quarta-feira, abril 09, 2008

Rosa-sem-espinhos (de novo)


A Mafalda pediu-me uma fotografia das minhas rosas-sem-espinhos para servir de ilustração a um poema seu. É com grande alegria que lhe cedo a imagem e rejubilo de felicidade ao constatar que este alvo do meu afecto, desde sempre, passou a ser partilhado pela comunidade de amigos de forma tão natural e espontânea.

Recomendo que vão visitar o "Vento Agreste" ou "A Casa no Alto do Monte", onde, com as rosas amarelas por pano de fundo, podemos assistir a uma estreia mundial da Mafalda Coimbra numa incursão pelos terrenos da poesia.
Não comento aqui.
Limito-me a agradecer a deferência.

Beijos gratos e ternos, Mafalda.

segunda-feira, março 10, 2008

Continuando a Re-flectir com Júlia Calçada


Ter estado na inauguração de mais esta exposição da Júlia Calçada foi um privilégio. Para quem não teve essa oportunidade, recomendo a visita ao sítio "Olhares de Maresia", onde o António Rodrigues nos oferece a sua excelente reportagem fotográfica da magnífica mostra.


Votos de uma agradável visita!





terça-feira, fevereiro 12, 2008

Re-flectir

Pintura de Júlia Calçada - JC

Flectir.
Re-flectir.
Repetir a flexão. Uma vez, duas... mais dez. Só mais dez.
Outra vez: uma, duas... e dez.
O espelho devolve-me a imagem:
cada gesto, cada passo, cada sorriso ensaiado.
Um corpo que, maquinalmente, flecte e reflecte. Uma alma que o vê reflectido na crueza do imenso vidro espelhado para que, em consciência, nada se perca, nenhum movimento falhado, no reflexo, como na vida.
Cansada, sento-me no chão.
Dou por mim a reflectir na rotina de mais um dia de treinos.
Assim tem sido nos últimos 20 anos. Hora após hora, dia após dia.
Momento de reflexão. Não de arrependimento, não de desespero.
Adoro o que faço. Foi para dançar que nasci. É para bailar que vivo.
As noites de espectáculo, essas são sublimes. As luzes iluminam o palco e seguem a dança deste meu corpo, ao som da música que o transporta, que o eleva, que o faz executar o bailado, como uma gaivota num voo planado: sem fadiga, sem esforço, com um sorriso autêntico desenhado nos lábios, com um brilho verdadeiro reflectido no olhar.
Vem a apoteose, o aplauso entusiástico do público. Os sinceros "bravo" de quem apreciou. As flores a meus pés...
Reflicto: a vida pode ser bela. Uns minutos de felicidade apagam toda a mágoa acumulada ao longo de dias de ensaios intensivos e de noites infindáveis, sem dormir.
Quando danço, quase esquecida que o faço, reflicto a minha maneira de ser, de pensar, de sentir. Sou eu toda, ali, sozinha, perante uma plateia que me observa atentamente.
É nesses momentos que estou, afinal, a reflectir o meu verdadeiro íntimo, para o exterior, como uma dádiva, que estou a libertar os meus fantasmas, medos, desânimos. Também a minha alegria de viver, a paixão pela dança, a razão da minha existência...
Nessas ocasiões não reflicto. Liberta de barreiras, apenas sou.

segunda-feira, fevereiro 04, 2008

Pablo Neruda


Neruda - José Juan Torres (clicar para aceder ao link em que se ouve a excelente declamação de J.J. Torres)

Este post é dedicado à minha filha Sara, que faz hoje 25 anos e que, durante a sua infância, muitas vezes me ouviu "dizer" este poema. Também o dedico ao meu pai, que fez 78 anos no dia 31 de Janeiro e que, porque gostava de me ouvir "dizê-lo", tem-no gravado num dos seus álbuns de recordações áudio.

Parabéns a ambos, com todo o meu amor.


"Posso escrever os versos mais tristes esta noite "
Posso escrever os versos mais tristes esta noite.

Escrever, por exemplo: "A noite está estrelada, e tiritam,
azuis, os astros lá ao longe".

O vento da noite gira no céu e canta.

