domingo, abril 29, 2007

Blogues que fazem pensar

Os amigos Isabel e José António nomearam, no seu "O caminho do Coração" o meu espaço como um dos que, passo a citar "nos fazem reflectir ou de alguma forma nos inspiram".

Agradeço, sensibilizada, a simpatia desta nomeação e, para não quebrar a corrente, vou nomear outros cinco blogues que, após análise "apurada" ;), concluí serem os que, na realidade mais me fazem pensar.
Convém aqui referir que os espaços que visito assiduamente, e que estão listados do lado direito do meu blogue, se dividem em três grupos:
1. Os blogues do sentir, puro e duro, que vão direitinhos ao meu lado mais emocional e nos quais posso ficar, por tempo indeterminado, a deixar fluir o prazer do sentimento;
2. Os blogues do sentir e pensar, que frequentemente conseguem estabelecer, na minha cabeça, um equilíbrio razoável entre o sentimento e o pensamento mas que, por vezes, após uma luta titânica, acabam por me deixar ainda mais perdida entre a emoção e a razão;
3. Os blogues do pensar, que têm atalho imediato para o domínio do cognitivo e que são, de facto, os que mais trabalho dão a este pobre cérebro, geralmente tão inapto para reflexões filosóficas, metafísicas e outras que tais...
Assim sendo, é de entre os grupos 2. e 3. que vou nomear os meus cinco favoritos (no género, obviamente) que optarão, consoante o seu desejo ou convicções, por dar continuidade à corrente ou quebrá-la.
Aceitei o desafio e arrisco nomear-vos. Se decidirem "alinhar", por favor copiem o selo do "pensador" e avancem com as vossas cinco nomeações.
Então aqui vão, por ordem alfabética:
Obrigada e continuem a dar-me "muito que pensar".

terça-feira, abril 24, 2007

Escrito na pedra (ou na água?)


Estavam sentados na esplanada do costume, junto à falésia, à beira-mar. Há longos minutos que ela olhava o o horizonte, sem uma palavra. Ele olhava-a, como se nada mais existisse para além da presença dela, a seu lado. Ela sentia o seu olhar fixo no rosto, no corpo, mas o facto não a incomodava. Naquele momento, o silêncio, a inexistência de troca de palavras entre ambos era o que realmente importava.
A empregada passou e a mulher pediu mais um whisky, sem gelo. O homem, num gesto de solidariedade, pediu mais uma água, sem gás.
Estiveram assim muito tempo.
A dada altura ela disse "deve estar a interrogar-se sobre o que vai na minha mente. Gostaria de o poder adivinhar, não?"
"Precisamente", respondeu o homem.
"Pois bem, tenho estado ocupada com pensamentos acerca dos meus afectos: os pais, os irmãos, os amigos, as memórias dos namorados, amantes e maridos e os filhos, claro. Acima de tudo, a ausência dos meus filhos ocupa-me muito tempo, preocupa-me, perturba-me".
"Compreendo, embora não saiba o que isso é. Sou filho único, como sabe, os meus pais já partiram há muito, nunca casei e não tenho filhos, mas..." aqui deteve-se abruptamente. A mulher olhou para ele e deparou-se com a expressão aterrorizada de quem está à beira de um precipício, a quem basta um minúsculo passo para se atirar.
"Mas...?" insistiu ela, com determinação.
"Mas acho que sou capaz de entender o que sente. Além do mais, há as personagens dos seus romances e argumentos, não é?"
"Ah, sim, essas, a quem dei vida e para quem fui construindo um mundo. Tornaram-se exigentes, ganharam vida própria e agora são elas que me levam a reescrever, das mais variadas formas, a mesma história de sempre."
"Deve ser cansativo".
"Sim, por vezes fico exausta. Como já deve ter reparado, para aguentar a pressão, cada vez bebo mais e - disto não sabe - passo noites inteiras a escrever".
"Os homens gostam das mulheres que escrevem...", murmurou ele.
"Sim, a Marguerite Duras afirmava-o e acrescentava: ...mesmo que não o admitam. Uma escritora é um país estrangeiro."
"Eu amo-a". Disse ele, de rompante, quase num sussurro.
A mulher não deu mostras de ter ouvido aquela confissão inesperada e surpreendente.
Já que tinha dado o tal passo e estava a deixar-se escorregar pelo abismo, o homem continuou, com eloquência e num tom de voz um pouco mais alto "Não imagina a vontade que sinto de agarrar as suas mãos entre as minhas e apertá-las, com força, de encostar o rosto ao seu cabelo e sentir-lhe o aroma, de lhe afagar o rosto, beijar os olhos, o pescoço, a boca. Não faz ideia de como a desejo... de como sonho, noite após noite, que estamos a fazer amor."
"É provável que eu também o ame", respondeu a mulher, com frieza, o olhar novamente fixo no mar.
"Como assim?" perguntou ele, perplexo, "o amor é apenas uma probabilidade?"
"Agora é a minha vez de citar a Marguerite Duras: Donde pode nascer o amor? Talvez de uma súbita falha do universo, talvez de um erro, nunca de um acto de vontade."
"Acredita realmente nisso?"
"Talvez... mas deixemos a Marguerite Duras com os seus axiomas, que são óptimos de utilizar quando não sabemos o que dizer ou não queremos aprofundar as nossas próprias verdades. E para quê o recurso a um arquétipo? O mesmo de sempre, afinal. Eu não sou ela, não sou nem nunca serei alcoólica, nunca amei como ela o fez e jamais escreverei como só ela sabia escrever".
Ele ajeitou-se na cadeira, um pouco incomodado com o rumo que a conversa estava a tomar.
Ela aproveitou o ensejo, levantou-se e fez sinal à empregada para trazer a conta. De seguida, em tom suave, como se tivessem somente passado mais uma das muitas tardes calmas à beira-mar, disse ao homem que havia acabado de lhe fazer uma declaração de amor, "Vamos andando? Está a levantar-se uma brisa fresca".
Contas feitas, e já a saír do café, ainda lhe confidenciou "tenho lá em casa uma garrafa de whisky irlandês por abrir e espera-me uma longa noite de escrita".

