segunda-feira, maio 30, 2011

A nossa praia, Amor, a nossa praia!

Nota: Importante ver/ouvir o vídeo: o som do mar, o seu espraiar-se na areia... são beijos, carícias!


Vídeo de António Rodrigues, na Praia do Molhe Leste, Peniche, em 28 de Maio de 2011


(Título em paráfrase do soneto de Florbela Espanca: "A nossa casa, Amor, a nossa casa".)

A nossa casa, Amor, a nossa casa!
Onde está ela, Amor, que não a vejo?
Na minha doida fantasia em brasa
Constrói-a, num instante, o meu desejo!

Onde está ela, Amor, a nossa casa,
O bem que neste mundo mais invejo? 
O brando ninho aonde o nosso beijo
Será mais puro e doce que uma asa?
  
Sonho...que eu e tu, dois pobrezinhos,
Andamos de mãos dadas, nos caminhos
Duma terra de rosas, num jardim,

Num país de ilusão que nunca vi...
E que eu moro -- tão bom! -- dentro de ti
E tu, ó meu Amor, dentro de mim...


Florbela Espanca



Foto de António Rodrigues - Praia do Molhe Leste, Peniche, em 28/05/2011

quinta-feira, maio 12, 2011

As tardes


Pôr-do-sol no Molhe Leste - Foto de António Rodrigues

Passo agora as tardes à beira-mar. Dou longos passeios pela baía - pés na água e cabeça nas nuvens. Apanho búzios vazios. Desenvolvi, recentemente, um afecto especial por este tipo de conchas. Chego a comover-me quando encontro alguns destes lindos habitáculos, outrora com vida. Beijo-os, quais amuletos. Começo a desenhar aquilo a que já chamo "a minha colecção de búzios da praia do Molhe Leste". Na Praia Norte, igualmente rica em belezas outras, apenas existem seixos, pequenos calhaus rolados, ou cascas de bivalves partidas. Tem a ver com a força da rebentação, explicou-me o António, que já foi pescador e que, tal como o marinheiro de Mishima, por amor perdeu as graças do mar. Estou eu agora a recuperá-las, as graças, penso eu para comigo, com um sorriso não de todo inocente.

Avançando no prazer da água, que me banha e de mim aparta as mágoas, perco a noção do tempo, rejuvenesço, sinto-me vigorosa e bela.

Ao entardecer, quando chegam as gaivotas e as traineiras regressam da faina,  ainda por lá estou. Não arredo pé antes da hora do ocaso e, quase sempre, sou  brindada com um vislumbre do paraíso: o sol a esconder-se na linha do horizonte, pintando toda a paisagem em tons de fogo, contrastando com o azul do mar profundo, a brancura da espuma das ondas, o ouro-velho do areal imenso.

No Verão da minha existência, vivo as mais lindas tardes deste fim de Primavera. À beira-mar. A coleccionar búzios.

segunda-feira, abril 18, 2011

Naquele tempo


Berthe Morisot - Reading


Naquele tempo
passava os dias a ler o que escrevias.
Deixava-me extasiar
com o teu verbo fluente,
a simplicidade da tua arquitectura poética,
os múltiplos e profundos sentimentos
que em mim fazias despertar.

Naquele tempo
acreditava que HOJE podia ser SEMPRE
e que nós tínhamos vindo para ficar.

Era assim naquele tempo...


(inspirado num poema de João Villalobos, publicado no blogue "as penas do flamingo", em 03/06/2010)

quinta-feira, março 10, 2011

"Mil nomes, um rosto" ou "Confidências de um esquizofrénico"



Tenho tantos nomes que já lhes perdi a conta.
Sei que já fui Luís, Manuel, Diogo, José, Francisco e até Joaquim.
Também fui Julieta, Margarida, Leonor, Isabel e talvez mesmo Idalina.
Posso ser muito mais gente, com outros nomes, outras vidas, noutros lugares.
Consigo falar qualquer língua, ter vindo de qualquer sítio, estar de partida para onde quiser.

E, no entanto, sou sempre eu.
Este rosto que vejo ao espelho, este corpo que me enclausura, esta âncora que sou incapaz de soltar.

Por vezes, sento-me no alto de um penhasco, à beira-mar.
Despeço-me do dia que finda e da persona que me habitou.
Uma dor aguda oprime-me o peito, seca-se-me a garganta e a respiração torna-se penosa.
Quase sufoco, enquanto uma lágrima, que não seguro, me queima a face.
Sei agora (sempre soube) que  sinto saudades de quem parte. Temo que não regresse.

