segunda-feira, janeiro 16, 2006

O Pescador que perdeu as Graças do Mar

Ao meu Pescador
que, tal como o Marinheiro de Mishima,
perdeu as Graças do Mar...



[...]
"Largando rolos de fumo negro, um barquinho passava no horizonte.
Ele podia ter estado a bordo daquele navio.
Eu podia ter sido um homem que partiu para sempre.
Tinha-se cansado e agora, lentamente, começava a acordar para a imensidão do que abandonara.
As escuras paixões das marés, o rugido duma onda, a avalancha das vagas quebrando-se contra um recife...
uma glória desconhecida chamando-o incessantemente da negrura do alto mar, era a glória confundindo-se na morte e numa mulher, a glória de fazer do seu destino uma coisa especial, uma coisa rara."
[...]

[...]
"Sempre imerso no seu sonho, bebeu duma vez o chá morno.
Estava amargo.
A glória, como sabeis, é uma coisa amarga."







Excertos de "O Marinheiro que perdeu as Graças do Mar", de Yukio Mishima

sexta-feira, janeiro 13, 2006

Berlenga - a ilha do sonho


[...] " A Ilha já não é um poiso solitário, morada de gaivotas, de airos, de galhetas e pardelas. Todos os fantasmas acordam e andam aqui, sorridentes, longínquos, vaporosos como a própria luz que se escoa pelos rochedos teimosos; escorrem-se, transluzentes, pelo musgo viçoso, sobem misteriosamente as escarpas sombrias da restinga e acenam do alto, das ameias velhinhas do forte - ninho de heróis e de corsários -, que nos surge, vindo dos esconsos brumosos do passado, imponente e simples, acanhado e soberbo na sua traça guerreira que se resolveu abrir as portas de par em par e oferecer-se, na solicitude de um romântico repouso, aos visitantes pacíficos, ávidos de uns momentos de paz e de sossego...



As canhoneiras descansam. Pelos adarves já não se passeiam as sentinelas, atentas aos assaltos da pirataria. As casamatas são acolhedoras. Os terraços , abertos ao sol e ao horizonte...

Sob o Forte de S. João Baptista, uma pequenina jóia enche-nos a alma de sonho: é a Gruta Azul, pequena reentrância onde mal cabe a lancha que nos transporta, surpreendente recanto de paraíso onde o azul tem mais cor, onde tudo é azul: a água, a rocha, o céu que se reflecte, as mãos curiosas que se mergulha na toalha líquida em busca de um segredo que se não pode desvendar, porque impossível, porque pertença de um mundo só beleza diáfana...



A Gruta da Lagosteira é apertada e escura como breu. Mas a água brilha, pintalgando em fantasia o fundo assombroso, verde, azul e doirado, das areias, dos seixos e das algas. Penetramos, afoitos, curiosos, sedentos de descobrir o mistério profundo deste abrigo de fantasmas. O fim parece não surgir: é tudo escuro - por cima, à volta... só o fundo se exibe numa claridade difusa, arrastada pelas profundezas desde a entrada da caverna. E lá adiante há um ponto vermelho, um olho luminoso que nos espreita de qualquer abertura, que se esconde e atravessa o dorso rijo da Ilha, como veia sanguínea de luz, divina transparência a criar um reflexo de encantamento e magia. Nem os remos se ouvem, receosos de negar ao silêncio a sua eloquência.
Mas o belo ainda se não acabou neste paraíso de mar, perdido num fascínio verde-azul...

[...]
A Ilha, agora, abre-se, desvenda-se, rasga-se profundamente no ventre fértil como se se preparasse para a hora de um parto gigantesco, abrindo nas suas entranhas miraculadas o Túnel do Furado.

