sábado, janeiro 09, 2016

Começar de novo!



Recomeçar. Todos os dias. Não importa o quê nem porquê, há que começar de novo.

A propósito desta onda de revitalização de velhos blogues, esquecidos e abandonados, entregues à poeira do tempo, tenho assistido com alegria ao ressurgimento de alguns que, antes da supremacia das redes sociais sobre tudo o resto, fizeram as minhas delícias.

Começo por referir o que se passa aqui em casa, mesmo ao meu lado, com o fotoblogue Olhares de Maresia, do António, que, neste início de ano, tem sido alvo de intensa actividade. Depois, dou-me conta de que também o meu amigo Rui Fernandes decidiu ressuscitar  O Sítio do Tremontelo e, logo de seguida, que a minha amiga Maria manifesta vontade de voltar a dar mais atenção ao seu O Cheiro da Ilha.

Movida por uma imensa nostalgia, e vontade de rever velhos amigos, recomeço  a visitar os blogues das minhas queridas poetas Graça Pires, Ortografia do Olhar, e Licínia Quitério, O Sítio do Poema, sendo que estes sempre se mantiveram activos, ficando a inactividade toda da minha responsabilidade, já que, nos últimos anos, raramente os procurava. 

E eis-me também aqui, decidida a começar de novo. Veremos que continuidade terá e o que daqui sairá. Para já, não faço planos nem declarações de intenções. Limito-me a dar conhecimento deste facto aos meus amigos que, porventura, ainda possam tentar saber de mim por esta via, de quando em vez.
Até breve! ( assim o espero).


Video do Youtube - Começar de novo
Autor: Ivan Lins
Interpretação: Jane Monheit

quarta-feira, março 21, 2012

21 de MARÇO, DIA MUNDIAL DA POESIA

No Dia Mundial da Poesia: a minha sincera homenagem a alguns amigos pessoais, excelentes poetas, ainda pouco conhecidos e que, felizmente, se encontram vivos e de boa saúde!
A saber (por ordem alfabética):


Alberto Pereira
Graça Pires
José Luís Outono
Licínia Quitério
Mel de Carvalho


Também ao Mário Domingos que, para nossa mágoa, nos deixou no passado janeiro, apenas um mês volvido sobre a publicação do seu primeiro livro de poesia "O Despertar dos Verbos".


segunda-feira, março 19, 2012

19 DE MARÇO... E O PAI?



Era o primeiro Dia do Pai desde que o seu havia partido para sempre.
Na escola, há alguns dias que, sob orientações da professora, meninas e meninos tinham dado asas à sua criatividade e preparavam, com determinação e carinho, o presente que iria pintar um imenso sorriso no rosto do seu progenitor. 
Durante quase um dia inteiro, Duarte não conseguiu por mãos à obra, indeciso relativamente à posição a tomar perante a inexistência do pai vivo, mas igualmente incapaz de enfrentar, perante amigos e professora, a dura e cruel realidade da sua morte prematura, que nele havia deixado um estigma, uma cicatriz a ferro e fogo marcada.
Por fim, sem o entusiasmo radiante dos colegas, mas sem, por outro lado, dar mostras de contrariedade, o menino foi dando forma ao seu presente: numa cartolina vermelha tinha desenhado uma gravata. Depois, tinha-a recortado e, no suposto lugar do nó, tinha colado uma pequena moldura redonda, dentro da qual estava uma fotografia sua, recentemente tirada pelo fotógrafo da escola com esse mesmo propósito. Como remate, uma argolinha metálica permitia que pudesse ser pendurado num minúsculo prego, em qualquer parede.
Estava feito, portanto!
Chegado a casa, deu um apressado beijo no rosto da mãe e correu a refugiar-se no quarto, onde permaneceu num silêncio pouco habitual.
No quarto ao lado, a irmã estudava e, também ela particularmente taciturna nesse dia, secretamente entregue ao seu habitual sentimento de saudade, não deu mostras de ter notado que o irmãozinho mais novo tinha regressado da escola.
A mãe, atarefada com o jantar, não saiu da cozinha para tentar perceber a razão de tamanha urgência em passar despercebido.
Volvida uma meia hora, Duarte percorreu, pé ante pé, o corredor. Entrou na cozinha e, sem uma palavra, postou-se ao lado da mãe, que se encontrava perdida entre as folhas de couve e as lágrimas provocadas pela severa acidez de uma cebola, semidescascada.
Ao aperceber-se da sua silenciosa presença, a mãe olhou para Duarte. Viu o braço completamente estendido na sua direção e, na palma da mão, um embrulho com um laço.
Não percebeu imediatamente. Perguntou: “o que é isso?”.
Duarte encolheu os ombros, com um sorriso triste, e esticou ainda mais o braço, como que a dizer: “abre e não perguntes mais nada”.
A mãe secou as mãos, pegou no embrulho e abriu-o, intrigada. Ao ver o presente, deu graças por não estar a descascar uma cenoura, uma batata, ou mesmo um alho francês. Baixou-se e abraçou Duarte, murmurando “obrigada, querido filho, é lindo”. Fungou e limpou a face da criança, sorrindo, enquanto refilava “estas cebolas são mesmo agressivas. Da próxima, não trago das roxas”.
Deu a mão a Duarte e dirigiu-se ao quarto onde, na porta, uma pequena placa continuava a indicar “Quarto dos Pais”. Disse-lhe: “vamos já pendurar a tua fotografia. Estás tão bonito!". De seguida, chamou: "Mariana, anda ver o trabalho lindo que o mano trouxe."
Notou apenas para consigo que, desta vez, o presente não se tinha feito acompanhar do cartão que, invariavelmente, ostentava a frase: “Para o melhor Pai do Mundo”.


