domingo, junho 03, 2007

Calhaus rolados pelo mar

Fotografia de António Rodrigues

Pedras amontoadas no areal. Atiradas pelo mar com desprezo. Para ali deixadas até que a próxima maré-viva as restitua ao chão de água. Enquanto isso, para ali ficam, abandonadas à mercê da chuva e do sol, à curiosidade de quem passa e pega numa, para levar para casa. Porque a achou bonita. Porque vai ser a recordação daquele dia que, por uma qualquer razão, que não importa, não foi como o anterior nem será como o seguinte, para aquela pessoa, que não interessa quem possa ser...
...Tal como a pedra: uma, apenas uma, entre tantas.

sábado, maio 26, 2007

Saber Amar

Les Orangers, de Caillebotte

Ah! Como é bom saber amar alguém,
ter dentro de si aquele amor ardente,
amar com todo ardor que a alma consente
sem temer ser loucura, mal... ou bem.

Mas há quem se iluda, quem diga que ama...
frouxa luz de candeia que se apaga,
simples amor que esvoaça, que divaga,
deixa morrer no coração a chama.

Amor é tudo o que se dá feito ternura,
é ficar preso d'alguém sem amargura,
sem se sentir como ave em cativeiro.

É o encontro de paixões iguais... sentidas;
depois, duas almas numa só unidas,
duas vidas que se entregam por inteiro.

Maria Teodora (2006)

quarta-feira, maio 23, 2007

O dia da partida

(*)

No dia em que partiste deambulei, como um fantasma, pela cidade. Fui até ao porto, mas não procurei abrigo em nenhum dos barcos que ali estavam atracados. Na fortaleza, desci até às celas da cave. Detive-me um pouco por lá, ouvindo o som das ondas a embater na parede exterior. Um forte cheiro a humidade tornou a minha permanência desconfortável e voltei para o ar livre, de onde espreitei o mar por entre uma ameia da muralha. Estava agitado e escuro, como que a prever um temporal. O coração apertou-se-me ainda mais. Porquê partir num dia de eminente borrasca? Poderiam ter esperado que a tempestade passasse... ou não? Será que no alto-mar as águas estavam calmas e era só ali, à volta da Península, que o tempo instável se fazia sentir? A minha ignorância sobre a matéria fazia, sem dúvida, que os medos me povoassem o espírito. Afinal, os marinheiros e pescadores não iriam aventurar-se à toa. Eles sim, eles melhor que ninguém, conheciam as idiossincrasias do mar que tratavam por tu.
Deixei-me perder nas ruas estreitinhas, onde pessoas entravam e saíam das lojas e dos bares. Chorei. Deixei que as lágrimas fossem rolando enquanto caminhava. Tinhas acabado de partir e eu já morria de saudades.
Por fim, aproximei-me de um canteiro de amores-perfeitos. Tinha chegado ao jardim. Pensei de mim para comigo que, para além daquelas flores, se algum amor houvesse que fosse perfeito, seria o nosso. Limpei o rosto molhado e sorri. Aproximei-me da cascata e sentei-me na relva de outro canteiro. Naquele jardim, todos os canteiros tinham amores-perfeitos, das mais diversas cores. Pareceu-me um bom augúrio. Voltei a sorrir e deixei que uma pequena lágrima, agora de provável alegria, me escapasse. Fiquei a observar a cascata e a ouvir os sons que o jardim me oferecia: pássaros que cantavam nas árvores, abelhas que zumbiam e procuravam o néctar das flores, a água que, livremente, se deixava caír pelas rochas, formando um pequeno lago esverdeado.
Dei por mim a pensar que duas semanas não eram uma eternidade para quem sabe esperar. E depois, a alegria do regresso sobrepunha-se a todas as dores sentidas, a todas as noites sem dormir, a todos os pesadelos com naufrágios e monstros marinhos. Vida de marinheiro, vida de pescador, vida de mulher de pescador..., era a que eu tinha escolhido. Para o bem e para o mal. Olhei para o relógio. Ai!... Perdida no tempo tinha-me esquecido que ele pode passar a correr. Estava na hora de ir buscar os miúdos à escola. Ao jantar, iria estar um lugar vago na mesa, mas a alegria das crianças, os seus beijos e abraços, as histórias das tropelias do dia, iriam atenuar a imensa falta de ti e ajudar a suportar a tua ausência, com ânimo e boa-disposição. Se não acontecesse nada (e longe fosse o agoiro) dali a quinze dias já estarias a jantar connosco, a contar as aventuras de mais uma viagem e a genuína alegria voltaria a inundar a nossa casa... (até à próxima viagem, mas nisso pensar-se-ia mais tarde!).

