domingo, novembro 16, 2008

Lançamento do livro de poesia "O Áspero Hálito do Amanhã", de Alberto Pereira


"A 6 de Dezembro às 18.30, será apresentado em Lisboa, no auditório sito ao Campo Grande Nº 56, a obra poética "O Áspero Hálito do Amanhã" de Alberto Pereira, com prefácio de Xavier Zarco. O autor nasceu em 1970 na cidade de Lisboa; licenciado em enfermagem, participou em diversas antologias, tendo obtido, em 2008, o 1.º Prémio de Poesia "Ora, vejamos". Obra e autor serão apresentados pelo emérito poeta Firmino Mendes. De destacar, seguramente um bom augúrio para a carreira poética de Alberto Pereira, o facto de quer o prefaciador, quer o apresentador, terem sido distinguidos com o prémio Vítor Matos e Sá, da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra."

O que acima se pode ler é uma citação "pura e dura" do que a editora publicou no seu site, na rubrica "Próximos Lançamentos": http://ediumeditores.wordpress.com/proximos-lancamentos/

O que vos posso dizer é que conheci o Alberto Pereira em Leiria, quando lhe foi atribuído o 1º Prémio no Concurso "Poesia sem Fronteiras 2008" do "Ora Vejamos...", que é um homem adorável, simples, simpático, afectivo e que, embora ele não o soubesse até há pouco tempo... nasceu, entre outras actividades, para escrever. Escrever prosa, escrever poesia, escrever sentimentos. É tímido e, como qualquer um que dá os primeiros passos nestas aventuras, precisa do nosso apoio.

Fica aqui o convite, meus amigos: vamos lá fazer-lhe a surpresa de assistir ao lançamento do livro? Vamos envergonhá-lo com aplausos até mais não poder? Bora!...

P.S. A editora não o refere mas, por favor, tomem nota que é no dia 6 de Dezembro do ano de 2008!!! (;)

O meu País



O meu Pais - música de "Luar na Lubre"
Há muito que não me deixava comover assim por uma música. Dos meus olhos, habitualmente secos, de tão habituados a chorar para dentro, brotaram lágrimas, ao sentir este delicioso acasalamento entre a sonoridade instrumental celta e a voz dolorida, o tom, os requebros do fado tipicamente português. O meu País não acaba no rio Minho, ao Norte de Portugal; estende-se para lá dele até ao Mar Cantábrico e só encontra a fronteira quando, em Ribadeo, chega ao fim das Ryas Altas, quando Viveiro, Porto Barqueiro e a Estaca de Bares já ficaram para trás.
O amor pela beleza dos lugares ... esse continua pelas terras das Astúrias... e mais à frente... sempre... até onde o sentimento pelas maravilhas deste planeta (ainda que, repentinamente, a minha direcção se inverta para oeste em vez de leste) me fazem sentir que Pátria é ligação afectiva, é o deslumbramento que ainda me causa este corpo celeste que, temporariamente, habito.

terça-feira, novembro 11, 2008

A irrelevância de um prefixo


Julguei conhecê-la. Vagamente. Passou-me ao lado na vida. Cruzámo-nos, algumas vezes.
Doutras, chegámos a estar tão próximas como estou da minha imagem num espelho.

Nunca gostei dela.
Nem ela de mim, suponho.

Agora, suporto-a melhor. Afinal, acabámos por envelhecer juntas e, se eu pensava que ela me tinha passado ao lado na vida, estava enganada: foi a seu lado que a minha existência sempre se desenrolou.

Não é a minha sombra, muito menos o meu reflexo. É a minha antítese, o contra-ponto com o qual convivo todos os dias e que me influencia de tal modo subreptício que chega a tomar, por mim, decisões que afectam, irremediavelmente, o meu quotidiano e medidas de longo prazo.

Cheguei a ter medo dela.
Agora é quase afeição o sentimento que desperta em mim.

