Parágrafo Único: Não se Vive sem Afectos....no jardim para o qual dava a janela do meu quarto de criança havia uma trepadeira que, em cada primavera, me deliciava com os seus perfumados cachos de rosas - sem espinhos.
quinta-feira, novembro 09, 2006
terça-feira, outubro 31, 2006
Memórias de um Bacalhoeiro
Avistá-lo já é um encanto;aproximar-me dele, saber que vou pisar o seu convés e sentir o seu doce baloiçar, uma ansiedade crescente.

Admirar a beleza do leme, reprimir a vontade de lhe tocar: o receio de que os meus dedos, ignorantes dos seus profundos mistérios, profanem, com um simples gesto, a memória intocável dos seus muitos segredos.

Avançar até à proa, guardando secretamente, com mal-contida emoção, a visão quase furtiva da ilha do paraíso.
Deambular por entre os mastros, as cordas, arriscar uma descida pela escada íngreme a que a porta aberta convida.
Partilhar uma aguardente, em amena cavaqueira, com os velhos lobos do mar. Eles sim, com a cabeça repleta de recordações dos tempos em que o amigo bacalhoeiro os transportava a outros mares, outras paragens; aventuras de uma vida que levariam a vida toda a contar.
Deixar a ilha para trás: outras gentes, noutros lugares, esperam a chegada do bacalhoeiro para, também elas, sonharem as memórias do antigo barco de pesca.

Esta é a minha sentida homenagem ao Creoula, e a todos os marinheiros e pescadores que, a bordo deste navio, dedicaram as suas vidas à captura e transporte do bacalhau para alimentar o povo da nossa terra que, como nenhum outro, soube glorificar este peixe e transformá-lo numa iguaria sem par em qualquer outro lugar do planeta.
terça-feira, outubro 17, 2006
às tantas da madrugada...

Quando abri os olhos percorri a sala. Vazia. Já todos tinham recolhido aos quartos há algum tempo, sem dúvida. O televisor continuava ligado. Um daqueles irritantes programas de televendas. Na lareira, um único tronco ainda ardia, labaredas pequeninas, linguetas de fogo que se soltavam de quando em vez, quase imperceptíveis suspiros moribundos. Estendida no sofá, tentei endireitar-me e senti que a prolongada posição de decúbito dorsal, que adoptara nas últimas horas, tinha deixado as suas marcas nas minhas costas, de tão doridas que estavam, e no pescoço, que deu um estalido quando tentei levantar a cabeça.
"Já devem ser umas tantas da madrugada" pensei, ensaiando um bocejo, "ora vamos lá ver se me consigo arrastar escada acima até ao quarto". No completo silêncio da noite só os meus passos se faziam ouvir. Isso e o "clique" dos interruptores, à medida que ia acendendo umas luzes e apagando outras. Finalmente, num estado de semi-sonambulismo, consegui alcançar a tão desejada cama.
Na minha mente confusa, a cena repetiu-se-se e repetiu-se numa rotina sem-sentido, aumentando de velocidade de cada vez que a recordava, na escuridão do quarto. Pouco antes de voltar a adormecer profundamente, já me via como uma personagem de filme do cinema mudo, a fazer todos os gestos a correr e a andar de forma desajeitada. Acabei por adormecer com uma sensação de extremo cansaço, embalada que tinha estado no carrocel de um louco sonho de sessões contínuas.
segunda-feira, outubro 09, 2006
Outubro Doce

Outubro chega
com a suavidade
dos tons quentes,
a luminosidadebranda e meiga,
a tranquilidade do mar, feito lago,as ondas serenas,
a temperatura amena.
procuras-me,com gestos de amor,
chegas-te a mim com ternura.
Eu enrosco-me,
liquefeita,
aconchego-me ao teu peito,
aninho-me,
com prazer,
na tua doçura.