A lancha baila de manso sobre as águas suavemente onduladas, sulcando uma floresta aquática de surpreendente vegetação. As algas acastanhadas, escuras, executam bailados estranhos, dantescos, descobrindo a espaços a areia dourada do fundo pedregoso, e como que nos oferecendo os braços enormes, coleantes, monstruosos, para um outro bailado. É uma beleza que arrepia, de tão selvática e tão simples, de tão encantadora poesia e tão sortílegos contrastes. A rocha, junto às águas, baba-se, indolente; e, a meia altura do paredão deixa entrever fosforescências que atravessam a Ilha e penetram, por escaninhos estreitos e abissais, até chegarem, difusos, vaporosos, misturados de névoa...
[...]
Vamos ao encontro da face oeste da Ilha, mais batida de mar. Não entramos nas furnas e canais com o sossego que a orla oriental nos permite... Mas que beleza ainda! Que românticas e maravilhosas perspectivas!...


O Cavalete , outro pequeno ilhéu, continua o roteiro de beleza , embora a luz e a cor já sejam outras, embebidas de sol. E sentimo-nos impelidos a continuar, como se um íman misterioso nos atraísse poderosamente.



[...] tomamos o caminho (...) rumando o canal estreito e ondulado, aparentemente eriçado de perigos, da Greta de Inês. De um lado, o Felonte, dorso de ilha a afogar-se na garganta de mar; de outro, o Ilhéu da Inês, atrevido, minúsculo, a saber a aventura.
Ali, ao fundo, uma pequena baía e um buraco negro, como boca aberta na rocha: é a gruta de Flandres. Há qualquer coisa de fantástico, de grande e impossível de descrever. Tentamos falar e os lábios , entreabertos de maravilha, não reagem, e caminhamos silenciosamente , absortos no claro-escuro do ambiente de sortilégio, no mágico silêncio apenas quebrado pelo chapinhar brando dos remos.



A noite cai, sossegada, num beijo prateado de nostalgia. A lua banha as encostas, recortando sombras e fantasmas pelas arribas. O farol risca, a espaços certos, o horizonte , como aviso aos mareantes. As pardelas rasgam o silêncio, quebrado apenas pelo açoitar sereno das ondas, com os seus pios solitários e supersticiosos.

E para além da escuridão, apenas entrecortada pela luz branca do farol, que teima em rodar iluminando o horizonte, para além da saudade que nos arrasa já, bem fundo, a alma enamorada, adivinhamos os contornos vagos da Ilha, das grutas recortadas em arabescos irreais, das alga irrequietas nas águas translúcidas.

Adivinhamos, pressentimos, palpamos misteriosamente toda a beleza, todo o sortilégio da Berlenga - a ilha do sonho..."


Notas:
1) Textos de Mariano Calado, extraídos do livro "Peniche na História e na Lenda", 4ª edição, 1991
2) Fotografias a preto e branco tiradas pelo meu pai, nos anos cinquenta

segunda-feira, janeiro 09, 2006

Caminho

Sisley (Chemin)

Ah este caminhoque já ninguém percorre
a não ser o crepúsculo (1)


Na margem direita, bem junto ao rio, há um velho caminho semi-escondido entre duas alas de arbustos que se curvam até formar um túnel que acompanha, para montante, o curso de águas profundas e calmas.

Se meteres por esse trilho e, durante o percurso, fores sorvendo os cheiros, as cores, os sons que esta vereda te oferece, nem darás pelo muito que andaste e será em êxtase que te vais encontrar no sopé da montanha multicor. Verás muitas oliveiras e choupos e, na encosta, algumas casas (poucas) todas com telhas vermelho-vivo. Da chaminé de uma das casas verás sair espirais de fumo que vão dissolver-se mais acima, entre o cume do monte e as nuvens que o cobrem.

Então saberás que alcançaste a casa da montanha e serás bem recebido, com todos os presentes a que um caminheiro pode aspirar. Lá dentro, sentado à lareira, com o olhar perdido no bailado das labaredas e a tranquilidade de quem poderia esperar a vida toda, um amigo sente que chegaste.