sábado, abril 21, 2007

Quando os "sentires" (quase) podem ser gémeos


A minha amiga Maria, homónima, vizinha e cúmplice no(s) sentir(es), tem no seu Cheiro da Ilha uma lindíssima imagem que, mais uma vez, me dá que pensar, de tão sentimentalmente geminada com esta, captada pela objectiva do meu pescador. Ambas tiradas de dentro para fora, em espaços igualmente amados por ambas. No caso da sua, "Sentidos", estamos na Ilha da Berlenga, no interior de uma gruta, e vemos , através do arco esculpido pela natureza, o Forte de S. João Baptista, um barco e o mar... esse nosso eterno apaixonado e elemento desencadeador de paixões outras...

Nesta, estamos do lado de dentro da Fortaleza de S. Pedro em Peniche, na prainha do mesmo nome e, através de um arco esculpido pelo homem, vislumbramos, do lado de lá, um outro barco e o mesmo mar, imenso e profundo... esse nosso eterno apaixonado e elemento desencadeador de paixões outras...

Gloriosas coincidências!

terça-feira, abril 10, 2007

A quarta Arte

"Les Trois Arts" - óleo sobre tela de Júlia Calçada

Meus amigos,
Quero deixar-vos aqui um duplo convite: em primeiro lugar, que não deixem de visitar o blog jc, onde encontrarão uma série de pinturas magníficas dedicada por esta autora à arte do bailado; de seguida, e porque através deste seu quadro estamos perante três artes, lanço aqui um repto para que, inspirados numa, ou no conjunto das obras, dêem largas à vossa expressão artística por excelência, a escrita e, desta forma, contemplem aquela que, apenas por surgir sequencialmente às que a pintora nos enuncia, designo de quarta arte.
Como é natural, não resisto a responder, de imediato, ao desafio que acabo de lançar. Se tiverem curiosidade, vejam o post abaixo, "The Show is Over".
Ansiosa por ler os vossos escritos, digo-vos "até logo" com um grande abraço.

