Não. Não se trata de mais uma paráfrase a partir de "The Mists of Avalon". É que hoje a Berlenga amanheceu assim, envolta em brumas, e eu senti uma vontade imensa de ir até lá, mais logo, com o sol aberto. Manhãs nostálgicas as desta terra, que logo se dissipam quando os raios do astro-rei rompem as núvens e com eles trazem cor, vida, alegria de aqui estar, neste lugar abençoado pela mãe-natura.
...no jardim para o qual dava a janela do meu quarto de criança havia uma trepadeira que, em cada primavera, me deliciava com os seus perfumados cachos de rosas - sem espinhos.
terça-feira, julho 31, 2007
As brumas da Berlenga
Não. Não se trata de mais uma paráfrase a partir de "The Mists of Avalon". É que hoje a Berlenga amanheceu assim, envolta em brumas, e eu senti uma vontade imensa de ir até lá, mais logo, com o sol aberto. Manhãs nostálgicas as desta terra, que logo se dissipam quando os raios do astro-rei rompem as núvens e com eles trazem cor, vida, alegria de aqui estar, neste lugar abençoado pela mãe-natura.
terça-feira, julho 24, 2007
Paráfrases, a seis mãos... três pares de asas
Dá-me a tua mão:
Vou agora te contar como entrei no inexpressivo que sempre foi a minha busca cega e secreta.De como entrei naquilo que existe entre o número um e o número dois, de como vi a linha de mistério e fogo, e que é uma linha sub-reptícia.Entre duas notas de música existe uma nota, entre dois factos existe um facto, entre dois grãos de areia por mais juntos que estejam existe um intervalo de espaço, existe um sentir que é entre o sentir-nos interstícios da matéria primordial está a linha de mistério e fogo que é a respiração do mundo, e a respiração contínua do mundo e aquilo que ouvimos e chamamos silêncio.
Clarice Lispector ( A paixão segundo G.H.)
------------
Dá-me a tua mão:
vou contar-te como procuro e temo encontrar, sei do som dos passos e
ensurdeço ao amanhecer. De como se sente o estalejar dos minutos e o
latejar dos dias.
Dá-me os teus olhos:
vou agora deixá-los percorrer as paisagens de olvido e de segredo,
vou agora deixá-los percorrer as paisagens de olvido e de segredo,
desvelá-los nas profundezas de um azul sombrio.
Dá-me os teus braços:
vou agora acolher-me neles, como em muralha inexpugnável e imune ao
passar dos tempos.
Não, não me dês nada do que é teu e te faz falta.
Podes vir a dar contigo como cidadela desconstruída e exposta às
estrelas.
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Dá-me a tua mão.
Olharei, com todo o furor do meu pensamento, para os teus dedos.
Escolherei, para cada um, a nota musical adequada à frequência que
ressoa no meu coração.
Dás-me cada dedo
E as notas que eles tocam nada mais são que pedaços da minha pele,
cuja cor se altera mesmo antes de ser atingida. Não são teclas
monocromáticas nem cordas que se/me prendam...
O que me dás
É aquilo que me transforma e emudece. E basta-me o quase toque de
um dedo da tua mão para que a ilusão de que sou inatingível
desapareça.
Dar e ser
Tendem a transformar-se em tons e meio tons que formam escalas
e escadas. Damos e somos. E sonhamos.
--------
Dá-me a tua mão:
saberei encontrar o caminho
dos segredos que guardamos.
Dá-me o teu sorriso:
encontrarei a alma pura
da água que corre da fonte.
Dá-me o teu olhar:
conseguirei rasgar as núvens
e alcançar o céu, lá,
onde é mais azul.
(Maria)
sexta-feira, julho 13, 2007
Mar de Esperança
Fotografia subordinada ao tema "brancura", publicada no PalavraPuxaPalavra em 12-07-2007Não sei que existe em ti que me fascina,
trago na boca este sabor a mar;
se nas tuas ondas esgoto o meu olhar
a força do teu canto me domina.
É de ti que me vem esta ansiedade
porque acredito na tua cor de esp'rança;
és tu que me transformas em bonança
se cá dentro me agito em tempestade.
No marulhar constante me baloiço,
descubro em ti segredos quando oiço
a tua voz segredar-me o que não digo.
E enquanto olho o vai-vém das águas
à espera que leves estas mágoas,
sou gaivota perdida sem abrigo.
(Maria Teodora - 1980)
domingo, julho 01, 2007
O verdadeiro rosto da tia Albertina
Porque surgiram alguns comentários ao post anterior, apontando soluções várias para a identidade da figura retratada e, inclusivamente, foi sugerido que fosse um auto-retrato, sinto que a minha homenagem não ficava completa se aqui não publicasse o verdadeiro auto-retrato da tia Albertina.
