sexta-feira, junho 16, 2006

Sinuosa, solitária, soturna, sem-sentido


Como uma imensa estrada: sinuosa, solitária, soturna, atravessando um deserto sem fim que, incessantemente, te leva de sítio nenhum para nenhum sítio.
Não deixes que a tua existência se transforme num interminável "S" sem-sentido. Desenha, para ti, uma viagem diferente dessa que sentes ser a certa, porque qualquer outra te parece inacessível.
Ainda que não acredites, há caminhos que, ao invés de seguirem sucessivamente um percurso de serpente, vão a direito e podem levar-te exactamente daqui, onde te encontras, até ali, onde queres ir. Tudo depende da força com que o desejas e do empenho, do carinho com que te entregas a esse desiderato, da determinação com que vais ao encontro dessa vontade.
Sai desse "S" (tecido de sofrimento, de saudade, de sabor a sangue)!
Vem para o "V" (vestido de Vida, de Ventura, de Vitória)!
Vem... e vê que vives!!!

terça-feira, junho 13, 2006

Os malmequeres e os justos

Los justosUn hombre que cultiva un jardín, como quería Voltaire.
El que agradece que en la tierra haya música.
El que descubre con placer una etimología.
Dos empleados que en un café del Sur juegan un silencioso ajedrez.
El ceramista que premedita un color y una forma.
Un tipógrafo que compone bien esta página, que tal vez no le agrada
Una mujer y un hombre que leen los tercetos finales de cierto canto.
El que acaricia a un animal dormido.
El que justifica o quiere justificar un mal que le han hecho.
El que agradece que en la tierra haya Stevenson.
El que prefiere que los otros tengan razón.
Esas personas, que se ignoran, están salvando el mundo.

Jorge Luis Borges

quarta-feira, maio 31, 2006

Dia de Festa

































Hoje é dia de festa.
Os pássaros afinam os trinados;
as papoilas ondulam, ufanas, nos campos;
as ondas desfazem-se, em puro delírio, nas rochas que se deixam banhar com idêntico prazer;
as pessoas sorriem e cumprimentam-se, quando se cruzam, como se não se vissem há muito.

Estou cansada, desgastada, exausta.
Quem me dera poder dormir todo o dia e esquecer... que hoje é dia de festa!

Apesar de tudo, lá vou!
Invento um brilho nos olhos;
colo uma imitação de sorriso nos lábios;
canto, danço, misturo-me com a multidão...
e finjo que estou feliz.

Afinal... hoje é dia de festa!

terça-feira, maio 02, 2006

Fragmento


O voo planado da gaivota;
o azul indescritível

das águas profundas
que separam a costa da ilha-rosa,
logo ali,
a duas braçadas e meia de lonjura;
as mãos que avidamente se procuram
para agarrar
um momento inesquecível.

Riem de si próprios
e as gargalhadas ecoam como os gritos dos corvos e das gaivotas.

No abraço em que se enlaçam
os beijos molhados têm o sabor salgado
das lágrimas que algures,
no percurso dos rostos,
se misturam.

Em silêncio, sem palavras, eles sabem.


Sempre souberam da impossibilidade de guardar
a memória etérea de um instante feliz num relicário;
da incapacidade de qualquer alquimia materializar,
para esconder na caixa dos pequenos-grandes tesouros,
um fragmento de eternidade:
único e irrepetível.


segunda-feira, abril 10, 2006

Enquanto Maio não chega

Para o João Villalobos
(depois do que me ofereceste, não resisti a dedicar-te este haiku. Do mestre, claro, que eu ainda não me aventurei por esses caminhos...)
Flores de cerejeira no céu escuro
E entre elas a melancolia
quase a florir
(Matsuo Bashô)

quinta-feira, abril 06, 2006

quarta-feira, abril 05, 2006

APRIL - The Burial of the Dead

April is the cruellest month, breeding
Lilacs out of the dead land, mixing
Memory and desire, stirring
Dull roots with spring rain.
Winter kept us warm, covering
Earth in forgetful snow, feeding
A little life with dried tubers.
Summer surprised us, coming over the Starnbergersee
With a shower of rain; we stopped in the colonnade,
And went on in sunlight, into the Hofgarten,
And drank coffee, and talked for an hour.
Bin gar keine Russin, stamm' aus Litauen, echt deutsch.
And when we were children, staying at the archduke's,
My cousin's, he took me out on a sled,
And I was frightened. He said, Marie,
Marie, hold on tight. And down we went.

