terça-feira, outubro 30, 2007

A doçura de Outubro (ontem como hoje)



O ano passado publiquei um post a que dei o título de Outubro Doce.






Este ano voltou o sentimento, ao longo de todo o mês, como se me fosse dado viver, neste período, o que de mais pacífico e tranquilo existe na vida. É um tempo lânguido e terno. Um tempo de carinho e de doçura. Um tempo de harmonia e de bem-estar comigo e com os outros: com tudo o que sou e com o que me rodeia. Em Outubro sou feliz. Logo, logo, virá o Novembro, com os seus dias cinzento-escuros e a inevitável melancolia, que contamina a paisagem, traz consigo o desconforto da humidade, a tristeza dos dias curtos e escuros, o frio que penetra a roupa e se infiltra até aos ossos, até à alma.






Entretanto, celebro Outubro... os tons suaves do céu, do mar, da areia, dos tapetes de folhas que se formam em volta das árvores, os sorrisos das pessoas que amo, a calma de um entardecer morno e cúmplice, na maré-vazia, quando a luz é branda e o ar que respiro está impregnado de um misto do cheiro da maresia, numa brisa aconchegante, com o aroma das plantas que povoam as dunas: doce.

quinta-feira, outubro 11, 2007

Sintra... Nas Brumas da Memória

"A Fonte das Brumas" - Gustavo Fernandes


"O eco de Anesir" - Luís Vieira-Baptista


"Noites Mouriscas" - Victor Lages

Foi em 1995 (já lá vão 12 anos, é verdade) que aceitei o convite para estar presente na inaguração de uma exposição do "Grupo Artitude", em Sintra. Três artistas na flor da idade, com sensibilidades, vontades e um atelier em comum, tinham acatado o desafio da Câmara Municipal para, ao sabor da imaginação e da arte, recriarem Sintra... nas brumas da memória. Foi esse o tema da exposição e ali pude encontrar inúmeras pinturas maravilhosas, destes três homens que, desde logo, passaram a fazer parte dos pintores portugueses contemporâneos meus preferidos.
Nesse dia adquiri os três quadros cujas imagens aqui reproduzo (e tive que me apressar porque a procura era muita!). Apaixonei-me, à primeira vista, por estas três pinturas, cada uma de seu autor, por mera coincidência.
Depois, com o correr dos anos, fui seguindo as suas carreiras, que trilharam caminhos distintos, uma vez desfeito o grupo que os impulsionou, e apreciando a evolução de cada um, tendo levado para casa mais algumas pinturas de um deles, aquele com quem julgo ter maiores afinidades, o que melhor dialoga com a minha "corda sensível". Continuo a visitar as exposições individuais de cada um dos três autores, sempre que posso, mas há já algum tempo que não consigo trazer comigo a ilusão de mais um pedaço das suas almas, para me fazer companhia, o tempo todo, no meu canto: "indisponibilidades financeiras", nada de mais...
Resta-me, além disso, visitar os seus sites para ficar actualizada relativamente às obras que vão produzindo... e sonhar... que volto a poder trazer para casa a materialização de uma ou outra que gostaria de ter sempre ao alcance do olhar, da contemplação.

segunda-feira, outubro 01, 2007

Luz d'Outono

Laughing Whitefish State Park Upper Peninsula Michigan Fall colors 2005
No entardecer nostálgico d'Outono
calmo, de luz doirada, transparente,
na mística e doce luz do sol poente,
naquela paz descanso, me abandono.
Longe, no horizonte vai o sol morrer,
somente uma poalha d'oiro anda no ar;
e na penumbra me perco a procurar
sempre a mesma luz, outro amanhecer.
Um crepúsculo, agora, me adormece
naquela vaga luz quando anoitece
se não me acordam fortes vendavais.
Luz que sendo tão frouxa, indefinida,
nela durmo o sono breve desta vida,
com medo de acordar cedo de mais.
Maria Teodora, 2003

terça-feira, setembro 18, 2007

As escadas do amor.... com árvore

Foto de António Rodrigues

Passo e olho. Sorrio. Vou com pressa mas detenho-me. Não consigo evitar. Neste momento, ninguém desce ou sobe as escadas. E, no entanto, elas estão lá para isso.
Mais: uma escadaria assim, com árvore ao meio, só pode ter sido concebida a pensar nos pares enamorados...
Lisboa tem destes encantos!
Para que não restem dúvidas, pode ler-se num graffiti ao acaso, em letras mal desenhadas, a palavra AMOR.
Já valeu a pena ter passado por aqui!

