segunda-feira, outubro 09, 2006

Outubro Doce





Outubro chega
com a suavidade

dos tons quentes,

a luminosidadebranda e meiga,




a tranquilidade do mar, feito lago,as ondas serenas,
a temperatura amena.

Em Outubro
procuras-me,
com gestos de amor,
chegas-te a mim com ternura.

Eu enrosco-me,

liquefeita,
aconchego-me ao teu peito,
aninho-me,

com prazer,
na tua doçura.

sexta-feira, outubro 06, 2006

Espelho líquido


Assombro desmedido.

Pura magia?

Esfrego os olhos.
Fechos-os por um instante.

Volto a abri-los.
Deslumbramento.

Será que a natureza teima,
até à exaustão,
imitar a arte?

(Ironicamente, aqui reproduzo "a arte a retratar a natureza a imitar a arte")

domingo, outubro 01, 2006

Final da trilogia México

Aqui termino a trilogia, com a poesia de José Juan Tablada, insigne escritor mexicano, homem do mundo, amante da natureza, apaixonado pelo Japão e autor de muitos dos mais belos haikus escritos em língua estrangeira (que não o Japonês, é claro!)


IDENTIDAD
Lágrimas que vertía
la prostituta negra,
blancas..., ¡como las mías...!
HOJAS SECAS

El jardín esta lleno de hojas secas;
nunca vi tantas hojas en sus árboles
verdes, en primavera.
(lua do Cabo, México)
LA LUNA
Es mar la noche negra;
la nube es una concha;
la luna es una perla...

Ainda o México, com o amor de sempre (II)

[...] Pero amar es también cerrar los ojos,
dejar que el sueño invada nuestro cuerpo
como un río de olvido y de tinieblas,
y navegar sin rumbo, a la deriva:
porque amar es, al fin, una indolencia.

(Xavier Villaurrutia)
En tus ojos hay años de sequía
en tus manos un desierto extenso
por eso te enferma la lluvia
y te duele tanto el agua
(Dante Salgado)


No amo mi Patria. Su fulgor abstracto es inasible. Pero (aunque suene mal) daría la vida por diez lugares suyos, cierta gente, puertos, bosques de pinos, fortalezas, una ciudad deshecha, gris, monstruosa, varias figuras de su historia, montañas (y tres o cuatro ríos).
(José Emilio Pacheco)
Al mar
hay que volver al mar
y ahogarse de verdad
para saber lo que es la vida
(Dante Salgado)

De puerta en puerta,
extiende su mano
y pide su limosna de vida.
A veces ciego,
quizá tullido,
en una lata mete sus rencores.
Busca, llama
de tristeza en tristeza.
(Meztly Vianey Suarez)

quinta-feira, setembro 21, 2006

Do México, com amor


Quién me compra una naranja para mi consolación?
Una naranja madura en forma de corazón.
(José Gorostiza)



Te amo ahí contra el muro destruido
contra la ciudad y contra el sol y contra el viento
contra lo otro que yo amo y se ha quedado
como un guerrero entrampado en los recuerdos
(Homero Aridjis)

Digamos que no tiene comienzo el mar.
Empieza donde lo hallas por vez primera
y te sale al encuentro por todas partes.
(José Emilio Pacheco)


Trópico, para que me diste las manos llenas de color.
Todo lo que yo toque se llenará de sol.
En las tardes sutiles de otras tierras pasaré con mis ruidos de vidrio tornasol.
Déjame un solo instante dejar de ser grito y color.
Déjame un solo instante cambiar de clima el corazón,
beber la penumbra de una costa desierta,
inclinarme en silencio sobre un recóndito balcón,
ahondarme en el manto de pliegues finos,
dispersarme en la orilla de una suave devoción,
acariciar dulcemente las cabelleras lacias
y escribir con un lápiz muy fino mi meditación.
¡Oh, deja de ser un solo instante el Ayudante de Campo del sol!
¡Trópico, para qué me diste las manos llenas de color!
(Carlos Pellicer)

segunda-feira, setembro 18, 2006

Antecipando o Outono


Em antecipação
já sou tronco, ramo e folha envelhecida.