Tudo o que disse sobre o retrato de Esmeralda corresponde à realidade, isto é, nem sequer sei o seu verdadeiro nome nem quem poderia ter sido o modelo. A tia Albertina nunca nos falou daquele retrato e só o encontrei, no tal caixote no sótão, muitos anos após a sua morte. A minha imaginação sentiu necessidade de criar o resto, que é muito pouco, mas que confere alguma identidade (ainda que meramente hipotética) àquele rosto anónimo e misterioso.
Quanto a este óleo, não há qualquer margem para dúvida, porque foi oferecido pela própria à minha irmã, que era sua afilhada, tal como os lindíssimos brincos aqui retratados (não posso deixar de referir, a par com a perfeição dos brincos, a maravilhosa gola de renda, cujos pormenores só poderiam ter sido assim transpostos para a tela por verdadeira mão de artista) . Nenhum de nós (refiro-me aos três irmãos de que faço parte) conheceu a tia Albertina na sua juventude, como é natural. A verdade é que aos setenta e muitos anos, e mesmo aos oitenta, quando a conhecemos bem de perto e tivemos o privilégio de com ela conviver intensamente (a que teve menor oportunidade de estar com ela foi, por ironia, a minha irmã, sua afilhada como referi, porque era a mais novinha...) mantinha muitos dos traços que podemos observar neste auto-retrato. Foi sempre alta e magra, duma elegância que fazia inveja a muitas raparigas de vinte anos. O porte altivo que aqui podemos apreciar, era nela uma constante, e manteve-o até ao fim dos seus dias de pessoa saudável e "senhora do seu nariz" . Os olhos, embora mais encovados, também nunca perderam o tom verde-azeitona nem o brilho que os incendiava quando relatava emoções. A voz, essa não está no retrato, mas o seu timbre ainda ecoa nos meus ouvidos: segura, firme, com laivos de ternura quando se dirigia a qualquer um de nós, os seus queridos sobrinhos.
A verdade é que este retrato precisa de ser restaurad0 com urgência. A minha irmã entregou-o aos meus cuidados com esse propósito. Confesso que fiquei com alguma má-consciência quando constatei que talvez a minha falta de actuação imediata tenha contribuído para a deterioração do mesmo, que hoje me pareceu francamente agravada. A tela, nalguns sítios (como ao pé da boca, do lado esquerdo do retrato, numa bem notória mancha na fotografia) está tão rarefeita que consegue ver-se à transparência. Não podemos deixar que uma peça deste valor (enquanto pintura, sem dúvida) mas em termos afectivos, acima de tudo, seja danificada, destruída. É nosso dever preservá-la, enquanto herdeiros de alguns dos seus quadros mas, principalmente, da memória de momentos que ela nos dizia terem marcado para sempre a sua personalidade e, acima de tudo, conhecedores que somos da sua história, da paixão da sua vida - a pintura - que sempre lhe foi vedada enquanto profissão , sendo que pouquíssimas pessoas terão tido a ventura de observar trabalhos seus.
Só mais duas ou três revelações: a tia Albertina teve dois filhos que morreram praticamente à nascença. Também o papel de mãe lhe foi negado, mas esse pela natureza. Não deixou descendência directa, portanto. Connosco, sobrinhos-bisnetos, descobriu o prazer de ter crianças junto de si e a felicidade dela reflectia-se como um espelho na alegria, no orgulho por nós sentido pelo facto de podermos partilhar as recordações da sua vida, da do seu pai e do seu avô. Penso que isso contribuiu para que, desde muito cedo, cada um de nós tivesse, a seu modo, começado a encarar a arte como um assunto muito sério, como uma (senão a) razão da existência. O meu irmão era, claramente, o seu sobrinho preferido, mas também, como não o ser, quando prescindia de tudo o resto, com seis anos de idade apenas, para ficar sentado a seu lado, a folhear livros de arte, a fazer-lhe perguntas inteligentes sobre o que ia observando, a sorver tudo o que ela tinha para contar e ensinar. Adoravam-se mutuamente, digo-o sem qualquer pejo. Vê-los juntos era um encanto (note-se que não há aqui lugar para qualquer ponta de ciúme, antes pelo contrário, deliciava-me aquela relação especial, da qual eu nunca fui excluída, mas cúmplice).
