quinta-feira, maio 29, 2008

Um Abraço de Vida


Deitada na areia molhada
deixo que pequenas ondas
me invadam corpo e alma
num torpor enlanguescido.

A água, morna, conforta-me.
Sinto que lhe pertenço:
dela vim, num sortilégio do passado,
a ela, em farrapos, voltarei um dia.

Admiro o céu, sem núvens,
imaculado no azul do entardecer.

Uma brisa quente varre, com doçura, o areal,
trazida pelo mar, tímida como a espuma
que com os dedos desfaço e me humedece os cabelos.

No horizonte, o sol é uma bola de fogo,
forjando um adormecer tranquilo:
diária magia que executa de mansinho,
escondendo-se atrás da linha vísível
para surgir, radioso, do outro lado do mundo.

Inspiro o cheiro a maresia:
o ar que penetra o meu ser
limpa e lava qualquer dor,
lembra-me aqueles que amo.

Tenho tudo, sou feliz:
terra, água, fogo e ar,
eterno ciclo de vida.

Com emoção retribuo, agradecida,
da natureza o carinhoso abraço.

quarta-feira, maio 21, 2008

Sou Rio (Sorrio)


Sou rio.

Broto da escarpa rochosa:
ténue fiozinho de água
deslizando pela encosta,
molhando fragas e arbustos
até alcançar o vale
na procura de um riacho.

Irmãos-de-água fundidos
corremos alegremente,
na inocência da infância,
cantando e rumorejando
por sobre as pedras do leito
que nos indica o caminho.

Engrossei o meu caudal,
já tenho curvas e praias.
Rápidos alucinantes,
num rodopio de volúpia,
precipitam-me na queda
em vertiginosa cascata,
numa lagoa serena.

É dali que parto, eufórico,
enriquecido pelas águas
de outros rios solitários
que comigo se reúnem
e num só se consolidam:
imenso, forte, profundo.

Em desassossego e exaltação
o mar agora procuro
para nele, em largo manto,
consumar o meu destino:
confundir os nossos fluidos,
acertar nossas marés.

Sou rio.

(De costas voltadas
para a porta
pressinto a tua chegada:
aproximação doce e suave
que me faz estremecer
em prazer antecipado.

Enlaças-me pela cintura,
teu rosto encostado ao meu cabelo.
Um murmúrio terno e quente
me roça ao de leve o ouvido.
Lábios macios e ardentes
beijam-me a nuca, ansiosa.

Rio que sou, a ti me entrego:
Estuário vigoroso, excessivo, apressado
que o teu mar acolhe em festa.

Sorrio.)

quinta-feira, abril 17, 2008

Na paz da aldeia

Camille Pissaro
Era uma aldeia pacata. Os velhos, acomodados nas suas casas de originais telhados azuis, olhavam para os pomares floridos e sorriam: "mais uma primavera". Os novos, cansados do que consideravam a intediante tranquilidade da vida no campo, fugiam para a cidade, à primeira oportunidade de estudos ou trabalho. Alguns voltavam, por escassos dias, nas férias, e logo tornavam a partir.

Eugénia e Faustino eram um casal de meia-idade, sem filhos. Trabalhavam no campo, nos terrenos que haviam sido dos pais de ambos e dos respectivos avós antes destes. Mais para trás não sabiam e o facto pouco ou nada lhes interessava. Contentavam-se com a retribuição que a terra lhes dava, não conheciam outros lugares, a não ser as aldeias das redondezas e a vila onde, de quando em vez, se deslocavam para tratar de assuntos importantes, como pagar as contribuições, ou comprar uns pares de botas, para substituir os velhos botins por onde a água já entrava, quando os pés se lhes enterravam na lama.

Tinham aprendido a ler e a escrever na escola local, agora fechada, por ausência de crianças que a frequentem. Para além dos livros escolares, impecavelmente arrumados numa gaveta, não existiam mais livros lá em casa, com a devida excepção do missal, ao qual davam uso aos Domingos, altura em que aproveitavam para vestir alguma roupita nova, comprada nos saldos dos restos da colecção passada na loja da vila, da última vez que lá haviam ido.