(O AMOR NO VERÃO DA VIDA)
A descoberta da escadaria.
Os degraus
descidos dois a dois.
Não andamos, flutuamos.
Enlaçada pela cintura,
sinto que voo, levito.
Junto à arvore paramos.
Beijamo-nos longamente,
como dois adolescentes.
Rimos e sentamo-nos,
abraçados,
no murete do lado direito,
olhando a árvore
e rindo como perdidos,
do insólito, do inesperado,
da majestática árvore
ali plantada,
indubitavelmente colocada
para que dois tontos apaixonados
se beijassem e sentassem a contemplá-la.
Descemos
o último lance de degraus
dois a dois.
Não andamos, flutuamos.
Enlaçada pela cintura
sinto que voo, levito.
Olhamos a escadaria
agora de baixo para cima.
Inevitável não ver
que alguém escreveu,
na base do murete,
(do lado esquerdo, direito quando descíamos)
a palavra AMOR.
Beijamo-nos longamente,
como dois adolescentes.
Olhamos, por um momento,
o graffiti rabiscado.
Rimo-nos e abraçamo-nos.
Seguimos em frente.
Já não somos adolescentes
mas temos um grande amor
por viver.

segunda-feira, setembro 10, 2007

Mar


Mar, assustas-me.

Há muitos anos
não tinha medo de ti.

O sussurro das águas.
O vaivém das ondas.
A imensidão
dos teus domínios;
Fascinavas-me...

Entrava nas tuas águas,
sentia a união do meu corpo e do teu ser,
num desafio à luta,
à volúpia
dos teus remoínhos,
dos teus abraços,
ora violentos, ora suaves.

Hoje assustas-me...
Tu és incansável e o meu corpo
já não acompanha os teus desafios.

Mar, não perdeste encanto
nem fascínio.


Na mera contemplação do teu mundo,
continuam a encontrar-se as nossas almas,
numa calma e doce

harmonia e comunhão.

(Texto de Noémia Carvalhosa, Baleal, Julho de 1996)
fotos de Maria Carvalhosa, Agosto de 2007

sexta-feira, setembro 07, 2007

Um Mar de Contos - aquisição do livro

Meus amigos,
Se alguém estiver interessado em adquirir o livro de contos de que vos falei no post de 28 de Agosto, resultante da compilação dos contos distinguidos pelo júri no concurso "Ora, vejamos..." poderá, a partir de agora, fazê-lo através do acesso ao endereço que passo a indicar:
N.B. Trata-se, como é óbvio, de uma mera informação... ;)
Um excelente fim-de-semana para todos.

segunda-feira, setembro 03, 2007

O espectáculo continua


A inauguração da magnífica exposição da Júlia Calçada aconteceu no dia 1 de Setembro, pelas 15 horas, na Biblioteca Municipal de Alenquer. A festa esteve à altura do mérito da pintora. Não faltou música, interpretada ao vivo por artistas de outra arte (familiares da autora), os amigos acorreram em massa e muitos outros apreciadores por lá passaram para a cumprimentar e, nalguns casos, deixar as felicitações escritas no livro ou, mesmo, comprar. A exposição vai continuar até dia 29 de Setembro, das 10 H às 19 H, excepto à segunda feira que é das 14 H às 20 H. Todos os trabalhos expostos têm por inspiração a bailarina-menina-mulher-artista que um dia surgiu na mente da pintora e a quem ela tem vindo a dar pose(s), estilo(s), vida(s). Esta mostra sublime intitula-se : "O espectáculo vai começar".

Como acredito que o espectáculo só agora começou, adquiri, para poder admirar em casa sempre que me apetecer, a tela designada "O espectáculo continua", acima retratado. Teria trazido muitos mais, se pudesse... (ai, ai!...)

