Hoje tive que voltar a Kyoto. Um desassossego, uma saudade, uma vontade incontrolável de olhar e ver, contemplar, até conseguir acalmar o fogo que me queimava o peito na obssessiva necessidade de tentar que a memória reconstruísse, no presente, o que foi real no passado. Nada se repete e as fotografias podem não conseguir mais do que servir de repositório de memórias. Quem dera entrar nelas, conseguir recuar quinze anos no tempo, e regressar, por horas, minutos, segundos que fosse, ao lago do Templo Dourado. A imaginação, apoiada na memória preservada pelas fotografias, quase que consegue. Talvez chegue a conseguir, se a capacidade de concentração for elevada ao ponto de o espírito se dei
xar transportar, através da meditação, para o local desejado.
Hoje estive lá. Voltei a passear pelos Jardins de Sayonara, deixei-me enlear nos ramos das
cerejeiras.
cerejeiras.
Andei em bicos de pés nos corredores do Castelo do Shogun, tentando não accionar os milhares de sininhos que, por debaixo das compridas tábuas de madeira, reagem ao menor movimento de quem as pisa.
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Visitei um templo xintoísta e fiquei a observar, na minha total ignorância da sua Fé, as centenas de jovens que ali oravam, em silêncio.
Acabei por conseguir ficar uma eternidade em frente ao Templo Dourado, a reler o livro de Mishima. Vi o jovem monge em toda a sua dimensão de ser humano considerado "esquisito", porque diferente dos outros, alvo de chacota, de desprezo, porque gaguejava, porque era tímido e porque a paixão que dele se apoderava perante o fascínio do que considerava maravilhoso, místico, sobrenatural, o fazia adoptar comportamentos fora do comum. Senti o seu amor desmedido pela beleza do local, percebi (julguei entender) a loucura que o tinha levado a incendiar o templo, objecto maior dos seus afectos, entidade metafísica perturbadora do seu equilíbrio emocional. E dei Graças pelo facto de o mesmo ter sido reconstruído e eu ali estar, a admirá-lo, como se nunca tal tragédia por ali tivesse passado.
Depois vi-me lá, a deixar-me fotografar naquele lugar de adoração, uma mulher que tem tão pouco do que vejo em mim agora - quinze anos, muitas vivências e muitas memórias depois.









