domingo, julho 01, 2007

O verdadeiro rosto da tia Albertina



Porque surgiram alguns comentários ao post anterior, apontando soluções várias para a identidade da figura retratada e, inclusivamente, foi sugerido que fosse um auto-retrato, sinto que a minha homenagem não ficava completa se aqui não publicasse o verdadeiro auto-retrato da tia Albertina.

Tudo o que disse sobre o retrato de Esmeralda corresponde à realidade, isto é, nem sequer sei o seu verdadeiro nome nem quem poderia ter sido o modelo. A tia Albertina nunca nos falou daquele retrato e só o encontrei, no tal caixote no sótão, muitos anos após a sua morte. A minha imaginação sentiu necessidade de criar o resto, que é muito pouco, mas que confere alguma identidade (ainda que meramente hipotética) àquele rosto anónimo e misterioso.

Quanto a este óleo, não há qualquer margem para dúvida, porque foi oferecido pela própria à minha irmã, que era sua afilhada, tal como os lindíssimos brincos aqui retratados (não posso deixar de referir, a par com a perfeição dos brincos, a maravilhosa gola de renda, cujos pormenores só poderiam ter sido assim transpostos para a tela por verdadeira mão de artista) . Nenhum de nós (refiro-me aos três irmãos de que faço parte) conheceu a tia Albertina na sua juventude, como é natural. A verdade é que aos setenta e muitos anos, e mesmo aos oitenta, quando a conhecemos bem de perto e tivemos o privilégio de com ela conviver intensamente (a que teve menor oportunidade de estar com ela foi, por ironia, a minha irmã, sua afilhada como referi, porque era a mais novinha...) mantinha muitos dos traços que podemos observar neste auto-retrato. Foi sempre alta e magra, duma elegância que fazia inveja a muitas raparigas de vinte anos. O porte altivo que aqui podemos apreciar, era nela uma constante, e manteve-o até ao fim dos seus dias de pessoa saudável e "senhora do seu nariz" . Os olhos, embora mais encovados, também nunca perderam o tom verde-azeitona nem o brilho que os incendiava quando relatava emoções. A voz, essa não está no retrato, mas o seu timbre ainda ecoa nos meus ouvidos: segura, firme, com laivos de ternura quando se dirigia a qualquer um de nós, os seus queridos sobrinhos.

A verdade é que este retrato precisa de ser restaurad0 com urgência. A minha irmã entregou-o aos meus cuidados com esse propósito. Confesso que fiquei com alguma má-consciência quando constatei que talvez a minha falta de actuação imediata tenha contribuído para a deterioração do mesmo, que hoje me pareceu francamente agravada. A tela, nalguns sítios (como ao pé da boca, do lado esquerdo do retrato, numa bem notória mancha na fotografia) está tão rarefeita que consegue ver-se à transparência. Não podemos deixar que uma peça deste valor (enquanto pintura, sem dúvida) mas em termos afectivos, acima de tudo, seja danificada, destruída. É nosso dever preservá-la, enquanto herdeiros de alguns dos seus quadros mas, principalmente, da memória de momentos que ela nos dizia terem marcado para sempre a sua personalidade e, acima de tudo, conhecedores que somos da sua história, da paixão da sua vida - a pintura - que sempre lhe foi vedada enquanto profissão , sendo que pouquíssimas pessoas terão tido a ventura de observar trabalhos seus.

Só mais duas ou três revelações: a tia Albertina teve dois filhos que morreram praticamente à nascença. Também o papel de mãe lhe foi negado, mas esse pela natureza. Não deixou descendência directa, portanto. Connosco, sobrinhos-bisnetos, descobriu o prazer de ter crianças junto de si e a felicidade dela reflectia-se como um espelho na alegria, no orgulho por nós sentido pelo facto de podermos partilhar as recordações da sua vida, da do seu pai e do seu avô. Penso que isso contribuiu para que, desde muito cedo, cada um de nós tivesse, a seu modo, começado a encarar a arte como um assunto muito sério, como uma (senão a) razão da existência. O meu irmão era, claramente, o seu sobrinho preferido, mas também, como não o ser, quando prescindia de tudo o resto, com seis anos de idade apenas, para ficar sentado a seu lado, a folhear livros de arte, a fazer-lhe perguntas inteligentes sobre o que ia observando, a sorver tudo o que ela tinha para contar e ensinar. Adoravam-se mutuamente, digo-o sem qualquer pejo. Vê-los juntos era um encanto (note-se que não há aqui lugar para qualquer ponta de ciúme, antes pelo contrário, deliciava-me aquela relação especial, da qual eu nunca fui excluída, mas cúmplice).