As mãos no lume
... e na parede
a sombra do meu amigo
(1)


(1) Matsuo Bashô in "O Gosto Solitário do Orvalho"

quarta-feira, janeiro 04, 2006

O acto da escrita

[...] “C’est curieux un écrivain. C’est une contradiction et aussi un non-sens. Écrire c’est aussi ne pas parler. C’est se taire. C’est hurler sans bruit. C’est reposant un écrivain, souvent, ça écoute beaucoup. Ça ne parle pas beaucoup parce que c’est impossible de parler à quelq’un d’un livre qu’on a ecrit et surtout d’un livre qu’on est en train d’écrire. C’est impossible. C’est à l’opposé du cinema, à l’opposé du theatre, et autres spectacles. C’est à l’opposé de toutes les lectures. C’est le plus difficile de tout. C’est le pire. Parce qu’un livre c’est l’inconnu, c’est la nuit, c’est clos, c’est ça. C’est le livre qui avance, qui grandit, qui avance dans les directions qu’on croyait avoir explorées, qui avance vers sa propre destinée et celle de son auteur, alors anéanti par sa publication: sa séparation d’avec lui, le livre revê, comme l’enfant dernier-né, toujours le plus aimé”. […]
[…] Il y aura une écriture du non-écrit. Un jour ça arrivera. Une écriture brève, sans grammaire, une écriture de mots seuls. Des mots sans grammaire de soutien. Égarés. Là, écrits. Et quittés aussitôt. [...]
Marguerite Duras, in “Écrire”

Gosto das palavras. Gosto das palavras escritas. Gosto de um texto escrito com palavras. Primeiro, as letras, depois, as palavras formadas pelas letras e, por último, o texto acabado, construído com palavras, que começaram por não ser mais do que objectos dançando, de forma aleatória, na mente labiríntica do escritor.
Também gosto das não-palavras, que são formadas por não-letras e constroem um não-texto da autoria de um não-escritor. Por vezes não-escrevo, até, romances assim. Não têm para mim o encanto de um romance escrito mas, nem por isso, deixam de ter o seu lugar nesta urbe louca que é a minha cabeça.
No seu magnífico último romance, escrito em forma epistolar, "Si sta Facendo Sempre piú Tarde", Antonio Tabucchi conta, numa das suas cartas, a história de um contador de histórias que não as escreve, mas que as mantem vivas, palavra por palavra, na sua memória que as imaginou. Diz ele, a certa altura, na carta "Livros Nunca Escritos, Viagens Nunca Feitas", dirigida ao seu amor: [...]" Era um romance um pouco romântico, talvez até demasiado romântico, não achas?, mas não foi por isso que eu não o escrevi: na realidade este romance teria sido a obra-prima de todos os meus romances não escritos, a obra-mestra do silêncio que eu tinha escolhido para a vida toda. Uma pequena obra-prima, entenda-se, nada daqueles enormes romances monumentais que fazem a alegria dos editores e que nem remotamente alguma vez pensei não escrever: resumindo, uma coisa pequena que não excedesse os dez capítulos em cem páginas: uma medida de ouro. Quatro meses exactos foi quanto levei para não escrever este romance, de Maio a Agosto; (...) E depois fui ter contigo precisamente nessa noite, como te deves recordar, tinha passado esses quatro meses naquela casa de campo, com um calor húmido que sufoca a garganta e ensopa os ossos, tu telefonavas-me todos os dias e perguntavas-me: porque é que não apareces?; já te disse, repetia-te, pus-me a não escrever um romance complicado que me está a fazer suar as estopinhas, mais ainda do que o calor infernal desta terra, mas garanto-te que vai ser um romance bonito, ou estranho, talvez, mais estranho do que eu, uma criatura esquisita, uma espécie de coleóptero desconhecido fossilizado numa pedra, assim que chegar eu conto." [...]
É assim a escrita. O acto de, ou não, escrever. Como o é o de toda a criação artística: um mistério milenar que continua a deixar embasbacados os que com esse fenómeno se preocupam. Mas a verdade é que se preocupam deveras. E escrevem sobre isso. E debatem. E voltam a preocupar-se e a procurar explicações, justificações, razões, agarram-se a qualquer coisa que os possa levar ao conhecimento (e domínio?) do que está subjacente a este acontecimento inegável: - o acto de criar. Talvez para que, uma vez descoberto o segredo, possam afastar as permanentes angústias da incapacidade (ainda que temporária) de criar?