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Eu amei-a e por vezes ela também me amou.

Em noites como esta tive-a eu nos meus braços.
Beijei-a tantas vezes sob o céu infinito.

Ela amou-me, por vezes eu também a amava.
Como não ter amado os seus grandes olhos fixos.

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.

Pensar que não a tenho.
Sentir que a perdi já.

Ouvir a noite imensa, mais imensa sem ela.
E o verso cai na alma como no pasto o orvalho.

Importa lá que o meu amor não pudesse guardá-la.
A noite está estrelada e ela não está comigo. Isso é tudo.

Ao longe alguém canta. Ao longe.
A minha alma não se contenta com havê-la perdido.

Como para chegá-la a mim, o meu olhar procura-a.
O meu coração procura-a e ela não está comigo.

A mesma noite que faz branquejar as mesmas árvores.
Nós dois, os de então, já não somos os mesmos.

Já não a amo, é verdade, mas tanto que a amei.
Esta voz buscava o vento para tocar-lhe o ouvido.

De outro. Será de outro. Como antes dos meus beijos.
A voz, o corpo claro. Os seus olhos infinitos.

Já não a amo, é verdade, mas talvez a ame ainda.
É tão curto o amor, tão longo o esquecimento.

Porque em noites como esta a tive nos meus braços, a minha alma não se contenta com havê-la perdido.

Embora esta seja a última dor que me causa, e estes sejam os últimos versos que lhe escrevo.

Pablo Neruda in "Vinte Poemas de Amor e uma Canção Desesperada"

sábado, janeiro 19, 2008

Despertar

Nota prévia: decidi publicar nesta data este poema da tia Mariazinha por ser hoje o aniversário das suas duas filhas gémeas - Sílvia e Isabel (minhas primas igualmente muito queridas).
Parabéns à mãe e às filhas!


Chegou a Primavera verde e florida
e caprichosa pôs em cada flor
doce harmonia de perfume e cor
... mágico acordar da terra adormecida.

Vibrante despertar do secreto sono
em manhã de sol de sublime encanto
no cantar das aves... só que entretanto
tudo empalidece em chegando o Outono.

Mas se há em nós um verão - fruto maduro,
saboreemo-lo no seu aroma puro
enquanto tem sabor e apetece.

Porque a vida é um sopro... morre num ai;
fôlego que mal se respira... s' esvai,
efémera luz que logo desvanece.

Maria Teodora
Agosto de 2007

quarta-feira, janeiro 16, 2008

Inverno


Hoje apetece-me Inverno (hoje apetece-me Eugénio...)

Quero ficar dentro de casa e apenas observar, pela janela, a chuva que cai, em abundância, lá fora.

Quero ficar enroscada no sofá, frente à lareira que, para além de me oferecer o calor de que preciso, me faz sonhar, imaginar histórias que um dia poderei vir a escrever, enquanto observo as labaredas que vão executando o seu eterno bailado.

Quero beber um chá quente, entre a leitura de poemas de Eugénio de Andrade e a constatação da chuva que continua a caír, lá fora, e do fogo que continua a arder, cá dentro.

Quero sentir-me protegida, confortável, segura ... mau grado o ameaçador som do vento que, rugindo com fúria, prenuncia um vendaval.

Hoje apetece-me Inverno (hoje apetece-me Eugénio...).

terça-feira, janeiro 01, 2008

Resoluções de Ano Novo

(Fotografia de António Rodrigues)

No primeiro dia do novo ano, após o almoço com a família, Filipe vestiu o casaco de capuz, pegou no caderninho de linhas e num lápis, enfiou-os no bolso direito, onde ainda havia espaço para a mão, apesar de enluvada por grossa lã, e percorreu o caminho até ao molhe leste.

Olhou o farolim, ao fundo, mas não teve vontade de percorrer todo o caminho de cimento até lá chegar. Sentou-se quase no princípio do molhe, mesmo à beira, para inalar o cheiro a maresia emanado pelas vagas que fustigavam as rochas, logo ali, dois metros abaixo de si, virado para a praia dos Supertubos, onde alguns dos seus amigos davam as boas vindas ao ano recém-chegado no exercício do que mais gostam na vida: surfar.