Última revelação, e que não é mais do que uma rectificação, assim do género "já agora, que fique tudo no seu devido lugar": a nossa verdadeira tia-bisavó era a sua mãe, Maria Antónia, irmã do nosso bisavô Luís Filipe, casada com o pintor Ribeiro Cristino (de quem também temos um retrato a carvão, desenhado pelo marido, na Ponte do Arco) mas que, como facilmente se depreenderá da idade que a tia Albertina tinha quando nascemos, nunca chegámos a conhecer. A Albertina Augusta, nossa prima, afinal, nunca suportou a ideia de que a tratássemos por "prima" (logo nós, que ela elegera, naquela avançada idade, como os filhos que gostaria de ter tido) e sempre deixou bem claro que nunca deveríamos tratá-la senão por "tia Albertina". Acabámos por esquecer-nos que não era, verdadeiramente, nossa tia, mas também, agora que penso nisso, ela foi muito mais nossa tia do que as tias-bisavós que conhecemos (essas sim, irmãs da bisavó Mafalda - e aqui volto a remeter para o post da Ponte do Arco, na tentativa de evitar que tudo isto fique muito confuso para quem lê, ao cair no clássico erro de que é tudo tão clarinho para os outros como para mim!)

O facto de partilhar convosco estas intimidades está, começo a ficar convicta, intrinsecamente ligado ao remorso que sinto pelo facto de não a ter acompanhado devidamente nos seus últimos tempos de vida e toda esta "pomposa" homenagem (parece-me agora, que reflicto sobre o assunto) estará a funcionar, simultâneamente, como um acto de contrição. Recém-casada e com a primeira filha nos braços, não me sobrava muita disponibilidade para pensar na querida tia Albertina... sei, disso tenho a certeza, que fui visitá-la ao hospital... julgo que uma única vez. A imagem fantasiada da sua hora da morte, completamente sozinha, naquela cama de hospital, ainda hoje me aflige, perturba e ensombra.

19 comentários:

M. disse...

Gostei muito da tua homenagem e do retrato. Que expressão de personalidade forte ele transmite!

Rosa dos Ventos disse...

Gostei muito do que li mas a última parte trouxe-me lágrimas aos olhos.
Quem já perdeu entes muito queridos e de proximidade máxima num hospital, sem estar presente, interroga-se constantementemente como teria sido.
Desculpa o desabafo!

Besnico di Roma disse...

Já somos dois... fica-nos sempre a ideia de que não fomos suficientemente amigos, suficientemente carinhosos… suficientemente suficientes. Sei o que sentes.
Beijitos.

Isabel José António disse...

Querida Amiga Maria Carvalhosa,

Toda a forma como descreve a Tia Albertina está muito bem congeminada e prende quem lê o texto.

O que não acho muito bem, serão os sintomas de alguma lamentação porque não se fez isto ou aquilo ou se deveria ter feito assim ou assado, agora que tudo já passou e que os nossos conhecimentos e "sabedoria" são diferentes dos que tínhamos quando as coisas se passavam.

Quando paramos para olhar para trás devemos fazê-lo com algum distanciamento e com a convicção de que fizémos o que tínhamos a fazer. Mesmo que tenha havido alguma egoísmo da sua parte, naquela altura, o egoísmo é uma forma de ignorância, que não nos deixa ver o que É.

O que precisamos é ter consciência desse nosso comportamento (se foi assim) e continuar a caminhar pois o caminho faz-se caminhando, coração e mente abertos para o que nos estiver a acontecer no PRESENTE.

Um grande abraço.

PS:

Será possível honrar-nos com a sua presença no dia 14/07/2007, na conferência que vou efectuar e que já a tinha informado?

José António

Besnico di Roma disse...

Tia Albertina.
Agradeço que informe a sua sobrinha, que se ela não me telefonar, entro em greve de fome total.
Antes e depois das refeições.

TINTA PERMANENTE disse...

Há por aqui espalhados, afectos de palavras tão delicados como as rendas que coroam o pescoço da tia-bisavó...
O(s) quadro(s) e as palavras rivalizam em beleza, amiga!
Abraço.

A.S. disse...