Última revelação, e que não é mais do que uma rectificação, assim do género "já agora, que fique tudo no seu devido lugar": a nossa verdadeira tia-bisavó era a sua mãe, Maria Antónia, irmã do nosso bisavô Luís Filipe, casada com o pintor Ribeiro Cristino (de quem também temos um retrato a carvão, desenhado pelo marido, na Ponte do Arco) mas que, como facilmente se depreenderá da idade que a tia Albertina tinha quando nascemos, nunca chegámos a conhecer. A Albertina Augusta, nossa prima, afinal, nunca suportou a ideia de que a tratássemos por "prima" (logo nós, que ela elegera, naquela avançada idade, como os filhos que gostaria de ter tido) e sempre deixou bem claro que nunca deveríamos tratá-la senão por "tia Albertina". Acabámos por esquecer-nos que não era, verdadeiramente, nossa tia, mas também, agora que penso nisso, ela foi muito mais nossa tia do que as tias-bisavós que conhecemos (essas sim, irmãs da bisavó Mafalda - e aqui volto a remeter para o post da Ponte do Arco, na tentativa de evitar que tudo isto fique muito confuso para quem lê, ao cair no clássico erro de que é tudo tão clarinho para os outros como para mim!)
O facto de partilhar convosco estas intimidades está, começo a ficar convicta, intrinsecamente ligado ao remorso que sinto pelo facto de não a ter acompanhado devidamente nos seus últimos tempos de vida e toda esta "pomposa" homenagem (parece-me agora, que reflicto sobre o assunto) estará a funcionar, simultâneamente, como um acto de contrição. Recém-casada e com a primeira filha nos braços, não me sobrava muita disponibilidade para pensar na querida tia Albertina... sei, disso tenho a certeza, que fui visitá-la ao hospital... julgo que uma única vez. A imagem fantasiada da sua hora da morte, completamente sozinha, naquela cama de hospital, ainda hoje me aflige, perturba e ensombra.
segunda-feira, junho 25, 2007
O rosto de Esmeralda
Todas as fotografias trazem histórias agarradas.
Por coincidência, duas das últimas com que entrei no jogo "Fotodicionário", do blogue Palavra Puxa Palavra têm, por detrás, histórias de família ("linhas" e "rosto").
Relativamente a esta última, andava eu a "meter o nariz" no conteúdo de uns caixotes que estavam no sótão da nossa casa na Quinta da Ponte do Arco (quem quiser conhecê-la pode visitar o meu post "A Obra" - (Ponte do Arco), de Fevereiro de 2007), quando me deparei com este retrato a carvão, amarrotado e mal-tratado pelo tempo e pela ausência de estima, assinado pela minha tia-bisavó Albertina Augusta (coitada da senhora... que nome lhe haviam de ter posto!). Fiquei, desde logo, fascinada. Mais deliciada ainda quando reparei na data do dito retrato: nada mais nada menos que o dia exacto do meu aniversário, mas quase cinquenta anos antes de eu ter nascido... de imediato me apaixonei por aquele rosto, de "buço" e olhos indubitavelmente muito claros - verdes, possivelmente - e baptizei-o de "Esmeralda".
Fiquei cheia de dúvidas quanto ao modelo, tal como alguns de vocês, meus amigos, que assim o manifestaram nos comentários à foto no referido jogo do PPP ("mas isto é homem ou mulher?" , "mulher com um bigode daqueles?".
Encontrei como resposta provável que tivesse sido um retrato desenhado às escondidas, pela minha tia-bisavó, recorrendo a uma empregada como modelo. Empregada doméstica não deveria ser, pois não apresentava o uniforme característico, poderia ser uma lavadeira ou, então, era uma encenação em que a/o modelo vestia roupas "arranjadinhas", embora modestas, escondia o cabelo numa espécie de turbante (à maneira das lavadeiras da época, julgo eu) e punha uns brincos compridos, a contrastar com o resto. Tudo meras possibilidades... a verdade partiu para sempre com a tia Albertina (que tive o prazer de conhecer e com quem convivi intensamente desde a minha infância até aos vinte e tal anos, dado que ela morreu com cerca de noventa).
Resta-me acrescentar, a título de curiosidade, que a autora do retrato a carvão era neta, filha e irmã de pintores famosos da nossa praça, todos eles alunos e, mais tarde, professores nas Belas-Artes (um dos irmãos até ganhou vários prémios Valmor, tendo sido um dos arquitectos bem conhecidos do "Estado Novo", autor de obras de época como a Praça do Areeiro e as chamadas "Avenidas Novas", bem como a sua própria residência em Lisboa, igualmente objecto de prémio Valmor).