(*) Fotografias de António Rodrigues

domingo, maio 20, 2007

Meme

A minha amiga APC, do "Camuflagens" escreve, na brincadeira, ao passar-me a pasta, esta bem conhecida frase: "com amigos assim, quem precisa de inimigos?"
Nesta correntemania que reina, actualmente, na blogoesfera, eu alinho se sou desafiada por alguém de quem gosto, como é o caso, e quando o desafio se revela interessante, que é, de igual forma, o do meme. Pois... esse mesmo, que quem desconhecia passa a conhecer se fizer como a APC e eu própria fizemos, ou seja, vai ver aqui.
Este é o que seleccionei, assim de repente, de entre tantos outros que poderiam ocupar o mesmo espaço. Não foi, apesar de tudo, por acaso: o acto da criação artística, o acto da escrita em particular, é um tema recorrente nas minhas pesquisas e também em textos que vou alinhavando, aqui e ali.
Então vamos ao dito Meme:
" [...] Eu disse: Queria dizer-lhe que não bastava escrever bem ou mal, produzir escritos belos ou muito belos, que não bastava que fosse um livro para ler com uma avidez pessoal e não em comum. Que também não bastava escrever assim, fazer crer que não havia na escrita qualquer pensamento, que era guiada apenas pela mão, tal como era de mais escrever apenas com o pensamento na cabeça a vigiar a actividade da loucura. [...] Disse-lhe ainda que era preciso escrever sem corrigir, não necessariamente depressa, a toda a velocidade, não, mas conforme a própria pessoa e conforme o momento que se atravessa, lançar a escrita para fora, maltratá-la quase, sim, maltratá-la, nada retirar da sua massa inútil, nada, deixá-la inteira com o resto, nada ponderar, nem velocidade nem lentidão, deixar tudo no estado de aparição."
(Marguerite Duras, in Emily L.)
Ainda embuída do mesmo espírito da amiga que me lançou o desafio vou dar-lhe continuidade, nomeando outras seis "vítimas do meme"... :):
Ana Prado - Inteira Luz
Aquilária - Ínsua
Besnico di Roma - Memórias de um amnésico
Prólogo - Prólogo

terça-feira, maio 15, 2007

Numa calma manhã de domingo (*)

Conseguiu limitar o extenso volume do seu corpo ao espaço exactamente deixado pelas portas que se fechavam, naquela fracção de segundo. Entrou. O suor escorria-lhe da testa e as mãos ainda lhe tremiam. Verificou, com agrado, que o metro ía quase vazio. Sentou-se no primeiro banco. Respirou fundo, recostou a cabeça e fechou os olhos. "Agora só saio no fim da linha, seja lá onde for", pensou e sorriu, de si para consigo, sempre de olhos cerrados. "Escapei de boa, sim. Doutra como esta não me volto a safar". Emitiu um som semelhante a uma risada gutural e aninhou-se no banco, como quem se prepara para dormir. Meteu a mão no bolso do casaco e sentiu o pesado cordão de ouro, com uma bonita cruz encrustada de pedras, sem dúvida preciosas. Devia valer para cima de um dinheirão. E afinal tinha sido tão fácil: um simples empurrão, um "desculpe" balbuciado enquanto desapertava o fecho facílimo de abrir, e a corrida final para as portas que, por muito pouco, não se recusaram a deixá-lo entrar.