In the mountains, there you feel free.
I read, much of the night, and go south in the winter.
What are the roots that clutch, what branches grow

Out of this stony rubbish? Son of man,
You cannot say, or guess, for you know only
A heap of broken images, where the sun beats,
And the dead tree gives no shelter, the cricket no relief,
And the dry stone no sound of water. Only
There is shadow under this red rock,
(Come in under the shadow of this red rock),
And I will show you something different from either
Your shadow at morning striding behind you
Or your shadow at evening rising to meet you;
I will show you fear in a handful of dust.
[...]
T.S. Elliot in "The Waste Land"

terça-feira, março 14, 2006

Quando Fores Velha

Quando fores velha, grisalha, vencida pelo sono,
Dormitando junto à lareira, toma este livro,
Lê-o devagar, e sonha com o doce olhar
Que outrora tiveram teus olhos, e suas sombras profundas;

Muitos amaram os momentos de teu alegre encanto,
Muitos amaram essa beleza com falso ou sincero amor,
Mas apenas um homem amou tua alma peregrina,
E amou as mágoas do teu rosto que mudava;

Inclinada sobre o fogo incandescente,
Murmura, com alguma tristeza, como o amor te abandonou
E em largos passos galgou as montanhas
Escondendo o rosto numa imensidão de estrelas.


W. B. Yeats

domingo, março 05, 2006

O Valor do Tempo


Tirou da prateleira do móvel a ampulheta que os filhos lhe tinham oferecido de presente no seu quadragésimo aniversário. Encaminhou-se para a mesinha da sala, colocou-a bem à sua frente, no sofá onde se sentou, e sorriu, ao pensar na ironia.
Cinco minutos. Era o tempo preciso que os pequenos grãos de areia levavam a passar, pelo estreito orifício, entre os reservatórios da ampulheta.
Deu-lhe mais uma volta e ficou a olhar para cada grão de areia que escapava, inevitavelmente, da parte superior para a inferior do dispositivo, assinalando, com exactidão, a fracção de tempo que lhe cabia.
Voltou-a novamente. Era compulsivo.
Reiniciou o processo, uma e outra vez, sem conseguir afastar os olhos, por um instante, do mecanismo que lhe prendera a atenção e para o que representava: o fluir do tempo.
Aflorou-lhe à memória uma frase que ouvira muitos anos atrás, da boca de uma personagem feminina de meia-idade, numa peça de teatro a que tinha ido assistir com uns colegas da Faculdade. Curioso como lhe surgia agora, completamente fora do contexto da altura, para tão bem se aplicar ao seu presente: "quando se chega à minha idade, os dias custam a passar, e os anos passam a correr."
O sol, através dos vidros, incidia sobre a ampulheta e conferia um brilho quase mágico à areia que, no seu ritmo inalterável, ia escapando pelo orifício.
Com gestos repetitivos, como uma criança autista fascinada com o seu brinquedo preferido, virava e voltava a virar a ampulheta, a contar o tempo, sem dar pelo tempo passar...
até que o sol deixou de iluminar a sala e o crepúsculo se apoderou de todo o espaço.
Lídia não conseguia parar de brincar com o seu jogo novo.
De rompante, qual furacão, Miguel entrou na sala, atirou com o saco de desporto para um canto, acendeu a luz e disse "Olá Mãe. Está às escuras? Estou cá com uma fome. Fico sempre assim depois do ténis. Tenho que me despachar. Depois de jantar ainda tenho que ir buscar a Susana. Hoje é a ante-estreia da longa-metragem do Marco. Quem diria, hem? Aquele puto ainda vem a ser um realizador de mão-cheia. Vou tomar um duche num instante, enquanto a mãe me põe a comida na mesa. É verdade, tive exame de biologia. Correu-me bem. O João e a Teresa também vão. Encontramo-nos à entrada do CCB. Bom, não tenho tempo a perder. Isto é uma correria louca. Sinceramente, não sei como há gente que consegue ter tempo para tudo".
Lídia entreabriu os lábios para falar. Demasiado tarde. Miguel já tinha fechado a porta do quarto e a água a correr no chuveiro era o único som passível de ser ouvido.

sábado, março 04, 2006

Primeiro Amor

Tarde para tocar-te, Amor?
Este instante sabíamos -
Amor Marinho, Amor Terreno,
Amor Celeste também.


