terça-feira, julho 25, 2006

Procurando a luz... e a Luz cada vez mais perto!

"Procurando a luz", aguarela de Júlia Calçada

Admiro, ao mesmo tempo que estranho, esta tua persistência na busca incessante da luz. A luz já lá está, mas tu não sabes. Não a vês, ou não a sentes, porque não a podes tocar, e a ausência dessa confirmação material leva-te a concluir que não a encontras. Os outros chegam a ofuscar-se com a tua luz, porque é de ti que ela emana, mas tu continuas no desespero da procura. E continuarás, eu sei, porque essa é a tua meta, inatingível, seguramente. Ou terás que iniciar uma outra busca, que consideres igualmente inacessível, sempre no desvario da descoberta do que te falta para apaziguar a tua alma inquieta.

terça-feira, julho 18, 2006

A maldição da coruja



Havia um nome todas as noites.
Ao entardecer, quando recolhia a casa, Mateus rezava para que, mais uma vez, não fosse o seu.
Sabia que a sorte não podia durar para sempre. A população da aldeia era escassa e já não restavam muitos nomes. Chegou a pensar em fugir para o outro lado das montanhas, onde a voz da coruja não se fizesse ouvir. Ainda assim não era certo que escapasse à morte quando a ave agoirenta gritasse "Mateus".
Havia rumores de outros que tinham fugido e tinham acabado por morrer na mais completa solidão, longe daqueles que amavam e sem uma mão amiga para agarrar no momento da partida. Ninguém sabia como esses relatos ali chegavam. Mas... e se fossem autênticos?
No desespero de uma saída alternativa, à hora de dormir, beijava os filhos, acariciava-lhes os cabelos e sorria-lhes, com ternura. Depois, ia deitar-se ao lado da mulher, passava-lhe o braço pela cintura e pegava-lhe na mão, com força, como se pela última vez. Tentava adormecer e, no mais profundo pânico, esperava.
(inspirado no romance "I heard the owl call my name", de Margaret Craven)

sexta-feira, junho 16, 2006

Sinuosa, solitária, soturna, sem-sentido


Como uma imensa estrada: sinuosa, solitária, soturna, atravessando um deserto sem fim que, incessantemente, te leva de sítio nenhum para nenhum sítio.
Não deixes que a tua existência se transforme num interminável "S" sem-sentido. Desenha, para ti, uma viagem diferente dessa que sentes ser a certa, porque qualquer outra te parece inacessível.
Ainda que não acredites, há caminhos que, ao invés de seguirem sucessivamente um percurso de serpente, vão a direito e podem levar-te exactamente daqui, onde te encontras, até ali, onde queres ir. Tudo depende da força com que o desejas e do empenho, do carinho com que te entregas a esse desiderato, da determinação com que vais ao encontro dessa vontade.
Sai desse "S" (tecido de sofrimento, de saudade, de sabor a sangue)!
Vem para o "V" (vestido de Vida, de Ventura, de Vitória)!
Vem... e vê que vives!!!

terça-feira, junho 13, 2006

Os malmequeres e os justos

Los justosUn hombre que cultiva un jardín, como quería Voltaire.
El que agradece que en la tierra haya música.
El que descubre con placer una etimología.
Dos empleados que en un café del Sur juegan un silencioso ajedrez.
El ceramista que premedita un color y una forma.
Un tipógrafo que compone bien esta página, que tal vez no le agrada
Una mujer y un hombre que leen los tercetos finales de cierto canto.
El que acaricia a un animal dormido.
El que justifica o quiere justificar un mal que le han hecho.
El que agradece que en la tierra haya Stevenson.
El que prefiere que los otros tengan razón.
Esas personas, que se ignoran, están salvando el mundo.

Jorge Luis Borges

quarta-feira, maio 31, 2006

Dia de Festa

































Hoje é dia de festa.
Os pássaros afinam os trinados;
as papoilas ondulam, ufanas, nos campos;
as ondas desfazem-se, em puro delírio, nas rochas que se deixam banhar com idêntico prazer;
as pessoas sorriem e cumprimentam-se, quando se cruzam, como se não se vissem há muito.