Para trás ficava o cais, despido de gente naquela manhã de domingo. Os bancos de madeira estranhamente desocupados. Apenas uma mulher alta, elegante, vestida de branco, com o cabelo castanho claro apanhado em madeixas, com um ar nitidamente perdido, torcia um lenço de seda azul entre as mãos. Cerrava os maxilares para não gritar e sustinha, com um quase imperceptível tremor de queixo, as lágrimas que, teimosamente, queriam abandonar os seus olhos verde-claros e precipitar-se pelo rosto, infiltrar-se pela blusa, dois botões aberta, e ocupar o lugar recentemente adquirido, e logo abandonado, pelo fio. No peito, arfando suavemente, estavam contidos os soluços, ansiosos por uma oportunidade para se soltarem e soarem bem alto, no interminável corredor dos carris do comboio. Se tal sucedesse, iriam por certo assemelhar-se aos uivos de um animal aprisionado numa gruta sem fundo. Imobilizada, não sabia o que fazer. Alguém a terá encontrado e levado dali, algum tempo depois, sem perceber o que tanto poderia ter abalado aquela mulher.
Na morgue do hospital tiravam mais um cadáver do frigorífico para ser autopsiado. Quando o médico legista o destapou não pôde deixar de reparar na beleza da jovem cujo corpo exibia as sevícias de um homicídio violento. Ainda antes de se lançar ao trabalho, a sua atenção foi captada por um pormenor: no peito bronzeado da rapariga era visível a marca de um colar, ou de um fio grosso, e bem destacado, a branco, entre os seios, o desenho de uma cruz.
(*) Fotografia de António Rodrigues

terça-feira, maio 08, 2007

Ternura

I

Ternura nos olhos, no sorriso, nos gestos.
Ternura na voz.
Ternura nas palavras escritas.
Ternura no afagar das teclas de um piano.
Ternura ao friccionar o arco nas cordas de um violino.
Ternura ao colorir de pinceladas uma tela.
Ternura ao executar um elegante passo de bailado.
Ternura ao embalar o filho.
Ternura ao poisar os lábios na fronte fria do amor moribundo.
Mãos ternas que acariciam.
Boca de ternos beijos.

II

Sonhei com um cemitério bizarro.
As lápides eram negras e, por contraste, pairava sobre o espaço uma difusa neblina
que se aliava à brancura da neve que tudo cobria.
Havia uma pedra tumular onde mal se distinguia qualquer inscrição.
Não havia nome, datas, fotografia.
Apenas se podia ler o epitáfio:
“Em memória eterna de uma mulher terna”.

sexta-feira, maio 04, 2007

Blogues que fazem pensar (II)

E vão duas ... desta vez foi a doce Ana Prado, a quem agradeço a distinção, que decidiu nomear-me.

Ora bem, vou aproveitar para nomear outros cinco blogues, embora desta vez o critério seja diferente: a exemplo dos anteriormente indicados por mim, todos eles têm igualmente grande valor, são espaços que visito, admiro, e onde me detenho, e são relativamente pouco conhecidos: três pessoas da escrita, uma da fotografia e uma da pintura (esta última não podia falhar!!!) ;)
Já agora, para variar um pouco, vou indicá-los por ordem alfabética descendente. Aqui estão:
3. JC
Se quiserem dar continuidade à corrente, copiem o selo do "pensador" para a vossa casa e nomeiem os vossos cinco seleccionados.
Obrigada, amigos. Continuação de bom trabalho e de muito prazer em tudo o que fazem!

domingo, abril 29, 2007

Blogues que fazem pensar

Os amigos Isabel e José António nomearam, no seu "O caminho do Coração" o meu espaço como um dos que, passo a citar "nos fazem reflectir ou de alguma forma nos inspiram".

