Porque surgiram alguns comentários ao post anterior, apontando soluções várias para a identidade da figura retratada e, inclusivamente, foi sugerido que fosse um auto-retrato, sinto que a minha homenagem não ficava completa se aqui não publicasse o verdadeiro auto-retrato da tia Albertina.
Tudo o que disse sobre o retrato de Esmeralda corresponde à realidade, isto é, nem sequer sei o seu verdadeiro nome nem quem poderia ter sido o modelo. A tia Albertina nunca nos falou daquele retrato e só o encontrei, no tal caixote no sótão, muitos anos após a sua morte. A minha imaginação sentiu necessidade de criar o resto, que é muito pouco, mas que confere alguma identidade (ainda que meramente hipotética) àquele rosto anónimo e misterioso.
Quanto a este óleo, não há qualquer margem para dúvida, porque foi oferecido pela própria à minha irmã, que era sua afilhada, tal como os lindíssimos brincos aqui retratados (não posso deixar de referir, a par com a perfeição dos brincos, a maravilhosa gola de renda, cujos pormenores só poderiam ter sido assim transpostos para a tela por verdadeira mão de artista) . Nenhum de nós (refiro-me aos três irmãos de que faço parte) conheceu a tia Albertina na sua juventude, como é natural. A verdade é que aos setenta e muitos anos, e mesmo aos oitenta, quando a conhecemos bem de perto e tivemos o privilégio de com ela conviver intensamente (a que teve menor oportunidade de estar com ela foi, por ironia, a minha irmã, sua afilhada como referi, porque era a mais novinha...) mantinha muitos dos traços que podemos observar neste auto-retrato. Foi sempre alta e magra, duma elegância que fazia inveja a muitas raparigas de vinte anos. O porte altivo que aqui podemos apreciar, era nela uma constante, e manteve-o até ao fim dos seus dias de pessoa saudável e "senhora do seu nariz" . Os olhos, embora mais encovados, também nunca perderam o tom verde-azeitona nem o brilho que os incendiava quando relatava emoções. A voz, essa não está no retrato, mas o seu timbre ainda ecoa nos meus ouvidos: segura, firme, com laivos de ternura quando se dirigia a qualquer um de nós, os seus queridos sobrinhos.
A verdade é que este retrato precisa de ser restaurad0 com urgência. A minha irmã entregou-o aos meus cuidados com esse propósito. Confesso que fiquei com alguma má-consciência quando constatei que talvez a minha falta de actuação imediata tenha contribuído para a deterioração do mesmo, que hoje me pareceu francamente agravada. A tela, nalguns sítios (como ao pé da boca, do lado esquerdo do retrato, numa bem notória mancha na fotografia) está tão rarefeita que consegue ver-se à transparência. Não podemos deixar que uma peça deste valor (enquanto pintura, sem dúvida) mas em termos afectivos, acima de tudo, seja danificada, destruída. É nosso dever preservá-la, enquanto herdeiros de alguns dos seus quadros mas, principalmente, da memória de momentos que ela nos dizia terem marcado para sempre a sua personalidade e, acima de tudo, conhecedores que somos da sua história, da paixão da sua vida - a pintura - que sempre lhe foi vedada enquanto profissão , sendo que pouquíssimas pessoas terão tido a ventura de observar trabalhos seus.
Só mais duas ou três revelações: a tia Albertina teve dois filhos que morreram praticamente à nascença. Também o papel de mãe lhe foi negado, mas esse pela natureza. Não deixou descendência directa, portanto. Connosco, sobrinhos-bisnetos, descobriu o prazer de ter crianças junto de si e a felicidade dela reflectia-se como um espelho na alegria, no orgulho por nós sentido pelo facto de podermos partilhar as recordações da sua vida, da do seu pai e do seu avô. Penso que isso contribuiu para que, desde muito cedo, cada um de nós tivesse, a seu modo, começado a encarar a arte como um assunto muito sério, como uma (senão a) razão da existência. O meu irmão era, claramente, o seu sobrinho preferido, mas também, como não o ser, quando prescindia de tudo o resto, com seis anos de idade apenas, para ficar sentado a seu lado, a folhear livros de arte, a fazer-lhe perguntas inteligentes sobre o que ia observando, a sorver tudo o que ela tinha para contar e ensinar. Adoravam-se mutuamente, digo-o sem qualquer pejo. Vê-los juntos era um encanto (note-se que não há aqui lugar para qualquer ponta de ciúme, antes pelo contrário, deliciava-me aquela relação especial, da qual eu nunca fui excluída, mas cúmplice).
Última revelação, e que não é mais do que uma rectificação, assim do género "já agora, que fique tudo no seu devido lugar": a nossa verdadeira tia-bisavó era a sua mãe, Maria Antónia, irmã do nosso bisavô Luís Filipe, casada com o pintor Ribeiro Cristino (de quem também temos um retrato a carvão, desenhado pelo marido, na Ponte do Arco) mas que, como facilmente se depreenderá da idade que a tia Albertina tinha quando nascemos, nunca chegámos a conhecer. A Albertina Augusta, nossa prima, afinal, nunca suportou a ideia de que a tratássemos por "prima" (logo nós, que ela elegera, naquela avançada idade, como os filhos que gostaria de ter tido) e sempre deixou bem claro que nunca deveríamos tratá-la senão por "tia Albertina". Acabámos por esquecer-nos que não era, verdadeiramente, nossa tia, mas também, agora que penso nisso, ela foi muito mais nossa tia do que as tias-bisavós que conhecemos (essas sim, irmãs da bisavó Mafalda - e aqui volto a remeter para o post da Ponte do Arco, na tentativa de evitar que tudo isto fique muito confuso para quem lê, ao cair no clássico erro de que é tudo tão clarinho para os outros como para mim!)
O facto de partilhar convosco estas intimidades está, começo a ficar convicta, intrinsecamente ligado ao remorso que sinto pelo facto de não a ter acompanhado devidamente nos seus últimos tempos de vida e toda esta "pomposa" homenagem (parece-me agora, que reflicto sobre o assunto) estará a funcionar, simultâneamente, como um acto de contrição. Recém-casada e com a primeira filha nos braços, não me sobrava muita disponibilidade para pensar na querida tia Albertina... sei, disso tenho a certeza, que fui visitá-la ao hospital... julgo que uma única vez. A imagem fantasiada da sua hora da morte, completamente sozinha, naquela cama de hospital, ainda hoje me aflige, perturba e ensombra.