Noutros tempos, quando pensava nela, só me ocorriam palavras começadas por "in" para a qualificar e, sem recorrer ao dicionário, saíam-me, de enxorrada, uma lista de defeitos que, dirigidos a alguém de verdade, soariam a insultos:

insensível
incapaz
indolente
inflexível
insuportável
indecorosa
incompetente
ingrata
insatisfeita
inconstante
inconsciente
incontrolável
inconsequente
incompreensível
inconsistente
indisciplinada
inconveniente
incorrecta
infernal
infecta
insana
insonsa
interesseira
impudente
intolerável
infiel
...

e poderia ficar a desfiar o rosário durante horas.

Mas que perda de tempo, penso hoje. E dou comigo a tentar encontrar-lhe qualidades, todas igualmente começadas pelo prefixo "in"que, dirigidas a alguém de verdade, poderiam soar a elogios:

inteligente
insubornável
interessante
inspiradora
incansável
insinuante
inovadora
inigualável
informada
ingénua
influente
infalível
irresistível
intensa
inaudita
independente
indestrutível
indulgente
incisiva
indescritível
instruída
inimitável
inesquecível
inocente
inestimável
insubstituível
...

e, mais uma vez, a lista poderia alongar-se até ao limite da vontade.

Sei que um dia partiremos juntas. Julgo igualmente saber que, quem nos recordar, não saberá de qual de nós fala, nem sequer que éramos duas, de cada vez que utilizar um dos adjectivos da primeira ou da segunda lista. Pouco me importa se isso suceder. Não seremos nós, na verdade, as duas faces de uma mesma moeda?

Margarida Costa in "A Outra"

segunda-feira, outubro 20, 2008

A tradição da doçura de Outubro


Fotografia de António Rodrigues

"Outubro é o mês mais doce", repito em cada ano que passa.

Eu não sei porque amo assim Outubro, por que razão, neste mês de Outono, me sinto particularmente amada e feliz, por que gosto de tudo e de todos como se do primeiro, ou do último, mês da minha vida se tratasse. A verdade é que, invariavelmente, quando chega esta época, sinto uma vontade imperiosa de o assinalar, de o deixar registado, para a posteridade, não vá algum dia esquecer-me de que sempre assim senti.

domingo, outubro 12, 2008

Espera sem Sentido

Before # 3 (*)

Preparava-me para a entrada em palco. Os últimos detalhes: o ajeitar do cabelo, o retocar da maquilhagem, o atar da sapatilha. Um estranho pressentimento havia-se instalado na minha alma. Um arrepio percorria-me o corpo, de cada vez que olhava para o relógio e via que os ponteiros avançavam vertiginosamente para a hora do início do espectáculo e, pela primeira vez, tu não tinhas telefonado.

Às 22h00 em ponto, sem nada dizer a ninguém, despi, atabalhoadamente, a roupa de dança, troquei-a pelas calças e pela camisola que tinha trazido, enfiei os pés nos sapatos e foi com o coração em ritmo acelerado que corri para o carro. Depois, para casa, onde entrei para me refugiar no nosso quarto. As minhas pernas não paravam de tremer, de uma forma incontrolável.

O telefone tocou. Alegrei-me, por um momento, supondo que eras tu...

Era o Director da Companhia de Bailado. Optei por não atender. Depois disso, tocou mais algumas vezes, mas nunca levantei o auscultador. Foram ficando sucessivas mensagens, ditadas pela sua voz grave e austera: primeiro de aborrecimento pelo meu inusitado desaparecimento; depois, de verdadeira zanga pelo facto de eu faltar ao espectáculo sem nada ter dito; por último, de alguma preocupação, acompanhadas de um pedido para que entrasse em contacto logo que possível.

Ao fim de, sensivelmente, duas horas, o telefone tinha deixado de tinir.