Alguns amigos já tinham descoberto o fascinante trabalho da Júlia através do seu blogue JC. Para esses, que o conhecem e admiram, e para os outros, que nunca sequer visitaram o espaço, recomendo vivamente uma visita à Biblioteca Municipal de Alenquer. Apesar de as fotografias no blogue serem excelentes, os trabalhos ao natural ultrapassam, em muito, a beleza que constatamos ao contemplar as fotos. Além do mais, há surpresas... pinturas novas, lindíssimas, ainda não publicadas no blogue.


terça-feira, agosto 28, 2007

Contos

Este é o sítio onde poderão encontrar um interessante concurso de contos, que decorreu recentemente, e no qual estão actualmente a ser publicados os textos destacados pelo júri.
Recomendo a visita a este local de eleição por duas razões principais:
1) Vale mesmo a pena ler os contos que vão sendo publicados
2) Esta vossa amiga viu dois dos contos que enviou distinguidos com menção honrosa, ambos publicados neste blogue em Dezembro de 2005: Salão e Kyoto. :):):) - (estou contente, pois claro!!!)
O livro, contendo os contos seleccionados de todos os autores concorrentes que autorizem a sua divulgação, deverá estar publicado até ao final de Setembro. Para mais pormenores, consultem o endereço acima, da responsabilidade do Henrique Sousa.
Podem (re)ler os meus contos aqui e aqui, respectivamente, mas, para conhecerem os trabalhos dos outros autores, têm mesmo que ir até lá. Resta-me acrescentar que o referido sítio tem muitos outros assuntos de interesse. Se ainda não o conheciam, está na hora de o visitarem.

terça-feira, agosto 21, 2007

Dimensões


Post publicado (com diferenças mínimas, que ninguém se dará ao trabalho de procurar) no meu blogue A Palavra e a Imagem, em 01/08/07 - como está para lá esquecido, à míngua de visitantes, resolvi trazê-lo até aqui... talvez tenha melhor sorte!... :)
Em tempo de férias dá para fazer experiências e brincadeiras, com propósitos verdadeiramente inocentes, na languidez do "dolce fare niente" e o usufruto desse bem maior que se obtém em troca do que se dá nos restantes onze meses - descanso vs trabalho.
A dimensão, seja do que for, é tão relativa quanto o tempo e o espaço. Levo meia-hora a caminhar pela baía, desde as Portas de Peniche ao Baleal, sempre pela areia, e percorro uma distância de 4 Kms. E daí? Fico meia-hora mais velha, logo com menos meia-hora de vida, mas, ainda que não tivesse percorrido aquele espaço, a meia-hora ter-se-ia gasto, e restar-me-ia, da mesma forma, menos meia-hora de vida. Ou será que ganhei meia-hora de vida pelo facto de ter percorrido a baía em vez de ter ficado estiraçada ao sol?


Pequenas questões as minhas, e, no entanto, tantas dúvidas, tantas respostas que os físicos e os matemáticos procuram, essas, sim, a ter em conta, mas também os gnósticos e os ascetas, de um modo diferente, com base nas antigas religiões e no que as respectivas doutrinas defendem e profetizam, e afinal, imagine-se, acabam por se encontrar todos na inenarrável Teoria de Tudo. E não é que o big bang e o big crunch e a segunda lei da termodinâmica dos cientistas nos levam exactamente aos mesmos pontos de partida e de chegada que o judaísmo, o islão, o hinduísmo, o budismo, o taoísmo?

Agora pergunto eu, o que fazemos nós aqui? Por que razão existimos? E se não existíssemos, se não passássemos de figuras imaginadas, sonhadas por Ele, o Senhor do Universo, farto de estar só nesta imensidão que, provavelmente, será infinita. Ou não. E se Ele anseia pela morte, pelo descanso ao qual poderá nunca ter direito? Somos completamente incompetentes para o ajudar. Nós, que nem sabemos quem somos, nem se foi Ele que nos inventou, para se distraír... e se Ele também não existe? O que é esta história? Uma farsa, uma tragicomédia inventada por quem nunca passou de um mito... e, no entanto, o Universo está aí, com todas as estrelas, nebulosas, planetas, cometas e galáxias em contínuo movimento... ou será que tudo não passa de uma ilusão? Mas ilusão porquê, para quê e para quem? E se o Princípio da Incerteza for a porta para a Teoria de Nada?

"Raios partam a vida e quem lá anda", dizia Álvaro de Campos, isto partindo do princípio que houve um Álvaro de Campos, apesar de, como todos sabemos, mais não ter sido que um dos heterónimos de um outro ser mais complexo que o criou, esse poeta de excepção a quem chamamos Fernando Pessoa, mas a quem poderíamos, por absurdo, chamar deus. Seremos todos nós pequenos deuses que inventamos o mundo à nossa imagem, de acordo com a criatividade e vontade de cada um?
Ná... os cientistas não vão nessa, e os teólogos também não.

