( Musicalla Lilies - óleo sobre tela de Júlia Calçada )*
Vestia de cetim e usava pérolas.
Gostava de tons pastel.
Ninguém, como ela, entendia a inexcedível ligação entre as flores e a música.
Vivia a maior parte do tempo no palacete da Serra de Sintra: herança de família em avançado estado de degradação, agora completamente restaurado.
De manhã, costumava passear pelo jardim e deixar-se inebriar pelo perfume das muitas flores que o adornavam. Por vezes, voltava para casa com uma braçada de rosas, de lírios, de jarros, de malmequeres. Frequentemente do seu corpo emanava, ao fim da manhã, um subtil aroma a magnólias e rosmaninho e o seu jovem rosto esboçava sorrisos a um tempo ternos e nostálgicos.
À tarde, sentava-se no salão térreo, cujas altas janelas-portadas davam para o imenso parque de altivas e centenárias árvores. Agarrava, então, no violino, e a melodia soltava-se. Do seu espaço privado, baixinho, de início, e depois, em crescendo, os gemidos e choro das cordas acariciadas pelo arco propagavam-se além-jardim, pela encosta da serra, até terem alcançado os ouvidos atentos de alguém que, numa moradia vizinha, mantinha as janelas igualmente abertas de par em par.
A velha cozinheira da avó, a sua ama desde sempre e o fiel jardineiro faziam com que a vida lhe corresse suave, sem sobressaltos: estava sempre tudo a seu contento, como se vivesse completamente só e um exército de anjos invisíveis se ocupasse do seu bem-estar, no Paraíso.
De longe a longe, ausentava-se por uma temporada: refugiava-se na aconchegante água-furtada em Montmartre, onde ainda se encontravam, como que guardiãs do tempo e do espaço de felicidade passada, muitas das telas pintadas pelo falecido marido.
De outras vezes, permanecia por algum tempo na sumptuosa mansão de Kensington High Street, quando lhe chegava um desejo irreprimível de alimentar o espírito e reavivar memórias de teatro, música e exposições.
Mais raramente, viajava até aos States, onde a aguardava, impecavelmente limpo e depurado de vida, o seu apartamento no Upper West Side. Apenas nesse ambiente nova-iorquino se permitia deixar-se deambular e misturar-se, perder-se, no grande carrossel cosmopolita da arte, da cultura e da miséria humana.
Quando voltava ao palacete de Sintra, depois de uma dessas viagens, mantinha-se fechada, durante largos períodos, na sua sala de leitura. Era nessa altura que relia, de forma obsessiva e sem um critério aparente, obras de autores tão díspares quanto Shakespeare, Jean-Jacques Rousseau, Jane Austen, Virginia Woolf, Anais Nin, George Sand, Marguerite Duras, Albert Camus, Jorge Luis Borges, Sándon Marái, José Saramago... lia até à exaustão... até ao dia em que voltava a dar o seu passeio pelo jardim, logo pela manhã e se sentava no salão, à tarde, a tocar violino.
Dizia-se que dos seus belos olhos cinzentos nunca havia brotado uma lágrima, embora espelhassem a melancolia de todos os desgostos do mundo.
Vestia de cetim e usava pérolas.
Gostava de tons pastel.
*para conhecer um pouco da obra da pintora visitar jc