Waiting (*)
Estou cansada desta espera.
O desespero começa a apoderar-se de mim.
Por vezes vacilo, quase desisto, mas não consigo.
Aqui continuo, neste cansaço da espera: a espera de ti.

Quando compreendi que tinhas ido embora, sem deixar, sequer, um bilhete explicativo dos motivos que te levavam a abandonar-me, sem qualquer sinal de que havias, mesmo, ido para longe de mim, não quis acreditar.

Fiquei sentada no quarto, na cadeira de balouço, a olhar pela janela para as árvores que se agitavam com o vento, na vã expectativa de ouvir a chave rodar na fechadura, ouvir os teus passos na sala e ver-te entrar, com o meigo sorriso de sempre e uma justificação para o inesperado atraso.

Acabei por me esticar na cama, forçando o sono que teimava em não chegar.

Esperei toda a noite, sem conseguir adormecer.
Na manhã seguinte, decidi não ir ao Teatro. Que razão poderia eu invocar para atenuar a gravidade da minha falta? Em vez disso, vesti a roupa com que mais gostas de me ver dançar, calcei as sapatilhas e fui sentar-me no chão da sala. À tua espera: quando, finalmente, entrasses, começaria a dançar para ti, sem parar, até caír de exaustão nos teus braços, que me apertariam contra o teu corpo, como se nada tivesse sucedido.
O dia passou, lentamente, deixei de contar os minutos e as horas em que, ali sentada, com o meu mais lindo vestido, aguardava o teu regresso.

Veio a noite e continuei a longa espera.
Talvez se lhe tenham sucedido mais alguns dias e noites.
Perdi a noção do tempo.

Entregue à desilusão da tua ausência, ao desespero da solidão daquela casa, inexplicavelmente quieta, muda, sem vida, continuo, já sem forças, a aguardar o teu regresso, até ser sacudida, na escuridão da sala, pela fulminante luz de um relâmpago, imediatamente seguida do ruído ensurdecedor de um trovão.
Levanto-me e dirijo-me à varanda, ajudada como que por uma força exterior a mim, para fechar as janelas, abertas de par em par, e assim impedir que a chuva, que cai copiosamente, me invada o espaço, único bem que julgo restar-me.
Quando lá chego, grossas bátegas de água, trazidas pelo vento, açoitam-me o rosto, o corpo exposto, quase nú, o vestido de que tanto gostavas...

É então que pareço compreender: morreste. Estou liberta.

Não mais faz sentido a condenação àquela espera auto-infligida. A mágoa de teres desaparecido termina aqui, agora, à medida que a tempestade também vai amainando.

De repente, tudo fica claro: tu não mais voltarás e o mundo, lá fora, aguarda o meu retorno!


Dancing (*)

Recomecei os ensaios, de forma intensiva. Queria voltar a ser a bailarina que o público amava e se dava, plenamente, em palco, como forma de retribuir e agradecer esse afecto.

Ao fim de uns dias, tudo ficou a postos. Um novo espectáculo iria substituir o anteriormente interrompido, daquela forma brusca e nunca revelada. Mais um mistério adensava a minha vida... e esse facto espicaçava a curiosidade daqueles para quem eu me tinha tornado um mito.

Eu própria escolhi a música e desenhei a coreografia. Chamei-lhe "Espera Sem Sentido". O Director andava excitadíssimo com a perspectiva de um êxito de bilheteira. Os colegas eram gentis para comigo e não faziam perguntas: para minha surpresa inicial, acatavam as minhas directivas, sem qualquer contestação e, apesar de já ter coreagrafado de outras vezes, só agora compreendi que era considerada a líder do grupo.

Na noite da estreia voltei a sentir-me como noutros tempos. Durante o espectáculo fui um pássaro a voar naquele palco. Tive de novo a sensação de ter centenas de almas coladas à minha, a respirar em uníssono, comigo, suspensas de um passo, de um salto mais arrojado, de uma pirueta perfeita.