sexta-feira, outubro 06, 2006
Espelho líquido
domingo, outubro 01, 2006
Final da trilogia México
Aqui termino a trilogia, com a poesia de José Juan Tablada, insigne escritor mexicano, homem do mundo, amante da natureza, apaixonado pelo Japão e autor de muitos dos mais belos haikus escritos em língua estrangeira (que não o Japonês, é claro!)
IDENTIDAD
Lágrimas que vertía
la prostituta negra,
blancas..., ¡como las mías...!
HOJAS SECASEl jardín esta lleno de hojas secas;
nunca vi tantas hojas en sus árboles
verdes, en primavera.
(lua do Cabo, México)
LA LUNA
Es mar la noche negra;la nube es una concha;
la luna es una perla...
Ainda o México, com o amor de sempre (II)
dejar que el sueño invada nuestro cuerpo
como un río de olvido y de tinieblas,
y navegar sin rumbo, a la deriva:
porque amar es, al fin, una indolencia.
(Xavier Villaurrutia)
en tus manos un desierto extenso
por eso te enferma la lluvia
y te duele tanto el agua
(Dante Salgado)
No amo mi Patria. Su fulgor abstracto es inasible. Pero (aunque suene mal) daría la vida por diez lugares suyos, cierta gente, puertos, bosques de pinos, fortalezas, una ciudad deshecha, gris, monstruosa, varias figuras de su historia, montañas (y tres o cuatro ríos).
(José Emilio Pacheco)
(Dante Salgado)

De puerta en puerta,
extiende su mano
y pide su limosna de vida.
A veces ciego,
quizá tullido,
en una lata mete sus rencores.
Busca, llama
de tristeza en tristeza.
extiende su mano
y pide su limosna de vida.
A veces ciego,
quizá tullido,
en una lata mete sus rencores.
Busca, llama
de tristeza en tristeza.
(Meztly Vianey Suarez)
quinta-feira, setembro 21, 2006
Do México, com amor

Quién me compra una naranja para mi consolación?
Una naranja madura en forma de corazón.
(José Gorostiza)

Te amo ahí contra el muro destruido
contra la ciudad y contra el sol y contra el viento
contra lo otro que yo amo y se ha quedado
como un guerrero entrampado en los recuerdos
(Homero Aridjis)

Digamos que no tiene comienzo el mar.
Empieza donde lo hallas por vez primera
y te sale al encuentro por todas partes.
(José Emilio Pacheco)

Trópico, para que me diste las manos llenas de color.
Todo lo que yo toque se llenará de sol.
En las tardes sutiles de otras tierras pasaré con mis ruidos de vidrio tornasol.
Déjame un solo instante dejar de ser grito y color.
Déjame un solo instante cambiar de clima el corazón,
beber la penumbra de una costa desierta,
inclinarme en silencio sobre un recóndito balcón,
ahondarme en el manto de pliegues finos,
dispersarme en la orilla de una suave devoción,
acariciar dulcemente las cabelleras lacias
y escribir con un lápiz muy fino mi meditación.
¡Oh, deja de ser un solo instante el Ayudante de Campo del sol!
¡Trópico, para qué me diste las manos llenas de color!
(Carlos Pellicer)
segunda-feira, setembro 18, 2006
Antecipando o Outono