Como paradoxo,
quando estou prestes a caír -
- mais uma folha caduca,
a juntar-se ao quase infindável universo de folhas
do tapete amarelo e vermelho,
cobertura de veredas e caminhos
de todos os parques e jardins -
- sinto que o auge da beleza foi por mim alcançado.

Quem disse que o fim é, obrigatoriamente, feio e triste?

sexta-feira, setembro 15, 2006

...uma chave perdida...


Fotografia de Sandra Farinha*
* para ver mais fotos desta autora, clicar em "Olhar Atento", nos meus links.


A velha porta.
A tua alma.

A vontade de transpor o limiar e descobrir o que a misteriosa barreira encerra.
O desejo de ler os teus pensamentos e conhecer os segredos que, no teu espírito, laboriosamente se escondem de mim.

A certeza de que a chave existe.

Ajuda-me, por favor.
Por onde devo começar a busca?

quinta-feira, setembro 14, 2006

domingo, setembro 10, 2006

Janelas

A propósito das "Janelas" da Maria P., na sua Casa de Maio, com um beijinho:

Júlia Calçada * (Janela - óleo sobre tela) (1)
* para ver mais pinturas da autora clicar em jc, nos meus links
Aurora boreal
Tenho quarenta janelas
nas paredes do meu quarto.
Sem vidros nem bambinelas
posso ver através delas
o mundo em que me reparto.
Por uma entra a luz do Sol,
por outra a luz do luar,
por outra a luz das estrelas que andam no céu a rolar.
Por esta entra a Via Láctea
como um vapor de algodão,
por aquela a luz dos homens,
pela outra a escuridão.
Pela maior entra o espanto,
pela menor a certeza,
pela da frente a beleza
que inunda de canto a canto.
Pela quadrada entra a esperança
de quatro lados iguais,
quatro arestas,
quatro vértices,
quatro pontos cardeais.
Pela redonda entra o sonho,
que as vigias são redondas,
e o sonho afaga e embala
à semelhança das ondas.
Por além entra a tristeza,
por aquela entra a saudade,
e o desejo, e a humildade,
e o silêncio, e a surpresa,
e o amor dos homens, e o tédio,
e o medo, e a melancolia,
e essa fome sem remédio
a que se chama poesia,
e a inocência, e a bondade,
e a dor própria, e a dor alheia,
e a paixão que se incendeia,
e a viuvez, e a piedade,
e o grande pássaro branco,e o grande pássaro negro
que se olham obliquamente,
arrepiados de medo,
todos os risos e choros,
todas as fomes e sedes,
tudo alonga a sua sombra
nas minhas quatro paredes.
Oh janelas do meu quarto,
quem vos pudesse rasgar!
Com tanta janela aberta
falta-me a luz e o ar.
(António Gedeão)
(1) Inspirado numa pintura de Manuel Amado

sábado, setembro 09, 2006

Retrato de Casal



Só para fechar o ciclo:

Predadores na idade mais-que-madura (quando o que resta é ternura, "como dizia o outro"...;))

Retrato do Predador enquanto Fêmea




Em resposta ao desafio do Paulo Cunha Porto, com muito gosto:

Pode ler-se na Wikipédia:

"Esses grandes felinos vivem em bandos, de 5 a 30 indivíduos, sendo os únicos felinos de hábitos gregários. Em um bando, há divisão de tarefas, as fêmeas são encarregadas da caça e do cuidado dos filhotes, enquanto o macho é responsável pela defesa do território.
Apesar de geralmente se considerar que as fêmeas efetuam a maior parte da caça, os machos são igualmente capazes, se não melhores caçadores.