Nunca parei de sorrir enquanto dançava e, no entanto, lágrimas de pura felicidade rolavam-me pela face, ao mesmo tempo. Dançar era a minha vida. O que eu sabia e gostava de fazer. Mais: o prazer que dava àquela plateia, ávida de mim, era-me devolvido sob a forma de um sopro brando e morno, de genuíno êxtase.

No final da noite, foi uma mulher realizada que voltou ao camarim. Pedi que me deixassem a sós. Sentei-me na minha cadeira e deixei-me relaxar. Não tinha pressa e ninguém, ou nada, me esperava. Revi, calmamente, os acontecimentos recentes. De olhos fechados, percorri, como num filme dentro da minha cabeça, todos os detalhes daquela noite de glória.

Subitamente, bateram à porta. Chegava-me, do lado de fora, a voz da camareira, atrapalhada, que dizia: "Desculpe, minha Senhora, eu sei que pediu para não ser incomodada, mas está ali um senhor que afirma não abandonar o teatro sem a cumprimentar".

Sorri com gosto: por que não dar ao destino uma segunda oportunidade?

"Ele que entre, Cecília, mas só ele".

Quando a porta se abriu, os meus olhos embateram numa imensa braçada de lírios brancos.

O desconhecido baixou um pouco o ramo, e deixou-me entrever uns olhos azul-água, mais claros ainda porque marejados de lágrimas.

Depois, desceu-o ao nível do peito e vi o sorriso: aberto, terno, sem mácula. Único, afinal, insubstituível, porque mágico.

Levantei-me de um ímpeto e abracei-o. Do ramo de lírios, espalmado entre os nossos corpos unidos, subia um doce perfume, que me enlouquecia e fazia eternizar o beijo que conciliava as nossas bocas ansiosas.

Separámo-nos, por fim, e chorámos, rimos, dos lindos lírios amarfanhados, prestes a murchar com o calor que os nossos corpos haviam, sobre eles, exalado. Beijámo-nos muitas e muitas vezes, sempre a rir, e a chorar, e a balbuciar palavras loucas, nos curtos intervalos dos sôfregos beijos trocados.

Daquele dia em diante, passei a adicionar um acessório à minha indumentária de bailado: no cabelo, numa alça do vestido, preso junto ao coração, destacava-se, sempre, um perfumado e fresco lírio branco.

(*) pinturas de Júlia Calçada

quinta-feira, outubro 09, 2008

Mentira


Hieronymus Bosch - O Julgamento Final

A mentira do tempo.
O olhar perdido no espaço,
também ele imaginado.
A fuga enquanto solução temporária.
A mentira da vida.
A vida inteira numa mentira.
A suspeita, a dúvida, a incerteza.
O engano, o medo, a traição.
A ténue linha
que separa o sonho do real.
O pesadelo como real,
sem linha a separá-lo de um real outro.
A falácia da paixão eterna.
A mentira dentro da mentira.
O inferno da vida.
A descrença em algo diferente da vida no inferno.
O desejo, a tentação, o julgamento, o castigo.
A loucura como desculpa
para o inexplicável.
As noites infindáveis e os dias sem sol.
A mentira do amor.
A frase nunca proferida,
mil vezes ouvida,
ecoando, ininterruptamente, na mente transtornada:
"Já não é pra ti que eu corro,
não será por ti que morro".
A mentira da mentira.
Eu...

Margarida Costa in "A Outra"

quinta-feira, outubro 02, 2008

No meu jardim


Foto de António Rodrigues - "Outono na Ponte do Arco"
(Paráfrase inspirada no poema "Porque voam as Pétalas?", de Paulo de Carvalho):

No meu jardim
ouço o som da maré-cheia

e o grito das gaivotas;

vejo as árvores

que se despem

e os outros pássaros mudos,

tristes, pousados nos ramos.


