domingo, outubro 01, 2006

Ainda o México, com o amor de sempre (II)

[...] Pero amar es también cerrar los ojos,
dejar que el sueño invada nuestro cuerpo
como un río de olvido y de tinieblas,
y navegar sin rumbo, a la deriva:
porque amar es, al fin, una indolencia.

(Xavier Villaurrutia)
En tus ojos hay años de sequía
en tus manos un desierto extenso
por eso te enferma la lluvia
y te duele tanto el agua
(Dante Salgado)


No amo mi Patria. Su fulgor abstracto es inasible. Pero (aunque suene mal) daría la vida por diez lugares suyos, cierta gente, puertos, bosques de pinos, fortalezas, una ciudad deshecha, gris, monstruosa, varias figuras de su historia, montañas (y tres o cuatro ríos).
(José Emilio Pacheco)
Al mar
hay que volver al mar
y ahogarse de verdad
para saber lo que es la vida
(Dante Salgado)

De puerta en puerta,
extiende su mano
y pide su limosna de vida.
A veces ciego,
quizá tullido,
en una lata mete sus rencores.
Busca, llama
de tristeza en tristeza.
(Meztly Vianey Suarez)

quinta-feira, setembro 21, 2006

Do México, com amor


Quién me compra una naranja para mi consolación?
Una naranja madura en forma de corazón.
(José Gorostiza)



Te amo ahí contra el muro destruido
contra la ciudad y contra el sol y contra el viento
contra lo otro que yo amo y se ha quedado
como un guerrero entrampado en los recuerdos
(Homero Aridjis)

Digamos que no tiene comienzo el mar.
Empieza donde lo hallas por vez primera
y te sale al encuentro por todas partes.
(José Emilio Pacheco)


Trópico, para que me diste las manos llenas de color.
Todo lo que yo toque se llenará de sol.
En las tardes sutiles de otras tierras pasaré con mis ruidos de vidrio tornasol.
Déjame un solo instante dejar de ser grito y color.
Déjame un solo instante cambiar de clima el corazón,
beber la penumbra de una costa desierta,
inclinarme en silencio sobre un recóndito balcón,
ahondarme en el manto de pliegues finos,
dispersarme en la orilla de una suave devoción,
acariciar dulcemente las cabelleras lacias
y escribir con un lápiz muy fino mi meditación.
¡Oh, deja de ser un solo instante el Ayudante de Campo del sol!
¡Trópico, para qué me diste las manos llenas de color!
(Carlos Pellicer)

segunda-feira, setembro 18, 2006

Antecipando o Outono


Em antecipação
já sou tronco, ramo e folha envelhecida.

Como paradoxo,
quando estou prestes a caír -
- mais uma folha caduca,
a juntar-se ao quase infindável universo de folhas
do tapete amarelo e vermelho,
cobertura de veredas e caminhos
de todos os parques e jardins -
- sinto que o auge da beleza foi por mim alcançado.

Quem disse que o fim é, obrigatoriamente, feio e triste?

sexta-feira, setembro 15, 2006

...uma chave perdida...


Fotografia de Sandra Farinha*
* para ver mais fotos desta autora, clicar em "Olhar Atento", nos meus links.


A velha porta.
A tua alma.

A vontade de transpor o limiar e descobrir o que a misteriosa barreira encerra.
O desejo de ler os teus pensamentos e conhecer os segredos que, no teu espírito, laboriosamente se escondem de mim.

A certeza de que a chave existe.

Ajuda-me, por favor.
Por onde devo começar a busca?

quinta-feira, setembro 14, 2006

domingo, setembro 10, 2006

Janelas

A propósito das "Janelas" da Maria P., na sua Casa de Maio, com um beijinho:

Júlia Calçada * (Janela - óleo sobre tela) (1)
* para ver mais pinturas da autora clicar em jc, nos meus links
Aurora boreal
Tenho quarenta janelas
nas paredes do meu quarto.
Sem vidros nem bambinelas
posso ver através delas
o mundo em que me reparto.
Por uma entra a luz do Sol,
por outra a luz do luar,
por outra a luz das estrelas que andam no céu a rolar.
Por esta entra a Via Láctea
como um vapor de algodão,
por aquela a luz dos homens,
pela outra a escuridão.
Pela maior entra o espanto,
pela menor a certeza,
pela da frente a beleza
que inunda de canto a canto.
Pela quadrada entra a esperança
de quatro lados iguais,
quatro arestas,
quatro vértices,
quatro pontos cardeais.
Pela redonda entra o sonho,
que as vigias são redondas,
e o sonho afaga e embala
à semelhança das ondas.
Por além entra a tristeza,
por aquela entra a saudade,
e o desejo, e a humildade,
e o silêncio, e a surpresa,
e o amor dos homens, e o tédio,
e o medo, e a melancolia,
e essa fome sem remédio
a que se chama poesia,
e a inocência, e a bondade,
e a dor própria, e a dor alheia,
e a paixão que se incendeia,
e a viuvez, e a piedade,
e o grande pássaro branco,e o grande pássaro negro
que se olham obliquamente,
arrepiados de medo,
todos os risos e choros,
todas as fomes e sedes,
tudo alonga a sua sombra
nas minhas quatro paredes.
Oh janelas do meu quarto,
quem vos pudesse rasgar!
Com tanta janela aberta
falta-me a luz e o ar.
(António Gedeão)
(1) Inspirado numa pintura de Manuel Amado

