quinta-feira, agosto 03, 2006

As Ondas


As ondas quebravam uma a uma
Eu estava só com a areia e com a espuma
Do mar que cantava só para mim.

(Sophia de Mello Breyner Andresen)


Fui procurar-te no nosso sítio de sempre. Não estavas.

Sentei-me e fiquei a olhar o vaivém das ondas, a desfazerem-se em espuma, na areia branca e fina, a meus pés.

Perante tal beleza e ao som do mar que me embalava, a tua ausência não passava de um pormenor sem importância.

Dei por mim a bailar, vestido ao vento, no alto do penhasco.

O que terias feito para dançar comigo nesse dia!?


quarta-feira, agosto 02, 2006

Estar sozinha não é estar só


Deitada no chão de macia caruma
vejo o céu, de um azul tão intenso
que me obriga a semicerrar os olhos,
de quando em vez,
não vá tanta luminosidade
provocar o inusitado brotar de uma lágrima

que, no caso presente, não será de alegria nem de tristeza:
apenas uma lágrima causada pelo excesso de cor.

Gosto de estar aqui, sozinha
porque sei que não estou só.

Quem vive na solidão tende a procurar companhia;
ou então desespera, entra em depressão profunda e chora,

na mais lamentável auto-comiseração.

Quem vive cercado de afectos
procura a solidão, quase inexplicavelmente,
talvez para sentir o prazer de estar a sós consigo,
na certeza de que logo, logo, repousará
na chaiselongue da varanda,
com a cabeça nos joelhos de quem ama,
mãos carinhosas a afagar-lhe o rosto.

terça-feira, agosto 01, 2006

Foz do Tejo, um país

O rio não dialoga senão pela alma
de quem o olha e embebeu a sua alma
de olhares ribeirinhos no passado
ou à flor do pensamento no futuro.

É um país que fala dentro da fronte,
olhando as naus, navios, barcos pesqueiros
e o trilho das famintas aves pintoras
de riscos negros, que perseguem o odor
das redes cheias, as outrossim poéticas
familiares gaivotas. É uma costa inteira
de imagens de gaivotas dentro dos olhos.
São bocas a pensar razões da vida,
gargantas já caladas pela nascença e morte,
quando entre si se vêem ou juntas olham
o mar dos seus próprios dias. São cabeças
velhas de labutar, entre dentes cerrados,
as palavras mudas de um ofício no mar,
antigas de silêncio, como se no esófago
guardassem há muito a sabedoria de ir
enfrentar o mar, transpor o mar, estar.

Tal como um rio o mar só quer falar
pela dor e alegria de alma com que o chama,
há séculos na orla, um povo mudo,
com as palavras presas, guturais sem fôlego,
dentro de si, tão firmes no palato, articuladas
na língua interior. E o mar é quieto ou bravo,
e a alma tensa de uma paixão secreta,
escondida atrás da boca, e sempre aberta,
tal como as pálpebras diante desta água.

Só a alma sabe falar com o mar,
depois de chamar a si o Rio, no imo
de cada um, recordações, de todos
os que cumprem na linha da costa o seu destino.
O de crianças, berços nascidos à beira-mar,
aleitadas por água marinha bebida por rebanhos,
alimentadas por frutos regados pela bruma.
Mesmo quando petroleiros, se olharmos o mar,
passam sem som na glote, para nós mesmos dizemos
que o tempo já findou das caravelas outrora
e dentro do nosso sangue passa o tempo de agora.

Também as vacinas, fenícias áfonas no poema
que as canta, sabem as formas, pelo olhar,
de serem mulheres com peixes à cabeça.
E os pregões que eu calo, revendo-as, eram outra
língua do mar, os nomes com que nos chamam
para o seu modo de levar entre as casas o mar.
Mas as dores não as ecoa o mar, nem mesmo
as de poetas, só as pancadas das palavras
no encéfalo parecem ser voz do mar.

É uma nação única de memórias do mar,
que não responde senão em nós. Glórias, misérias,
que guardámos por detrás do olhar lírico
e da língua, a silabar dentro da boca.
Nunca chamámos o mar nem ele nos chama
mas está-nos no palato como estigma.

