, ao nível do consciente, qualquer reminiscência dessas deliciosas leituras ao produzir este escrito.
Beijos para ambos.

mac disse...

eh lá!
full of beauty, my dear.

rosmaninho disse...

"
I

És tu? Diz-me que sim!
Transforma-te, se não fores,
torna-te no que ninguém esquece,
abre-me o círculo a mim.

Irradia de ti
plena certeza. Levanto
os braços enfunados pelo teu vento.
És tu? Diz-me que sim!

Mostra-te leve, assim
Como música que reconhecemos
pelo ar que a traz e longe ouvimos ...
És tu? Diz-me que sim!

Chama e gelo vi
A envolverem-te num fogo ardente.
Repara, espero-te, distante:
És tu? Diz-me que sim!

II

Brinca com espelhos o Deus?
Cegam-nos clarões vibrantes?
Serão estes fulgores teus,
ou Seus jogos gracejantes?

Se o teu claro brilhar,
bato-te à porta, sou vento –
mas se em fogo lhe tocar
logo frio o sinto.

III

Ah, como te sinto, maravilha, ao menos
em minh’alma por cem multiplicada!
És estação no mais longo dos meus anos,
dia escuro e noite iluminada.

Tiraste novas flores deste meu chão
jovem, que a ti se entregou;
nunca mais puro despontou um botão
que os que a tua magia despertou.

Meus pássaros não fizeram ninho, cantaram ...
Ah, guarda-me os mais belos trinados –
para que aos desejos que em ti se amotinaram
peso e medida sejam dados."

In Momentos de Paixão
Rodin / Rilke
Os Amantes

maria disse...

Caro Mac,

A beleza apresenta-se perante os olhos de quem a vê mas, acima de tudo, habita a alma de quem a sente.

Beijo.

maria disse...

Deixas-me com a respiração suspensa, o coração acelerado, as faces ruborizadas e as mãos húmidas e frias, Rosmaninho! Toda eu estremeço e fico ainda mais vulnerável à força da gravidade ao ler este poema.
És tu? Diz-me que sim!