
...no jardim para o qual dava a janela do meu quarto de criança havia uma trepadeira que, em cada primavera, me deliciava com os seus perfumados cachos de rosas - sem espinhos.
segunda-feira, fevereiro 06, 2006
domingo, fevereiro 05, 2006
Também este Crepúsculo...

Também este crepúsculo nós perdemos.
Ninguém nos viu hoje à tarde de mãos dadas
enquanto a noite azul caía sobre o mundo.
Olhei da minha janela
a festa do poente nas encostas ao longe.
Às vezes como uma moeda
escondia-se um pedaço de sol nas minhas mãos.
Eu recordava-te com a alma apertada
por essa tristeza que tu me conheces.
Onde estavas então?
Entre que gente?
Dizendo que palavras?
Porque vem até mim todo o amor de repente
quando me sinto triste, e te sinto tão longe?
Caíu o livro em que sempre pegamos ao crepúsculo
e como um cão ferido rodou a minha capa aos pés.
Sempre, sempre te afastas pela tarde
para onde o crepúsculo corre apagando estátuas.
Pablo Neruda
sábado, fevereiro 04, 2006
Apontamento (II)
quarta-feira, fevereiro 01, 2006
Manias - As Correntes na Blogoesfera - Uma excepção, mesmo muito excepcional
Na sequência do repto lançado por En Defensa de Occidente a O Misantropo Enjaulado, embora na subscrição integral das razões apontadas pelo João Villalobos, no Prazeres Minúsculos, passo a listar cinco (das muitas) manias que tenho:
- Nunca entro em correntes (esta começa a ser banal, de tão comum neste pequeno universo... mas porque é autêntica, e das convictas, não deve por isso ser negligenciada)
- Evito ser supersticiosa, porque dizem que dá azar... -;)
- Nunca fecho a porta de casa à chave (quando estou dentro)
- Inversamente, não consigo dormir se a porta do quarto estiver aberta (ou simplesmente encostada)
- Nunca leio na casa-de-banho e detesto quando os amigos me pedem um livro emprestado, ou "algo para ler", com esse objectivo
Agora os cinco blogs desafiados:
- A morgadinha
- Bebedeiras de Jazz
- Distant Mindbreath
- Dovoar
- Poesia Viva
E pronto... haja quem dê continuidade!
segunda-feira, janeiro 30, 2006
Escadas

Escadas de um passado remoto, degraus que já não consegues subir...

Escadas que são caminhos na montanha, degraus que têm sabor de aventura...

Escadas que te levam a uma casa, degraus que respiram tranquilidade...

Escadas que tens dentro de casa, escadas que sobes e desces, sem consciência delas, como se não fossem feitas de degraus...

Escadas que podem levar-te mar dentro, degraus estranhamente horizontais que, por vezes, ousas experimentar...

Escadas antigas, degraus que sobes a correr, na incessante procura da memória de outros...

Escadas que vão sempre dar a outras escadas, incontáveis degraus que sobes com ansiedade, para chegar cada vez mais alto...

Escadas que, finda a loucura da subida, acabam no nada..., os degraus que, acreditas, te levam ao céu.
The Doors of Perception - Heaven and Hell
[...]If consciousness survives bodily death, it survives, presumably, on every mental level - on the level of mystic experience, on the level of blissful visionary experience, on the level of infernal visionary experience, and on the level of everyday individual existence." [...]
domingo, janeiro 29, 2006
Apontamento (I)
Até que tropece e desapareça
na neve
segunda-feira, janeiro 23, 2006
Bosque dos Desejos
embrenhar-se a gente no misterioso bosque,
povoado de sonhos e desejos indizíveis;
perder-se nos imaginários ziguezagues do labiríntico arvoredo
e vaguear, sem destino nem rota,
numa busca incessante de aventura
ao encontro de míticos dragões;
verdes e pequenos duendes, ocultos na folhagem
e fadas: cintilantes, sibilantes, improváveis.
Amor sem Tréguas

[...]"Il n'y a pas de vacances à l'amour, dit-il, çá n'existe pas.
L'amour, il faut le vivre complétemment avec son ennui et tout, il n'y a pas de vacances à ça.
Il parlait sans la regarder, face au fleuve.
Et c'est ça l'amour. S'y soustraire, on ne peut pas."[...]
Marguerite Duras, in "Les Petits Chevaux de Tarquinia"
sexta-feira, janeiro 20, 2006
Os Paços de Dona Leonor