Fiama Hasse Pais Brandão

quinta-feira, julho 27, 2006

Técnicas de Sedução

As técnicas mudam, ao sabor das tecnologias da moda que lhes podem servir de veículo, alterando assim a forma, mas o conteúdo... esse permanece igual ao longo dos séculos.
Mariana recebeu um SMS e encostou o carro à direita para poder lê-lo. Já tinha anoitecido e, naquela rua das traseiras de uma zona industrial, praticamente não havia trânsito.
Identificou o emissor e sorriu. Depois, à medida que foi lendo o texto, foi ficando mais e mais surpreendida: ora não querem lá ver que o "puto" João lhe tinha enviado nada mais que a "Cantigua partindo-se" de João Roiz de Castell-Branco, sem a falha de uma palavra ou de uma vírgula sequer.
Mas por que raio? perguntava-se, quando do seu lado esquerdo, exactamente ao lado da janela, parou uma moto. O condutor tirou o capacete e surgiu o rosto esperado. Era mesmo o "puto" João.
Mariana abriu o vidro e, com riso nas palavras, perguntou, "mas afinal o que é que te deu? de ti, poderia esperar muitas brincadeiras, mas não esta".
"Não se trata de uma brincadeira", retorquiu João com ar sério. "Mau... já chega!" disse Mariana.
"É precisamente porque nunca nada chega para ti que decidi enviar-te esse SMS. Pelo menos, fez-te parar e pensar em mim por uns momentos. Mas quero mais. Quero conversar contigo. Se soubesses o que tenho para te dizer!!! Sim... posso começar por te falar da poesia portuguesa dos Sécs. XV e XVI e seguir por aí fora e nunca mais parar, até que tu queiras falar comigo". Fez um silêncio e depois continuou, num tom um pouco mais baixo e intimista "até que queiras estar comigo".
Mariana parecia ter emudecido de espanto. Não conseguiu articular palavra nem João descortinou o vislumbre de qualquer expressão indicativa do efeito que aquela sua abordagem estava a provocar na mulher madura que, sentada ao volante, tinha adquirido um ar de escultura de cera.
Na ausência de estímulo para continuar, mas igualmente de qualquer travão, João prosseguiu "estava a pensar convidar-te para jantar... hoje. Parece-te razoável?"
Mariana, finalmente, deu mostras de estar consciente, acenando a cabeça em sinal afirmativo. Ainda não se atrevia a soltar a voz, com receio de que o som emitido pela mesma traísse, de alguma forma, o que lhe ía no espírito.
"Então segue-me", ordenou João, confiante e tentando ocultar um sorriso de triunfo. "Vou levar-te a um restaurante brasileiro fantástico, ali à beira-mar. Para além de comida divina têm música ao vivo, para embalar a conversa de quem os visita. Vais gostar, tenho a certeza."
E lá foram, Mariana seguindo a moto, com uma súbita falta de forças e uma incontrolável tremura, um pouco por todo o corpo. O coração apertado e pequenino: à espera, quem sabe, de grandes emoções.
O que se passou depois fica com eles. Para sempre... atrever-me-ia a afirmar.

terça-feira, julho 25, 2006

Procurando a luz... e a Luz cada vez mais perto!

"Procurando a luz", aguarela de Júlia Calçada

Admiro, ao mesmo tempo que estranho, esta tua persistência na busca incessante da luz. A luz já lá está, mas tu não sabes. Não a vês, ou não a sentes, porque não a podes tocar, e a ausência dessa confirmação material leva-te a concluir que não a encontras. Os outros chegam a ofuscar-se com a tua luz, porque é de ti que ela emana, mas tu continuas no desespero da procura. E continuarás, eu sei, porque essa é a tua meta, inatingível, seguramente. Ou terás que iniciar uma outra busca, que consideres igualmente inacessível, sempre no desvario da descoberta do que te falta para apaziguar a tua alma inquieta.

terça-feira, julho 18, 2006

A maldição da coruja



Havia um nome todas as noites.
Ao entardecer, quando recolhia a casa, Mateus rezava para que, mais uma vez, não fosse o seu.
Sabia que a sorte não podia durar para sempre. A população da aldeia era escassa e já não restavam muitos nomes. Chegou a pensar em fugir para o outro lado das montanhas, onde a voz da coruja não se fizesse ouvir. Ainda assim não era certo que escapasse à morte quando a ave agoirenta gritasse "Mateus".
Havia rumores de outros que tinham fugido e tinham acabado por morrer na mais completa solidão, longe daqueles que amavam e sem uma mão amiga para agarrar no momento da partida. Ninguém sabia como esses relatos ali chegavam. Mas... e se fossem autênticos?
No desespero de uma saída alternativa, à hora de dormir, beijava os filhos, acariciava-lhes os cabelos e sorria-lhes, com ternura. Depois, ia deitar-se ao lado da mulher, passava-lhe o braço pela cintura e pegava-lhe na mão, com força, como se pela última vez. Tentava adormecer e, no mais profundo pânico, esperava.
(inspirado no romance "I heard the owl call my name", de Margaret Craven)

sexta-feira, junho 16, 2006

Sinuosa, solitária, soturna, sem-sentido


Como uma imensa estrada: sinuosa, solitária, soturna, atravessando um deserto sem fim que, incessantemente, te leva de sítio nenhum para nenhum sítio.
Não deixes que a tua existência se transforme num interminável "S" sem-sentido. Desenha, para ti, uma viagem diferente dessa que sentes ser a certa, porque qualquer outra te parece inacessível.
Ainda que não acredites, há caminhos que, ao invés de seguirem sucessivamente um percurso de serpente, vão a direito e podem levar-te exactamente daqui, onde te encontras, até ali, onde queres ir. Tudo depende da força com que o desejas e do empenho, do carinho com que te entregas a esse desiderato, da determinação com que vais ao encontro dessa vontade.
Sai desse "S" (tecido de sofrimento, de saudade, de sabor a sangue)!
Vem para o "V" (vestido de Vida, de Ventura, de Vitória)!
Vem... e vê que vives!!!