O que eu sei, neste momento, é que a minha gata ocupa o espaço (quentinho) em cima do meu computador. Eu vejo isso e quero acreditar (porque preciso de acreditar nalguma coisa) que as dimensões são uma realidade, tal como o espaço que ocupam e o tempo que qualquer objecto demora a deslocar-se de um local para outro (ou será que pode estar em vários locais ao mesmo tempo, dependendo apenas da presença de um observador que comprove que ele existe, naquele sítio e momento, porque ele o vê, naquele exacto local, naquele preciso instante?)
Sabemos tão pouco de tudo. Por vezes, gostaria de ser como os que se contentam com o que têm, o que conhecem, o que julgam saber, e não se preocupam com os porquês. Tiveram, certamente, a idade dos porquês lá para os quatro ou cinco anos e ficaram satisfeitos com as respostas. Vivem felizes assim. (A minha idade dos porquês deverá durar os meus anos de vida e, apesar de tudo, não acredito no que acabei de afirmar, ou seja, que aqueles que a ultrapassaram na infância, vivam hoje felizes e contentes. Apenas se acomodaram a fazer de conta que sim!...).

terça-feira, julho 31, 2007

As brumas da Berlenga

Fotografia de António Rodrigues, o "madrugador"... ;)

Não. Não se trata de mais uma paráfrase a partir de "The Mists of Avalon". É que hoje a Berlenga amanheceu assim, envolta em brumas, e eu senti uma vontade imensa de ir até lá, mais logo, com o sol aberto. Manhãs nostálgicas as desta terra, que logo se dissipam quando os raios do astro-rei rompem as núvens e com eles trazem cor, vida, alegria de aqui estar, neste lugar abençoado pela mãe-natura.

terça-feira, julho 24, 2007

Paráfrases, a seis mãos... três pares de asas

NOTA: Este post foi inteiramente "roubado" ao blog Voo de Dédalo, da minha amiga Esvoaçante.

Dá-me a tua mão:
Vou agora te contar como entrei no inexpressivo que sempre foi a minha busca cega e secreta.
De como entrei naquilo que existe entre o número um e o número dois, de como vi a linha de mistério e fogo, e que é uma linha sub-reptícia.Entre duas notas de música existe uma nota, entre dois factos existe um facto, entre dois grãos de areia por mais juntos que estejam existe um intervalo de espaço, existe um sentir que é entre o sentir-nos interstícios da matéria primordial está a linha de mistério e fogo que é a respiração do mundo, e a respiração contínua do mundo e aquilo que ouvimos e chamamos silêncio.

Clarice Lispector ( A paixão segundo G.H.)
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Dá-me a tua mão:
vou contar-te como procuro e temo encontrar, sei do som dos passos e
ensurdeço ao amanhecer. De como se sente o estalejar dos minutos e o
latejar dos dias.

Dá-me os teus olhos:
vou agora deixá-los percorrer as paisagens de olvido e de segredo,
desvelá-los nas profundezas de um azul sombrio.

Dá-me os teus braços:
vou agora acolher-me neles, como em muralha inexpugnável e imune ao
passar dos tempos.

Não, não me dês nada do que é teu e te faz falta.
Podes vir a dar contigo como cidadela desconstruída e exposta às
estrelas.

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Dá-me a tua mão.
Olharei, com todo o furor do meu pensamento, para os teus dedos.
Escolherei, para cada um, a nota musical adequada à frequência que
ressoa no meu coração.

Dás-me cada dedo
E as notas que eles tocam nada mais são que pedaços da minha pele,
cuja cor se altera mesmo antes de ser atingida. Não são teclas
monocromáticas nem cordas que se/me prendam...
O que me dás
É aquilo que me transforma e emudece. E basta-me o quase toque de
um dedo da tua mão para que a ilusão de que sou inatingível
desapareça.

Dar e ser
Tendem a transformar-se em tons e meio tons que formam escalas
e escadas. Damos e somos. E sonhamos.
(Carteiro) ou Senhor dos Selos

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Dá-me a tua mão:
saberei encontrar o caminho
dos segredos que guardamos.

Dá-me o teu sorriso:
encontrarei a alma pura
da água que corre da fonte.