Agradeço, sensibilizada, a simpatia desta nomeação e, para não quebrar a corrente, vou nomear outros cinco blogues que, após análise "apurada" ;), concluí serem os que, na realidade mais me fazem pensar.
Convém aqui referir que os espaços que visito assiduamente, e que estão listados do lado direito do meu blogue, se dividem em três grupos:
1. Os blogues do sentir, puro e duro, que vão direitinhos ao meu lado mais emocional e nos quais posso ficar, por tempo indeterminado, a deixar fluir o prazer do sentimento;
2. Os blogues do sentir e pensar, que frequentemente conseguem estabelecer, na minha cabeça, um equilíbrio razoável entre o sentimento e o pensamento mas que, por vezes, após uma luta titânica, acabam por me deixar ainda mais perdida entre a emoção e a razão;
3. Os blogues do pensar, que têm atalho imediato para o domínio do cognitivo e que são, de facto, os que mais trabalho dão a este pobre cérebro, geralmente tão inapto para reflexões filosóficas, metafísicas e outras que tais...
Assim sendo, é de entre os grupos 2. e 3. que vou nomear os meus cinco favoritos (no género, obviamente) que optarão, consoante o seu desejo ou convicções, por dar continuidade à corrente ou quebrá-la.
Aceitei o desafio e arrisco nomear-vos. Se decidirem "alinhar", por favor copiem o selo do "pensador" e avancem com as vossas cinco nomeações.
Então aqui vão, por ordem alfabética:
Obrigada e continuem a dar-me "muito que pensar".

terça-feira, abril 24, 2007

Escrito na pedra (ou na água?)


Estavam sentados na esplanada do costume, junto à falésia, à beira-mar. Há longos minutos que ela olhava o o horizonte, sem uma palavra. Ele olhava-a, como se nada mais existisse para além da presença dela, a seu lado. Ela sentia o seu olhar fixo no rosto, no corpo, mas o facto não a incomodava. Naquele momento, o silêncio, a inexistência de troca de palavras entre ambos era o que realmente importava.
A empregada passou e a mulher pediu mais um whisky, sem gelo. O homem, num gesto de solidariedade, pediu mais uma água, sem gás.
Estiveram assim muito tempo.
A dada altura ela disse "deve estar a interrogar-se sobre o que vai na minha mente. Gostaria de o poder adivinhar, não?"
"Precisamente", respondeu o homem.
"Pois bem, tenho estado ocupada com pensamentos acerca dos meus afectos: os pais, os irmãos, os amigos, as memórias dos namorados, amantes e maridos e os filhos, claro. Acima de tudo, a ausência dos meus filhos ocupa-me muito tempo, preocupa-me, perturba-me".
"Compreendo, embora não saiba o que isso é. Sou filho único, como sabe, os meus pais já partiram há muito, nunca casei e não tenho filhos, mas..." aqui deteve-se abruptamente. A mulher olhou para ele e deparou-se com a expressão aterrorizada de quem está à beira de um precipício, a quem basta um minúsculo passo para se atirar.
"Mas...?" insistiu ela, com determinação.
"Mas acho que sou capaz de entender o que sente. Além do mais, há as personagens dos seus romances e argumentos, não é?"
"Ah, sim, essas, a quem dei vida e para quem fui construindo um mundo. Tornaram-se exigentes, ganharam vida própria e agora são elas que me levam a reescrever, das mais variadas formas, a mesma história de sempre."
"Deve ser cansativo".
"Sim, por vezes fico exausta. Como já deve ter reparado, para aguentar a pressão, cada vez bebo mais e - disto não sabe - passo noites inteiras a escrever".
"Os homens gostam das mulheres que escrevem...", murmurou ele.
"Sim, a Marguerite Duras afirmava-o e acrescentava: ...mesmo que não o admitam. Uma escritora é um país estrangeiro."
"Eu amo-a". Disse ele, de rompante, quase num sussurro.
A mulher não deu mostras de ter ouvido aquela confissão inesperada e surpreendente.
Já que tinha dado o tal passo e estava a deixar-se escorregar pelo abismo, o homem continuou, com eloquência e num tom de voz um pouco mais alto "Não imagina a vontade que sinto de agarrar as suas mãos entre as minhas e apertá-las, com força, de encostar o rosto ao seu cabelo e sentir-lhe o aroma, de lhe afagar o rosto, beijar os olhos, o pescoço, a boca. Não faz ideia de como a desejo... de como sonho, noite após noite, que estamos a fazer amor."
"É provável que eu também o ame", respondeu a mulher, com frieza, o olhar novamente fixo no mar.
"Como assim?" perguntou ele, perplexo, "o amor é apenas uma probabilidade?"
"Agora é a minha vez de citar a Marguerite Duras: Donde pode nascer o amor? Talvez de uma súbita falha do universo, talvez de um erro, nunca de um acto de vontade."
"Acredita realmente nisso?"
"Talvez... mas deixemos a Marguerite Duras com os seus axiomas, que são óptimos de utilizar quando não sabemos o que dizer ou não queremos aprofundar as nossas próprias verdades. E para quê o recurso a um arquétipo? O mesmo de sempre, afinal. Eu não sou ela, não sou nem nunca serei alcoólica, nunca amei como ela o fez e jamais escreverei como só ela sabia escrever".
Ele ajeitou-se na cadeira, um pouco incomodado com o rumo que a conversa estava a tomar.
Ela aproveitou o ensejo, levantou-se e fez sinal à empregada para trazer a conta. De seguida, em tom suave, como se tivessem somente passado mais uma das muitas tardes calmas à beira-mar, disse ao homem que havia acabado de lhe fazer uma declaração de amor, "Vamos andando? Está a levantar-se uma brisa fresca".
Contas feitas, e já a saír do café, ainda lhe confidenciou "tenho lá em casa uma garrafa de whisky irlandês por abrir e espera-me uma longa noite de escrita".