O Filipe também gosta de apanhar ondas e, normalmente, acompanha-os. Neste dia, porém, a sua disposição era outra: desde que lera "O diário secreto de Adrian Mole aos 13 anos e 3/4", oferecido pela tia Helena no dia em que fizera treze anos, que se identificava com o herói da história (um adolescente tão cheio de borbulhas, inseguro e desgraçado quanto ele). Esperou, pacientemente, pelo primeiro dia do ano de 2008 (o aniversário tinha sido em Março) e dispôs-se, finalmente, a enumerar a sua lista de decisões pensadas e repensadas ao longo de vários meses.

Olhou fixamente o horizonte por uns instantes, respirou fundo, e começou a escrever, à imagem e semelhança do que, supostamente, fizera o seu imaginado companheiro de infortúnio, quando tinha a sua idade, há alguns anos, num outro país da Europa.

Acabou por escrever um plágio do início do citado livro, com umas pequeníssimas diferenças, perfeitamente explicáveis em termos cronológicos e geográficos, da seguinte forma:

"Terça-feira, 1 de Janeiro,

FERIADO EM INGLATERRA, IRLANDA, ESCÓCIA E PAÍS DE GALES (e também em PORTUGAL)


Estas são as minhas resoluções para o Ano Novo:


1. Estudar Matemática

2. Resistir ao consumo de tabaco, álcool e drogas

3. Visitar os meus avós, pelo menos, uma vez por semana

4. Deixar de fechar a minha irmã Joana no quarto de cada vez que me irrita

5. Passear o cão e ajudar a mudar o areão dos gatos

6. Não espremer as borbulhas

7. Tentar impedir que o meu pai maltrate a minha mãe quando bebe

8. Evitar, a todo o custo, corar, quando dou de caras com a Mónica"

E pronto, tal qual o Adrian, tinha acabado a listagem: 8 coisas. Por coincidência, parecia-lhe bem o número de resoluções, tendo em conta o ano que tinha acabado de entrar. Possivelmente, no ano seguinte, escreveria 9 resoluções... de seguida pensou: "que disparate! E em 2050 vou escrever 50 resoluções?" Logo a seguir deu uma gargalhada e voltou a chamar-se à razão: "outro disparate! É lógico que em 2050 já não vou escrever listas de resoluções!".

Fechou o caderninho, voltou a enfiá-lo, e ao lápis, no bolso direito e, ainda a sorrir, levantou-se, com um orgulhoso sentimento de dever cumprido ("ainda que mais ou menos copiado... quero lá saber! Náo é mau copiar o que é bom!... mas que raio de frase esquisita... será que nem a pensar consigo utilizar linguagem bonita, construir uma "sentença" com pés e cabeça? Se calhar deveria ter acrescentado português na primeira resolução, a que tinha a ver com o estudo!")

Antes de voltar para casa passou pelo café que ficava no caminho, para beber um leite com chocolate quente e comer um pãozinho com linguiça, acabadinho de fazer.

Foi então que deu de caras com a Mónica, sentada numa das mesas, em divertida brincadeira com as amigas. Ao sentir o rubor aflorar-lhe às faces pensou recuar, abdicar da apetecida merenda... depois, lembrou-se das resoluções de Ano Novo que acabara de escrever e entrou, dirigindo-se, em passo decidido, ao balcão, onde se sentou num banco alto. Enquanto o empregado não o atendia mirou-se ao espelho e viu uma borbulha, ENORME, no queixo.

Fez o pedido e, enquanto aguardava, ía dando, pelo espelho, uma espreitadela à mesa onde a Mónica e as amigas continuavam a rir.

Porque o leite e o pãozinho demoraram a chegar, atirou-se à borbulha furiosamente e espremeu-a com força, frente ao espelho, suportando a dor até fazer sangue.

sábado, dezembro 29, 2007

Avôzinho

O meu avô Carvalhosa, pai da minha mãe, Noémia, era um jovem elegante, bonito, culto. Escrevia lindos versos, tocava banjo e bandolim, e cantava, com uma voz que diziam ser melodiosa e encantadora, o fado de coimbra.