The Show is Over

Júlia Calçada - óleo sobre tela (2007)


Mais uma noite de glória que chegou ao fim. A “primeira” bailarina voltou a demonstrar que continuava a merecer, por inteiro, o destaque no corpo de bailado. O público, delirante, aplaudiu-a de pé durante largos minutos enquanto uma chuva de ramos de flores ia adornando o palco, à sua volta, e o som de “bravo” soava dos vários cantos da sala. O sonho da Margarida, menina, não poderia ter-se concretizado de forma mais absoluta.Tinha atingido o topo, excedidas que estavam as suas próprias expectativas. Dir-se-ia que não tinha senão razões para se sentir feliz.

Já a Margarida, mulher, dava por si claramente possuída de uma tristeza inexplicável. Agora que o espectáculo tinha acabado, ia voltar para casa onde, à sua espera, tinha a solidão. Depois de uns afagos ao gato, que sempre celebrava a sua entrada com visível prazer, iria beber um copo de leite morno e repousar o corpo no leito, demasiado espaçoso, demasiado vazio. O pensamento, esse manter-se-ia activo por tempo indefinido. Depois, viriam os sonhos, os que não controlava, os que lhe mostravam, como num espelho, de forma repetida e obsessiva, uma mulher igual a ela. Ao lado dessa Margarida, que ocupava o lado errado da cama, havia um homem. Conseguia ouvir a sua respiração e sentir-lhe o calor, de tão próximos que estavam. Não se tocavam e, na quase obscuridade do quarto, não conseguia distinguir os traços do rosto daquele cuja compleição física adivinhava perfeita.

Sete horas. O despertador voltava a acordá-la quando, no sonho, se preparava para acender a luz e ver, finalmente, o companheiro de mais uma noite. Ao correr para o chuveiro ainda olhava, de soslaio, para a cama, agora um espaço deserto. No teatro, esperava-a mais um dia de exaustivos ensaios, sem intervalos para outra actividade que não fosse a resposta às suas necessidades básicas de ser humano, e à noite... à noite voltaria a ser a rainha, a mais amada, admirada e invejada bailarina à face da Terra.

quarta-feira, março 28, 2007

As penas duma gaivota


Gaivota que alegre voas
e um canto às ondas entoas
quando nelas vais poisar.
Cuidado com a densa bruma,
num mar revolto, de espuma,
podes ir e não voltar.

Tu passas rasando as águas
sem saber se existem mágoas,
se alguém tem penas ou não...
quando uma pena te cai,
com ela tudo se esvai
vendo-a perdida no chão.

Não te amargures assim tanto,
logo outra vem, entretanto
volta alegre ao teu abrigo.
Pudesse eu não ter nenhuma,
perder todas, uma a uma,
todas que trago comigo.

Somos diferentes as duas:
tu quando perdes as tuas
é de mágoa o teu sentir;
enquanto eu, silenciosa,
ando no mundo ansiosa
por ver as minhas cair.

poema da autoria de Maria Teodora - 1999

terça-feira, março 20, 2007

Livre

" ...livre... " fotografia de Sandra - Olhar Atento


livre

como a pomba que esvoaça
como o ribeiro que corre
como o vento que assobia

livre

como uma nuvem que passa
como um deus que nunca morre
como uma mente vazia

livre

não ter venda nem mordaça
subir ao alto da torre
ver nascer o sol e o dia


sexta-feira, março 16, 2007

Le Navire Nigth, um "filme falhado" de Marguerite Duras

"Le Navire Night", de Marguerite Duras
Copyright: Jean Mascolo
Chaque nuit à Paris, des centaines d’hommes et de femmes utilisent l’anonymat de lignes téléphoniques non attribuées qui datent de l’occupation allemande, pour se parler, s’aimer. Ces gens, ces naufragés de l’amour, du désir, se meurent d’aimer, de sortir du gouffre de la solitude.
"A pessoa que se desvela no abismo não se reclama de nenhuma identidade. Não se reclama senão disso, de ser semelhante. Semelhante àquele que lhe responderá. A todos. Há uma desobstrução fabulosa que se opera a partir do momento em que se ousa falar, ou antes a partir do momento em que aí se chega. Porque a partir do momento em que chamamos, tornamo-nos, somos já semelhantes. A quem? A quê? Àquilo de que nada sabemos. E é tornando-nos semelhantes que deixamos o deserto, a sociedade. Escrever é ser ninguém. "Estar morto", dizia Thomas Mann. Quando escrevemos, quando chamamos, somos já semelhantes. Tentemos. Tentemos quando estamos sós no nosso quarto, livres, sem qualquer controlo do exterior, chamar ou responder por cima do abismo. Misturar-nos à vertigem, à maré imensa dos apelos. Essa primeira palavra, esse primeiro grito, não sabemos gritá-lo. É a mesma coisa que chamar por Deus. É impossível. E faz-se".
M.D.

sábado, fevereiro 24, 2007

Noite



Caíu a noite.
Senti-me só.