Estou cansada, desgastada, exausta.
Quem me dera poder dormir todo o dia e esquecer... que hoje é dia de festa!

Apesar de tudo, lá vou!
Invento um brilho nos olhos;
colo uma imitação de sorriso nos lábios;
canto, danço, misturo-me com a multidão...
e finjo que estou feliz.

Afinal... hoje é dia de festa!

terça-feira, maio 02, 2006

Fragmento


O voo planado da gaivota;
o azul indescritível

das águas profundas
que separam a costa da ilha-rosa,
logo ali,
a duas braçadas e meia de lonjura;
as mãos que avidamente se procuram
para agarrar
um momento inesquecível.

Riem de si próprios
e as gargalhadas ecoam como os gritos dos corvos e das gaivotas.

No abraço em que se enlaçam
os beijos molhados têm o sabor salgado
das lágrimas que algures,
no percurso dos rostos,
se misturam.

Em silêncio, sem palavras, eles sabem.


Sempre souberam da impossibilidade de guardar
a memória etérea de um instante feliz num relicário;
da incapacidade de qualquer alquimia materializar,
para esconder na caixa dos pequenos-grandes tesouros,
um fragmento de eternidade:
único e irrepetível.


segunda-feira, abril 10, 2006

Enquanto Maio não chega

Para o João Villalobos
(depois do que me ofereceste, não resisti a dedicar-te este haiku. Do mestre, claro, que eu ainda não me aventurei por esses caminhos...)
Flores de cerejeira no céu escuro
E entre elas a melancolia
quase a florir
(Matsuo Bashô)

quinta-feira, abril 06, 2006

quarta-feira, abril 05, 2006

APRIL - The Burial of the Dead

April is the cruellest month, breeding
Lilacs out of the dead land, mixing
Memory and desire, stirring
Dull roots with spring rain.
Winter kept us warm, covering
Earth in forgetful snow, feeding
A little life with dried tubers.
Summer surprised us, coming over the Starnbergersee
With a shower of rain; we stopped in the colonnade,
And went on in sunlight, into the Hofgarten,
And drank coffee, and talked for an hour.
Bin gar keine Russin, stamm' aus Litauen, echt deutsch.
And when we were children, staying at the archduke's,
My cousin's, he took me out on a sled,
And I was frightened. He said, Marie,
Marie, hold on tight. And down we went.

In the mountains, there you feel free.
I read, much of the night, and go south in the winter.
What are the roots that clutch, what branches grow

Out of this stony rubbish? Son of man,
You cannot say, or guess, for you know only
A heap of broken images, where the sun beats,
And the dead tree gives no shelter, the cricket no relief,
And the dry stone no sound of water. Only
There is shadow under this red rock,
(Come in under the shadow of this red rock),
And I will show you something different from either
Your shadow at morning striding behind you
Or your shadow at evening rising to meet you;
I will show you fear in a handful of dust.
[...]
T.S. Elliot in "The Waste Land"

terça-feira, março 14, 2006

Quando Fores Velha

Quando fores velha, grisalha, vencida pelo sono,
Dormitando junto à lareira, toma este livro,
Lê-o devagar, e sonha com o doce olhar
Que outrora tiveram teus olhos, e suas sombras profundas;

Muitos amaram os momentos de teu alegre encanto,
Muitos amaram essa beleza com falso ou sincero amor,
Mas apenas um homem amou tua alma peregrina,
E amou as mágoas do teu rosto que mudava;

Inclinada sobre o fogo incandescente,
Murmura, com alguma tristeza, como o amor te abandonou
E em largos passos galgou as montanhas
Escondendo o rosto numa imensidão de estrelas.