A tia Albertina que, segundo consta, era a filha que tinha herdado do pai e do avô a verdadeira arte de pintar e desenhar (quadros de ambos, mas principalmente do avô, podem encontrar-se no Museu de Arte Contemporânea, no Chiado) - e eu tenho aguarelas e óleos pintados por ela, devidamente cuidados e amados, como merecem - viu negada a sua vontade de aceder, contrariamente aos irmãos do sexo masculino, às Belas-Artes, porque uma menina da aristocracia (ainda que praticamente arruinada), mesmo numa família de artistas pelo lado paterno, tinha mais era que casar e ter filhos e comportar-se como uma senhora de sociedade. O marido, inclusivamente, viria a proibi-la de pintar, razão pela qual penso que o retrato terá sido feito às escondidas... Enfim... outros tempos... em que a mulher, de forma submissa, tinha que obedecer e não questionar... primeiro, os pais, depois, o marido. Pobre tia Albertina Augusta!
Mas o orgulho que ela tinha nos muitos quadros do pai e do avô que lhe revestiam as paredes da casa era imenso! E o que eu e o meu irmão gostávamos de estar com ela!...: conversar, admirar os quadros, um por um, vezes sem conta, ver os muitos livros de arte, ouvir as suas deliciosas histórias! Não é vulgar, em crianças da nossa idade, trocar as brincadeiras com os amigos por tardes passadas em casa (e no jardim, é verdade) de uma tia quase octogenária.
Passávamos tardes inteiras com ela e nunca, nunca nos fartávamos. Havia, na parede de uma das salas, um quadro enorme, um óleo pintado pelo pai, retratando o claustro do Mosteiro da Batalha. Tinha umas cores fabulosas, em que me lembro de predominar um tom dourado. Nas tardes de sol de inverno, quando os raios estavam baixos e incidiam de uma certa forma no quadro, distinguia-se, no canto inferior direito, no sítio onde ele pintara um jarrão de flores, a figura de duas senhoras elegantemente vestidas (a esposa e a cunhada do pintor, segundo a tia) que o pai resolvera tapar com o jarrão numa fase avançada da vida em que já fazia (conforme ela nos assegurava) alguns "disparates".
Aquela casa de sonho tinha também quadros de outros artistas de renome, amigos da família, como os irmãos Bordalo Pinheiro, cada um no seu género, como sabemos, ou o Cottineli Telmo a quem ela, ternamente, chamava apenas "Telmo", quando contava algum episódio passado entre eles (desconfio que chegaram mesmo a ter namoro).
Quanto à Esmeralda, olho-a muitas vezes, numa parede da minha casa do Baleal (mal sabia ela, que nunca deve ter visto o mar, que iria acabar numa casa de praia). Adoro aquele contraste entre o buço e os olhos claros, sonhadores... de vez em quando vejo-a/o piscar-me o olho!!! ;)
quinta-feira, junho 21, 2007
Parafraseando a paráfrase
The Boatman (Corot)
A meu favor
Tenho o verde secreto dos teus olhos
Algumas palavras de ódio
algumas palavras de amor
O tapete que vai partir para o infinito
Esta noite ou uma noite qualquer
A meu favor
As paredes que insultam devagar
Certo refúgio acima do murmúrio
Que da vida corrente teime em vir
O barco escondido pela folhagem
O jardim onde a aventura recomeça.
(Alexandre O'Neill)---------
de parafraseio... (em "Voo de Dédalo")
A meu favor...
tenho o vento que ruma para sul
olhares recheados que o tempo mantem
palavras ternas, de tom indelével;
tenho a ira e a indignação
a capacidade de se incendiar
florestas sombrias de clareiras solarengas
aqui e agora,
como ali e depois
tenho a meu favor
a teimosia persistente em não se deixar vencer
a deliberada rota de viagens em si
a cartografia dos afectos
do amor e da zanga, do riso e da raiva
dos voos e quedas,
do acto falhado transformado em ganho.
a meu favor
o favor de mim
(Esvoaçante)---------
de paráfrase em paráfrase...
A meu favor
tenho o sótão cheio de memórias
o jardim do imaginário prenhe
das aventuras que hão-de vir,
tenho mil prateleiras a abarrotar
com os livros que vou ler
e outras tantas vazias
à espera dos que vou escrever;
tenho uma barcaça
no cais da esperança
e a água mansa e queda
à espera que me faça ao mar.
A meu favor
tenho o tempo
que me resta...
Tenho o verde secreto dos teus olhos
Algumas palavras de ódio
algumas palavras de amor
O tapete que vai partir para o infinito
Esta noite ou uma noite qualquer
A meu favor
As paredes que insultam devagar
Certo refúgio acima do murmúrio
Que da vida corrente teime em vir
O barco escondido pela folhagem
O jardim onde a aventura recomeça.