(Emily Dickinson)


Lembro, com infinita ternura
o tempo em que, sob os pinheiros,
nos amávamos com doçura:
afagos, que foram os primeiros,
no leito macio da caruma,
ao som do vaivém das marés.

Doutras vezes, junto ao mar,
sobre a areia pelo sol aquecida,
fundíamos os lábios, ao luar.
Serena corria a vida...
como a da onda, desfeita em espuma,
cúmplice e enamorada, a nossos pés.

sexta-feira, março 03, 2006

Mãos vazias


Hoje roubei as rosas todas dos jardins
e cheguei ao pé de ti de mãos vazias.

Eugénio de Andrade



Nada tenho para te dar, Amor.
Sou só eu, assim, despida:
despojada de presentes, de enfeites,
de sortilégios...
a querer a tua luz;
a querer a tua água.

Quero-te com tanta força
que chegam a doer-me,
cravados bem fundo, nas mãos,
os espinhos
das rosas que não te trago.

quarta-feira, fevereiro 22, 2006

Insónia


Na pequena aldeia, o relógio da torre da igreja tinha acabado de fazer soar a 6ª badalada. Luísa pensou "ainda seis da manhã... há noites que demoram eternidades a passar!". Virou-se para o outro lado da cama, aconchegou a almofada por forma a nela melhor enterrar a cabeça e voltou a tentar dormir. Mais uma badalada "seis e meia, estou farta!". Acendeu o candeeiro da mesa-de-cabeceira e ficou a olhar para o tecto, de madeira pintada, onde algumas falhas de tinta faziam surgir estranhas formas: uma cabeça de lobo (ou de cão?)... a silhueta de uma jovem mulher... um chapéu de abas largas... uma flor, sem caule, à qual faltavam algumas pétalas... "e pronto! mais uma noite sem dormir! Durante quanto tempo aguentarei este inferno?"

Sentou-se na cama. Já que não dormia era melhor que se fosse preparando para mais um dia de trabalho. A rotina habitual: o duche e a escovadela de dentes, a roupa que tirava maquinalmente do roupeiro e enfiava no corpo, uma penteadela nos cabelos soltos, que terminariam presos numa fita, em rabo-de-cavalo,
o pequeno-almoço a sós, a comida que, invariavelmente, deixava aos seus únicos companheiros de habitação: o casal de gatos. Um último relance ao espelho, por mero hábito, dado que, ainda que os sapatos ou as meias fossem de pares diferentes, não daria por isso.
Abriu o portão da velha casa de campo que tinha herdado da avó (que sorte a dela! até tinha casa própria a apenas 20Kms da escola onde tinha ido parar) e reparou que o sol começava a despontar, por cima dos choupos que ladeavam o ribeiro. "Vai estar um dia bonito." Tirou o carro da garagem e fez-se à estrada, em direcção à vila. Ainda faltava muito para a primeira aula. Iria ter tempo para saborear uma chávena de café antes de entrar na escola e, quem sabe, encontrar alguém com quem trocar duas palavras: as primeiras do dia. Depois de entrar na sala de aula, a sua voz não teria mais descanso. E como se sentia cansada! Farta daquela vida de solidão, longe da família, dos amigos... desterrada: era esse o termo. "E pensar que sempre acreditei que a vocação era o mais importante!... já nem ensinar me dá prazer... tenho que pagar um preço demasiado alto para fazer o que gosto (ou gostava, agora sinto que começo a detestar) e para poder contribuir para o sustento dos meus filhos. Pois é, o dinheiro também faz falta... mas o que me dói a ausência das noites de amor com o Gabriel, agora reduzidas ao escasso e frenético fim-de-semana! que saudades de ler uma história à Alice antes de adormecer... os seus bracinhos à volta do meu pescoço, o beijo de boa noite e o até amanhã, mãe... e o Vasco, tão pequenino! Um dia destes vai dar os seus primeiros passinhos e eu nem vou estar por perto para assistir. "

Sozinha ao volante, percorrendo a sinuosa estrada que já conhecia de cor, sorriu com amarga ironia e proferiu em voz alta "e ainda devo dar Graças e sentir-me abençoada pela Fortuna. Afinal, muitos dos meus colegas nem sequer uma colocação a 300 Kms de casa conseguem!!!"

