quinta-feira, setembro 07, 2006

Retrato do Predador quando Jovem



Quem não conheceu o predador quando jovem?

Altivo, soberbo, confiante, implacável, não havia presa que lhe resistisse.

Quando saía para as caçadas, com o seu porte garboso, lançava um olhar de desafio aos restantes companheiros e avançava sem medos, com o triunfo antecipado por garantia e a impensada certeza de que iria ser sempre assim. Não se perguntava, sequer, por que razão os mais velhos ficavam para trás, limitando-se a acompanhar o seu afastamento com olhos tristes e cansados.
Conta quem o viu mais tarde que, atingida já a fase do declínio, ficava frequentemente no grupo dos idosos. Era com olhos gastos e melancólicos que assistia à exuberante partida para a caça da nova geração de jovens predadores.
Por vezes seguia-os, de longe. Escondia-se, envergonhado, se algum olhava para trás e o avistava.
Quando alcançava o local do banquete, contentava-se com os restos que os jovens predadores tinham deixado, depois de amplamente saciados.
(Imediatamente antes da chegada das hienas, e com algum avanço sobre os abutres.)

5 comentários:

António Rosa disse...

Belo texto. Bem escrito, incisivo, com cambiantes. Gostei.

Abraço

francisco disse...

Inspirada alegoria, Rose, com uma referência ao grande James Joyce dissimulada no título.

Continua... quero mais!

Beijos.

Paulo Cunha Porto disse...

A imagem, contudo, não nos dá «O Predador enquanto Fémea»? O que iria bem, pois nesta espécie são elas que caçam para a família comer.
Beijinhos

Vasco Pontes disse...

bem vinda , maria
beijos

maria disse...

Obrigada pelos vossos comentários encorajadores e simpáticos, António e Francisco.

Olá, poeta Vasco. As tuas visitas são sempre bem-vindas.

O teu comentário, Paulo, merece um outro post, que vou editar acima.

Beijos para todos, amigos.