O forte ruído da chuva

assusta-os, mantém-nos calados...


um relâmpago ilumina

de repente a tarde escura,


a maré-viva faz-se ouvir

com violência, contra as rochas,


o ribombar do trovão

faz coro com a tempestade.


As gaivotas continuam seu grasnar

numa luta contra o vento

que as impede

de alcançar porto seguro,


indiferentes que lhes é
a serenidade
repousada em meu jardim.

quinta-feira, setembro 04, 2008

Grão de Areia


Agarro um punhado de areia e, lentamente, deixo-o escapar-se-me entre os dedos até voltar a ficar com a mão cheia de nada.

Observo a mão vazia e reparo que uma, apenas uma pequena partícula daquele finíssimo pó, se manteve presa ao dedo anelar.

Tento retirá-la com o polegar, mas, teimosa que deve ser, parece ter ficado colada... talvez para sempre.

Sorrio de mim para comigo ao pensar nas múltiplas interpretações que poderiam ser atribuídas a este facto, aparentemente sem qualquer importância. A simbologia dos acontecimentos, por mais simples que pareçam ser, pode adquirir contornos e proporções inimagináveis, quando utilizada por mentes férteis.

Qualquer pessoa (eu própria) poderia agarrar neste minúsculo acontecimento e escrever um conto, por exemplo, ou fazer um poema, se para tal me sentisse inclinada...

Decido nada fazer. O meu pensamento voa para ti, em tropel, e entre nós dois, como se de um segredo se tratasse, fica o signo deste momento - o significado de um significante: grão de areia, imagem acústica sem relevância, embora de agradável sonoridade. O resto é o silêncio...

terça-feira, agosto 26, 2008

Poemas sem Fronteiras


Foi um sucesso o almoço de convívio para lançamento do livro e entrega de prémios do "Poemas sem Fronteiras", resultante do Concurso de Poesia 2008 do "Ora Vejamos..." organizado e liderado, a exemplo do Concurso de Contos de 2007, "Um Mar de Contos", pelo Henrique Sousa, em Leiria.
Para visitar este site, meus amigos, e ficarem a conhecer mais detalhes, sobretudo os poemas distinguidos com os Três Primeiros Prémios e as Menções Honrosas, visitem o endereço:http://horabsurda.org/moodle/course/view.php?id=30

Caso queiram ler o meu comentário à referida festa e ver a modesta reportagem fotográfica que fiz do evento, podem fazê-lo no meu site, aqui:
http://mariacarvalhosa.multiply.com/photos/album/31/Poemas_Sem_Fronteiras_-_Leiria_-_230808

Para conhecer a obra (que, asseguro-vos, vale a pena) e dado que não está disponível nos circuitos comerciais habituais, podem adquirir o livro directamente pela net no endereço que passo a indicar:
http://www.lulu.com/content/3113719
Votos de boas leituras e muita poesia nas vossas vidas

1º Prémio do Concurso: Poema "Meia-noite na Alma", de Alberto Pereira, dito por Zélia Santos:
http://www.youtube.com/watch?v=eTjsMJ2PueA


quinta-feira, julho 31, 2008

A Tela da Vida


João Cristino da Silva (1829-1877)
Cinco Artistas em Sintra - 1855
Óleo sobre tela, 863 x 1288mm