Com estes atributos era, naturalmente, na segunda década do Séc. XX, um herdeiro muito cobiçado pelas inúmeras meninas que por ele suspiravam e quase desfaleciam a um sorriso seu ou a uma frase mais galante, fosse num descontraído piquenique na Serra de Montejunto, num serão passado em casa de alguma família do círculo de amigos, ou num baile de salão, numa das muitas quintas ainda habitadas pela aristocracia rural (em decadência social face à recém-constituída República, mas teimosamente resistente na manutenção dos seus usos e costumes).

Nos últimos dias deste ano de 2007 tenho-me lembrado dele com alguma frequência (e muita saudade). Não desse jovem garboso que, obviamente, não conheci, mas do meu "avôzinho", de coração puro e terno, com olhos de um azul muito claro que, agora, associo à transparência da sua alma e à generosidade do seu coração. Visitáva-nos diariamente, sempre com uma supresa no bolso, nem que fosse uma história nova, desencantada no seu vasto baú de recordações. De vez em quando também de lá saíam chocolates e outras guloseimas, porque, no fundo, ele bem conhecia a variedade de gostos da criançada...

Aqui lhe deixo uma sentida homenagem, através de uma fotografia que o retrata nos anos áureos de sedutor, e de um soneto de sua autoria publicado no jornal "O Alto Concelho de Alenquer", na mesma época.


VERSOS
Versos, quem os não lê com fé ardente,
com sacrosanto enleio e devoção?!
Soam tão docemente ao coração!
Versos... quem os não diz... quem os não sente?!

Porque se agita em nós, violentamente,
a alma, a crepitar como um vulcão,
ao ler d'esses Poetas a paixão
que vibra pelo espaço eternamente?!

Versos são preces loucas, desvairadas:
confidências subtis, apaixonadas,
repletas de fervor e de verdade!

E assim - quando a velhice se aproxima -
nós vamos evocando em cada rima,
uma cena feliz da mocidade.

Francisco Luiz de Carvalhosa (1926)

sexta-feira, dezembro 21, 2007

Feliz Natal!

Foto de António Rodrigues

Aproveitando mais uma fotografia de "fogo", conseguida ao amanhecer de hoje pelo meu pescador, o meu amor António, desejo a todos os amigos um Natal muito Feliz!

sábado, dezembro 15, 2007

A Insustentável Leveza do Ser - Milan Kundera


Pág. 165, 5ª linha (Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1985, tradução de Joana Varela)

"Porque quero olhar para si, disse o adolescente. Amo-a".

segunda-feira, dezembro 10, 2007

Mãos

"Dá-me a tua mão" - óleo sobre tela de Júlia Calçada


Mãos que se tocam.
Mãos que se dão.
Mãos que se procuram e, por vezes, não se encontram.
A mão de uma criança procura a mão que a protege.
A mão de um adulto procura a de quem quer proteger,
ou a de quem quem quer agarrar, por um momento, ou para sempre,
ou mesmo aquela mão que já não é possível segurar...

Mãos que se tocam.
Mãos que se procuram.
Mãos que se encontram.

segunda-feira, dezembro 03, 2007

Rosa-sem-espinhos (trepadeira volta a florir)


É inacreditável! A trepadeira de rosas-sem-espinhos, que deu nome a este blogue e da qual vos falo logo na abertura do mesmo, voltou a florir, ao fim de muitos e muitos anos, confundida que deve estar com este Verão que aconteceu ao longo de todo o Outono e com esta (imaginada por ela?) Primavera. Não sei como descrever o que senti, no fim-de-semana que findou, quando me deparei com este pequeno "bouquet" e mais uns quantos botões a despontar... voltei à infância, por uns segundos, e pela janela aberta do meu quarto deixei que entrasse o inebriante perfume da minha especial e única rosa-sem-espinhos. Aqui deixo a sua imagem que, com a maior alegria, partilho com os meus amigos.

sábado, novembro 24, 2007

Johannes Vermeer - realidade e ficção

É interessante constatar como o grande pintor Johannes Vermeer utilizava, com raríssimas excepções, o mesmo cenário em todos os seus quadros: o estúdio, a janela do mesmo, fazem parte integrante da maioria das suas pinturas. O filme "Rapariga com Brinco de Pérola", cuja magistral direcção de fotografia mereceu ao português Eduardo Serra a 2ª nomeação para um óscar nessa categoria, mostra-nos esse espaço como "o espaço" do artista, numa reprodução exímia do recanto que podemos apreciar, repetidamente, nos seus quadros.