A Casa da Montanha

Pissaro (redroofs)


Aqui, nesta encosta da montanha, posso encontrar a casa de que nos fala o poeta Vasco Pontes, no seu blog dovoar. O meu texto ficou (para sempre?) adiado quando me deparei com o dele. O sentimento que o levou a escrever, e a mim a pretender fazê-lo é, tanto quanto me parece, o mesmo: a necessidade de ter um espaço íntimo e único para o acto de criar e, em simultâneo, a de que esse local escondido não seja um lugar solitário, mas antes o sítio onde podemos encontrar outros que precisam de espaços como o nosso para o mesmo fim e que fruem, com prazer, a partilha.


Nota: só após publicação verifiquei que a data do meu post é anterior à do mencionado poema do Vasco. A explicação é simples, e possivelmente óbvia: a imagem tinha sido colocada em draft no dia 4 de Janeiro mas foi no dia 5 que decidi escrever sobre ela. Nesse momento aconteceu o que contei acima...



domingo, janeiro 01, 2006

Votos de Bom Ano Novo e Pausa para Publicidade

Com votos de um excelente 2006 para os visitantes deste singelo e despretensioso blog, aproveito para fazer uma pequena pausa para publicidade. Aqui vai:

Se é um produtor ou realizador de cinema com talento e ambição mas não encontra um argumento à altura do seu filme, pode parar de procurar, respirar fundo, e descansar.
Nem mais: a autora deste blog terminou, no último dia do ano que se foi, um guião para uma longa-metragem de qualidade, modéstia à parte. Se, até lá, este anúncio não for lido pelo tal produtor ou realizador de mão-cheia, (que, quem sabe, vagueia erraticamente pela blogoesfera à procura de um argumentista que lhe encha as medidas?!), o dito guião (pronto a ser usado) irá, quase inevitavelmente, parar às mãos de um júri de selecção do ICAM, no próximo concurso para escrita de argumentos.

Não perca esta oportunidade!... Antecipe-se!!!


Pois então, caros amigos, que o Novo Ano seja de "mão-cheia" e vos "encha as medidas".

segunda-feira, dezembro 26, 2005

Serenidade ou Melancolia?



Júlia Calçada (s/título)


Há estados melancólicos que desaguam numa profunda serenidade. Acabo sempre por me sentir bem, como se em repouso numa harmonia triste, nesses sítios melancólicos onde me refugio serenamente.

Outras vezes, vou em busca de serenidade e mergulho em melancolia. Fico, então, num limbo tranquilo e sombrio, alheia ao tempo que passa...


melancolia e serenidade: estados de alma que, em mim, se confundem e interpenetram.


Não é que me importe, mas será que não posso ir ao encontro de um sem me envolver com o outro?



quarta-feira, dezembro 21, 2005

Ilha das Pombas

A noite das Tempestades


Turner (Snowstorm)
Chegaste na noite das tempestades.

Lá fora, o céu desabava e transformava as ruas em rios.
O vento, enraivecido, executava um bailado,
a um tempo violento...e doce.

Dentro de mim, outra tempestade.
A garganta seca. A tremura do lábio. As mãos geladas e húmidas. As faces ruborizadas.
O vento da emoção, enraivecido, executava um bailado,
a um tempo violento... e doce.

De repente, veio a bonança.
Fora e dentro de mim.