Acendi a lareira.

Fenómeno curioso,
como que por encanto
as labaredas bailavam, bailavam
e a minha angústia e esta dor no peito
foram juntar-se a elas.

Tempo depois...

Aparecem as cinzas.
O calor e a luz esvaem-se
e eu, fico triste outra vez.

A fogueira,
para se manter alegre, com luz,
cor, vida,
necessita de alimento, tal qual o meu ser.

Levanto-me,
Lanço mais lenha
na fogueira.

Novamente
o calor inunda o meu corpo
e a minha alma renasce.
Noémia Carvalhosa
"Ciclo Vicioso - a fogueira e eu "
(Ponte do Arco)


quarta-feira, fevereiro 21, 2007

A Obra (Ponte do Arco)



A casa. A casa térrea, extensa, com inúmeras janelas e portas. A casa, pintada de branco, com a tradicional risca azul que se estende aos muros envolventes, marca de um passado de aristocracia rural, orgulhosamente decadente. A buganvília, linda de se ver, em qualquer estação do ano, logo à entrada do pequeno portão.
O sótão, enorme e misterioso, repleto de arcas, caixas e instrumentos de cultivo antigos, autênticas peças de museu. A entrada para a antiga garrafeira, na cave, com outra entrada interior através de um alçapão na sala-de-jantar. A casa-do-forno, onde muito pão e bolos foram cozidos, ao longo de gerações. O jardim, criteriosamente tratado, com as suas áreas delimitadas: rosas, de todas as espécies e cores, aqui, malmequeres, brancos, e amarelos, do outro lado, goivos e petúnias num canteiro central, amores-perfeitos um pouco por todo o lado, bem ao gosto da minha mãe, e as imprescindíveis sardinheiras a sublinhar o pátio, a que chamamos "passeio", mas que mais não é que um espaço de calçada, com cerca de 3 metros de largura, a todo o comprimento da casa, entre a frente da mesma e o jardim. O pomar, diversificado por espécies e esteticamente definido, em termos da cor e do perfume das flores na primavera, e dos frutos, no verão. A adega, onde ainda se pisavam as uvas no lagar quando eu era miúda e me deixava inebriar pelo forte aroma do mosto. O poço sem fundo. Nascente inesgotável: quanto mais água se tirava mais aparecia, horas depois, nunca tendo sido possível, nem com a ajuda dos bombeiros, esvaziá-lo completamente, para limpeza. O tanque que, à falta de melhor, serviu muitas e muitas vezes de piscina. O rio a separar a quinta em duas. A vinha do lado de lá, com cinco escassos metros de ponte de madeira a separá-la do lado de cá. No topo da vinha, que ficava na colina, o muro que a separa da estrada romana que, sendo um dos caminhos que certamente nos levaria a Roma, tomávamos para dar um passseio até ao antigo Convento, com a sua Igreja e Cemitério.
O calor dentro da casa, no Inverno.
A casa fresca e arejada no Verão.
O perfume das flores, das ervas, da fruta nas árvores.
A cor do campo, da terra, do céu. O som da água a correr, no riacho. Os choupos, altos e esguios, a acompanhar o curso do ribeiro.

Aquela casa já tinha, de fonte segura, para mais de um século quando eu nasci.


Apesar de a designação oficial da propriedade ser "Quinta da Ponte do Arco", a fazer jus ao belo arco romano sobre o qual a estrada fora construída, sempre lhe chamaram "A Obra".
Conta-se na família que, à data da construção das primeiras linhas de caminho de ferro estava previsto que o comboio passasse exactamente a meio do que viria a ser o jardim. A casa, essa teria sido inicialmente concebida para armazém dos produtos colhidos da terra que seriam transportados para consumo noutros destinos.