terça-feira, junho 13, 2006

Os malmequeres e os justos

Los justosUn hombre que cultiva un jardín, como quería Voltaire.
El que agradece que en la tierra haya música.
El que descubre con placer una etimología.
Dos empleados que en un café del Sur juegan un silencioso ajedrez.
El ceramista que premedita un color y una forma.
Un tipógrafo que compone bien esta página, que tal vez no le agrada
Una mujer y un hombre que leen los tercetos finales de cierto canto.
El que acaricia a un animal dormido.
El que justifica o quiere justificar un mal que le han hecho.
El que agradece que en la tierra haya Stevenson.
El que prefiere que los otros tengan razón.
Esas personas, que se ignoran, están salvando el mundo.

Jorge Luis Borges

quarta-feira, maio 31, 2006

Dia de Festa

































Hoje é dia de festa.
Os pássaros afinam os trinados;
as papoilas ondulam, ufanas, nos campos;
as ondas desfazem-se, em puro delírio, nas rochas que se deixam banhar com idêntico prazer;
as pessoas sorriem e cumprimentam-se, quando se cruzam, como se não se vissem há muito.

Estou cansada, desgastada, exausta.
Quem me dera poder dormir todo o dia e esquecer... que hoje é dia de festa!

Apesar de tudo, lá vou!
Invento um brilho nos olhos;
colo uma imitação de sorriso nos lábios;
canto, danço, misturo-me com a multidão...
e finjo que estou feliz.

Afinal... hoje é dia de festa!

terça-feira, maio 02, 2006

Fragmento


O voo planado da gaivota;
o azul indescritível

das águas profundas
que separam a costa da ilha-rosa,
logo ali,
a duas braçadas e meia de lonjura;
as mãos que avidamente se procuram
para agarrar
um momento inesquecível.

Riem de si próprios
e as gargalhadas ecoam como os gritos dos corvos e das gaivotas.

No abraço em que se enlaçam
os beijos molhados têm o sabor salgado
das lágrimas que algures,
no percurso dos rostos,
se misturam.

Em silêncio, sem palavras, eles sabem.


Sempre souberam da impossibilidade de guardar
a memória etérea de um instante feliz num relicário;
da incapacidade de qualquer alquimia materializar,
para esconder na caixa dos pequenos-grandes tesouros,
um fragmento de eternidade:
único e irrepetível.


segunda-feira, abril 10, 2006

Enquanto Maio não chega

Para o João Villalobos
(depois do que me ofereceste, não resisti a dedicar-te este haiku. Do mestre, claro, que eu ainda não me aventurei por esses caminhos...)
Flores de cerejeira no céu escuro
E entre elas a melancolia
quase a florir
(Matsuo Bashô)

quinta-feira, abril 06, 2006

quarta-feira, abril 05, 2006

APRIL - The Burial of the Dead

April is the cruellest month, breeding
Lilacs out of the dead land, mixing
Memory and desire, stirring
Dull roots with spring rain.
Winter kept us warm, covering
Earth in forgetful snow, feeding
A little life with dried tubers.
Summer surprised us, coming over the Starnbergersee
With a shower of rain; we stopped in the colonnade,
And went on in sunlight, into the Hofgarten,
And drank coffee, and talked for an hour.
Bin gar keine Russin, stamm' aus Litauen, echt deutsch.
And when we were children, staying at the archduke's,
My cousin's, he took me out on a sled,
And I was frightened. He said, Marie,
Marie, hold on tight. And down we went.

In the mountains, there you feel free.
I read, much of the night, and go south in the winter.
What are the roots that clutch, what branches grow

Out of this stony rubbish? Son of man,
You cannot say, or guess, for you know only
A heap of broken images, where the sun beats,
And the dead tree gives no shelter, the cricket no relief,
And the dry stone no sound of water. Only
There is shadow under this red rock,
(Come in under the shadow of this red rock),
And I will show you something different from either
Your shadow at morning striding behind you
Or your shadow at evening rising to meet you;
I will show you fear in a handful of dust.
[...]
T.S. Elliot in "The Waste Land"