(Alexandre O'Neill)---------
de parafraseio... (em "Voo de Dédalo")
A meu favor...
tenho o vento que ruma para sul
olhares recheados que o tempo mantem
palavras ternas, de tom indelével;
tenho a ira e a indignação
a capacidade de se incendiar
florestas sombrias de clareiras solarengas
aqui e agora,
como ali e depois
tenho a meu favor
a teimosia persistente em não se deixar vencer
a deliberada rota de viagens em si
a cartografia dos afectos
do amor e da zanga, do riso e da raiva
dos voos e quedas,
do acto falhado transformado em ganho.
a meu favor
o favor de mim
(Esvoaçante)---------
de paráfrase em paráfrase...
A meu favor
tenho o sótão cheio de memórias
o jardim do imaginário prenhe
das aventuras que hão-de vir,
tenho mil prateleiras a abarrotar
com os livros que vou ler
e outras tantas vazias
à espera dos que vou escrever;
tenho uma barcaça
no cais da esperança
e a água mansa e queda
à espera que me faça ao mar.
A meu favor
tenho o tempo
que me resta...
até a morte chegar
(Maria)
(Maria)
sexta-feira, junho 15, 2007
Regresso a Kyoto
Hoje tive que voltar a Kyoto. Um desassossego, uma saudade, uma vontade incontrolável de olhar e ver, contemplar, até conseguir acalmar o fogo que me queimava o peito na obssessiva necessidade de tentar que a memória reconstruísse, no presente, o que foi real no passado. Nada se repete e as fotografias podem não conseguir mais do que servir de repositório de memórias. Quem dera entrar nelas, conseguir recuar quinze anos no tempo, e regressar, por horas, minutos, segundos que fosse, ao lago do Templo Dourado. A imaginação, apoiada na memória preservada pelas fotografias, quase que consegue. Talvez chegue a conseguir, se a capacidade de concentração for elevada ao ponto de o espírito se dei
xar transportar, através da meditação, para o local desejado.
Hoje estive lá. Voltei a passear pelos Jardins de Sayonara, deixei-me enlear nos ramos das
cerejeiras.
cerejeiras.
Andei em bicos de pés nos corredores do Castelo do Shogun, tentando não accionar os milhares de sininhos que, por debaixo das compridas tábuas de madeira, reagem ao menor movimento de quem as pisa.
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Visitei um templo xintoísta e fiquei a observar, na minha total ignorância da sua Fé, as centenas de jovens que ali oravam, em silêncio.
Acabei por conseguir ficar uma eternidade em frente ao Templo Dourado, a reler o livro de Mishima. Vi o jovem monge em toda a sua dimensão de ser humano considerado "esquisito", porque diferente dos outros, alvo de chacota, de desprezo, porque gaguejava, porque era tímido e porque a paixão que dele se apoderava perante o fascínio do que considerava maravilhoso, místico, sobrenatural, o fazia adoptar comportamentos fora do comum. Senti o seu amor desmedido pela beleza do local, percebi (julguei entender) a loucura que o tinha levado a incendiar o templo, objecto maior dos seus afectos, entidade metafísica perturbadora do seu equilíbrio emocional. E dei Graças pelo facto de o mesmo ter sido reconstruído e eu ali estar, a admirá-lo, como se nunca tal tragédia por ali tivesse passado.
Depois vi-me lá, a deixar-me fotografar naquele lugar de adoração, uma mulher que tem tão pouco do que vejo em mim agora - quinze anos, muitas vivências e muitas memórias depois.terça-feira, junho 12, 2007
Batata quente
Berthe Morrissot, Little Girl Reading
Esta foi a mais recente "Batata Quente" que chegou aqui ao cantinho da trepadeira de rosas amarelas, sem espinhos, vinda da minha muito estimada Vida de Vidro. O passatempo chama-se tal qual o título indica e consiste em enumerar livros lidos. Ainda não percebi se são os meus livros preferidos ou os últimos que li. Para não ser exaustiva, remeto a primeira categoria para o meu perfil, onde tenho uma relativamente extensa lista dos meus autores preferidos (embora muito incompleta...). Aqui, vou limitar-me a referir os últimos livros que li e mais alguns que tenho entre "olhos e mãos":
Assim:
1. Li, recentemente:
As Velas Ardem até ao Fim, Sandór Marái
A herança de Ezter, Sandór Marái
Viver para Contar, Gabriel Garcia Marquéz
Memórias das minhas Putas Tristes, Gabriel Garcia Marquéz
Os amantes prendem nos braços tudo o que lhes dói, Francisco Vale
Sputnik, meu Amor, Haruki Murakami
O Amor, romance, Camille Laurens
A noite do Oráculo, Paul Auster
O mar, o mar, Iris Murdoch
Topázio, Leon Uris
2. Estou a ler:
Assim:
1. Li, recentemente:
As Velas Ardem até ao Fim, Sandór Marái
A herança de Ezter, Sandór Marái
Viver para Contar, Gabriel Garcia Marquéz
Memórias das minhas Putas Tristes, Gabriel Garcia Marquéz
Os amantes prendem nos braços tudo o que lhes dói, Francisco Vale
Sputnik, meu Amor, Haruki Murakami
O Amor, romance, Camille Laurens
A noite do Oráculo, Paul Auster
O mar, o mar, Iris Murdoch
Topázio, Leon Uris
2. Estou a ler:
Vidas Interrompidas, Madeleine Thien
A Fórmula de Deus, José Rodrigues dos Santos
O Homem Duplicado, José Saramago
The Complete Novels of Jane Austen, Wordsworth Editions
Antologia Poética - Amante das Leituras, edium editores
E a "batata quente" (não considero que falar de livros seja batata, e muito menos quente) passa para:
Alice, A Tradução da Memória
Bettips, Bettips
Maria P., Casa de Maio
APC, Camuflagens
Teresa Durães, Voando por Aí
Licínia Quitério, O Sítio do Poema
O povo, na sua inesgotável sabedoria, criou este provérbio (adaptável a muitas outras coisas que não a leitura, mas isso agora não interessa nada) : "diz-me o que lês, dir-te-ei quem és". Ora, como todas nós somos muito curiosas por esta temática e amantes das leituras, acredito que a corrente venha a ter continuidade...