Imagina-se que a obra, por qualquer razão que desconheço, tenha estado embargada durante tempo suficiente para que o local viesse a merecer essa designação alternativa. Há mesmo quem, ainda hoje, lhe chame "Quinta da Obra". A realidade é que a linha foi desviada para uns 15 Kms a Oeste e o comboio nunca se fez ouvir naquelas paragens.

O meu trisavô materno, proprietário do local, decidiu então dar-lhe outro fim. Já que tinha a filha primogénita casadoira e o vale era aprazível, transformou o projecto de armazém numa casa de habitação e ofereceu-a aos jovens nubentes.

Na casa nasceram, viveram e morreram pessoas que deixaram um grande vazio em mim, quando partiram. Desde a minha bisavó, Mafalda, (há muitos anos viúva do bisavô Luís Filipe), ao meu avô Francisco e, por opção sua, também o meu jovem marido escolheu, há quase doze anos, aquela casa para viver os seus últimos dias. Era um sítio alegre, dizia ele, e à sombra da ameixeira, na companhia das sardinheiras, multicoloridas, o seu sofrimento era minorado, permitindo-lhe assim fruir, com algum prazer, o tempo que se lhe ia esgotando para estar com os seus.

Memórias.


Muitas memórias felizes da infância, (como a de tantas infâncias, infelizmente não de todas) das brincadeiras e risadas que os meus irmãos e eu soltávamos, a andar de triciclo, a jogar à bola ou a fazer piqueniques (irónico, não é? vivíamos no campo e íamos fazer piqueniques para o pinhal ou mesmo para o meio do pomar, como se tivéssemos acabado de chegar da cidade e sentíssemos uma necessidade premente de um contacto directo e estreito com a natureza - naquele espaço tão nosso, tão de dentro de nós, tão pleno de nós em todos os seus recantos).



Memórias dos meus pais, ainda enquanto casal, a viver uma vida aparentente feliz com a sua prole. Talvez o tenham sido... naquele tempo! Certo é que, se o não eram, nem por isso deixavam transbordar uma gota de azedume à nossa frente e, olhando agora para trás, seria, de todo, impensável que existisse alguma transferência de desamor para as três crianças que através da sua união tinham vindo ao mundo.



Memórias de nós, mais tarde, com os próprios filhos, a partilharmos, com um prazer inenarrável, aquele lugar. A revermo-nos nas crianças que agora subiam às árvores, tomavam banho no tanque e arreliavam a avó passando com a bicicleta exactamente por cima do tufo de lírios.

À noite, após o jantar na grande mesa da sala onde cabia a família inteira, mais os inseparáveis companheiros de fim-de-semana, verdadeiros amigos nos bons e nos maus momentos, passávamos ao salão onde se fazia de tudo um pouco. Havia os que jogavam cartas, os que liam, os que viam televisão e os que simplesmente conversavam, junto à lareira. Todos, sem excepção, desfrutando o aconchego do lar. Aquilo sim, era a Obra. A "nossa" Obra.

Continua a ser a nossa Ponte do Arco e, possívelmente, virá a ser a dos nossos netos e bisnetos porque uma obra assim não pode ser destruída. Cada nesga da casa, do jardim, guarda miríades de recordações, todas tão caras a cada um de nós, a família da Obra.




É com gosto genuíno que digo a quem
apresento a casa: foi aqui que eu nasci, exactamente neste quarto, que era o dos meus pais na altura, e passou a ser o meu, por direito consuetudinário ou por um simples acaso. Pouco importa.

Apesar da incomensurável angústia que neste espaço foi, de igual modo, vivida, aquando da partida do meu marido para a sua derradeira morada, no jazigo de família a uns escassos 500 metros da casa, posso falar de tudo isto sem tristeza. A vida é feita desta manta de retalhos, tal qual as lindas colchas de "patchwork" que a minha mãe fazia. É bom lembrar os tempos felizes, mas também não faz mal recordar os menos venturosos. Há, até, uma dor suave e terna nesta mescla de sentimentos.


Sou uma pessoa de lugares.


Quero aos lugares da minha vida como se de entes queridos se tratassem. E na minha vida tem havido espaço para tantos lugares... todos tão amados.