Curiosamente, num dos mais famosos quadros de Ian Vermeer, precisamente o "Rapariga com Brinco de Pérola", patente ao público no Museu de Haia, o pintor opta por ocultar dos olhares de quem observa a pintura o cenário mais habitual dos seus quadros, escolhendo, alternativamente, um fundo negro, do qual a figura sobressai em toda a sua plenitude. Quem era aquela rapariga? O célebre pintor holandês retratou uma rapariga de turbante e brinco de pérola. O famoso quadro tem sido, frequentemente, designado como a "Mona Lisa holandesa" e é considerado por muitos especialistas em arte como a obra-prima do pintor. Das várias hipóteses elaboradas para responder à pergunta, uma aparece no filme de Peter Webber...


História e ficção misturam-se, de forma inseparável, no reputado romance, "Rapariga com brinco de pérola", de Tracy Chevalier. A sociedade de Delft, na Holanda do Séc. XVII, é bastante preconceituosa, cria fossos profundos entre ricos e pobres, cristãos e protestantes e patrões e empregados. Quando Griet, uma menina de 16 anos, vai trabalhar como criada na casa do mais importante pintor da cidade, espera-se que esta saiba o seu lugar. Mas na casa de Johannes Vermeer, dirigida pela sua esposa, mentalmente desequilibrada, e pela sogra dominadora, a jovem logo desperta a atenção do patrão. Cativado pela sua atitude calma, intuição e fascínio pela arte, Vermeer leva-a aos poucos para o seu mundo – um lugar tranquilo, de cor exótica e luz ofuscante, sombras que mudam, e uma beleza inimaginável. O que ninguém suspeita, devido à imprescrutável personalidade de Griet, é que o seu fascínio pelos quadros de Vermeer irá levá-la ao mundo privado do pintor. É desta forma que, à medida que se torna testemunha do processo criativo do grande mestre, a sua paixão reprimida será o catalisador de um escândalo que atingirá em cheio a cidade e mudará, irremediavelmente, o curso da sua existência.


Diz-se que Tracy Chevalier teve a ideia de escrever um romance envolvendo a rapariga do retrato porque, desde os 19 anos, convivia com o poster de Vermeer na parede do seu quarto. Um dia, ao pensar sobre um novo trabalho, deu consigo a observar mais de perto a rapariga com brinco de pérola e, talentosa e atrevida como é, começou a imaginar que a história daquela rapariga daria um belo livro se descrevesse quem ela era, quais as sensações que teve ao ser retratada, se levasse os leitores a interrogar-se sobre a possibilidade de o seu sorriso ser apenas inocente, ou, pelo contrário, voluntariamente sedutor. Investigou sobre a vida do pintor, estudou o ambiente da cidade onde ele nasceu, algumas situações da época e manteve os nomes verdadeiros de sua mulher e sogra – Catarina e Maria Thins, respectivamente. Talvez tenha absusado da imaginação... não importa. Quando se trata de um romance, o rigor histórico não é exigido ao seu autor, sendo-lhe concedida total liberdade para ficcionar.

O Realizador do filme, Peter Webber, foi de uma delicadeza extrema na sua narrativa. A fotografia de Eduardo Serra é, ela própria, uma pintura. Scarlet Johansson tem uma interpretação irrepreensível, ao lado de um Colin Firth no seu melhor, no papel do pintor. Pode dizer-se, sem exageros, que o filme "enche as medidas" aos amantes da sétima arte.

Quanto à pintura de Vermeer, essa é imortal, perdurará muito para além dos livros que se escrevam e dos filmes que se façam sobre a sua vida!



segunda-feira, novembro 12, 2007