Naquela quinta-feira, de manhã bem cedo, Faustino saíu de casa, sachola ao ombro, pronto a ir cortar umas ervas daninhas que circundavam as floridas árvores do pomar em frente à casa. Eugénia manteve-se na cozinha, a arrumar a loicita do pequeno-almoço e a dar umas vassouradas nas migalhas que pejavam o chão, de ambos os lados da mesa.

De repente, no silêncio da aldeia ainda semi-adormecida, ouviu-se um grito de horror.

Em poucos minutos, os poucos habitantes da aldeia, tinham-se juntado a Faustino e contemplavam, com expressões faciais que íam do espanto ao terror, os restos mortais daquela cabrinha preta, que pertencia ao tio Joaquim e jazia, pele e osso esticados, por baixo de uma ameixeira.
"Só pode ter sido obra do chupa-cabras..., deixou-a sequinha por dentro!" comentou a Alexandrina, que aproveitava a ocasião para fazer jus à sua fama de bem-informada.
"Mas se eu tenho a certeza de que a fechei ontem com as outras no curral, mulher! Como pode ela ter escapado?" perguntava o Joaquim, perplexo, coçando a cabeça, para voltar a enfiar nela o boné.

"Ai Deus nos livre de o mafarrico andar por aí outra vez!" sussurrou, benzendo-se, uma septagenária vestida de negro.

"Não diga disparates, tia Henriqueta, que uma coisa destas nunca se viu", ripostou Faustino. "Cá para mim, isto é mas é obra dos extra-terrestres. Noutro dia lá na vila ouvi dizer que tinham aparecido umas reportagens na televisão e que eles andam por aí."
"Pois foi", acrescentou Eugénia, "até nos disseram que apareceram pessoas a contar que tinham visto luzes estranhas e objectos a passar por cima das casas, sem barulho nem nada, que até pareciam coisas do outro mundo".

"E eram", a velha Henriqueta voltava a falar, "vai tudo dar no mesmo. Vocês não me acreditam, mas o mafarrico pode tomar as formas mais esquisitas. Coisa deste mundo é que isto não é. Ora olhem-me lá para o pobre animal! E como é que ele pode aqui estar se o Joaquim tem a certeza de tê-lo fechado com os outros bichos ontem à tarde, não me dirão?"

Durante alguns momentos fez-se silêncio. Por fim, o Faustino disse:
"Bom, não vamos ficar aqui todo o dia a olhar para a cabra morta. Vamos tratar de enterrá-la e ir à nossa vida, que temos mais que fazer".
Os outros concordaram e estavam já a abrir a cova quando a tia Henriqueta deu um grito:

"Esperem. Deixem, ao menos, chamar o padre João para benzer o bicho."
"Benzer uma cabra, tia Henriqueta? perguntou Eugénia, atónita, "nunca tal se ouviu dizer".
"Não é bem por causa da cabra, que eu também não acredito que ela tenha alma, é para afastar os espíritos deste sítio, para expurgar a maldição com água-benta, para correr com o chupa-cabras, o mafarrico, os extra-terrestres ou seja lá o que for... mal não faz, e sempre a gente volta para casa mais descansada."

"Está bem, tia Henriqueta", disse Faustino, condescendente. "A Eugénia dá lá um pulinho a chamar o padre que, a bem dizer, também devia ter aparecido por aqui!... " Riu-se com ar maldoso e comentou, virando-se para os homens: "mas a esta hora ainda deve estar com os pés quentinhos, enrolado na "prima Clementina", que lhe cuida da casa e não só!..." os outros riram-se a bom rir. As mulheres encolheram os ombros, abanaram as cabeças a olhar umas para as outras e debandaram para as suas casas.