Tenho medo de ficar a sós comigo.
Afinal, eu sou só eu. E isso é muito pouco.

Volto a encontrar-me no reflexo deste rosto, na prisão deste corpo, que me transporta.
Adensa-se o receio de jamais conseguir içar a âncora.

quinta-feira, fevereiro 03, 2011

Arquipélago do Amor


"varanda de pilatos" - foto de António Rodrigues

Não me perguntes pelos dias passados na solidão do meu quarto.
Fala-me dos corvos plantados ao sol, num rochedo inóspito;
diz-me do som das ondas, poderosas e alvas, a desfazer-se na areia;
recorda-me do cheiro a maresia, quando a praia fica imensa, na maré-baixa; 
traz até mim a brisa morna do fim da tarde, nas dunas;
conta-me da hora do ocaso, no horizonte, do arquipélago que é a nossa casa;
sussurra-me palavras ternas, no aconchego da sala, iluminada pelo fogo na lareira; 
beija-me infindavelmente;
toma-me nos teus braços e deixa-me adormecer, de cansaço, aninhada em ti:
a cabeça no teu peito;
a alma leve, radiante, saciada. 

sábado, janeiro 01, 2011

Réveillon



"Vem... vem comigo"
Óleo sobre tela de Júlia Calçada



Não estava frio mas era, sem dúvida, uma noite de inverno.

O céu, pintado de negro,  abria-se, de quando em vez,  para  deixar cair mantos de chuva cerrada que, rapidamente, escondiam estradas. Em seu lugar surgiam rios, com furiosos caudais que tudo arrastavam. Raios de luz cegavam, momentaneamente, quem os olhava de frente, que logo de seguida ensurdecia, sem possibilidade de aguardar uns segundos pelo estrondo dos trovões.

Poderia tratar-se de uma tempestade tropical, em pleno verão, num outro local. Mas era inverno -  a última noite do ano, no hemisfério norte do planeta que incessantemente nos transporta, em movimentos de rotação e de translação, sem que disso nos consigamos aperceber. 

Ela estava deslumbrante, vestida a rigor para uma noite de festa. Disse-lhe: "Vem... vem comigo!". Ele foi. Segui-la-ia, a nado, se necessário fosse, contra a força das enxurradas que, lá fora, iam cobrindo o mundo material até há minutos conhecido de ambos.

Afinal, nada de heróico seria necessário da sua parte para lhe fazer a vontade: era tão-somente para o andar de cima que ela o convidava. Subiu os degraus, no seu encalço, não arriscando perder o rasto do perfume que, na escuridão da casa, apenas entrecortada pela luz dos raios que não cessavam de imitar um esplendoroso fogo-de-artifício, lhe servia de guia e salvação.

Entraram no quarto dela onde, providencialmente, velas haviam sido distribuídas, fornecendo a luz suficiente para que pudessem usufruir do jantar, servido na mesa redonda, junto a uma janela adornada com grossos cortinados de veludo.

Ele ainda pensou, por momentos, nas possíveis tragédias que, naquela inimaginável noite de passagem de ano, poderiam estar a ocorrer fora do aconchego da casa, do quarto onde se encontrava, suavemente iluminado e docemente aromatizado,  num ambiente quase mágico.

Completamente à mercê dos sentidos, seduzido pela beleza e sensualidade da sua anfitriã, ao segundo copo de champanhe já esquecera a tempestade, o mundo lá fora, a desgraça iminente das gentes, esses outros que não tinham um refúgio.

As doze badaladas fizeram-se ouvir no relógio antigo, próximo deles, na parede junto à janela. Brindaram ao novo ano, como se mais ninguém existisse no mundo e a vida pudesse ser sempre assim!

Francisco acordou sobressaltado, com o ruído das águas que, de rompante, lhe entravam no quarto, prestes a atingir a cama, a escassos três palmos do chão. Ouviu gritos lá fora, alguém que pedia ajuda... como é que pudera adormecer com aquele temporal, sozinho no seu casebre, no fundo duma rua estreita e íngreme, leito natural de qualquer cheia? Com a fugaz luz dum relâmpago vislumbrou a sua companheira de réveillon: uma garrafa de aguardente, completamente vazia. 

Em menos de um minuto apercebeu-se de tudo. Não havia agora em que pensar, o necessário era agir. Num único salto, saiu da cama e em breve alcançou a porta da rua, que começava a ceder com a força da enchente. Ao abri-la, tombou-lhe nos braços uma jovem mulher que, agarrada com ambas as mãos ao batente da sua porta, começava a perder as forças e teria sucumbido à força da corrente, se mais dois minutos tivessem decorrido.