As fêmeas são sociais e caçam de forma cooperativa, enquanto os machos são solitários e gastam boa parte de sua energia patrulhando um extenso território. As fêmeas precisam de um tempo extra para caçar, porque os machos não cuidam dos filhotes. As leoas formam manadas de dois a dezoito animais da mesma família, o que as caracteriza como o único felino realmente social. Apesar de a caça em grupo ser mais eficiente do que a caça individual, sua eficácia não é tão compensadora, já que, em grupo, é preciso obter mais alimento para alimentar a todos. É mais provável que a socialização das fêmeas vise a proteger os filhotes contra os machos."

De momento, parece-me desnecessário acrescentar considerações próprias, embora muito se possa divagar acerca das motivações e comportamentos dos "predadores", dependendo da sua condição masculina ou feminina... ;)

quinta-feira, setembro 07, 2006

Retrato do Predador quando Jovem



Quem não conheceu o predador quando jovem?

Altivo, soberbo, confiante, implacável, não havia presa que lhe resistisse.

Quando saía para as caçadas, com o seu porte garboso, lançava um olhar de desafio aos restantes companheiros e avançava sem medos, com o triunfo antecipado por garantia e a impensada certeza de que iria ser sempre assim. Não se perguntava, sequer, por que razão os mais velhos ficavam para trás, limitando-se a acompanhar o seu afastamento com olhos tristes e cansados.
Conta quem o viu mais tarde que, atingida já a fase do declínio, ficava frequentemente no grupo dos idosos. Era com olhos gastos e melancólicos que assistia à exuberante partida para a caça da nova geração de jovens predadores.
Por vezes seguia-os, de longe. Escondia-se, envergonhado, se algum olhava para trás e o avistava.
Quando alcançava o local do banquete, contentava-se com os restos que os jovens predadores tinham deixado, depois de amplamente saciados.
(Imediatamente antes da chegada das hienas, e com algum avanço sobre os abutres.)

segunda-feira, setembro 04, 2006

Metamorfose

(com um sorriso e uma piscadela de olho à Mnemósine) ;)



Sem mais comentários: estágios diferentes em indivíduos da mesma espécie, numa coexistência pacífica.

sexta-feira, agosto 11, 2006

quinta-feira, agosto 10, 2006

Que por ti perdi


O mar dentro da árvore, as nuvens
dentro da terra sem fim,
a luz. A luz dentro doutra luz
que limitava as mãos e as abria
para outras mãos dentro de um olhar.

Batem na fornalha os ventos.
Um cálice de vidro grosso com o licor
de fermentação caseira. Um prato
com avelãs e nozes e folhas de medronho.
Nas margens as portadas corridas
ganham um halo de candeeiros de rua
que se difunde na fluorescência do televisor,
na palidez rubra das pequenas luzes do rádio.

A última claridade do dia mistura-se
à primeira da noite.
Este vento na auto-estrada onde rebenta a chuva
não me vai forçar o coração; nem estas sebes
ladeadas de cimento suspenderão o voo
do que sou até ao que não és. Mas será
a carícia que no cinto treme, o calor do pescoço
descoberto, os vimes da cadeira donde te levantas
quando estou quase para me sentar.

Entre veios de relva desigual,
valados por cuidar abrigam
máquinas de desolação.
Formações de patos atravessam
o vidro polido do postigo.
O dia bate no jornal pousado
sobre a manta castanha que prende
os joelhos no silêncio de interior.
Outras vezes, as persianas já corridas,
um globo de lona ilumina o livro
na pequena mesa, um arame de flores
pendurado numa trave e o armário
com os objectos de estanho e meditação.

A vida acumulou-se em roldanas ao redor de tudo,
um fumo que sobe durante a noite sobre os mapas
enrolados na parede despida, há tanto nos esquecemos
de os desdobrar, de por eles chegar aos confins
do nosso mundo. E já estamos a desaparecer.


Joaquim Manuel Magalhães