Talvez porque foi no mês de Fevereiro que, há cinquenta anos, naquele local de afecto, se fez ouvir o meu primeiro choro, hoje foi o dia da Casa. Da Obra. Da Ponte do Arco.




sábado, fevereiro 17, 2007

Entardecer


Hoje acordei como o dia...

sem sol,
sem cor,
sem luz,
sem brilho,
sem calor.

Há, no entanto, uma "Paz"
na Natureza e dentro de mim.

Quase inércia,
quase melancolia,
quase abandono,
quase apatia.

Posso concluir que eu
e a Natureza
estamos em dia "não" (confortante!...)

Queremos estar em Paz.

Nem vento forte,
nem chuva torrencial,
nem maré viva,
nem sol escaldante.

Calmamente saborear a Vida...

Hoje assim...

Amanhã, outro dia...


Noémia Carvalhosa
(Ponte do Arco)

quinta-feira, janeiro 25, 2007

Cumplicidade improvável


"Pondo a Conversa... à Chuva" - fotografia de Myself (Luz Acesa)

Não era vulgar encontrarem-se. Os Woolf nunca saíam de Inglaterra e os Fitzgerald, esses viajavam muito entre os Estados Unidos e a Europa, embora no velho Continente os seus locais de permanência mais frequentes fossem Paris e a Riviera Francesa. Também íam a Roma de quando em vez.

Quis o acaso que, naquele inverno de 1931, F. Scott Fitzgerald se tivesse deslocado à Grã-Bretanha, deixando Zelda, por uns dias, sozinha no Sanatório, na Suíça, para tratamento de uma das suas crises psicóticas.

Leonard Woolf era um homem reservado e raramente falava da doença de Virginia, que tanto o afligia. Naquele dia encontrava-se particularmente apoquentado pelo estado de exaustão a que a esposa tinha chegado na sequência de ter terminado o seu romance "As Ondas". Dirigia-se para Londres para, precisamente, conversar com o médico sobre a bipolaridade de que a sua mulher padecia e para com ele trocar impressões sobre a evidência dos sintomas de um estado confucional extremo.

Foi debaixo de uma irritante chuva miudinha que os dois maridos angustiados se cruzaram e, tendo-se reconhecido, para ali ficaram, horas a fio, debaixo do mesmo chapéu, a comparar a miséria em que os amores das suas vidas haviam tornado os seus quotidianos.

Já completamente ensopados, concordaram "A genialidade tem um preço" ... "e o verdadeiro amor também pode ter", concluíram. "Quando juntamos os dois..." disseram em uníssono, com um sorriso amargo.

"Adeus Leonard, as melhoras da Virginia".

"Fica bem Scott, e que a Zelda recupere em breve".

Separaram-se com um abraço e seguiram caminhos opostos. Apesar de molhados e tristes, ficou no espírito de ambos um doce sentimento de consolo, por terem exposto e compartilhado a dor, falado dos desgostos e preocupações, confessado abertamente as suas paixões desmedidas pelas mulheres fabulosas a quem haviam dedicado as suas existências, mau-grado o sofrimento causado pelos desequilíbrios emocionais com os quais se haviam habituado a conviver (e que viriam a vitimá-las!).

terça-feira, janeiro 23, 2007

Observando...


Como um réptil
observando a presa
sigo os teus passos,
ouço os teus suspiros,
permaneço acordada a teu lado,
tentando adivinhar os fantasmas
que te povoam o sono.
Receio perder-te de vista
por um momento que seja
e ter-te perdido para sempre.
Cansei-me de ficar sem gente,
sozinha, sem o afecto de tantos
amigos, parentes, amores.
Camaleão serei, se preciso for,
se assim evitar que escapes
(pelo orifício invisível
que existe na tua mente)
para o outro lado
da rua,
do espelho,
da vida
e nunca mais te encontrar.

terça-feira, janeiro 16, 2007

Fragilidades


Fragilidade (1)

Este verso, apenas um arabesco
em torno do elemento essencial - inatingível.
Fogem nuvens de verão, passam ares, navios, ondas,
e teu rosto é quase um espelho onde brinca o incerto movimento,
ai! já brincou, e tudo se fez imóvel, quantidades e quantidades
de sono se depositam sobre a terra esfacelada.
Não mais o desejo de explicar, e múltiplas palavras em feixe
subindo, e o espírito que escolhe, o olho que visita, a música
feita de depurações e depurações, a delicada modelagem
de um cristal de mil suspiros límpidos e frígidos: não mais
que um arabesco, apenas um arabesco
abraça as coisas, sem reduzi-las.