Pegou-lhe ao colo, subiu em corrida as escadas que  levavam ao sótão, onde a sentou a salvo, num velho sofá. Tirou-lhe a roupa molhada e embrulhou-a bem numa manta. Depois, aconchegou-se a ela e começou a falar-lhe, a tentar que ela se mantivesse acordada, lúcida, quente e, sobretudo, viva.

Logo, logo, ao raiar da manhã, no primeiro dia do novo ano, chegariam, seguramente, os socorros da autarquia!


quinta-feira, setembro 16, 2010

Ouvi dizer...!



Pintura de Júlia Calçada 
Óleo sobre tela
140 cm x 100 cm

Esta noite sonhei contigo de novo.

Ouvi dizer que, quando se sonha com alguém com tanta frequência e intensidade, é porque essa pessoa ocupou, ou ocupa, um lugar muito especial na nossa vida. Parece lógico, dito assim. Deixa de o ser quando pensamos que, no dia-a-dia, raramente nos lembramos dessa pessoa e, se o fazemos, é no contexto de página virada, de livro terminado e arrumado na estante.

Quando isto sucede, acordo sempre com uma dor no peito, com um anseio por ti, com uma indescritível saudade, que permanece ao longo do dia e me faz parecer desprendida, solta do chamado "mundo real", como se levitasse a uns escassos centímetros do solo e me deixasse levar para o mar por uma rajada de vento mais forte!

Continuo a sonhar ao longo do dia. Vejo e revejo imagens, sentimentos, emoções: tento refazer o sonho, como se efectuasse a montagem de um filme querido, cena a cena.

Por vezes desperto em lágrimas, outras há em que choro, convulsivamente, quando dou por terminado o tal trabalho de reconstrução, e o sonho não passa de um guião para um filme que nunca chegarei a realizar.

Ouvi dizer que compraste um veleiro e agora és Capitão. Que partiste com ela, a decrépita, alcoólica e quase demente Emily L, e que tencionam passar o resto das vossas vidas apenas um com o outro, ao sabor das ondas e dos ventos, atracando em cada porto e, aí, visitando cada bar.

Sempre me disseram que nenhum homem troca a sua jovem companheira por uma mulher consideravelmente mais velha!

Sei agora que  não se pode acreditar em tudo o que se ouve dizer!...

terça-feira, dezembro 22, 2009

Pasión


Aqui ficam os votos de um Bom Natal, para todos os meus amigos, com esta composição conseguida a partir de algumas pinturas da Júlia Calçada, acompanhadas pela pasión do Rodrigo Leão.


segunda-feira, novembro 09, 2009

Concursos do "Ora, vejamos... 2009"


Os livros já aí estão, à venda, para quem os quiser ler.
Apenas contribuí com escritos mas estou muito orgulhosa com o resultado final de ambos.
As capas estão lindas e os conteúdos muito bem cuidados.
Dá gosto trabalhar com amigos assim!
Obrigada a todos.



Livro dos contos do concurso «Ora, vejamos... 2009»
Autores:
Alberto Pereira, Augusto Dias, Eurico Ferraz, Filipe Arnaso, José António L. M. Baptista, Maria Carvalhosa, Teresa Krusse



Livro dos poemas do concurso «Ora, vejamos...2009».
Autores:
Alberto Pereira, Carlos Augusto Neves e Sousa Ramos, Ester Afonso, Eugénia Vieira, Eurico Ferraz, Isabel Solano, Maria Augusta Loureiro, Maria Carvalhosa, Maria de Lourdes Barbosa Oliveira, M. Alexandra Vassalo, Teresa Krusse e Vilma Machado.


Para adquirir qualquer um dos livros clicar em:



segunda-feira, outubro 05, 2009

Pássaros feridos

O meu grande amigo Alberto Pereira ganhou, nos Concursos de 2009 do "Ora, Vejamos..." o 2º prémio no género poesia e o 1º prémio no género conto. A querida Zélia Santos diz os seus poemas como ninguém e aqui está, para nosso bel-prazer, um excelente vídeo que produziu. A não perder!



PÁSSAROS FERIDOS

Estremeço,
já não vejo os pássaros que nasciam na garganta
quando dizias meu amor.
Esses partiram há muito
e no seu lugar, quero dizer-te,
sonham tempestades.