sábado, abril 21, 2007

Quando os "sentires" (quase) podem ser gémeos


A minha amiga Maria, homónima, vizinha e cúmplice no(s) sentir(es), tem no seu Cheiro da Ilha uma lindíssima imagem que, mais uma vez, me dá que pensar, de tão sentimentalmente geminada com esta, captada pela objectiva do meu pescador. Ambas tiradas de dentro para fora, em espaços igualmente amados por ambas. No caso da sua, "Sentidos", estamos na Ilha da Berlenga, no interior de uma gruta, e vemos , através do arco esculpido pela natureza, o Forte de S. João Baptista, um barco e o mar... esse nosso eterno apaixonado e elemento desencadeador de paixões outras...

Nesta, estamos do lado de dentro da Fortaleza de S. Pedro em Peniche, na prainha do mesmo nome e, através de um arco esculpido pelo homem, vislumbramos, do lado de lá, um outro barco e o mesmo mar, imenso e profundo... esse nosso eterno apaixonado e elemento desencadeador de paixões outras...

Gloriosas coincidências!

terça-feira, abril 10, 2007

A quarta Arte

"Les Trois Arts" - óleo sobre tela de Júlia Calçada

Meus amigos,
Quero deixar-vos aqui um duplo convite: em primeiro lugar, que não deixem de visitar o blog jc, onde encontrarão uma série de pinturas magníficas dedicada por esta autora à arte do bailado; de seguida, e porque através deste seu quadro estamos perante três artes, lanço aqui um repto para que, inspirados numa, ou no conjunto das obras, dêem largas à vossa expressão artística por excelência, a escrita e, desta forma, contemplem aquela que, apenas por surgir sequencialmente às que a pintora nos enuncia, designo de quarta arte.
Como é natural, não resisto a responder, de imediato, ao desafio que acabo de lançar. Se tiverem curiosidade, vejam o post abaixo, "The Show is Over".
Ansiosa por ler os vossos escritos, digo-vos "até logo" com um grande abraço.

The Show is Over

Júlia Calçada - óleo sobre tela (2007)


Mais uma noite de glória que chegou ao fim. A “primeira” bailarina voltou a demonstrar que continuava a merecer, por inteiro, o destaque no corpo de bailado. O público, delirante, aplaudiu-a de pé durante largos minutos enquanto uma chuva de ramos de flores ia adornando o palco, à sua volta, e o som de “bravo” soava dos vários cantos da sala. O sonho da Margarida, menina, não poderia ter-se concretizado de forma mais absoluta.Tinha atingido o topo, excedidas que estavam as suas próprias expectativas. Dir-se-ia que não tinha senão razões para se sentir feliz.