sábado, setembro 09, 2006

Retrato de Casal



Só para fechar o ciclo:

Predadores na idade mais-que-madura (quando o que resta é ternura, "como dizia o outro"...;))

Retrato do Predador enquanto Fêmea




Em resposta ao desafio do Paulo Cunha Porto, com muito gosto:

Pode ler-se na Wikipédia:

"Esses grandes felinos vivem em bandos, de 5 a 30 indivíduos, sendo os únicos felinos de hábitos gregários. Em um bando, há divisão de tarefas, as fêmeas são encarregadas da caça e do cuidado dos filhotes, enquanto o macho é responsável pela defesa do território.
Apesar de geralmente se considerar que as fêmeas efetuam a maior parte da caça, os machos são igualmente capazes, se não melhores caçadores.

As fêmeas são sociais e caçam de forma cooperativa, enquanto os machos são solitários e gastam boa parte de sua energia patrulhando um extenso território. As fêmeas precisam de um tempo extra para caçar, porque os machos não cuidam dos filhotes. As leoas formam manadas de dois a dezoito animais da mesma família, o que as caracteriza como o único felino realmente social. Apesar de a caça em grupo ser mais eficiente do que a caça individual, sua eficácia não é tão compensadora, já que, em grupo, é preciso obter mais alimento para alimentar a todos. É mais provável que a socialização das fêmeas vise a proteger os filhotes contra os machos."

De momento, parece-me desnecessário acrescentar considerações próprias, embora muito se possa divagar acerca das motivações e comportamentos dos "predadores", dependendo da sua condição masculina ou feminina... ;)

quinta-feira, setembro 07, 2006

Retrato do Predador quando Jovem



Quem não conheceu o predador quando jovem?

Altivo, soberbo, confiante, implacável, não havia presa que lhe resistisse.

Quando saía para as caçadas, com o seu porte garboso, lançava um olhar de desafio aos restantes companheiros e avançava sem medos, com o triunfo antecipado por garantia e a impensada certeza de que iria ser sempre assim. Não se perguntava, sequer, por que razão os mais velhos ficavam para trás, limitando-se a acompanhar o seu afastamento com olhos tristes e cansados.
Conta quem o viu mais tarde que, atingida já a fase do declínio, ficava frequentemente no grupo dos idosos. Era com olhos gastos e melancólicos que assistia à exuberante partida para a caça da nova geração de jovens predadores.
Por vezes seguia-os, de longe. Escondia-se, envergonhado, se algum olhava para trás e o avistava.
Quando alcançava o local do banquete, contentava-se com os restos que os jovens predadores tinham deixado, depois de amplamente saciados.
(Imediatamente antes da chegada das hienas, e com algum avanço sobre os abutres.)

segunda-feira, setembro 04, 2006

Metamorfose

(com um sorriso e uma piscadela de olho à Mnemósine) ;)



Sem mais comentários: estágios diferentes em indivíduos da mesma espécie, numa coexistência pacífica.

sexta-feira, agosto 11, 2006

quinta-feira, agosto 10, 2006

Que por ti perdi


O mar dentro da árvore, as nuvens
dentro da terra sem fim,
a luz. A luz dentro doutra luz
que limitava as mãos e as abria
para outras mãos dentro de um olhar.

Batem na fornalha os ventos.
Um cálice de vidro grosso com o licor
de fermentação caseira. Um prato
com avelãs e nozes e folhas de medronho.
Nas margens as portadas corridas
ganham um halo de candeeiros de rua
que se difunde na fluorescência do televisor,
na palidez rubra das pequenas luzes do rádio.

A última claridade do dia mistura-se
à primeira da noite.
Este vento na auto-estrada onde rebenta a chuva
não me vai forçar o coração; nem estas sebes
ladeadas de cimento suspenderão o voo
do que sou até ao que não és. Mas será
a carícia que no cinto treme, o calor do pescoço
descoberto, os vimes da cadeira donde te levantas
quando estou quase para me sentar.