Só a tia Henriqueta, arrastando-se com a bengala, ainda vociferou para o Faustino, antes de abandonar a cena "Ah, língua viperina! Ainda hás-de ser castigado por essa blasfémia" e foi-se, sempre a resmungar "ora não querem lá ver... coitado do Padre João, quem é que havia de tomar conta dele se não fosse aquela prima com um coração abençoado? Deus nos livre de caír na boca deste povo!".

domingo, abril 13, 2008

Berlenga - Reserva da Biosfera

Transcrição de uma Nota de Imprensa divulgada pela Câmara Municipal de Peniche:


Peniche prepara candidatura da Berlenga a Reserva da Biosfera (UNESCO)

O Município de Peniche pretende que o Arquipélago da Reserva Natural das Berlengas seja classificado como Reserva da Biosfera no âmbito do programa “Man and Biosphere - MAB” promovido pela UNESCO. O primeiro passo será dado no próximo dia 14 de Abril de 2008, com a assinatura do protocolo de colaboração entre as entidades responsáveis pela elaboração do dossier de candidatura, nomeadamente Câmara Municipal de Peniche, o Instituto do Ambiente e Desenvolvimento (IDAD – Universidade de Aveiro), o Instituto Conservação da Natureza e Biodiversidade e o Instituto Politécnico de Leiria – Escola Superior Tecnologia do Mar (Peniche). Até ao final do ano de 2008 será elaborado o respectivo dossier de candidatura, esperando-se que a Berlenga seja classificada como Reserva da Biosfera em Abril de 2009. De modo a fomentar o Desenvolvimento Sustentável, a promover e demonstrar o equilíbrio entre as relações do Homem com a Biosfera no Arquipélago da Reserva Natural das Berlengas, o Município de Peniche irá apresentar em 2009 à UNESCO uma candidatura do Arquipélago das Berlengas ao galardão Reserva da Biosfera. Para a elaboração do dossier de candidatura, o Município de Peniche convidou um conjunto de entidades para elaborar a mesma - Instituto da Conservação da Natureza e Biodiversidade (ICNB), Instituto do Ambiente e Desenvolvimento (IDAD – Universidade de Aveiro) e a Escola Superior de Tecnologia do Mar (ESTM) – Instituto Politécnico de Leiria. A assinatura do protocolo de colaboração decorrerá no próximo dia 14 de Abril, 15 horas, no Salão Nobre da Câmara Municipal de Peniche. Nesta cerimónia estarão presentes os mais altos representantes das instituições que integrarão esta parceria.


quarta-feira, abril 09, 2008

Rosa-sem-espinhos (de novo)


A Mafalda pediu-me uma fotografia das minhas rosas-sem-espinhos para servir de ilustração a um poema seu. É com grande alegria que lhe cedo a imagem e rejubilo de felicidade ao constatar que este alvo do meu afecto, desde sempre, passou a ser partilhado pela comunidade de amigos de forma tão natural e espontânea.

Recomendo que vão visitar o "Vento Agreste" ou "A Casa no Alto do Monte", onde, com as rosas amarelas por pano de fundo, podemos assistir a uma estreia mundial da Mafalda Coimbra numa incursão pelos terrenos da poesia.
Não comento aqui.
Limito-me a agradecer a deferência.

Beijos gratos e ternos, Mafalda.

segunda-feira, março 10, 2008

Continuando a Re-flectir com Júlia Calçada


Ter estado na inauguração de mais esta exposição da Júlia Calçada foi um privilégio. Para quem não teve essa oportunidade, recomendo a visita ao sítio "Olhares de Maresia", onde o António Rodrigues nos oferece a sua excelente reportagem fotográfica da magnífica mostra.


Votos de uma agradável visita!





terça-feira, fevereiro 12, 2008

Re-flectir

Pintura de Júlia Calçada - JC

Flectir.
Re-flectir.
Repetir a flexão. Uma vez, duas... mais dez. Só mais dez.
Outra vez: uma, duas... e dez.
O espelho devolve-me a imagem:
cada gesto, cada passo, cada sorriso ensaiado.
Um corpo que, maquinalmente, flecte e reflecte. Uma alma que o vê reflectido na crueza do imenso vidro espelhado para que, em consciência, nada se perca, nenhum movimento falhado, no reflexo, como na vida.
Cansada, sento-me no chão.
Dou por mim a reflectir na rotina de mais um dia de treinos.
Assim tem sido nos últimos 20 anos. Hora após hora, dia após dia.
Momento de reflexão. Não de arrependimento, não de desespero.
Adoro o que faço. Foi para dançar que nasci. É para bailar que vivo.
As noites de espectáculo, essas são sublimes. As luzes iluminam o palco e seguem a dança deste meu corpo, ao som da música que o transporta, que o eleva, que o faz executar o bailado, como uma gaivota num voo planado: sem fadiga, sem esforço, com um sorriso autêntico desenhado nos lábios, com um brilho verdadeiro reflectido no olhar.
Vem a apoteose, o aplauso entusiástico do público. Os sinceros "bravo" de quem apreciou. As flores a meus pés...
Reflicto: a vida pode ser bela. Uns minutos de felicidade apagam toda a mágoa acumulada ao longo de dias de ensaios intensivos e de noites infindáveis, sem dormir.
Quando danço, quase esquecida que o faço, reflicto a minha maneira de ser, de pensar, de sentir. Sou eu toda, ali, sozinha, perante uma plateia que me observa atentamente.
É nesses momentos que estou, afinal, a reflectir o meu verdadeiro íntimo, para o exterior, como uma dádiva, que estou a libertar os meus fantasmas, medos, desânimos. Também a minha alegria de viver, a paixão pela dança, a razão da minha existência...
Nessas ocasiões não reflicto. Liberta de barreiras, apenas sou.