Já a Margarida, mulher, dava por si claramente possuída de uma tristeza inexplicável. Agora que o espectáculo tinha acabado, ia voltar para casa onde, à sua espera, tinha a solidão. Depois de uns afagos ao gato, que sempre celebrava a sua entrada com visível prazer, iria beber um copo de leite morno e repousar o corpo no leito, demasiado espaçoso, demasiado vazio. O pensamento, esse manter-se-ia activo por tempo indefinido. Depois, viriam os sonhos, os que não controlava, os que lhe mostravam, como num espelho, de forma repetida e obsessiva, uma mulher igual a ela. Ao lado dessa Margarida, que ocupava o lado errado da cama, havia um homem. Conseguia ouvir a sua respiração e sentir-lhe o calor, de tão próximos que estavam. Não se tocavam e, na quase obscuridade do quarto, não conseguia distinguir os traços do rosto daquele cuja compleição física adivinhava perfeita.

Sete horas. O despertador voltava a acordá-la quando, no sonho, se preparava para acender a luz e ver, finalmente, o companheiro de mais uma noite. Ao correr para o chuveiro ainda olhava, de soslaio, para a cama, agora um espaço deserto. No teatro, esperava-a mais um dia de exaustivos ensaios, sem intervalos para outra actividade que não fosse a resposta às suas necessidades básicas de ser humano, e à noite... à noite voltaria a ser a rainha, a mais amada, admirada e invejada bailarina à face da Terra.

quarta-feira, março 28, 2007

As penas duma gaivota


Gaivota que alegre voas
e um canto às ondas entoas
quando nelas vais poisar.
Cuidado com a densa bruma,
num mar revolto, de espuma,
podes ir e não voltar.

Tu passas rasando as águas
sem saber se existem mágoas,
se alguém tem penas ou não...
quando uma pena te cai,
com ela tudo se esvai
vendo-a perdida no chão.

Não te amargures assim tanto,
logo outra vem, entretanto
volta alegre ao teu abrigo.
Pudesse eu não ter nenhuma,
perder todas, uma a uma,
todas que trago comigo.

Somos diferentes as duas:
tu quando perdes as tuas
é de mágoa o teu sentir;
enquanto eu, silenciosa,
ando no mundo ansiosa
por ver as minhas cair.

poema da autoria de Maria Teodora - 1999

terça-feira, março 20, 2007

Livre

" ...livre... " fotografia de Sandra - Olhar Atento


livre

como a pomba que esvoaça
como o ribeiro que corre
como o vento que assobia

livre

como uma nuvem que passa
como um deus que nunca morre
como uma mente vazia

livre

não ter venda nem mordaça
subir ao alto da torre
ver nascer o sol e o dia


sexta-feira, março 16, 2007

Le Navire Nigth, um "filme falhado" de Marguerite Duras

"Le Navire Night", de Marguerite Duras
Copyright: Jean Mascolo
Chaque nuit à Paris, des centaines d’hommes et de femmes utilisent l’anonymat de lignes téléphoniques non attribuées qui datent de l’occupation allemande, pour se parler, s’aimer. Ces gens, ces naufragés de l’amour, du désir, se meurent d’aimer, de sortir du gouffre de la solitude.
"A pessoa que se desvela no abismo não se reclama de nenhuma identidade. Não se reclama senão disso, de ser semelhante. Semelhante àquele que lhe responderá. A todos. Há uma desobstrução fabulosa que se opera a partir do momento em que se ousa falar, ou antes a partir do momento em que aí se chega. Porque a partir do momento em que chamamos, tornamo-nos, somos já semelhantes. A quem? A quê? Àquilo de que nada sabemos. E é tornando-nos semelhantes que deixamos o deserto, a sociedade. Escrever é ser ninguém. "Estar morto", dizia Thomas Mann. Quando escrevemos, quando chamamos, somos já semelhantes. Tentemos. Tentemos quando estamos sós no nosso quarto, livres, sem qualquer controlo do exterior, chamar ou responder por cima do abismo. Misturar-nos à vertigem, à maré imensa dos apelos. Essa primeira palavra, esse primeiro grito, não sabemos gritá-lo. É a mesma coisa que chamar por Deus. É impossível. E faz-se".
M.D.