Juliet's Balcony
"Two households, both alike in dignity,
In fair Verona, where we lay our scene,
From ancient grudge break to new mutiny,
Where civil blood makes civil hands unclean.
From forth the fatal loins of these two foes
A pair of star-cross´d lovers take their life;
whose misadventur´d piteous overthrouws
Doth with their death bury, their parent's strife.
[...]
"The sun for sorrow will not show his head.
Go hence, to have more talk of these sad things.
Some shall be pardon'd and some punished.
For never was a story of more woe
Than this of Juliet and her Romeo."
from "Romeo and Juliet", by William Shakespeare
Como é sobejamente sabido, foi Verona, e não Peniche, que master Shakespeare escolheu para palco desta obra.
Poderiam ter sido Leonor e Rodrigo o par imortalizado na literatura, pelas semelhanças que a lenda de Dona Leonor, presença viva no imaginário das gentes de Peniche, apresenta relativamente à tragédia do mestre. Mariano Calado, no seu livro "Peniche na História e na Lenda", narra esta história de amor trágico conforme passo a transcrever:
"Conta-se que, no primeiro quartel do Séc. XVI, existiam em Peniche dois fidalgos que, reciprocamente, se odiavam: ódios velhos, nascidos porventura nos longos e temerosos cruzeiros das descobertas, de onde haviam trazido histórias fantásticas para contar e riquezas de sobejo para desbravar o torrão natal. E nada no mundo os fazia aproximar e esquecer a sua malquerença.
Quis Deus, todavia, que Rodrigo, filho de um deles, se enamorasse loucamente de Leonor, a bonita e prendada filha do outro dos fidalgos desavindos.
Sabedores do ódio profundo que separava seus pais, não ousavam os jovens enamorados revelar o doce afecto que os unia, não podendo, porém, evitar que transbordasse o alvoroço de amor que os aproximava. Descobertos então os sentimentos de ambos, e sem que nada houvesse a demovê-lo da sua decisão, resolveu o pai de Rodrigo degredar seu filho para a Berlenga, fazendo-o ingressar, como noviço, no Mosteiro da Misericórdia, de frades jerónimos, ali existente, a fim de que ele esquecesse tão indesejável e impossível união.
Obediente a seu pai, partiu Rodrigo para a Berlenga, com a alma cheia de revolta e de ansiedade.
Mas o amor é fértil em imaginação e, com a ajuda de Gil, um pescador seu amigo, fazia-se o jovem transportar num pequeno batel, todas as noites, até uma gruta situada nas penedias da costa meridional de Peniche, onde Leonor ansiosamente o aguardava assinalando a sua presença com a luz de uma pequena lanterna.
Por muitas e longas noites se repetiram os encontros dos dois jovens apaixonados. Mas, certa vez, descobertas as surtidas de Leonor, viu-se a donzela perseguida pelos servos de seu pai e, na precipitação da fuga, saltando de rochedo em rochedo, , resvalou sobre os seixos da encosta. E, na negrura da noite, tombou um grito de morte do alto da penedia, afogando-se na escuridão do mar que, em baixo, ciciava segredos e saudades.
Entretanto, para mais uma noite de amoroso convívio, chegou Rodrigo à vista da gruta. Não enxergando o sinal do costume, começou o jovem de sentir a alma repassada de surpresa e receio. Subiu a encosta, apressado, chamando pela bem-amada. Só o eco e o marulho das ondas lhe responderam. Tentou penetrar na noite, temendo alguma desgraça. Nada. Até que se lhe retalhou o coração de angústia ao ver a boiar em baixo, inútil, o manto branco da sua enamorada. Um grito de dor cresceu da sua alma ferida, enchendo de tragédia os recônditos mais negros dos rochedos. E, na esperança de salvar a sua amada, lançou-se Rodrigo do alto das arribas ao encontro da noiva que perdera...
Dias depois, nas areias do carreiro vizinho, alguém encontrou o corpo de Leonor, embalado docemente pelas ondas, os lábios iluminados por um sorriso triste e imaculado, constando que, piedosamente, o fizeram depositar no adro da capela de Santa Ana.
Quanto ao corpo do desventurado moço, diz também a tradição que foi encontrado na costa do norte, junto a uma rocha a que se deu o nome de Laje de Frei Rodrigo.
E ainda hoje, quem souber entender os murmúrios do mar e passear os olhos pela beleza que se distende por toda a costa sul de Peniche, pressentirá a doçura inefável de um mistério cheio de encantamento e poesia: talhada romanticamente nas arribas, a gruta que foi teatro de tão trágico amor e a que o povo, religiosamente, chama Paços de Dona Leonor, lá está, altiva e serena, a aguardar, numa renovada esperança de juventude, o regresso feliz dos dois enamorados..."
segunda-feira, janeiro 16, 2006
Salvação

Uma fina película de gelo
cobre o manto de água que teima em correr
pela montanha,
seguindo o seu curso.
Folhas caídas no riacho...
prisioneiras do gelo
até que o sol as liberte.
Aconchego a gola do casaco ao peito.
Puxo o capuz para evitar que o sopro de ar frio me arrefeça o rosto.
Sento-me numa pedra
e entro em contemplação.
Penso em ti.
Na tua presença mágica:
o plácido lago azul dos teus olhos;
a música doce e quente da tua voz;
o calor do teu abraço forte;
o fogo de um beijo teu.

já mais não sou que uma folha
à espera da tua chegada,
secretamente inquieta,
alvoroçada,
ansiosapara voltar a ser livre.







