Camille Pissaro
Era uma aldeia pacata. Os velhos, acomodados nas suas casas de originais telhados azuis, olhavam para os pomares floridos e sorriam: "mais uma primavera". Os novos, cansados do que consideravam a intediante tranquilidade da vida no campo, fugiam para a cidade, à primeira oportunidade de estudos ou trabalho. Alguns voltavam, por escassos dias, nas férias, e logo tornavam a partir.
Eugénia e Faustino eram um casal de meia-idade, sem filhos. Trabalhavam no campo, nos terrenos que haviam sido dos pais de ambos e dos respectivos avós antes destes. Mais para trás não sabiam e o facto pouco ou nada lhes interessava. Contentavam-se com a retribuição que a terra lhes dava, não conheciam outros lugares, a não ser as aldeias das redondezas e a vila onde, de quando em vez, se deslocavam para tratar de assuntos importantes, como pagar as contribuições, ou comprar uns pares de botas, para substituir os velhos botins por onde a água já entrava, quando os pés se lhes enterravam na lama.
Tinham aprendido a ler e a escrever na escola local, agora fechada, por ausência de crianças que a frequentem. Para além dos livros escolares, impecavelmente arrumados numa gaveta, não existiam mais livros lá em casa, com a devida excepção do missal, ao qual davam uso aos Domingos, altura em que aproveitavam para vestir alguma roupita nova, comprada nos saldos dos restos da colecção passada na loja da vila, da última vez que lá haviam ido.
Naquela quinta-feira, de manhã bem cedo, Faustino saíu de casa, sachola ao ombro, pronto a ir cortar umas ervas daninhas que circundavam as floridas árvores do pomar em frente à casa. Eugénia manteve-se na cozinha, a arrumar a loicita do pequeno-almoço e a dar umas vassouradas nas migalhas que pejavam o chão, de ambos os lados da mesa.
De repente, no silêncio da aldeia ainda semi-adormecida, ouviu-se um grito de horror.
Em poucos minutos, os poucos habitantes da aldeia, tinham-se juntado a Faustino e contemplavam, com expressões faciais que íam do espanto ao terror, os restos mortais daquela cabrinha preta, que pertencia ao tio Joaquim e jazia, pele e osso esticados, por baixo de uma ameixeira.
"Só pode ter sido obra do chupa-cabras..., deixou-a sequinha por dentro!" comentou a Alexandrina, que aproveitava a ocasião para fazer jus à sua fama de bem-informada.
"Mas se eu tenho a certeza de que a fechei ontem com as outras no curral, mulher! Como pode ela ter escapado?" perguntava o Joaquim, perplexo, coçando a cabeça, para voltar a enfiar nela o boné.
"Ai Deus nos livre de o mafarrico andar por aí outra vez!" sussurrou, benzendo-se, uma septagenária vestida de negro.
"Não diga disparates, tia Henriqueta, que uma coisa destas nunca se viu", ripostou Faustino. "Cá para mim, isto é mas é obra dos extra-terrestres. Noutro dia lá na vila ouvi dizer que tinham aparecido umas reportagens na televisão e que eles andam por aí."
"Pois foi", acrescentou Eugénia, "até nos disseram que apareceram pessoas a contar que tinham visto luzes estranhas e objectos a passar por cima das casas, sem barulho nem nada, que até pareciam coisas do outro mundo".
"E eram", a velha Henriqueta voltava a falar, "vai tudo dar no mesmo. Vocês não me acreditam, mas o mafarrico pode tomar as formas mais esquisitas. Coisa deste mundo é que isto não é. Ora olhem-me lá para o pobre animal! E como é que ele pode aqui estar se o Joaquim tem a certeza de tê-lo fechado com os outros bichos ontem à tarde, não me dirão?"
Durante alguns momentos fez-se silêncio. Por fim, o Faustino disse:
"Bom, não vamos ficar aqui todo o dia a olhar para a cabra morta. Vamos tratar de enterrá-la e ir à nossa vida, que temos mais que fazer".
Os outros concordaram e estavam já a abrir a cova quando a tia Henriqueta deu um grito:
"Esperem. Deixem, ao menos, chamar o padre João para benzer o bicho."
"Benzer uma cabra, tia Henriqueta? perguntou Eugénia, atónita, "nunca tal se ouviu dizer".
"Não é bem por causa da cabra, que eu também não acredito que ela tenha alma, é para afastar os espíritos deste sítio, para expurgar a maldição com água-benta, para correr com o chupa-cabras, o mafarrico, os extra-terrestres ou seja lá o que for... mal não faz, e sempre a gente volta para casa mais descansada."
"Está bem, tia Henriqueta", disse Faustino, condescendente. "A Eugénia dá lá um pulinho a chamar o padre que, a bem dizer, também devia ter aparecido por aqui!... " Riu-se com ar maldoso e comentou, virando-se para os homens: "mas a esta hora ainda deve estar com os pés quentinhos, enrolado na "prima Clementina", que lhe cuida da casa e não só!..." os outros riram-se a bom rir. As mulheres encolheram os ombros, abanaram as cabeças a olhar umas para as outras e debandaram para as suas casas.
Só a tia Henriqueta, arrastando-se com a bengala, ainda vociferou para o Faustino, antes de abandonar a cena "Ah, língua viperina! Ainda hás-de ser castigado por essa blasfémia" e foi-se, sempre a resmungar "ora não querem lá ver... coitado do Padre João, quem é que havia de tomar conta dele se não fosse aquela prima com um coração abençoado? Deus nos livre de caír na boca deste povo!".