Dá-me o teu olhar:
conseguirei rasgar as núvens
e alcançar o céu, lá,
onde é mais azul.

sexta-feira, julho 13, 2007

Mar de Esperança

Fotografia subordinada ao tema "brancura", publicada no PalavraPuxaPalavra em 12-07-2007




Não sei que existe em ti que me fascina,
trago na boca este sabor a mar;
se nas tuas ondas esgoto o meu olhar
a força do teu canto me domina.

É de ti que me vem esta ansiedade
porque acredito na tua cor de esp'rança;
és tu que me transformas em bonança
se cá dentro me agito em tempestade.

No marulhar constante me baloiço,
descubro em ti segredos quando oiço
a tua voz segredar-me o que não digo.

E enquanto olho o vai-vém das águas
à espera que leves estas mágoas,
sou gaivota perdida sem abrigo.


(Maria Teodora - 1980)

domingo, julho 01, 2007

O verdadeiro rosto da tia Albertina



Porque surgiram alguns comentários ao post anterior, apontando soluções várias para a identidade da figura retratada e, inclusivamente, foi sugerido que fosse um auto-retrato, sinto que a minha homenagem não ficava completa se aqui não publicasse o verdadeiro auto-retrato da tia Albertina.

Tudo o que disse sobre o retrato de Esmeralda corresponde à realidade, isto é, nem sequer sei o seu verdadeiro nome nem quem poderia ter sido o modelo. A tia Albertina nunca nos falou daquele retrato e só o encontrei, no tal caixote no sótão, muitos anos após a sua morte. A minha imaginação sentiu necessidade de criar o resto, que é muito pouco, mas que confere alguma identidade (ainda que meramente hipotética) àquele rosto anónimo e misterioso.

Quanto a este óleo, não há qualquer margem para dúvida, porque foi oferecido pela própria à minha irmã, que era sua afilhada, tal como os lindíssimos brincos aqui retratados (não posso deixar de referir, a par com a perfeição dos brincos, a maravilhosa gola de renda, cujos pormenores só poderiam ter sido assim transpostos para a tela por verdadeira mão de artista) . Nenhum de nós (refiro-me aos três irmãos de que faço parte) conheceu a tia Albertina na sua juventude, como é natural. A verdade é que aos setenta e muitos anos, e mesmo aos oitenta, quando a conhecemos bem de perto e tivemos o privilégio de com ela conviver intensamente (a que teve menor oportunidade de estar com ela foi, por ironia, a minha irmã, sua afilhada como referi, porque era a mais novinha...) mantinha muitos dos traços que podemos observar neste auto-retrato. Foi sempre alta e magra, duma elegância que fazia inveja a muitas raparigas de vinte anos. O porte altivo que aqui podemos apreciar, era nela uma constante, e manteve-o até ao fim dos seus dias de pessoa saudável e "senhora do seu nariz" . Os olhos, embora mais encovados, também nunca perderam o tom verde-azeitona nem o brilho que os incendiava quando relatava emoções. A voz, essa não está no retrato, mas o seu timbre ainda ecoa nos meus ouvidos: segura, firme, com laivos de ternura quando se dirigia a qualquer um de nós, os seus queridos sobrinhos.

A verdade é que este retrato precisa de ser restaurad0 com urgência. A minha irmã entregou-o aos meus cuidados com esse propósito. Confesso que fiquei com alguma má-consciência quando constatei que talvez a minha falta de actuação imediata tenha contribuído para a deterioração do mesmo, que hoje me pareceu francamente agravada. A tela, nalguns sítios (como ao pé da boca, do lado esquerdo do retrato, numa bem notória mancha na fotografia) está tão rarefeita que consegue ver-se à transparência. Não podemos deixar que uma peça deste valor (enquanto pintura, sem dúvida) mas em termos afectivos, acima de tudo, seja danificada, destruída. É nosso dever preservá-la, enquanto herdeiros de alguns dos seus quadros mas, principalmente, da memória de momentos que ela nos dizia terem marcado para sempre a sua personalidade e, acima de tudo, conhecedores que somos da sua história, da paixão da sua vida - a pintura - que sempre lhe foi vedada enquanto profissão , sendo que pouquíssimas pessoas terão tido a ventura de observar trabalhos seus.