"A obra Cinco Artistas em Sintra é, indiscutivelmente, uma obra emblemática do Romantismo português. Trata-se do primeiro retrato de grupo na pintura, foi elaborado com o objectivo de representar Portugal na Exposição Universal de Paris em 1855.Nela podemos observar cinco artistas rodeados por gente do povo e num ambiente agreste.A composição foi esboçada no local e apresenta-se de forma cenográfica, sugerindo o processo de trabalho típico do romantismo: pintura de paisagem ao ar livre, recolhida "do natural" e, posteriormente, elaborada em atelier. Esta obra é uma homenagem ao mestre Tomás de Anunciação que está no centro da composição (a pintar), e junto dele Francisco Metrass, com adereços do próprio autor - Cristino da Silva, que os gostava de exibir (chapéu à Rubens e capa larga). No segundo grupo encontramos Vítor Bastos (escultor), José Rodrigues (pintor), sentado no chão e Cristino da Silva (o autor da obra), encostado à rocha, elaborando um esboço, em pose artística.Nesta tranquila paisagem destaca-se o rochedo que de alguma forma confere unidade e coesão à obra. A presença de aldeãos que olham fascinados para o trabalho do senhor da cidade, representa uma espécie de ideal de ruralidade que fascinava os representantes do Romantismo português. Ao fundo, vislumbra-se o Palácio da Pena, um dos símbolos máximos do Romantismo, edificado por D. Fernando. As cores do quadro são terrosas, com predominância de tons de verde e castanho, sem grandes contrastes. A iluminação é estudada, dando o tom dourado de fim de tarde a toda a composição."

(Texto extraído de "Museus na Escola" museusnaescola.eselx.ipl.pt/static/instance/M...)


A Tela da Vida

A nossa vida é uma tela,
uma tela de mil cores,
todos nós pintamos nela,
somos bons ou maus pintores.

Com mais ou menos talento,
com tinta clara ou garrida,
por vezes com desalento
pintamos a nossa vida.

Há quem pinte com amor;
há quem pinte com paixão;
só não sabemos dar cor
ao que sente o coração.

Sabemos nós qual a cor
para pintar a amizade?
que tons daremos à dor?
como se pinta a saudade?

Ai, pobre de quem na vida
só tem negro p’ra pintar:
uma tela entristecida,
feita talvez a chorar.

(poema da autoria de Maria Teodora)

terça-feira, julho 15, 2008

A sensualidade na poesia feminina do Japão - "O Tanka"



PERÍODO HEIAN NO JAPÃO - FINAL DO SÉCULO VIII ATÉ FINAL DO SÉCULO XII - (Plena Idade Média na Europa)

A forma poética "tanka" constituída por 31 sílabas japonesas de apresentação vertical, é apresentada em tradução nas línguas ocidentais por cinco linhas que, mantendo tanto quanto possível o registo sonoro original, correspondem a cinco versos metricamente alternados de 5,7,5,7,7 sílabas.

As duas autoras que nos são apresentadas por Luísa Freire, Ono no Komachi (834? -?) e Izumi Shibiku (974? - 1034?) "foram as grandes representantes da poesia da corte de então e marcos importantes na poesia japonesa de todos os tempos que, ao longo dos séculos, se foram tornando uma lenda e uma referência. [...] " Ambas são figuras centrais dessa Idade de Ouro, durante a qual as mulheres escritoras tiveram um papel decisivo na fixação do japonês como língua poética".

[...]

"Há mil anos, a cidade capital Heian-Kyo (hoje Kyoto) era mais populosa do que qualquer cidade da Europa e um dos centros altamente civilizados do mundo. Os aristocratas aspiravam ao favor político que lhes trouxesse posição e poder e as filhas dessas famílias eram mandadas aos catorze anos para a corte, para servir os membros imperiais. Como era através do casamento que a sua posição e o seu estatuto se afirmavam, as raparigas eram cuidadosamente educadas e cultivadas para, esteticamente, competirem com os homens em termos de igualdade. Na corte, divertiam-se e divertiam a imperatriz com música e versos, mas a sua atenção ia para os assuntos do coração. Os "casos amorosos" eram aceites às mulheres solteiras e a poligamia era habitual nos homens. Assim sendo, compreende-se que o erotismo fosse tópico literário, reflectindo todo o ambiente que se vivia."

Passo, então, a transcrever, apenas à laia de exemplo, alguns dos tanka que considero de maior beleza e sensibilidade amorosa:



De Komachi:


Será que apareceu

só porque eu adormeci

a pensar nele?