Nunca a eternidade se demorara na pele
como nesse tempo.
Trazíamos o céu entre os anéis
e a força com que apertávamos o paraíso.
Deus sentava-se no coração
a adiantar as horas,
a manhã chegava mais cedo.
Era urgente não adormecer,
viviam-se muitos anos num dia
e cada pensamento
coleccionava o mundo inteiro.

O sangue ruiu quando partiste.
Descobri então que o corpo
não tinha lista de espera para as cicatrizes.
Até Deus enlouqueceu,
grita que a escuridão é mais fácil de respirar.

Somos delírios
e a morte um vício para sempre.

Autoria: Alberto Pereira


terça-feira, setembro 22, 2009

sexta-feira, junho 05, 2009

De volta para o meu aconchego

Nota: Para ver o PPS noutro web site clique no título acima.


Fotografia: Sandra Farinha

De Volta Pró Meu Aconchego
Elba Ramalho
Composição: Dominguinhos - Nando Cordel

Estou de volta pro meu aconchego
Trazendo na mala bastante saudade
Querendo Um sorriso sincero, um abraço,
Para aliviar meu cansaço
E toda essa minha vontade.
Que bom, poder tá contigo de novo,
Roçando o teu corpo e beijando você,
Prá mim tu és a estrela mais linda
Seus olhos me prendem, fascinam,
A paz que eu gosto de ter.
É duro, ficar sem você
Vez em quando.
Parece que falta um pedaço de mim
Me alegro na hora de regressar
Parece que eu vou mergulhar
Na felicidade sem fim.



segunda-feira, abril 06, 2009

Um hotel sobre o mar

Foto de António Rodrigues
Olhou, demoradamente, a magnífica paisagem que a janela do seu gabinete lhe oferecia. "Pela última vez. Sem pressas. Ela que espere." Disse para si próprio, enquanto uma pontada desconfortável lhe oprimia o peito, um nó na garganta o impedia de engolir a água que havia acabado de levar aos lábios e uma irreprimível neblina lhe começava a toldar a vista ocultando, assim, parte da beleza que tanto queria que a sua retina guardasse.