(Carlos Drummond de Andrade)




Fragilidade (2)

O teu rosto frágil,
a serenidade dos teus gestos,
a tranquilidade do lago azul dos teus olhos...

...e, no entanto meu amor,
que turbilhão de emoções rodopia no teu íntimo?

Pudesse eu penetrar, de alguma forma,
a matéria de que são feitas as tuas inquietudes e sobressaltos!...

Soubesse eu interpretar a subtileza dos teus sinais
esparsos,
contidos,
resguardados!...

(Maria Carvalhosa)

quarta-feira, janeiro 03, 2007

Musicalla Lilies


( Musicalla Lilies - óleo sobre tela de Júlia Calçada )*

Vestia de cetim e usava pérolas.

Gostava de tons pastel.

Ninguém, como ela, entendia a inexcedível ligação entre as flores e a música.
Vivia a maior parte do tempo no palacete da Serra de Sintra: herança de família em avançado estado de degradação, agora completamente restaurado.

De manhã, costumava passear pelo jardim e deixar-se inebriar pelo perfume das muitas flores que o adornavam. Por vezes, voltava para casa com uma braçada de rosas, de lírios, de jarros, de malmequeres. Frequentemente do seu corpo emanava, ao fim da manhã, um subtil aroma a magnólias e rosmaninho e o seu jovem rosto esboçava sorrisos a um tempo ternos e nostálgicos.

À tarde, sentava-se no salão térreo, cujas altas janelas-portadas davam para o imenso parque de altivas e centenárias árvores. Agarrava, então, no violino, e a melodia soltava-se. Do seu espaço privado, baixinho, de início, e depois, em crescendo, os gemidos e choro das cordas acariciadas pelo arco propagavam-se além-jardim, pela encosta da serra, até terem alcançado os ouvidos atentos de alguém que, numa moradia vizinha, mantinha as janelas igualmente abertas de par em par.

A velha cozinheira da avó, a sua ama desde sempre e o fiel jardineiro faziam com que a vida lhe corresse suave, sem sobressaltos: estava sempre tudo a seu contento, como se vivesse completamente só e um exército de anjos invisíveis se ocupasse do seu bem-estar, no Paraíso.
De longe a longe, ausentava-se por uma temporada: refugiava-se na aconchegante água-furtada em Montmartre, onde ainda se encontravam, como que guardiãs do tempo e do espaço de felicidade passada, muitas das telas pintadas pelo falecido marido.

De outras vezes, permanecia por algum tempo na sumptuosa mansão de Kensington High Street, quando lhe chegava um desejo irreprimível de alimentar o espírito e reavivar memórias de teatro, música e exposições.

Mais raramente, viajava até aos States, onde a aguardava, impecavelmente limpo e depurado de vida, o seu apartamento no Upper West Side. Apenas nesse ambiente nova-iorquino se permitia deixar-se deambular e misturar-se, perder-se, no grande carrossel cosmopolita da arte, da cultura e da miséria humana.

Quando voltava ao palacete de Sintra, depois de uma dessas viagens, mantinha-se fechada, durante largos períodos, na sua sala de leitura. Era nessa altura que relia, de forma obsessiva e sem um critério aparente, obras de autores tão díspares quanto Shakespeare, Jean-Jacques Rousseau, Jane Austen, Virginia Woolf, Anais Nin, George Sand, Marguerite Duras, Albert Camus, Jorge Luis Borges, Sándon Marái, José Saramago... lia até à exaustão... até ao dia em que voltava a dar o seu passeio pelo jardim, logo pela manhã e se sentava no salão, à tarde, a tocar violino.

Dizia-se que dos seus belos olhos cinzentos nunca havia brotado uma lágrima, embora espelhassem a melancolia de todos os desgostos do mundo.
Vestia de cetim e usava pérolas.
Gostava de tons pastel.


*para conhecer um pouco da obra da pintora visitar jc