W. B. Yeats

domingo, março 05, 2006

O Valor do Tempo


Tirou da prateleira do móvel a ampulheta que os filhos lhe tinham oferecido de presente no seu quadragésimo aniversário. Encaminhou-se para a mesinha da sala, colocou-a bem à sua frente, no sofá onde se sentou, e sorriu, ao pensar na ironia.
Cinco minutos. Era o tempo preciso que os pequenos grãos de areia levavam a passar, pelo estreito orifício, entre os reservatórios da ampulheta.
Deu-lhe mais uma volta e ficou a olhar para cada grão de areia que escapava, inevitavelmente, da parte superior para a inferior do dispositivo, assinalando, com exactidão, a fracção de tempo que lhe cabia.
Voltou-a novamente. Era compulsivo.
Reiniciou o processo, uma e outra vez, sem conseguir afastar os olhos, por um instante, do mecanismo que lhe prendera a atenção e para o que representava: o fluir do tempo.
Aflorou-lhe à memória uma frase que ouvira muitos anos atrás, da boca de uma personagem feminina de meia-idade, numa peça de teatro a que tinha ido assistir com uns colegas da Faculdade. Curioso como lhe surgia agora, completamente fora do contexto da altura, para tão bem se aplicar ao seu presente: "quando se chega à minha idade, os dias custam a passar, e os anos passam a correr."
O sol, através dos vidros, incidia sobre a ampulheta e conferia um brilho quase mágico à areia que, no seu ritmo inalterável, ia escapando pelo orifício.
Com gestos repetitivos, como uma criança autista fascinada com o seu brinquedo preferido, virava e voltava a virar a ampulheta, a contar o tempo, sem dar pelo tempo passar...
até que o sol deixou de iluminar a sala e o crepúsculo se apoderou de todo o espaço.
Lídia não conseguia parar de brincar com o seu jogo novo.
De rompante, qual furacão, Miguel entrou na sala, atirou com o saco de desporto para um canto, acendeu a luz e disse "Olá Mãe. Está às escuras? Estou cá com uma fome. Fico sempre assim depois do ténis. Tenho que me despachar. Depois de jantar ainda tenho que ir buscar a Susana. Hoje é a ante-estreia da longa-metragem do Marco. Quem diria, hem? Aquele puto ainda vem a ser um realizador de mão-cheia. Vou tomar um duche num instante, enquanto a mãe me põe a comida na mesa. É verdade, tive exame de biologia. Correu-me bem. O João e a Teresa também vão. Encontramo-nos à entrada do CCB. Bom, não tenho tempo a perder. Isto é uma correria louca. Sinceramente, não sei como há gente que consegue ter tempo para tudo".
Lídia entreabriu os lábios para falar. Demasiado tarde. Miguel já tinha fechado a porta do quarto e a água a correr no chuveiro era o único som passível de ser ouvido.

sábado, março 04, 2006

Primeiro Amor

Tarde para tocar-te, Amor?
Este instante sabíamos -
Amor Marinho, Amor Terreno,
Amor Celeste também.


(Emily Dickinson)


Lembro, com infinita ternura
o tempo em que, sob os pinheiros,
nos amávamos com doçura:
afagos, que foram os primeiros,
no leito macio da caruma,
ao som do vaivém das marés.

Doutras vezes, junto ao mar,
sobre a areia pelo sol aquecida,
fundíamos os lábios, ao luar.
Serena corria a vida...
como a da onda, desfeita em espuma,
cúmplice e enamorada, a nossos pés.

sexta-feira, março 03, 2006

Mãos vazias


Hoje roubei as rosas todas dos jardins
e cheguei ao pé de ti de mãos vazias.

Eugénio de Andrade



Nada tenho para te dar, Amor.
Sou só eu, assim, despida:
despojada de presentes, de enfeites,
de sortilégios...
a querer a tua luz;
a querer a tua água.

Quero-te com tanta força
que chegam a doer-me,
cravados bem fundo, nas mãos,
os espinhos
das rosas que não te trago.