O telefone voltou a tocar. Era novamente a secretária de Laurinda: "Dr. Maurício, lamento a insistência mas a Presidente aguarda-o na sala de reuniões com o Dr. Fernando e dois advogados e parece-me que começa a ficar impaciente com a sua demora". "Obrigado, Paula. Estou a ir". Após ter desligado, tentou recompor-se do recente momento de fraqueza. Pigarreou, para aclarar a garganta, respirou bem fundo duas ou três vezes, passou um "kleenex" nos olhos para apagar qualquer vestígio de humidade, voltou as costas à janela e saíu, com passo firme e determinado, rumo à sala de reuniões.
Quando entrou, esperavam-no todos sentados do mesmo lado, de costas para uma outra janela panorâmica, com a mesma vista de sonho. Sentou-se do lado de cá, de frente para os oponentes e, consequentemente, para a deslumbrante vista que o acompanhava há três anos, desde que fora trabalhar para aquele hotel como director de marketing.
Laurinda começou: "Ora bem, agora que já estamos todos, não vamos perder mais tempo. Como sabe perfeitamente, os tempos são de crise e todas as medidas têm que ser tomadas o mais rapidamente possível". Deixou de a ouvir, "mas o que faz aqui o Fernando? Ainda ontem à noite bebemos um copo no bar e não me disse absolutamente nada. Olha o sacana! Poderia, ao menos, ter-me preparado minimanente, evitando assim que esta situação se me apresentasse tão constrangedora. Sempre pensei que era meu amigo. Grande amigo me saíu. Os directores de recursos humanos são todos iguais, quando chega a hora da verdade estão sempre do lado do patrão, a tentar proteger o seu lugar, pois é claro... e os amigos (amigos, o que é isso?) que se lixem!"
Voltou a ouvir a voz estridente de Laurinda "há que reduzir os custos" e voltou, imediatamente para os seus pensamentos "é evidente, agora já não precisam de mim. Fiz o trabalho de reconstrução todo. Consegui tirar este hotel da sarjeta e transformá-lo num dos locais mais procurados para sessões de trabalho das empresas e fins de semana de lazer durante todo o ano. No Verão, então, não cabe aqui um alfinete..." Laurinda continuava "por essa razão, os estagiários e recém-licenciados que demonstraram estar à altura" enquanto Maurício pensava para dentro "e agora, que os "meninos" já aprenderam comigo como dar continuidade ao trabalho e só têm que manter o barco em velocidade de cruzeiro, levo um xuto no cú e boa viagem".
O timbre de Laurinda, habitualmente inócuo para os seus ouvidos, agora quase lhe perfurava os tímpanos "os nossos advogados elaboraram o contrato que tem na sua frente e que lhe peço leia atentamente, antes de assinar". "O quê, indignou-se Maurício sem proferir palavra, mas isto é "atar e pôr ao fumeiro"? Estes gajos são mesmo demais. Num dia não sei de nada, no dia seguinte estou a assinar a minha sentença de morte. Só falta mesmo pegarem-me na mão e ajudarem-me a fazer uma cruz como assinatura!". De seguida lembrou-se dos filhos: depois do duro golpe da morte da mãe, a Mariana recuperara o equilíbrio emocional e estava a acabar o secundário, com planos para arquitectura e o João, já igualmente conformado com a perda, encontrava-se a meio do curso de Engenharia de Comunicações. Como é que ía conseguir chegar a casa e dizer-lhes: "meninos, vamos ter que rever as nossas prioridades. O subsídio de desemprego, que vou passar a receber, é muito mais do que insuficiente para o nível de encargos que criámos com base na realidade de ontem e para os projectos que tínhamos em vista para amanhã".
Foi então que a frase que saíu da boca de Laurinda colidiu com a sua linha de raciocínio. Como é que "a percentagem sobre a facturação pode parecer irrisória mas, quando aplicada sobre os lucros excelentes que temos conseguido desde que o contratámos..." jogava com um acordo de rescisão? Esforçou-se por deixar de ouvir a sua voz interior e passar a escutar Laurinda que, neste momento, dizia "além do mais, apesar de 20% do capital social não ser uma quota extraordinária, parece-me justa e adequada ao seu óptimo desempenho, funcionando assim como prémio e incentivo, já que o Maurício passa a ser, simultaneamente, meu sócio, e dos meus irmãos, na propriedade do hotel, ocupando o cargo de vice-presidente. A verdade é que eles não ligam nenhuma a isto e concordaram imediatamente em prescindir de parte das suas quotas para alijar responsabilidades. Sabe o que lhe digo? Parece muito mais que o sangue dos Ataíde corre nas suas veias do que nas deles".
Por esta altura, Maurício transpirava, tinha dificuldade em respirar e quase deixava que os seus olhos se marejassem de lágrimas, exactamente por motivos opostos aos que o tinham feito sentir sintomas idênticos há cerca de meia-hora atrás. Começava a pesar-lhe alguma má consciência por ter sido, embora que por breves momentos, injusto para com a Presidente que sempre lhe merecera a maior estima e o respeitara e, até, para o seu único verdadeiro amigo, com inúmeras provas dadas, desde o primeiro momento em que o integrara nos quadros do hotel, o director de recursos humanos.
"Perante o seu silêncio presumo que está de acordo, Maurício" prosseguia Laurinda Ataíde que, aqui, fez uma pequena pausa no discurso e sorriu. A voz dela, estranhamente, agora parecia-lhe suave e doce "assim sendo, vamos passar à assinatura dos contratos e os nossos advogados poderão, em sequência, marcar a escritura de doação de quotas. Quanto ao complemento de remuneração, o Dr. Fernando Meneses procederá, já este mês, ao processamento da comissão acordada sobre a facturação do mês transacto."
Maurício permanecia num mutismo inexplicável. Incapaz de balbuciar fosse o que fosse, levantou-se e dirigiu-se ao outro lado da mesa, com intenção de agradecer à Presidente, apertando-lhe a a mão. Laurinda, porém, antecipou-se-lhe. Recuou um pouco para junto da janela e, após uma olhadela rápida ao sol que estava prestes a esconder-se onde o mar parecia acabar, deixou-se ficar de perfil e, de braços abertos, disse, comovida "Parabéns, Maurício. Ora venham de lá esses ossos".
Nota da Autora: Este é um texto de ficção. Qualquer semelhança entre o local fotografado, personagens, ou conteúdo do conto com a realidade é pura coincidência.

segunda-feira, março 30, 2009

Rosa-sem-espinhos (tema recorrente e cada vez mais actual)



Vejam só como, nesta Primavera, a minha velha amiga roseira-sem-espinhos, se deixou crescer, e transbordar, e extrapolar para além do muro - local seu desconhecido até agora.

É um gosto senti-la reflorescer, tomar como nova uma vida que, durante tantos anos, já sendo sua, nunca dela se tinha apropriado. Um verdadeiro deleite para os sentidos e um prazer indescritível para esta alma que habita num limbo - algures entre o Paraíso e o Inferno.