Só mais duas ou três revelações: a tia Albertina teve dois filhos que morreram praticamente à nascença. Também o papel de mãe lhe foi negado, mas esse pela natureza. Não deixou descendência directa, portanto. Connosco, sobrinhos-bisnetos, descobriu o prazer de ter crianças junto de si e a felicidade dela reflectia-se como um espelho na alegria, no orgulho por nós sentido pelo facto de podermos partilhar as recordações da sua vida, da do seu pai e do seu avô. Penso que isso contribuiu para que, desde muito cedo, cada um de nós tivesse, a seu modo, começado a encarar a arte como um assunto muito sério, como uma (senão a) razão da existência. O meu irmão era, claramente, o seu sobrinho preferido, mas também, como não o ser, quando prescindia de tudo o resto, com seis anos de idade apenas, para ficar sentado a seu lado, a folhear livros de arte, a fazer-lhe perguntas inteligentes sobre o que ia observando, a sorver tudo o que ela tinha para contar e ensinar. Adoravam-se mutuamente, digo-o sem qualquer pejo. Vê-los juntos era um encanto (note-se que não há aqui lugar para qualquer ponta de ciúme, antes pelo contrário, deliciava-me aquela relação especial, da qual eu nunca fui excluída, mas cúmplice).

Última revelação, e que não é mais do que uma rectificação, assim do género "já agora, que fique tudo no seu devido lugar": a nossa verdadeira tia-bisavó era a sua mãe, Maria Antónia, irmã do nosso bisavô Luís Filipe, casada com o pintor Ribeiro Cristino (de quem também temos um retrato a carvão, desenhado pelo marido, na Ponte do Arco) mas que, como facilmente se depreenderá da idade que a tia Albertina tinha quando nascemos, nunca chegámos a conhecer. A Albertina Augusta, nossa prima, afinal, nunca suportou a ideia de que a tratássemos por "prima" (logo nós, que ela elegera, naquela avançada idade, como os filhos que gostaria de ter tido) e sempre deixou bem claro que nunca deveríamos tratá-la senão por "tia Albertina". Acabámos por esquecer-nos que não era, verdadeiramente, nossa tia, mas também, agora que penso nisso, ela foi muito mais nossa tia do que as tias-bisavós que conhecemos (essas sim, irmãs da bisavó Mafalda - e aqui volto a remeter para o post da Ponte do Arco, na tentativa de evitar que tudo isto fique muito confuso para quem lê, ao cair no clássico erro de que é tudo tão clarinho para os outros como para mim!)

O facto de partilhar convosco estas intimidades está, começo a ficar convicta, intrinsecamente ligado ao remorso que sinto pelo facto de não a ter acompanhado devidamente nos seus últimos tempos de vida e toda esta "pomposa" homenagem (parece-me agora, que reflicto sobre o assunto) estará a funcionar, simultâneamente, como um acto de contrição. Recém-casada e com a primeira filha nos braços, não me sobrava muita disponibilidade para pensar na querida tia Albertina... sei, disso tenho a certeza, que fui visitá-la ao hospital... julgo que uma única vez. A imagem fantasiada da sua hora da morte, completamente sozinha, naquela cama de hospital, ainda hoje me aflige, perturba e ensombra.

