Estavam sentados na esplanada do costume, junto à falésia, à beira-mar. Há longos minutos que ela olhava o o horizonte, sem uma palavra. Ele olhava-a, como se nada mais existisse para além da presença dela, a seu lado. Ela sentia o seu olhar fixo no rosto, no corpo, mas o facto não a incomodava. Naquele momento, o silêncio, a inexistência de troca de palavras entre ambos era o que realmente importava.
A empregada passou e a mulher pediu mais um whisky, sem gelo. O homem, num gesto de solidariedade, pediu mais uma água, sem gás.
Estiveram assim muito tempo.
A dada altura ela disse "deve estar a interrogar-se sobre o que vai na minha mente. Gostaria de o poder adivinhar, não?"
"Precisamente", respondeu o homem.
"Pois bem, tenho estado ocupada com pensamentos acerca dos meus afectos: os pais, os irmãos, os amigos, as memórias dos namorados, amantes e maridos e os filhos, claro. Acima de tudo, a ausência dos meus filhos ocupa-me muito tempo, preocupa-me, perturba-me".
"Compreendo, embora não saiba o que isso é. Sou filho único, como sabe, os meus pais já partiram há muito, nunca casei e não tenho filhos, mas..." aqui deteve-se abruptamente. A mulher olhou para ele e deparou-se com a expressão aterrorizada de quem está à beira de um precipício, a quem basta um minúsculo passo para se atirar.
"Mas...?" insistiu ela, com determinação.
"Mas acho que sou capaz de entender o que sente. Além do mais, há as personagens dos seus romances e argumentos, não é?"
"Ah, sim, essas, a quem dei vida e para quem fui construindo um mundo. Tornaram-se exigentes, ganharam vida própria e agora são elas que me levam a reescrever, das mais variadas formas, a mesma história de sempre."
"Deve ser cansativo".
"Sim, por vezes fico exausta. Como já deve ter reparado, para aguentar a pressão, cada vez bebo mais e - disto não sabe - passo noites inteiras a escrever".
"Os homens gostam das mulheres que escrevem...", murmurou ele.
"Sim, a Marguerite Duras afirmava-o e acrescentava: ...mesmo que não o admitam. Uma escritora é um país estrangeiro."
"Eu amo-a". Disse ele, de rompante, quase num sussurro.
A mulher não deu mostras de ter ouvido aquela confissão inesperada e surpreendente.
Já que tinha dado o tal passo e estava a deixar-se escorregar pelo abismo, o homem continuou, com eloquência e num tom de voz um pouco mais alto "Não imagina a vontade que sinto de agarrar as suas mãos entre as minhas e apertá-las, com força, de encostar o rosto ao seu cabelo e sentir-lhe o aroma, de lhe afagar o rosto, beijar os olhos, o pescoço, a boca. Não faz ideia de como a desejo... de como sonho, noite após noite, que estamos a fazer amor."
"É provável que eu também o ame", respondeu a mulher, com frieza, o olhar novamente fixo no mar.
"Como assim?" perguntou ele, perplexo, "o amor é apenas uma probabilidade?"
"Agora é a minha vez de citar a Marguerite Duras: Donde pode nascer o amor? Talvez de uma súbita falha do universo, talvez de um erro, nunca de um acto de vontade."
"Acredita realmente nisso?"
"Talvez... mas deixemos a Marguerite Duras com os seus axiomas, que são óptimos de utilizar quando não sabemos o que dizer ou não queremos aprofundar as nossas próprias verdades. E para quê o recurso a um arquétipo? O mesmo de sempre, afinal. Eu não sou ela, não sou nem nunca serei alcoólica, nunca amei como ela o fez e jamais escreverei como só ela sabia escrever".
Ele ajeitou-se na cadeira, um pouco incomodado com o rumo que a conversa estava a tomar.
Ela aproveitou o ensejo, levantou-se e fez sinal à empregada para trazer a conta. De seguida, em tom suave, como se tivessem somente passado mais uma das muitas tardes calmas à beira-mar, disse ao homem que havia acabado de lhe fazer uma declaração de amor, "Vamos andando? Está a levantar-se uma brisa fresca".
Contas feitas, e já a saír do café, ainda lhe confidenciou "tenho lá em casa uma garrafa de whisky irlandês por abrir e espera-me uma longa noite de escrita".