terça-feira, fevereiro 07, 2006

Uma baleia vê os homens


Sempre tão atarefados, e com longas barbatanas que agitam com frequência. E como são pouco redondos, sem a majestosidade das formas acabadas e suficientes, mas com uma pequena cabeça móvel onde parece concentrar-se toda a sua estranha vida. Chegam deslizando sobre o mar mas não nadam, quase como se fossem pássaros, e infligem a morte com fragilidade e graciosa ferocidade. Permanecem longo tempo em silêncio, mas depois entre eles gritam com fúria repentina, com um amontoado de sons que quase não varia e aos quais falta a perfeição dos nossos sons essenciais: chamamento, amor, pranto de luto. E como deve ser penoso o seu amar-se: e áspero, quase brusco, imediato, sem uma macia capa de gordura, favorecido pela sua natureza filiforme que não prevê a heróica dificuldade da união nem os magníficos e ternos esforços para a realizar.


Não gostam da água e têm medo dela, e não se percebe porque a frequentam. Também eles andam em bandos mas não levam fêmeas e adivinha-se que elas estão algures, mas são sempre invisíveis. Às vezes cantam, mas só para si, e o seu canto não é um chamamento mas uma forma de lamento angustiado. Cansam-se depressa, e quando cai a noite estendem-se sobre as pequenas ilhas que os transportam e talvez adormeçam ou olhem para a lua. Vão-se embora deslizando em silêncio e percebe-se que são tristes.

Antonio Tabucchi

domingo, fevereiro 05, 2006

Moonover



Na escuridão do mar
brancos
gritos de gaivotas

Matsuo Bashô

Também este Crepúsculo...


Também este crepúsculo nós perdemos.
Ninguém nos viu hoje à tarde de mãos dadas
enquanto a noite azul caía sobre o mundo.

Olhei da minha janela
a festa do poente nas encostas ao longe.

Às vezes como uma moeda
escondia-se um pedaço de sol nas minhas mãos.

Eu recordava-te com a alma apertada
por essa tristeza que tu me conheces.

Onde estavas então?
Entre que gente?
Dizendo que palavras?
Porque vem até mim todo o amor de repente
quando me sinto triste, e te sinto tão longe?

Caíu o livro em que sempre pegamos ao crepúsculo
e como um cão ferido rodou a minha capa aos pés.

Sempre, sempre te afastas pela tarde
para onde o crepúsculo corre apagando estátuas.


Pablo Neruda

sábado, fevereiro 04, 2006

quarta-feira, fevereiro 01, 2006

Manias - As Correntes na Blogoesfera - Uma excepção, mesmo muito excepcional



Na sequência do repto lançado por En Defensa de Occidente a O Misantropo Enjaulado, embora na subscrição integral das razões apontadas pelo João Villalobos, no Prazeres Minúsculos, passo a listar cinco (das muitas) manias que tenho:


- Nunca entro em correntes (esta começa a ser banal, de tão comum neste pequeno universo... mas porque é autêntica, e das convictas, não deve por isso ser negligenciada)

- Evito ser supersticiosa, porque dizem que dá azar... -;)

- Nunca fecho a porta de casa à chave (quando estou dentro)

- Inversamente, não consigo dormir se a porta do quarto estiver aberta (ou simplesmente encostada)

- Nunca leio na casa-de-banho e detesto quando os amigos me pedem um livro emprestado, ou "algo para ler", com esse objectivo

Agora os cinco blogs desafiados:

- A morgadinha
- Bebedeiras de Jazz
- Distant Mindbreath
- Dovoar
- Poesia Viva

E pronto... haja quem dê continuidade!

segunda-feira, janeiro 30, 2006

Escadas


Escadas de um passado remoto, degraus que já não consegues subir...


Escadas que são caminhos na montanha, degraus que têm sabor de aventura...





Escadas que te levam a uma casa, degraus que respiram tranquilidade...






Escadas que tens dentro de casa, escadas que sobes e desces, sem consciência delas, como se não fossem feitas de degraus...




Escadas que podem levar-te mar dentro, degraus estranhamente horizontais que, por vezes, ousas experimentar...


Escadas antigas, degraus que sobes a correr, na incessante procura da memória de outros...


Escadas que vão sempre dar a outras escadas, incontáveis degraus que sobes com ansiedade, para chegar cada vez mais alto...


Escadas que, finda a loucura da subida, acabam no nada..., os degraus que, acreditas, te levam ao céu.

The Doors of Perception - Heaven and Hell

[...]
"We see that there are in nature certain scenes , certain classes of objects, certain materials, possessed of the power to transport the beholder's mind in the direction of its antipodes, out of the everyday Here and towards the Other worlds of Vision. Similarly, in the realm of art, we find certain works, even certain classes of works, in which the same transporting power is manifest."[...]
Turner (Téméraire)
[...]
"Visionary experience is not the same as mystical experience. Mystical experience is beyond the realm of opposites. Visionary experience is still within that realm. Heaven entails hell, and "going to heaven" is no more liberation than is the descendent in to horror. Heaven is mereley a vantage point from which the divine Ground can be more clearly seen than on the level of ordinary individualized existence.
If consciousness survives bodily death, it survives, presumably, on every mental level - on the level of mystic experience, on the level of blissful visionary experience, on the level of infernal visionary experience, and on the level of everyday individual existence." [...]

Turner (Slave ship)


Excerpts from "The Doors of Perception - Heaven and Hell" by Aldous Huxley

segunda-feira, janeiro 23, 2006

Bosque dos Desejos

Júlia Calçada (s/ título)

Apetece enveredar por estra estrada;
embrenhar-se a gente no misterioso bosque,
povoado de sonhos e desejos indizíveis;
perder-se nos imaginários ziguezagues do labiríntico arvoredo
e vaguear, sem destino nem rota,
numa busca incessante de aventura
ao encontro de míticos dragões;
verdes e pequenos duendes, ocultos na folhagem
e fadas: cintilantes, sibilantes, improváveis.

Amor sem Tréguas



[...]"Il n'y a pas de vacances à l'amour, dit-il, çá n'existe pas.
L'amour, il faut le vivre complétemment avec son ennui et tout, il n'y a pas de vacances à ça.

Il parlait sans la regarder, face au fleuve.

Et c'est ça l'amour. S'y soustraire, on ne peut pas."[...]


Marguerite Duras, in "Les Petits Chevaux de Tarquinia"
Cabelos desalinhados, ao vento...
sorrisos tímidos, breves...
olhos molhados, por dentro.

Nos interstícios do que dizes,
adivinho o que fica por dizer.

Apesar da tragicomédia eleitoral...

para minha felicidade, as fontes continuam a jorrar!