segunda-feira, junho 25, 2007

O rosto de Esmeralda

Todas as fotografias trazem histórias agarradas.
Por coincidência, duas das últimas com que entrei no jogo "Fotodicionário", do blogue Palavra Puxa Palavra têm, por detrás, histórias de família ("linhas" e "rosto").
Relativamente a esta última, andava eu a "meter o nariz" no conteúdo de uns caixotes que estavam no sótão da nossa casa na Quinta da Ponte do Arco (quem quiser conhecê-la pode visitar o meu post "A Obra" - (Ponte do Arco), de Fevereiro de 2007), quando me deparei com este retrato a carvão, amarrotado e mal-tratado pelo tempo e pela ausência de estima, assinado pela minha tia-bisavó Albertina Augusta (coitada da senhora... que nome lhe haviam de ter posto!). Fiquei, desde logo, fascinada. Mais deliciada ainda quando reparei na data do dito retrato: nada mais nada menos que o dia exacto do meu aniversário, mas quase cinquenta anos antes de eu ter nascido... de imediato me apaixonei por aquele rosto, de "buço" e olhos indubitavelmente muito claros - verdes, possivelmente - e baptizei-o de "Esmeralda".
Fiquei cheia de dúvidas quanto ao modelo, tal como alguns de vocês, meus amigos, que assim o manifestaram nos comentários à foto no referido jogo do PPP ("mas isto é homem ou mulher?" , "mulher com um bigode daqueles?".
Encontrei como resposta provável que tivesse sido um retrato desenhado às escondidas, pela minha tia-bisavó, recorrendo a uma empregada como modelo. Empregada doméstica não deveria ser, pois não apresentava o uniforme característico, poderia ser uma lavadeira ou, então, era uma encenação em que a/o modelo vestia roupas "arranjadinhas", embora modestas, escondia o cabelo numa espécie de turbante (à maneira das lavadeiras da época, julgo eu) e punha uns brincos compridos, a contrastar com o resto. Tudo meras possibilidades... a verdade partiu para sempre com a tia Albertina (que tive o prazer de conhecer e com quem convivi intensamente desde a minha infância até aos vinte e tal anos, dado que ela morreu com cerca de noventa).
Resta-me acrescentar, a título de curiosidade, que a autora do retrato a carvão era neta, filha e irmã de pintores famosos da nossa praça, todos eles alunos e, mais tarde, professores nas Belas-Artes (um dos irmãos até ganhou vários prémios Valmor, tendo sido um dos arquitectos bem conhecidos do "Estado Novo", autor de obras de época como a Praça do Areeiro e as chamadas "Avenidas Novas", bem como a sua própria residência em Lisboa, igualmente objecto de prémio Valmor).
A tia Albertina que, segundo consta, era a filha que tinha herdado do pai e do avô a verdadeira arte de pintar e desenhar (quadros de ambos, mas principalmente do avô, podem encontrar-se no Museu de Arte Contemporânea, no Chiado) - e eu tenho aguarelas e óleos pintados por ela, devidamente cuidados e amados, como merecem - viu negada a sua vontade de aceder, contrariamente aos irmãos do sexo masculino, às Belas-Artes, porque uma menina da aristocracia (ainda que praticamente arruinada), mesmo numa família de artistas pelo lado paterno, tinha mais era que casar e ter filhos e comportar-se como uma senhora de sociedade. O marido, inclusivamente, viria a proibi-la de pintar, razão pela qual penso que o retrato terá sido feito às escondidas... Enfim... outros tempos... em que a mulher, de forma submissa, tinha que obedecer e não questionar... primeiro, os pais, depois, o marido. Pobre tia Albertina Augusta!
Mas o orgulho que ela tinha nos muitos quadros do pai e do avô que lhe revestiam as paredes da casa era imenso! E o que eu e o meu irmão gostávamos de estar com ela!...: conversar, admirar os quadros, um por um, vezes sem conta, ver os muitos livros de arte, ouvir as suas deliciosas histórias! Não é vulgar, em crianças da nossa idade, trocar as brincadeiras com os amigos por tardes passadas em casa (e no jardim, é verdade) de uma tia quase octogenária.
Passávamos tardes inteiras com ela e nunca, nunca nos fartávamos. Havia, na parede de uma das salas, um quadro enorme, um óleo pintado pelo pai, retratando o claustro do Mosteiro da Batalha. Tinha umas cores fabulosas, em que me lembro de predominar um tom dourado. Nas tardes de sol de inverno, quando os raios estavam baixos e incidiam de uma certa forma no quadro, distinguia-se, no canto inferior direito, no sítio onde ele pintara um jarrão de flores, a figura de duas senhoras elegantemente vestidas (a esposa e a cunhada do pintor, segundo a tia) que o pai resolvera tapar com o jarrão numa fase avançada da vida em que já fazia (conforme ela nos assegurava) alguns "disparates".
Aquela casa de sonho tinha também quadros de outros artistas de renome, amigos da família, como os irmãos Bordalo Pinheiro, cada um no seu género, como sabemos, ou o Cottineli Telmo a quem ela, ternamente, chamava apenas "Telmo", quando contava algum episódio passado entre eles (desconfio que chegaram mesmo a ter namoro).
Quanto à Esmeralda, olho-a muitas vezes, numa parede da minha casa do Baleal (mal sabia ela, que nunca deve ter visto o mar, que iria acabar numa casa de praia). Adoro aquele contraste entre o buço e os olhos claros, sonhadores... de vez em quando vejo-a/o piscar-me o olho!!! ;)