Mais uma curva apertada, incompreensivelmente inesperada. Luísa despertou com o abusivo e roufenho som de buzina do camião que, surgindo do nada, parecia ocupar toda a estrada à sua frente.

segunda-feira, fevereiro 20, 2006

Dia de Praia

Inspiração poética da minha amiga Susane:

Vejo pessoas a passar
carregando as memórias
da tarde que passa...

A praia começa a esvaziar
e o areal a retomar
a sua areia branca e porosa.

Chapéus fecham-se;
a paisagem multicor
fica opaca.

Os risos das crianças
que brincam alegremente
na areia com as suas bolas;
baldes e pás desaparecem.
O convívio estival dos adultos
torna-se esquivo como o dia...

Todos recolhem a casa
depois de um dia de praia
e se preparam para uma noite
... de convívio; de emoções... de amor

Entretanto o areal fica
ainda mais extenso
no seu imenso vazio

Oiço o mar a bater palmas
e gaivotas que passam
alheias e esquecidas
qual casal que
passeia
à beira-mar
sentindo nos pés
a água salgada.


(Susane
Agosto de 2005)

sexta-feira, fevereiro 17, 2006

O Aleph


"O God, I could be bounded in a nutshell
and count myself a King of infinite space."

HAMLET, II, 2


[...] "Fechei os olhos, abri-os. Então vi o Aleph. [...]
[...] vi uma pequena esfera furta-cores, de brilho quase intolerável. Primeiro, supus que fosse giratória; depois, compreendi que esse movimento era uma ilusão produzida pelos vertiginosos espectáculos que encerrava. O diâmetro do Aleph seria de dois ou três centímetros, mas o espaço cósmico estava ali, sem diminuição de tamanho. Cada coisa (o cristal do espelho, digamos) era infinitas coisas porque eu a via claramente de todos os pontos do universo. Vi o populoso mar, vi a aurora e a tarde, vi as multidões da América, vi uma prateada teia de aranha no centro de uma negra pirâmide, vi um quebrado labirinto (era Londres), vi intermináveis olhos próximos prescrutando em mim como num espelho, vi todos os espelhos do planeta e nenhum me reflectiu, vi num pátio da Rua Solero os mesmos ladrilhos que, há trinta anos, vi no saguão de uma casa de Frey Bentos, vi cachos de uva, neve, tabaco, listas de metal, vapor de água, vi convexos desertos equatoriais e cada um dos seus grãos de areia, vi em Inverness uma mulher que não esquecerei, vi a violenta cabeleira, o altivo corpo, vi um cancro no peito, vi um círculo de terra seca numa vereda onde antes exisitira uma árvore, vi numa quinta de Adrogué um exemplar da primeira versão inglesa de Plínio, a de Philemon Holland, vi, ao mesmo tempo, cada letra de cada página (em pequeno, eu costumava maravilhar-me com o facto de as letras de um livro fechado não se misturarem e se perderem no decorrer da noite), vi a noite e o dia contemporâneo, vi um poente em Querétaro que parecia reflectir a cor de uma rosa em Bengala, vi o meu quarto sem ninguém, vi num gabinete de Alkmaar um globo terrestre entre dois espelhos que o multiplicam indefinidamente, vi cavalos de crinas redemoinhadas numa praia do Mar Cáspio, na aurora, vi a delicada ossatura de uma mão, vi os sobreviventes de uma batalha enviando bilhetes postais, vi numa vitrina de Mirzapur um baralho espanhol, vi as sombras oblíquas de alguns fetos no chão de uma estufa, vi tigres, êmbolos, bisontes, marulhos e exércitos, vi todas as formigas que existem na terra, vi um astrolábio persa, vi numa gaveta de escrivaninha (e a letra fez-me tremer) cartas obscenas, claras, incríveis, que Beatriz dirigira a Carlos Argentino, vi um adorado monumento na Chacarita, vi a relíquia cruel do que deliciosamente fora Beatriz Viterbo, vi a circulação do meu escuro sangue, vi a engrenagem do amor e a modificação da morte, vi o Aleph, de todos os pontos, vi no Aleph a terra, e na terra outra vez o Aleph e no Aleph a terra, vi o meu rosto e as minhas vísceras, vi o teu rosto e senti vertigem e chorei, porque os meus olhos tinham visto esse objecto secreto e conjectural cujo nome os homens usurpam, mas que nenhum homem olhou: o inconcebível universo.
Senti infinita veneração, infinita lástima." [...]


Jorge Luís Borges