segunda-feira, fevereiro 04, 2008

Pablo Neruda


Neruda - José Juan Torres (clicar para aceder ao link em que se ouve a excelente declamação de J.J. Torres)

Este post é dedicado à minha filha Sara, que faz hoje 25 anos e que, durante a sua infância, muitas vezes me ouviu "dizer" este poema. Também o dedico ao meu pai, que fez 78 anos no dia 31 de Janeiro e que, porque gostava de me ouvir "dizê-lo", tem-no gravado num dos seus álbuns de recordações áudio.

Parabéns a ambos, com todo o meu amor.


"Posso escrever os versos mais tristes esta noite "
Posso escrever os versos mais tristes esta noite.

Escrever, por exemplo: "A noite está estrelada, e tiritam,
azuis, os astros lá ao longe".

O vento da noite gira no céu e canta.

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Eu amei-a e por vezes ela também me amou.

Em noites como esta tive-a eu nos meus braços.
Beijei-a tantas vezes sob o céu infinito.

Ela amou-me, por vezes eu também a amava.
Como não ter amado os seus grandes olhos fixos.

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.

Pensar que não a tenho.
Sentir que a perdi já.

Ouvir a noite imensa, mais imensa sem ela.
E o verso cai na alma como no pasto o orvalho.

Importa lá que o meu amor não pudesse guardá-la.
A noite está estrelada e ela não está comigo. Isso é tudo.

Ao longe alguém canta. Ao longe.
A minha alma não se contenta com havê-la perdido.

Como para chegá-la a mim, o meu olhar procura-a.
O meu coração procura-a e ela não está comigo.

A mesma noite que faz branquejar as mesmas árvores.
Nós dois, os de então, já não somos os mesmos.

Já não a amo, é verdade, mas tanto que a amei.
Esta voz buscava o vento para tocar-lhe o ouvido.

De outro. Será de outro. Como antes dos meus beijos.
A voz, o corpo claro. Os seus olhos infinitos.

Já não a amo, é verdade, mas talvez a ame ainda.
É tão curto o amor, tão longo o esquecimento.

Porque em noites como esta a tive nos meus braços, a minha alma não se contenta com havê-la perdido.

Embora esta seja a última dor que me causa, e estes sejam os últimos versos que lhe escrevo.

Pablo Neruda in "Vinte Poemas de Amor e uma Canção Desesperada"

sábado, janeiro 19, 2008

Despertar

Nota prévia: decidi publicar nesta data este poema da tia Mariazinha por ser hoje o aniversário das suas duas filhas gémeas - Sílvia e Isabel (minhas primas igualmente muito queridas).
Parabéns à mãe e às filhas!


Chegou a Primavera verde e florida
e caprichosa pôs em cada flor
doce harmonia de perfume e cor
... mágico acordar da terra adormecida.

Vibrante despertar do secreto sono
em manhã de sol de sublime encanto
no cantar das aves... só que entretanto
tudo empalidece em chegando o Outono.

Mas se há em nós um verão - fruto maduro,
saboreemo-lo no seu aroma puro
enquanto tem sabor e apetece.

Porque a vida é um sopro... morre num ai;
fôlego que mal se respira... s' esvai,
efémera luz que logo desvanece.