Entre veios de relva desigual,
valados por cuidar abrigam
máquinas de desolação.
Formações de patos atravessam
o vidro polido do postigo.
O dia bate no jornal pousado
sobre a manta castanha que prende
os joelhos no silêncio de interior.
Outras vezes, as persianas já corridas,
um globo de lona ilumina o livro
na pequena mesa, um arame de flores
pendurado numa trave e o armário
com os objectos de estanho e meditação.

A vida acumulou-se em roldanas ao redor de tudo,
um fumo que sobe durante a noite sobre os mapas
enrolados na parede despida, há tanto nos esquecemos
de os desdobrar, de por eles chegar aos confins
do nosso mundo. E já estamos a desaparecer.


Joaquim Manuel Magalhães

quinta-feira, agosto 03, 2006

As Ondas


As ondas quebravam uma a uma
Eu estava só com a areia e com a espuma
Do mar que cantava só para mim.

(Sophia de Mello Breyner Andresen)


Fui procurar-te no nosso sítio de sempre. Não estavas.

Sentei-me e fiquei a olhar o vaivém das ondas, a desfazerem-se em espuma, na areia branca e fina, a meus pés.

Perante tal beleza e ao som do mar que me embalava, a tua ausência não passava de um pormenor sem importância.

Dei por mim a bailar, vestido ao vento, no alto do penhasco.

O que terias feito para dançar comigo nesse dia!?


quarta-feira, agosto 02, 2006

Estar sozinha não é estar só


Deitada no chão de macia caruma
vejo o céu, de um azul tão intenso
que me obriga a semicerrar os olhos,
de quando em vez,
não vá tanta luminosidade
provocar o inusitado brotar de uma lágrima

que, no caso presente, não será de alegria nem de tristeza:
apenas uma lágrima causada pelo excesso de cor.

Gosto de estar aqui, sozinha
porque sei que não estou só.

Quem vive na solidão tende a procurar companhia;
ou então desespera, entra em depressão profunda e chora,

na mais lamentável auto-comiseração.

Quem vive cercado de afectos
procura a solidão, quase inexplicavelmente,
talvez para sentir o prazer de estar a sós consigo,
na certeza de que logo, logo, repousará
na chaiselongue da varanda,
com a cabeça nos joelhos de quem ama,
mãos carinhosas a afagar-lhe o rosto.

terça-feira, agosto 01, 2006

Foz do Tejo, um país

O rio não dialoga senão pela alma
de quem o olha e embebeu a sua alma
de olhares ribeirinhos no passado
ou à flor do pensamento no futuro.

É um país que fala dentro da fronte,
olhando as naus, navios, barcos pesqueiros
e o trilho das famintas aves pintoras
de riscos negros, que perseguem o odor
das redes cheias, as outrossim poéticas
familiares gaivotas. É uma costa inteira
de imagens de gaivotas dentro dos olhos.
São bocas a pensar razões da vida,
gargantas já caladas pela nascença e morte,
quando entre si se vêem ou juntas olham
o mar dos seus próprios dias. São cabeças
velhas de labutar, entre dentes cerrados,
as palavras mudas de um ofício no mar,
antigas de silêncio, como se no esófago
guardassem há muito a sabedoria de ir
enfrentar o mar, transpor o mar, estar.

Tal como um rio o mar só quer falar
pela dor e alegria de alma com que o chama,
há séculos na orla, um povo mudo,
com as palavras presas, guturais sem fôlego,
dentro de si, tão firmes no palato, articuladas
na língua interior. E o mar é quieto ou bravo,
e a alma tensa de uma paixão secreta,
escondida atrás da boca, e sempre aberta,
tal como as pálpebras diante desta água.

Só a alma sabe falar com o mar,
depois de chamar a si o Rio, no imo
de cada um, recordações, de todos
os que cumprem na linha da costa o seu destino.
O de crianças, berços nascidos à beira-mar,
aleitadas por água marinha bebida por rebanhos,
alimentadas por frutos regados pela bruma.
Mesmo quando petroleiros, se olharmos o mar,
passam sem som na glote, para nós mesmos dizemos
que o tempo já findou das caravelas outrora
e dentro do nosso sangue passa o tempo de agora.

Também as vacinas, fenícias áfonas no poema
que as canta, sabem as formas, pelo olhar,
de serem mulheres com peixes à cabeça.
E os pregões que eu calo, revendo-as, eram outra
língua do mar, os nomes com que nos chamam
para o seu modo de levar entre as casas o mar.
Mas as dores não as ecoa o mar, nem mesmo
as de poetas, só as pancadas das palavras
no encéfalo parecem ser voz do mar.

É uma nação única de memórias do mar,
que não responde senão em nós. Glórias, misérias,
que guardámos por detrás do olhar lírico
e da língua, a silabar dentro da boca.
Nunca chamámos o mar nem ele nos chama
mas está-nos no palato como estigma.

Fiama Hasse Pais Brandão