Em antecipação
já sou tronco, ramo e folha envelhecida.
Como paradoxo,
quando estou prestes a caír -
- mais uma folha caduca,
a juntar-se ao quase infindável universo de folhas
do tapete amarelo e vermelho,
cobertura de veredas e caminhos
de todos os parques e jardins -
- sinto que o auge da beleza foi por mim alcançado.
Quem disse que o fim é, obrigatoriamente, feio e triste?
sexta-feira, setembro 15, 2006
...uma chave perdida...
A velha porta.
A tua alma.
A vontade de transpor o limiar e descobrir o que a misteriosa barreira encerra.
O desejo de ler os teus pensamentos e conhecer os segredos que, no teu espírito, laboriosamente se escondem de mim.
A certeza de que a chave existe.
Ajuda-me, por favor.
Por onde devo começar a busca?
A tua alma.
A vontade de transpor o limiar e descobrir o que a misteriosa barreira encerra.
O desejo de ler os teus pensamentos e conhecer os segredos que, no teu espírito, laboriosamente se escondem de mim.
A certeza de que a chave existe.
Ajuda-me, por favor.
Por onde devo começar a busca?
quinta-feira, setembro 14, 2006
dos cavalos
domingo, setembro 10, 2006
Janelas
A propósito das "Janelas" da Maria P., na sua Casa de Maio, com um beijinho:
* para ver mais pinturas da autora clicar em jc, nos meus links
Aurora boreal
Tenho quarenta janelas
nas paredes do meu quarto.
Sem vidros nem bambinelas
posso ver através delas
o mundo em que me reparto.
Por uma entra a luz do Sol,
por outra a luz do luar,
por outra a luz das estrelas que andam no céu a rolar.
Por esta entra a Via Láctea
como um vapor de algodão,
por aquela a luz dos homens,
pela outra a escuridão.
Pela maior entra o espanto,
pela menor a certeza,
pela da frente a beleza
que inunda de canto a canto.
Pela quadrada entra a esperança
de quatro lados iguais,
quatro arestas,
quatro vértices,
quatro pontos cardeais.
Pela redonda entra o sonho,
que as vigias são redondas,
e o sonho afaga e embala
à semelhança das ondas.
Por além entra a tristeza,
por aquela entra a saudade,
e o desejo, e a humildade,
e o silêncio, e a surpresa,
e o amor dos homens, e o tédio,
e o medo, e a melancolia,
e essa fome sem remédio
a que se chama poesia,
e a inocência, e a bondade,
e a dor própria, e a dor alheia,
e a paixão que se incendeia,
e a viuvez, e a piedade,
e o grande pássaro branco,e o grande pássaro negro
que se olham obliquamente,
arrepiados de medo,
todos os risos e choros,
todas as fomes e sedes,
tudo alonga a sua sombra
nas minhas quatro paredes.
Oh janelas do meu quarto,
quem vos pudesse rasgar!
Com tanta janela aberta
falta-me a luz e o ar.
(António Gedeão)
(1) Inspirado numa pintura de Manuel Amado
sábado, setembro 09, 2006
Retrato de Casal
Retrato do Predador enquanto Fêmea
Em resposta ao desafio do Paulo Cunha Porto, com muito gosto:
Pode ler-se na Wikipédia:
"
Esses grandes felinos vivem em bandos, de 5 a 30 indivíduos, sendo os únicos felinos de hábitos gregários. Em um bando, há divisão de tarefas, as fêmeas são encarregadas da caça e do cuidado dos filhotes, enquanto o macho é responsável pela defesa do território.
Apesar de geralmente se considerar que as fêmeas efetuam a maior parte da caça, os machos são igualmente capazes, se não melhores caçadores.
As fêmeas são sociais e caçam de forma cooperativa,
enquanto os machos são solitários e gastam boa parte de sua energia patrulhando um extenso território. As fêmeas precisam de um tempo extra para caçar, porque os machos não cuidam dos filhotes. As leoas formam manadas de dois a dezoito animais da mesma família, o que as caracteriza como o único felino realmente social. Apesar de a caça em grupo ser mais eficiente do que a caça individual, sua eficácia não é tão compensadora, já que, em grupo, é preciso obter mais alimento para alimentar a todos. É mais provável que a socialização das fêmeas vise a proteger os filhotes contra os machos."
enquanto os machos são solitários e gastam boa parte de sua energia patrulhando um extenso território. As fêmeas precisam de um tempo extra para caçar, porque os machos não cuidam dos filhotes. As leoas formam manadas de dois a dezoito animais da mesma família, o que as caracteriza como o único felino realmente social. Apesar de a caça em grupo ser mais eficiente do que a caça individual, sua eficácia não é tão compensadora, já que, em grupo, é preciso obter mais alimento para alimentar a todos. É mais provável que a socialização das fêmeas vise a proteger os filhotes contra os machos."
De momento, parece-me desnecessário acrescentar considerações próprias, embora muito se possa divagar acerca das motivações e comportamentos dos "predadores", dependendo da sua condição masculina ou feminina... ;)
quinta-feira, setembro 07, 2006
Retrato do Predador quando Jovem

Quem não conheceu o predador quando jovem?
Altivo, soberbo, confiante, implacável, não havia presa que lhe resistisse.
Quando saía para as caçadas, com o seu porte garboso, lançava um olhar de desafio aos restantes companheiros e avançava sem medos, com o triunfo antecipado por garantia e a impensada certeza de que iria ser sempre assim. Não se perguntava, sequer, por que razão os mais velhos ficavam para trás, limitando-se a acompanhar o seu afastamento com olhos tristes e cansados.
Conta quem o viu mais tarde que, atingida já a fase do declínio, ficava frequentemente no grupo dos idosos. Era com olhos gastos e melancólicos que assistia à exuberante partida para a caça da nova geração de jovens predadores.
Por vezes seguia-os, de longe. Escondia-se, envergonhado, se algum olhava para trás e o avistava.
Quando alcançava o local do banquete, contentava-se com os restos que os jovens predadores tinham deixado, depois de amplamente saciados.
(Imediatamente antes da chegada das hienas, e com algum avanço sobre os abutres.)
Subscrever:
Mensagens (Atom)