Desejei que não existisse mais mundo do que aquele:
dois
desconhecidos,
estranhos,
conhecidos,
íntimos,
quase amigos,
quase amantes,
a esquecerem as tempestades,
de fora e de dentro,
nos olhos um do outro,
nos sorrisos trocados à socapa,
nas vozes cúmplices do Nuno, da Diana e do Caetano,
nas mãos que se encontravam,
apertavam
e acariciavam sonhos...

Partiste na noite das tempestades.
No vazio que a seguir ficou...
Quando das minhas mãos
desapareceu
O perfume das tuas...

terça-feira, dezembro 20, 2005

Dia de Sol no Inverno


Saravá, generoso sol de inverno!
Não aqueces o meu corpo entorpecido, mas aconchegas-me, e trazes serenidade a esta alma inquieta.

Gente Crescida


Crescemos.
Estamos agora muito civilizados.
Sentamo-nos à varanda,
Aquela que dá para o parque
E bebemos chávenas de chá.
Desse chá
Com que nos embriagamos
Todas as tardes.
Inventamos milagres
E desafiamos o nosso lado divino
No quarto de um hotel. À beira-mar.
Crescemos muito.
A saudade é maior agora.
E a memória.

segunda-feira, dezembro 19, 2005

Midsummer


(From those days when I was much younger and used to be called Marie)
Midsummer
is not the only reason
I’m going home
(Rod Mckuen)



Fenêtre (Bonnard)

I found myself looking at the shadow drawn on the sand. My own shadow.
A few kids were playing in the ponds the high tide had left.
John’s gone. John’s gone and probably will never come back.
Why does it happen? Why is always someone leaving someone behind?
A soft breeze threw some fine drops of water into my face.
If it hadn’t been for that brunette with long black hair and dark deep eyes he would be with me now.
He would be caressing me and making me feel the luckiest human being on earth. John was so tender, so lovely and seemed to be so sincere. Why then?
Why should some stupid brunette show up and take him away from me?
Midsummer
Is not the only reason
I'm going home
Mammy and Daddy miss me for sure. I didn’t read the last letter mammy wrote.
John wouldn’t let me. He was kissing too hard and I dropped the sheet of paper.
It must have slipped underneath the bed. I never thought about it again. What a tremendous fault to forget completely about one’s mother’s letter.
I definitely must go and see them. They’re always so generous to me, so full of understanding and all. I won’t need to tell them exactly what happened. They will know, somehow, that some George, or John or Michael has deserted me. I must go back to my apartment and look for mammy’s letter. I’m longing to know what she says about her and daddy. Suppose they’re ill, or worse…
Did he leave me because my hair is short and fair and my eyes are not black and deep? Maybe he did. Or maybe not. After all, looks aren’t everything and it ends up by being irrelevant when you’re young and handsome and it is Midsummer. Midsummer is meant for people to make changes. To have new loves, new experiences.
( When we made love I felt like when I’m swimming: frightened, lost, but awfully, tremendously happy. All his.
Thought he was all mine, too…)

sexta-feira, dezembro 16, 2005

Tempus fugit

(memorial em forma de carta dirigida a um amor feliz)

“Que o tempo, carrasco implacável, saiba ser, simultaneamente, guardião das memórias de amores felizes.
...O resto é o tempo a fugir...”