Maria Teodora
Agosto de 2007

quarta-feira, janeiro 16, 2008

Inverno


Hoje apetece-me Inverno (hoje apetece-me Eugénio...)

Quero ficar dentro de casa e apenas observar, pela janela, a chuva que cai, em abundância, lá fora.

Quero ficar enroscada no sofá, frente à lareira que, para além de me oferecer o calor de que preciso, me faz sonhar, imaginar histórias que um dia poderei vir a escrever, enquanto observo as labaredas que vão executando o seu eterno bailado.

Quero beber um chá quente, entre a leitura de poemas de Eugénio de Andrade e a constatação da chuva que continua a caír, lá fora, e do fogo que continua a arder, cá dentro.

Quero sentir-me protegida, confortável, segura ... mau grado o ameaçador som do vento que, rugindo com fúria, prenuncia um vendaval.

Hoje apetece-me Inverno (hoje apetece-me Eugénio...).

terça-feira, janeiro 01, 2008

Resoluções de Ano Novo

(Fotografia de António Rodrigues)

No primeiro dia do novo ano, após o almoço com a família, Filipe vestiu o casaco de capuz, pegou no caderninho de linhas e num lápis, enfiou-os no bolso direito, onde ainda havia espaço para a mão, apesar de enluvada por grossa lã, e percorreu o caminho até ao molhe leste.

Olhou o farolim, ao fundo, mas não teve vontade de percorrer todo o caminho de cimento até lá chegar. Sentou-se quase no princípio do molhe, mesmo à beira, para inalar o cheiro a maresia emanado pelas vagas que fustigavam as rochas, logo ali, dois metros abaixo de si, virado para a praia dos Supertubos, onde alguns dos seus amigos davam as boas vindas ao ano recém-chegado no exercício do que mais gostam na vida: surfar.

O Filipe também gosta de apanhar ondas e, normalmente, acompanha-os. Neste dia, porém, a sua disposição era outra: desde que lera "O diário secreto de Adrian Mole aos 13 anos e 3/4", oferecido pela tia Helena no dia em que fizera treze anos, que se identificava com o herói da história (um adolescente tão cheio de borbulhas, inseguro e desgraçado quanto ele). Esperou, pacientemente, pelo primeiro dia do ano de 2008 (o aniversário tinha sido em Março) e dispôs-se, finalmente, a enumerar a sua lista de decisões pensadas e repensadas ao longo de vários meses.

Olhou fixamente o horizonte por uns instantes, respirou fundo, e começou a escrever, à imagem e semelhança do que, supostamente, fizera o seu imaginado companheiro de infortúnio, quando tinha a sua idade, há alguns anos, num outro país da Europa.

Acabou por escrever um plágio do início do citado livro, com umas pequeníssimas diferenças, perfeitamente explicáveis em termos cronológicos e geográficos, da seguinte forma:

"Terça-feira, 1 de Janeiro,

FERIADO EM INGLATERRA, IRLANDA, ESCÓCIA E PAÍS DE GALES (e também em PORTUGAL)


Estas são as minhas resoluções para o Ano Novo:


1. Estudar Matemática

2. Resistir ao consumo de tabaco, álcool e drogas

3. Visitar os meus avós, pelo menos, uma vez por semana

4. Deixar de fechar a minha irmã Joana no quarto de cada vez que me irrita

5. Passear o cão e ajudar a mudar o areão dos gatos

6. Não espremer as borbulhas

7. Tentar impedir que o meu pai maltrate a minha mãe quando bebe

8. Evitar, a todo o custo, corar, quando dou de caras com a Mónica"

E pronto, tal qual o Adrian, tinha acabado a listagem: 8 coisas. Por coincidência, parecia-lhe bem o número de resoluções, tendo em conta o ano que tinha acabado de entrar. Possivelmente, no ano seguinte, escreveria 9 resoluções... de seguida pensou: "que disparate! E em 2050 vou escrever 50 resoluções?" Logo a seguir deu uma gargalhada e voltou a chamar-se à razão: "outro disparate! É lógico que em 2050 já não vou escrever listas de resoluções!".