Um retrato valioso. Não só pela beleza intrinseca da tela, mas sobretudo pelas emoções que estão por detrás de um rosto austero e ao mesmo tempo enigmático...
Gostei que tivesses partilhado estas recordações!


Um beijo...

Maria disse...

Um texto de sentimento e beleza interior.
Acho que todos nós tivemos alguém por quem podíamos ter feito mais...
Fica aqui a partilha das tuas memórias, que te agradeço.
Lembro-me bem do teu post da Ponte do Arco. Mexeu comigo, quando o li...

Beijinhos, Maria

vida de vidro disse...

Li os dois posts um a seguir ao outro, fascinada com as tuas recordações. É estranho isto de peregrinarmos pelo passado. Começamos a olhar as coisas e as pessoas com um olhar diferente.
Belíssimo, o retrato da tia Albertina, bem como o seu retrato de vida, que fazes. **

o sal da nossa pele disse...

Adoro pintura, tenho vários quadros de pintores de pouca expressão, este post é para mim uma pintura... de um grande pintor...

carteiro disse...

Gostei muito de ler esta homenagem. Ver aqui partilhadas intimidades tão fortes dá para sentir que nós, visitantes, fazemos parte de algo (quase) secreto. Mas o importante aqui é todo o laço que consegues transmitir e toda a grande pessoa que (como mostras) a tia Albertina foi.

Foi um imenso prazer ler algo que te é tão profundo.

Maria P. disse...

Maria claro que vale, será uma honra para mim. Podes escolher a foto que quiseres.

Beijinho*

Charlie disse...

Neste mundo com cada vez mais seres humanos,da comunicação global, câmaras de video, sistemas de rastreio e condicionamento dos nossos comportamentos, estamos paradoxalmente mais isolados...mais sós...

Li este texto atentamente e tem uma imensa força. Seria fácil dar uma opinão tipo "parabéns" ou coisa que valha. Mas prefiro dizer que me prendeu pelo desagrado e desconforto que me causa. A arte não é tudo o que nos agrada, mas antes tudo o que nos impressiona. E este texto impressionou-me....

Graça Pires disse...

Maria, obrigada por partilhares as recordações e os afectos. Também gostava de encontrar um caixote num sótão. Mas não tive a tia Albertina... Um beijo

Luisa disse...

A Tia Albertina era linda e este retrato é uma verdadeira obra-prima! Bem merece ser restaurado e guardado na Família de geração em geração.

mixtu disse...

e que linda homenagem
e nada de pensar no passado, quando alguem parte sentimos sempre que podiamos ter estado mais perto, natural...

e tens realmente que cuidar do quadro...

mulher que encontrou em filhos de outros os seus filhos...

estorias com rostos... posts conseguidos... palavras com uma moldura...

ps. no meu 3º comment tenho também um tributo a um António... apesar de me leres há pouco tempo e eu a ti... sei que vais gostar (é que os amigos mais antigos sabem que há outros posts no meio dos comments)

abrazo europeu

Mel de Carvalho disse...

Maria, este é daqueles post(s) que valem a pena serem relidos. Remetem-nos para laços de afecto, para laços sociais.

A medida em que eles (os ditos laços) nos tornam melhores pessoas parece-me aqui evidente e transborda na tua escrita.

Gostei muito de começar a minha manhã aqui no alpendre da tua casa, com esta leitura.

Um excelente fim de semana (talvez na nossa praia??? estarei por lá...)

Beijos fraternos
d(a)e Mel
www.noitedemel.blogs.sapo.pt

APC disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
APC disse...

Uma mui bonita mulher, sem dúvida!
De aparência nobre e segura, como bem dizes. E, efectivamente, esse quadro é uma obra de grande qualidade, capaz de reproduzir as feições com imensa naturalidade e os pormenores com elevada minúcia.

Do teu texto - uma excelente ideia e um bom levantamento - gostei, particularmente, daquela associação dessa tia às crianças, e do afecto que lhes/vos devotava! :-)))

E creio que te percebo. Porque também já o senti. Talvez não tenhamos sido, com ninguém, tão generosos como gostaríamos de ter sido e teriam merecido... Talvez. Talvez não tenhamos sabido fazer melhor. Não tenhamos pensado muito nisso. E não soubéssemos o que sabemos hoje... Fôssemos "outros".
Mas talvez tenhamos dado a esses muito mais do que nós próprios temos consciência. Talvez sim! :-)

Um beijinho!