Se eu soubesse que sonhava,

nunca teria acordado.

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Quando o meu desejo

se torna intenso de mais,

visto a roupa de dormir

virada pelo avesso,

escura casca da noite.

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O meu desejo de ti

é forte para contê-lo -

assim ninguém vai culpar-me

se à noite for ter contigo

pela estrada dos meus sonhos.

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Não há como vê-lo

nesta noite sem luar -

estou deitada e desperta,

os seios ardendo em desejo

e o coração em chamas.

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A noite mergulha

com um veado a chamar

em som agudo

e, ao ouvi-lo, escuto

um lado do próprio amor.

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Pescador não deixa

a baía plena de algas...

Vais abandonar

este corpo flutuante

à espera das tuas mãos?

---------------------------------------

Triste a pescadora que,

longe, na Baía Suma,

perdeu um remo do barco -

assim é este meu corpo

sem ter a quem recorrer.

---------------------

Nos campos de Outuno,

se uma centena de flores

solta suas cores,

não posso também gozar

sem ter medo da vergonha?

-----------------------
Este meu corpo

tão frágil e flutuante,

é uma cana sem raízes...

Se um rio acaso pedir

que o siga, eu acho que irei.


Fim da selecção de Komachi


DE SHIKIBU:

Deitada e sozinha

de cabelo negro solto

e emaranhado,

sinto desejo daquele

que primeiro o veio tocar.

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Porque não terei

pensado nisto já antes?

Este corpo meu

ao recordar tanto o teu

tem a marca que deixaste.

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Não há diferença -

a borboleta nocturna

que se veio queimar,

e aqui este meu corpo

que o amor veio transformar.

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Não fiques corado!

Todos adivinharão

que dormimos juntos

sob as pregas enrugadas

deste manto avermelhado

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Se o cavalo dele

tivesse sido domado

pela minha mão -

eu tê-lo-ia ensinado

a não seguir mais ninguém.

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Sem ser perturbado,

o meu jardim fica cheio

de mato estival -

como eu desejo que alguém

desbrave a erva profunda!

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Desejando vê-lo

para ser vista por ele -

se ele ao menos fosse

o espelho onde eu me olho

e que olho cada manhã!

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A gota de orvalho

permanece mais tempo

na folha de bambu

do que tu, que logo partes

antes do amanhecer.

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Este coração

de tanto te desejar

vai-se quebrando

em milhares pedacinhos -

mas nem um só vou perder.

----------------------------------------------

Mesmo quando um rio

de lágrimas atravessa

e molha este corpo,

não chega para apagar

todo o fogo do amor.

----------------------------------------

Penso: "nos meus sonhos

poderemos encontrar-nos"...

Virando a almofada,

eu ando às voltas na cama

incapaz de adormecer.

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Deixada aqui

a envelhecer no mundo

sem ti ao meu lado,

as flores perdem a beleza

tingidas de negra cor.

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Meu corpo perdido

só conhece agora a noite -

por isso as mangas no escuro

permanecem encharcadas,

impossíveis de secar.

-----------------------------

Ao lembrar-me de ti...

Os pirilampos do campo

parecem centelhas vivas

que se desprendem e soltam

dos desejos de meu corpo.


Fim da Selecção de Shikibu


terça-feira, junho 17, 2008

Recordações


Desço às profundezas
do mar revolto
dos meus sonhos
e das minhas recordações.

Qual mergulhador,
aventureiro,
arrisco e pesquiso todos
os cantos e recantos
de rochas e corais.

Deslumbramento total!
Como tudo é diferente
agora, visto assim,
nesse repouso,
silencioso
e maravilhosamente belo!

Como tudo
me parece diferente
nos seus contornos
quase irrreais!...

Não me atrevo
a tocar-lhes.
Religiosamente descansam
e eu, limito-me
a contemplar,
respeitando assim
o sossego
de tantas atribulações,

encantos e desencantos.