E já está, amigas. Obrigada.
quarta-feira, junho 06, 2007
Dovoar

O Vasco Pontes é um poeta. Escreve como só ele sabe. As suas palavras apoderam-se da nossa alma e não mais é possível, depois de o ter lido uma vez, deixar de o procurar, exigir mais poemas seus, viver uma existência pacífica na ausência da sua escrita.
Aconteceu comigo. Descobri-o a escrever para si próprio e para mais dois ou três leitores esporádicos. Que lástima! Podia lá passar despercebida uma poesia daquele tamanho todo!
A verdade é que, quase dois anos volvidos, a poesia do Vasco ultrapassou todas as suas expectativas em termos de popularidade (imagino!), os seus leitores fiéis são às dezenas e é com grande alegria que o vejo publicar o seu primeiro livro.
Não percam, amigos, o lançamento, consultando os detalhes aqui e comprando, naturalmente, a sua primeira obra poética.
Obrigada, Vasco. Sabes que sempre acreditei que serias grande.
Um beijo de Parabéns.
domingo, junho 03, 2007
Calhaus rolados pelo mar
Pedras amontoadas no areal. Atiradas pelo mar com desprezo. Para ali deixadas até que a próxima maré-viva as restitua ao chão de água. Enquanto isso, para ali ficam, abandonadas à mercê da chuva e do sol, à curiosidade de quem passa e pega numa, para levar para casa. Porque a achou bonita. Porque vai ser a recordação daquele dia que, por uma qualquer razão, que não importa, não foi como o anterior nem será como o seguinte, para aquela pessoa, que não interessa quem possa ser...
...Tal como a pedra: uma, apenas uma, entre tantas.
sábado, maio 26, 2007
Saber Amar
Ah! Como é bom saber amar alguém,
ter dentro de si aquele amor ardente,
amar com todo ardor que a alma consente
sem temer ser loucura, mal... ou bem.
Mas há quem se iluda, quem diga que ama...
frouxa luz de candeia que se apaga,
simples amor que esvoaça, que divaga,
deixa morrer no coração a chama.
Amor é tudo o que se dá feito ternura,
é ficar preso d'alguém sem amargura,
sem se sentir como ave em cativeiro.
É o encontro de paixões iguais... sentidas;
depois, duas almas numa só unidas,
duas vidas que se entregam por inteiro.
Maria Teodora (2006)
quarta-feira, maio 23, 2007
O dia da partida
No dia em que partiste deambulei, como um fantasma, pela cidade. Fui até ao porto, mas não procurei abrigo em nenhum dos barcos que ali estavam atracados. Na fortaleza, desci até às celas da cave. Detive-me um pouco por lá, ouvindo o som das ondas a embater na parede exterior. Um forte cheiro a humidade tornou a minha permanência desconfortável e voltei para o ar livre, de onde espreitei o mar por entre uma ameia da muralha. Estava agitado e escuro, como que a prever um temporal. O coração apertou-se-me ainda mais. Porquê partir num dia de eminente borrasca? Poderiam ter esperado que a tempestade passasse... ou não? Será que no alto-mar as águas estavam calmas e era só ali, à volta da Península, que o tempo instável se fazia sentir? A minha ignorância sobre a matéria fazia, sem dúvida, que os medos me povoassem o espírito. Afinal, os marinheiros e pescadores não iriam aventurar-se à toa. Eles sim, eles melhor que ninguém, conheciam as idiossincrasias do mar que tratavam por tu.