Foi assim, com esta frase carregada de mágoa e angústia, que me despedi.
Imagino que, para quem parte, seja difícil entender o que deixou no espírito de quem fica e que, por vezes, até se exaspere com as demonstrações de sofrimento, de perda, de saudade por parte do outro...
Ainda assim, consciente de poder estar a aborrecer-te, não consigo deixar de te dizer o que me dói a tua ausência, o que daria para te ter de volta, com um amor feliz, como o das memórias que preservo.
Não vou coibir-me de te dizer o quanto choro, todos os dias, amargamente, porque não te tenho mais comigo e porque não há esperança de, alguma vez, voltar a ter. Sinto uma tristeza sem precedentes. A falta da tua presença dói-me muito, desde que acordo até que adormeço (e até a dormir) mas, principalmente, quando deambulo pela casa e tudo me fala de ti, de nós.
(No liceu, em Psicologia, lembro-me de ter registado como verdade incontestável a afirmação de um “sábio”, de quem nem sequer retive o nome, porque isso era de somenos importância. O que me interessou, a ponto de o interiorizar e ainda hoje recordar, foi a lei absoluta que ele, algum dia, ditou: “só se esquece o que se substitui”. Pois eu agora digo: "nunca se esquece, e não há substituições." Em termos de afectos, é possível amar outras pessoas, que podem até vir a ocupar um lugar semelhante nas nossas vidas, mas nunca substituirão as que amámos. Neste caso, sou peremptória: "ninguém é substituível"!)
Coincidentemente, ou não, li esta semana um artigo num jornal, que falava de como o sofrimento por amor tinha passado de moda, tendo visto o seu lugar destronado, nesta sociedade racional e materialista, por um outro sentimento que procura ser definido através de expressões como “depressão” provocada pelo “fim de uma relação”.
Tudo isto porque as pessoas passaram a ter vergonha de assumir a sua fragilidade perante a dor causada pela perda. Que falta de "tomates" a de quem pensa assim!... Não é porra nenhuma de depressão associada ao fim da relação, é mesmo desgosto de amor, como os de Camilo ou de Florbela Espanca!

O mais doloroso de tudo, amor da minha vida, é ter acreditado que era possível viver assim, para sempre, um grande amor na vida, em que se dá e se recebe tudo (os célebres 100% em que me ensinaste a acreditar) e depois, de um dia para o outro, acontecem coisas mais (ou menos) importantes na nossa pobre vidinha, como uma dificuldade profissional, uma verdadeira preocupação com os filhos, ou uma alegria, e não há com quem partilhar - só porque não faz qualquer sentido partilhá-lo com mais ninguém - e somos obrigados a aceitar o que sempre soubemos: nada é eterno!
Uma confidência tonta: quando, há dias, soube que ia ser promovida senti-me, momentaneamente, tão contente, que o meu coração pulsou mais forte, a ponto de quase o ouvir. Isto durou os segundos em que eu, maquinalmente, peguei no telefone para comentar contigo (com quem mais poderia ser?) a novidade. Ainda o número não tinha acabado de ser marcado quando caí na realidade e desliguei. Chorei. De uma infinita tristeza. Sozinha, no meu gabinete. Por não poder celebrar contigo uma coisa tão simples e tão sem importância, mas que teria sido tão bonita se tu ainda estivesses ao meu lado, do outro lado da linha!!!
Perdoa-me, e tenta entender, se te for possível neste momento, que não se trata de exagero dramático. São sentimentos de desespero. É mesmo dor. Quando se ama com esta força e entrega total, como eu descobri que te amo, não é fácil fazer o luto. Sofre-se a sério. Sofre-se muito. E demora a passar...sejam quais forem as aparências, conseguidas através daquela força interior que nos ajuda a enfrentar os outros de cabeça levantada e olhos secos (só se chora na casa-de-banho, não é?)
Gostaria de te fazer um pedido: guarda contigo, se puderes, este escrito para, (quem sabe?) num dia de sol, o releres e, por milagre, aflorarem à tua memória, para recordar com carinho, as lembranças de um amor feliz.


Salão


Durava há muito tempo aquele jogo. Tratava-se, de facto, de um jogo de sedução, que ambos conheciam e do qual dominavam as regras.

Ele dizia: ”Fala comigo. Diz-me tudo o que quiseres. Murmura-me aquelas coisas secretas. Faz de mim um confessor, como se eu fosse um padre, um psicanalista, um amigo”.