Fechou o caderninho, voltou a enfiá-lo, e ao lápis, no bolso direito e, ainda a sorrir, levantou-se, com um orgulhoso sentimento de dever cumprido ("ainda que mais ou menos copiado... quero lá saber! Náo é mau copiar o que é bom!... mas que raio de frase esquisita... será que nem a pensar consigo utilizar linguagem bonita, construir uma "sentença" com pés e cabeça? Se calhar deveria ter acrescentado português na primeira resolução, a que tinha a ver com o estudo!")

Antes de voltar para casa passou pelo café que ficava no caminho, para beber um leite com chocolate quente e comer um pãozinho com linguiça, acabadinho de fazer.

Foi então que deu de caras com a Mónica, sentada numa das mesas, em divertida brincadeira com as amigas. Ao sentir o rubor aflorar-lhe às faces pensou recuar, abdicar da apetecida merenda... depois, lembrou-se das resoluções de Ano Novo que acabara de escrever e entrou, dirigindo-se, em passo decidido, ao balcão, onde se sentou num banco alto. Enquanto o empregado não o atendia mirou-se ao espelho e viu uma borbulha, ENORME, no queixo.

Fez o pedido e, enquanto aguardava, ía dando, pelo espelho, uma espreitadela à mesa onde a Mónica e as amigas continuavam a rir.

Porque o leite e o pãozinho demoraram a chegar, atirou-se à borbulha furiosamente e espremeu-a com força, frente ao espelho, suportando a dor até fazer sangue.

sábado, dezembro 29, 2007

Avôzinho

O meu avô Carvalhosa, pai da minha mãe, Noémia, era um jovem elegante, bonito, culto. Escrevia lindos versos, tocava banjo e bandolim, e cantava, com uma voz que diziam ser melodiosa e encantadora, o fado de coimbra.

Com estes atributos era, naturalmente, na segunda década do Séc. XX, um herdeiro muito cobiçado pelas inúmeras meninas que por ele suspiravam e quase desfaleciam a um sorriso seu ou a uma frase mais galante, fosse num descontraído piquenique na Serra de Montejunto, num serão passado em casa de alguma família do círculo de amigos, ou num baile de salão, numa das muitas quintas ainda habitadas pela aristocracia rural (em decadência social face à recém-constituída República, mas teimosamente resistente na manutenção dos seus usos e costumes).

Nos últimos dias deste ano de 2007 tenho-me lembrado dele com alguma frequência (e muita saudade). Não desse jovem garboso que, obviamente, não conheci, mas do meu "avôzinho", de coração puro e terno, com olhos de um azul muito claro que, agora, associo à transparência da sua alma e à generosidade do seu coração. Visitáva-nos diariamente, sempre com uma supresa no bolso, nem que fosse uma história nova, desencantada no seu vasto baú de recordações. De vez em quando também de lá saíam chocolates e outras guloseimas, porque, no fundo, ele bem conhecia a variedade de gostos da criançada...

Aqui lhe deixo uma sentida homenagem, através de uma fotografia que o retrata nos anos áureos de sedutor, e de um soneto de sua autoria publicado no jornal "O Alto Concelho de Alenquer", na mesma época.


VERSOS
Versos, quem os não lê com fé ardente,
com sacrosanto enleio e devoção?!
Soam tão docemente ao coração!
Versos... quem os não diz... quem os não sente?!

Porque se agita em nós, violentamente,
a alma, a crepitar como um vulcão,
ao ler d'esses Poetas a paixão
que vibra pelo espaço eternamente?!

Versos são preces loucas, desvairadas:
confidências subtis, apaixonadas,
repletas de fervor e de verdade!

E assim - quando a velhice se aproxima -
nós vamos evocando em cada rima,
uma cena feliz da mocidade.

Francisco Luiz de Carvalhosa (1926)

sexta-feira, dezembro 21, 2007

Feliz Natal!

Foto de António Rodrigues

Aproveitando mais uma fotografia de "fogo", conseguida ao amanhecer de hoje pelo meu pescador, o meu amor António, desejo a todos os amigos um Natal muito Feliz!

sábado, dezembro 15, 2007

A Insustentável Leveza do Ser - Milan Kundera


Pág. 165, 5ª linha (Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1985, tradução de Joana Varela)

"Porque quero olhar para si, disse o adolescente. Amo-a".