Deixei-me perder nas ruas estreitinhas, onde pessoas entravam e saíam das lojas e dos bares. Chorei. Deixei que as lágrimas fossem rolando enquanto caminhava. Tinhas acabado de partir e eu já morria de saudades.
Por fim, aproximei-me de um canteiro de amores-perfeitos.
Tinha chegado ao jardim. Pensei de mim para comigo que, para além daquelas flores, se algum amor houvesse que fosse perfeito, seria o nosso. Limpei o rosto molhado e sorri. Aproximei-me da cascata e sentei-me na relva de outro canteiro. Naquele jardim, todos os canteiros tinham amores-perfeitos, das mais diversas cores. Pareceu-me um bom augúrio. Voltei a sorrir e deixei que uma pequena lágrima, agora de provável alegria, me escapasse. Fiquei a observar a cascata e a ouvir os sons que o jardim me oferecia: pássaros que cantavam nas árvores, abelhas que zumbiam e procuravam o néctar das flores, a água que, livremente, se deixava caír pelas rochas, formando um pequeno lago esverdeado.
Tinha chegado ao jardim. Pensei de mim para comigo que, para além daquelas flores, se algum amor houvesse que fosse perfeito, seria o nosso. Limpei o rosto molhado e sorri. Aproximei-me da cascata e sentei-me na relva de outro canteiro. Naquele jardim, todos os canteiros tinham amores-perfeitos, das mais diversas cores. Pareceu-me um bom augúrio. Voltei a sorrir e deixei que uma pequena lágrima, agora de provável alegria, me escapasse. Fiquei a observar a cascata e a ouvir os sons que o jardim me oferecia: pássaros que cantavam nas árvores, abelhas que zumbiam e procuravam o néctar das flores, a água que, livremente, se deixava caír pelas rochas, formando um pequeno lago esverdeado.
Dei por mim a pensar que duas semanas não eram uma eternidade para quem sabe esperar. E depois, a alegria do regresso sobrepunha-se a todas as dores sentidas, a todas as noites sem dormir, a todos os pesadelos com naufrágios e monstros marinhos. Vida de marinheiro, vida de pescador, vida de mulher de pescador..., era a que eu tinha escolhido. Para o bem e para o mal. Olhei para o relógio. Ai!... Perdida no tempo tinha-me esquecido que ele pode passar a correr. Estava na hora de ir buscar os miúdos à escola. Ao jantar, iria estar um lugar vago na mesa, mas a alegria das crianças, os seus beijos e abraços, as histórias das tropelias do dia, iriam atenuar a imensa falta de ti e ajudar a suportar a tua ausência, com ânimo e boa-disposição. Se não acontecesse nada (e longe fosse o agoiro) dali a quinze dias já estarias a jantar connosco, a contar as aventuras de mais uma viagem e a genuína alegria voltaria a inundar a nossa casa... (até à próxima viagem, mas nisso pensar-se-ia mais tarde!).

(*) Fotografias de António Rodrigues
domingo, maio 20, 2007
Meme
A minha amiga APC, do "Camuflagens" escreve, na brincadeira, ao passar-me a pasta, esta bem conhecida frase: "com amigos assim, quem precisa de inimigos?"
Nesta correntemania que reina, actualmente, na blogoesfera, eu alinho se sou desafiada por alguém de quem gosto, como é o caso, e quando o desafio se revela interessante, que é, de igual forma, o do meme. Pois... esse mesmo, que quem desconhecia passa a conhecer se fizer como a APC e eu própria fizemos, ou seja, vai ver aqui.
Este é o que seleccionei, assim de repente, de entre tantos outros que poderiam ocupar o mesmo espaço. Não foi, apesar de tudo, por acaso: o acto da criação artística, o acto da escrita em particular, é um tema recorrente nas minhas pesquisas e também em textos que vou alinhavando, aqui e ali.
Então vamos ao dito Meme:
" [...] Eu disse: Queria dizer-lhe que não bastava escrever bem ou mal, produzir escritos belos ou muito belos, que não bastava que fosse um livro para ler com uma avidez pessoal e não em comum. Que também não bastava escrever assim, fazer crer que não havia na escrita qualquer pensamento, que era guiada apenas pela mão, tal como era de mais escrever apenas com o pensamento na cabeça a vigiar a actividade da loucura. [...] Disse-lhe ainda que era preciso escrever sem corrigir, não necessariamente depressa, a toda a velocidade, não, mas conforme a própria pessoa e conforme o momento que se atravessa, lançar a escrita para fora, maltratá-la quase, sim, maltratá-la, nada retirar da sua massa inútil, nada, deixá-la inteira com o resto, nada ponderar, nem velocidade nem lentidão, deixar tudo no estado de aparição."