Ela dizia: “Falar contigo é bom, mas torna-me insaciável. Quero sempre falar mais. Quero falar contigo, sem barreiras, sem restrições”.

Às vezes telefonavam-se, só para dizer que queriam dizer, e ficavam assim, doídos com desejo. Desejo de falar, só.

Um dia ela disse: “É completamente louca esta metalinguagem que usamos. Porque não falamos, em vez de, interminavelmente, falarmos de falar?”

Ele perguntou: “De que precisamos?”

“De um salão”, respondeu ela. “Um salão vazio, completamente vazio, onde possamos tirar as roupas, arranjar um canto seguro e confortável e deixar que as palavras, finalmente, se soltem”.

Passou algum tempo. Um dia ele disse-lhe: ”Temos o salão”.

Foram. Falaram. Um pouco.

Tiraram as roupas. Falaram um pouco mais.

Depois deixaram de falar. Começaram a descobrir os corpos, sem roupa. A textura da pele, os beijos molhados e o cheiro dos corpos substituíram as palavras.

Encontraram-se outras vezes, no salão. De cada vez o apelo dos corpos ocupava mais o espaço das palavras, e dos silêncios, até parecer que só isso existia: o prazer físico, a busca do êxtase orgástico como objectivo último do encontro.

De vez em quando encontravam-se noutros locais. Quase sempre em circunstâncias propiciadas externamente. Nesses momentos, o encontro era penoso, amargurado. Ela ficava com os olhos rasos de água, a olhá-lo e, quando conseguia, balbuciava monossílabos sem nexo.

Ele olhava-a intensamente. Sorria. Por vezes beijava-a, levemente, e ela achava os lábios dele frios. Como seriam os de um cadáver.

Numa tarde de chuva ela telefonou. Disse-lhe: “Perdemo-nos.”

Ele protestou. Ela insistiu: ”Perdemo-nos quando deixámos que o encontro dos corpos fosse o mais importante. Foi um terrível equívoco. Fizemos tudo errado e agora tenho saudades de ti, mas é tarde. Já não sei quem tu eras, antes dos corpos.”

Ele sugeriu que se encontrassem para falar do assunto. No salão. Ela recusou. Disse: “No salão nunca mais. Terá que ser num sítio público, com gente à volta”.

No dia combinado, ela chegou ao restaurante mais cedo.

Sentou-se, olhando o Jardim de Inverno através da janela e sentindo uma pesada nostalgia. Podia chorar. Sofria pela perda de um amor nunca verbalizado. Parecia-lhe inaceitável que tivesse sido a ausência da palavra, afinal o princípio de tudo, que tivesse comprometido, amputado, talvez destruído para sempre a beleza do sentimento que os ligara.

Entregue a estes pensamentos, sentiu uma presença a seu lado. A mão que, timidamente, lhe aflorava os cabelos e a voz doce e suave que sussurrava “Olá, Princesa” devolveram-lhe instantaneamente a presença de espírito. “Que bom ver-te”, disse, exibindo um sorriso determinado. “Hoje vamos falar”.