(Noémia Carvalhosa)

quarta-feira, junho 04, 2008

Poema ao Sol














(Willows at Sunset - Vincent van Gogh)



Te bendigo, ó Sol, que a beijar aqueces
esta terra sedenta dos teus beijos.
Em cada amanhecer quando apareces
palpita nela a vida em mil desejos.

Desponta o Sol radioso, cintilante
em cristais d’orvalho, a manhã começa;
bela, a flor abriu, sorriu deslumbrante
à luz que se espalhou numa promessa.

Crescem os cardos em qualquer lugar:
no chão mais pobre, áspero e daninho;
ao calor do Sol vão desabrochar
humildes flores na poeira do caminho.

Da terra brota água fresca e pura;
mas a semente que um dia alguém semeia
o Sol lhe dá vida, dá-lhe altura,
e cada vida é chama que ele ateia.

Tens o poder criador, ó Sol bendito,
a louvar-te sempre em cada hora, insisto;
és fonte de vida, bem infinito,
é porque tu existes que eu existo.

E quando no horizonte o Sol desmaia
ao fim da tarde, luminosa e quente,
- como se coada em fina cambraia -
cai sobre a terra a luz doce do poente.


(Maria Teodora)

quinta-feira, maio 29, 2008

Um Abraço de Vida


Deitada na areia molhada
deixo que pequenas ondas
me invadam corpo e alma
num torpor enlanguescido.

A água, morna, conforta-me.
Sinto que lhe pertenço:
dela vim, num sortilégio do passado,
a ela, em farrapos, voltarei um dia.

Admiro o céu, sem núvens,
imaculado no azul do entardecer.

Uma brisa quente varre, com doçura, o areal,
trazida pelo mar, tímida como a espuma
que com os dedos desfaço e me humedece os cabelos.

No horizonte, o sol é uma bola de fogo,
forjando um adormecer tranquilo:
diária magia que executa de mansinho,
escondendo-se atrás da linha vísível
para surgir, radioso, do outro lado do mundo.

Inspiro o cheiro a maresia:
o ar que penetra o meu ser
limpa e lava qualquer dor,
lembra-me aqueles que amo.

Tenho tudo, sou feliz:
terra, água, fogo e ar,
eterno ciclo de vida.

Com emoção retribuo, agradecida,
da natureza o carinhoso abraço.

quarta-feira, maio 21, 2008

Sou Rio (Sorrio)


Sou rio.

Broto da escarpa rochosa:
ténue fiozinho de água
deslizando pela encosta,
molhando fragas e arbustos
até alcançar o vale
na procura de um riacho.

Irmãos-de-água fundidos
corremos alegremente,
na inocência da infância,
cantando e rumorejando
por sobre as pedras do leito
que nos indica o caminho.

Engrossei o meu caudal,
já tenho curvas e praias.
Rápidos alucinantes,
num rodopio de volúpia,
precipitam-me na queda
em vertiginosa cascata,
numa lagoa serena.

É dali que parto, eufórico,
enriquecido pelas águas
de outros rios solitários
que comigo se reúnem
e num só se consolidam:
imenso, forte, profundo.

Em desassossego e exaltação
o mar agora procuro
para nele, em largo manto,
consumar o meu destino:
confundir os nossos fluidos,
acertar nossas marés.

Sou rio.

(De costas voltadas
para a porta
pressinto a tua chegada:
aproximação doce e suave
que me faz estremecer
em prazer antecipado.

Enlaças-me pela cintura,
teu rosto encostado ao meu cabelo.
Um murmúrio terno e quente
me roça ao de leve o ouvido.
Lábios macios e ardentes
beijam-me a nuca, ansiosa.

Rio que sou, a ti me entrego:
Estuário vigoroso, excessivo, apressado
que o teu mar acolhe em festa.

Sorrio.)