(Marguerite Duras, in Emily L.)
Ainda embuída do mesmo espírito da amiga que me lançou o desafio vou dar-lhe continuidade, nomeando outras seis "vítimas do meme"... :):
Amita - Branco e Preto II
Ana Prado - Inteira Luz
Aquilária - Ínsua
Besnico di Roma - Memórias de um amnésico
D.E. - Disperso Escrevedor
terça-feira, maio 15, 2007
Numa calma manhã de domingo (*)
Conseguiu limitar o extenso volume do seu corpo ao espaço exactamente deixado pelas portas que se fechavam, naquela fracção de segundo. Entrou. O suor escorria-lhe da testa e as mãos ainda lhe tremiam. Verificou, com agrado, que o metro ía quase vazio. Sentou-se no primeiro banco. Respirou fundo, recostou a cabeça e fechou os olhos. "Agora só saio no fim da linha, seja lá onde for", pensou e sorriu, de si para consigo, sempre de olhos cerrados. "Escapei de boa, sim. Doutra como esta não me volto a safar". Emitiu um som semelhante a uma risada gutural e aninhou-se no banco, como quem se prepara para dormir. Meteu a mão no bolso do casaco e sentiu o pesado cordão de ouro, com uma bonita cruz encrustada de pedras, sem dúvida preciosas. Devia valer para cima de um dinheirão. E afinal tinha sido tão fácil: um simples empurrão, um "desculpe" balbuciado enquanto desapertava o fecho facílimo de abrir, e a corrida final para as portas que, por muito pouco, não se recusaram a deixá-lo entrar.
Para trás ficava o cais, despido de gente naquela manhã de domingo. Os bancos de madeira estranhamente desocupados. Apenas uma mulher alta, elegante, vestida de branco, com o cabelo castanho claro apanhado em madeixas, com um ar nitidamente perdido, torcia um lenço de seda azul entre as mãos. Cerrava os maxilares para não gritar e sustinha, com um quase imperceptível tremor de queixo, as lágrimas que, teimosamente, queriam abandonar os seus olhos verde-claros e precipitar-se pelo rosto, infiltrar-se pela blusa, dois botões aberta, e ocupar o lugar recentemente adquirido, e logo abandonado, pelo fio. No peito, arfando suavemente, estavam contidos os soluços, ansiosos por uma oportunidade para se soltarem e soarem bem alto, no interminável corredor dos carris do comboio. Se tal sucedesse, iriam por certo assemelhar-se aos uivos de um animal aprisionado numa gruta sem fundo. Imobilizada, não sabia o que fazer. Alguém a terá encontrado e levado dali, algum tempo depois, sem perceber o que tanto poderia ter abalado aquela mulher.
Na morgue do hospital tiravam mais um cadáver do frigorífico para ser autopsiado. Quando o médico legista o destapou não pôde deixar de reparar na beleza da jovem cujo corpo exibia as sevícias de um homicídio violento. Ainda antes de se lançar ao trabalho, a sua atenção foi captada por um pormenor: no peito bronzeado da rapariga era visível a marca de um colar, ou de um fio grosso, e bem destacado, a branco, entre os seios, o desenho de uma cruz.
(*) Fotografia de António Rodrigues
terça-feira, maio 08, 2007
Ternura
I
Ternura nos olhos, no sorriso, nos gestos.
Ternura na voz.
Ternura nas palavras escritas.
Ternura no afagar das teclas de um piano.
Ternura ao friccionar o arco nas cordas de um violino.
Ternura na voz.
Ternura nas palavras escritas.
Ternura no afagar das teclas de um piano.
Ternura ao friccionar o arco nas cordas de um violino.
Ternura ao colorir de pinceladas uma tela.
Ternura ao executar um elegante passo de bailado.
Ternura ao embalar o filho.
Ternura ao poisar os lábios na fronte fria do amor moribundo.
Mãos ternas que acariciam.
Boca de ternos beijos.
Ternura ao executar um elegante passo de bailado.
Ternura ao embalar o filho.
Ternura ao poisar os lábios na fronte fria do amor moribundo.
Mãos ternas que acariciam.
Boca de ternos beijos.
II
Sonhei com um cemitério bizarro.
As lápides eram negras e, por contraste, pairava sobre o espaço uma difusa neblina
que se aliava à brancura da neve que tudo cobria.
Havia uma pedra tumular onde mal se distinguia qualquer inscrição.
Não havia nome, datas, fotografia.
Apenas se podia ler o epitáfio:
“Em memória eterna de uma mulher terna”.
Não havia nome, datas, fotografia.
Apenas se podia ler o epitáfio:
“Em memória eterna de uma mulher terna”.
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