quarta-feira, fevereiro 11, 2009

Sombra do Tempo



"A luz projectada na minha passagem deu-me a sombra, que me seguiu e guiou até hoje. A luz que continuo incessantemente à procura, essa, só a sinto através da sombra do tempo."

Pintura e legenda de Júlia Calçada


"É tarde", pensou. "Já não há tempo para que aconteça nesta vida. Talvez noutra... se a houver!"

Como num filme, em flashbacks, a sua mente foi atravessada por sombras do passado.

Depois, alheia ao ambiente movimentado do aeroporto onde aguardava pela entrada na máquina voadora que a levaria até aos antípodas, viu as sombras do presente. Deste momento que se lhe apresentava como a única saída, rumo a um futuro incerto e, seguramente, não planeado.

Tentou projectar o pensamento no futuro... e viu sombras desconhecidas, assustadoras... receio do porvir?

Afastou os cabelos da testa, num jeito peculiar, em períodos de tensão. Olhou o homem sentado a seu lado, o seu companheiro, aquele com quem já tinha partilhado sombras do passado, estava a repartir as sombras do presente e com quem iria dividir as sombras do futuro.

"Nada a fazer", pensou para si, novamente. "O meu destino para esta vida está traçado. Tenho assim tanto de que me queixar? Julgo que não... de qualquer forma, nunca conseguiria habitar vidas paralelas, em simultâneo. Resta-me, unicamente, a esperança de que, numa outra vida, com outra pessoa que, romanticamente, continuo a crer possa ser a minha alma gémea, possa concretizar um amor apenas imaginado, nunca materializado".

"Estão a chamar para o nosso vôo", disse o homem a seu lado, pousando a mão sobre a sua, com carinho, supondo que ela estava a dormitar, ou apenas em meditação profunda, facto que tantas vezes sucedia e que ele tentava respeitar, evitando qualquer pertubação brusca.

"Vamos, querido". Respondeu, com um sorriso, apertando a mão, que agora havia agarrado entre ambas as suas. Levantaram-se e ela enfiou o seu braço esquerdo no dele.

Ao caminhar em direcção ao balcão de entrada para o avião, olhou para trás. Vislumbrou umas sombras do passado, de um passado que poderia ter sido, mas nunca existiu a não ser na sua mente. Resolveu atirá-las para um futuro longínquo, improvável, todo ele construído sobre uma fantasia com que se deixava entreter nos momentos de insatisfação, de desânimo... ou talvez apenas quando se entregava a pensamentos de busca da felicidade, o tal mito de que ouvira falar, mas que acreditava nunca ter conhecido.

"Estás com medo?" perguntou ele. "Não tenhas, minha querida, vai correr tudo bem. Vamos, finalmente, ser felizes".

Não conseguiu responder. Limitou-se a acenar com a cabeça que não, que não estava com medo... enquanto, com a mão que tinha livre, limpava, rapidamente, uma teimosa lágrima que tinha insistido em escapar.

11 comentários:

julia calçada disse...

Minha querida,
Lindo, como sempre.
Obrigada por fazeres parte da minha sombra do tempo!
Beijos embrulhados em cetim.
Júlia

Graça Pires disse...

Um texto cheio de melancolia e de sombras... Tão bem escrito que dá gosto ler. Um beijo Maria.

Rodrigo "Perdido" disse...

Ai felicidade, felicidade ... como cheiras a metafísica e a água benta! As sombras são o maligno que anda para aí a desencaminhar as mentes simples. Mão na mão lá vamos nós pela estrada da vida. No fim, em zoom giroscópico, aparece escrito "THE END".

Levantamo-nos da cadeira enquanto caem os nomes dos técnicos carpinteiros.

(à saída, refresca-se a garganta com um rebuçado do Dr. Bayard).

Lindo movimento de pernas!

MySelf disse...

Imagem e palavras conjugadas na perfeição!

Um beijo amigo

Isabel José António disse...

Minha querida Amiga,

Toda a vida é uma viagem e o veículo que utilizamos é o nosso próprio corpo...

O texto muitíssimo bem escrito, como sempre, fluido e emotivo, mas sereno.... com uma certa sensação de fatalismo...

Que tal continuar?

Um abraço,

Isabel

bettips disse...

Dos caminhos. Para trás e para a frente. Nos vamos fazendo.
Mais uma lindíssima pose de bailado, Júlia Calçada faz poesia pintando gestos.
Bjinhos

tinta permanente disse...

Às vezes, para se ser feliz, basta apenas não tentar...

abraços!

Pedro Rosmaninho disse...

Ficaria bem aqui recordar o lindo poema (bem cantado de preferência:
"Eu queria cantar-te um fado"
(de António de Sousa Freitas)

Eu queria cantar-te um fado
Que toda a gente ao ouvi-lo
Visse que o fado era teu
Fado estranho e magoado
Mas que pudesse senti-lo
Tão na alma como eu.

E seria tão diferente
Que ao ouvi-lo toda a gente
Soubesse quem o cantava
Quem o escreveu pouco importa
Que eu andei de porta em porta
Para ver se te encontrava

Eu hei-de oôr nalguns versos
O fado que há nos teus olhos
O fado da tua voz
Nossos fados são diversos
Tu tens um fado eu tenho outro
Triste fado temos nós"

entremares disse...

Uma óptima contadora de histórias.
Gostei muito.

Mel de Carvalho disse...

Maria,

que bom, mas que bom mesmo, ler-te. E pergunto: porque não venho aqui mais vezes?
E a resposta não me satisfaz: tempo? que estupidez... nós fazesmos o tempo ou (des)fazemo-nos no tempo?

Beijo da Mel, muito saudoso e sincero

Anónimo disse...

O tempo?!
(Inexiste o tempo ... ah esta quântica ... esta biblioteca viva!)
Que importa o tempo?
O tempo não conta para quem não morre!

Pedro Rosmaninho