Tabucchi

Pensou que queria ir ao Instituto Italiano de Cultura. Falar com o Sr. Tabucchi, é claro. Vê-lo. Perguntar por ele, para ver se ele existia e, existindo, se era mesmo uma pessoa.
Imaginou, com detalhe, o percurso. Olhou demoradamente a fachada do edifício e, quando entrou, notou que as pernas lhe tremiam um pouco.
Dirigiu-se à Biblioteca, por falta de à-vontade para enfrentar o objectivo da visita. Aproveitou para dar uma olhadela, procurando, inevitavelmente, a prateleira do Tabucchi. Estavam lá quase todos. Em italiano, bem se vê.
Retirou um, não importa qual, pode ter sido um dos primeiros que lera “Donna di Porto Pim” ou “I Volatili del Beato Angelico”.
Folheou-o e, ao fazê-lo, deu-se conta de que uma onda de emoção a percorria.
Sentiu uma intensa afinidade erótica com as palavras que, pela primeira vez, lhe apareciam como originalmente escritas: nunca estivera tão próxima de Tabucchi e essa quase intimidade apresentava-se como comovente e excitante.
“Vou procurar o António”, pensou. E imediatamente estranhou aquele tratamento pelo primeiro nome, que a fazia estremecer como se se encontrasse na presença do próprio.
Saíu da Biblioteca e subiu a escadaria que levava aos Gabinetes da Direcção do Instituto.
Ao longo de um corredor, várias portas fechadas, com tabuletas que ostentavam, invariavelmente, nomes italianos.
“O do Presidente deve ser o último”, concluíu depois de ter passado uns seis gabinetes.
Entrou na última porta, curiosamente aberta e sem tabuleta.
Deparou com uma senhora dos seus cinquenta anos, de cabelos grisalhos apanhados em carrapito que, literalmente, “batia” em teclas de uma antiquada máquina de escrever eléctrica.
“Boa tarde”, disse, possuída de um intenso nervosismo. “Queria falar com o Sr. Tabucchi”.
Aqui, a imaginação deteve-se, abruptamente. Por mais que tentasse, não conseguia passar do olhar impenetrável da senhora do carrapito grisalho para o hipotético encontro com um dos autores que muito amava.

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Estava um dia cinzento, com uma chuvinha aborrecida e desconfortante. Ainda assim, saíu sem levar guarda-chuva.
Esperou que passasse um táxi vazio e lá foi, rumo à Rua do Salitre.
Quando desceu do carro e olhou o edifício cor-de-rosa sentiu que, no seu devaneio, não tinha andado muito longe do que via.
Entrou e dirigiu-se à Biblioteca. Era uma sala decepcionantemente pequena, com estantes com portas de vidro fechadas à chave.
Percorreu as prateleiras até encontrar os livros do Tabucchi.
Eram escassos e o vidro interpunha-se entre a sua mão e o objecto desejado.
“Dá-me ganas de ir embora” disse, em voz alta.
“Em que posso ajudá-la?” perguntou uma rapariga franzina que acabara de entrar na Biblioteca e teria, certamente, ouvido o seu desabafo.
“Queria saber como é que faço para ter acesso aos livros”, murmurou, sentindo um incómodo rubor nas faces.
“É aluna?”
“Não”.
“Então terá que se fazer sócia dos “Amigos do Instituto”. Com isso, receberá convites para os eventos culturais e poderá requisitar livros de ficção”.
Havia uma secura e um desembaraço no tom da rapariga que intimidavam, mais do que convidavam.
Enquanto preenchia a papelada, ganhou coragem e perguntou.
“Quem é o Vosso Director?”
“Agora não temos.” A rapariga encolheu os ombros e prosseguiu: “Quer dizer, temos um interino, mas estamos à espera que nomeiem o novo.”
“A medo, avançou: “O Sr. Tabucchi já cá não está?”
“Não, depois dele já tivemos três.”
Feitas as assinaturas e as contas, voltou à Biblioteca.
Que desilusão! E ainda por cima teria que pedir àquela embirrante miúda franzina que fizesse o favor de abrir as portas de vidro da estante para tirar “Il filo del’orizonte”. A esta hora, a rapariga já teria decerto imaginado que ela nutria uma secreta paixão por Tabucchi e suportar o seu olhar irónico seria confrangedor.
Antes de abandonar o Instituto ainda subiu a escada, que levava a uma sala de leitura e às salas de aula. Ao descer, parou a meio da escada, onde dois espelhos exactamente paralelos mostravam o infinito.
“Que se dane!” pensou. “Um dia destes vou a Itália e compro todos os livros dele em italiano. Depois, vou procurá-lo na Universidade. Para ver se existe e, existindo, se é mesmo uma pessoa.”
Começou a imaginar, com detalhe, o percurso...