Imagem: web



quarta-feira, setembro 28, 2011

Retratos sem pose





Parece que o meu livro de contos breves, quase todos eles saídos deste blogue, vai, finalmente, ver a luz do dia!
Está para muito breve o lançamento em Lisboa.
Seguir-se-ão sessões de apresentação, do mesmo, no Porto e em Peniche.
Gostaria de poder ter ao meu lado, neste dia, o maior número possível de amigos.
Conto convosco. Até lá!




Notas:
1.  A capa foi concebida a partir de uma foto da pintura "Cinderela", de Júlia Calçada (óleo s/tela, monocromático)
2. O prefácio é de Graça Pires.
A minha imensa gratidão a ambas as artistas e amigas. 

terça-feira, agosto 16, 2011

Berlenga - reserva natural da Biosfera



As Berlengas vistas da Varanda de Pilatos (Cabo Carvoeiro) - foto de António Rodrigues

Amigos,
Passo a transcrever o texto que submeti ao desafio lançado pelo Presidente da Câmara de Peniche, em colaboração com a administração da Comunidade "Descobrir Portugal", que foi distinguido com uma Menção Honrosa. Esta distinção traduziu-se, além do mais, numa visita às Berlengas a bordo da Caravela "Vera Cruz" , no dia 17 de Julho de 2011, acto que assinalou a merecida classificação do Arquipélago das Berlengas como RESERVA MUNDIAL DA BIOSFERA.


Agora que as Berlengas tinham sido classificadas pela UNESCO como Reserva Mundial da Biosfera, Joana, estudante de biologia marinha, não tinha como recusar o convite de Tiago para com ele ir, pela primeira vez, visitar aquele arquipélago de que sempre ouvira falar como um dos tesouros naturais de Portugal, não só em termos de beleza paisagística como de riqueza em biodiversidade.

Ainda no cais de Peniche, antes de embarcar, não conseguia evitar que as pernas lhe tremessem. Disfarçava como podia, tentava aparentar uma calma que estava muito longe de sentir. Sempre ouvira dizer que a travessia para as Berlengas era uma temerosa aventura e, de destemida, Joana nada tinha.

Na longa fila, pendurada no braço de Tiago enquanto esperava pela ordem de embarque, roía as unhas da mão que tinha disponível e, em silêncio, tentava rezar um Pai-Nosso, embora tivesse a certeza de que não estava a ser capaz de dizer a oração tal como a tinha aprendido.

Por fim a fila começou a mover-se em direcção ao barco. Alguns rapazes e raparigas, já lá dentro, soltavam gritos de euforia. Ela aconchegava-se mais e mais a Tiago enquanto caminhava, como se para o cadafalso se dirigisse.

Quando entraram pediu, com voz quase inaudível: "vamos lá para dentro, está bem?" O namorado sorriu, acariciou-lhe o cabelo e anuiu, embora tivesse preferido viajar na parte exterior, para sentir o vento e alguns salpicos de água salgada no rosto.  

Até ao Cabo Carvoeiro a embarcação parecia deslizar num rio, ou num lago, sem sobressaltos, e ela começou a relaxar um pouco. À passagem do Cabo, um grupo de pessoas no terraço da "Nau dos Corvos" acenava, alegremente, para os passageiros a bordo. Foi nesse momento que  o barco pareceu afundar-se a pique, para imediatamente voltar à tona, numa onda que lhe pareceu gigantesca e Joana sentiu o estômago aproximar-se perigosamente da garganta.
O episódio repetiu-se algumas vezes e Joana optou por manter os olhos fechados, embora essa táctica parecesse não resultar tão bem quanto desejaria.

Pouco tempo depois, Tiago murmurava-lhe ao ouvido "abre os olhos Joaninha, o espectáculo é admirável". Com relutância obedeceu e foi então que o medo, a má disposição de há segundos atrás, deram lugar a um olhar extasiado perante o cenário natural que tinha na sua frente: a ilha rosa, em todo o seu esplendor, rodeada de águas inimaginavelmente verdes e transparentes, parecia chamá-la. A atracção imediata fez com que nem desse pelos dez ou cinco minutos até à entrada no cais da Berlenga.  

Foi com desenvoltura que desembarcou, ansiosa por pisar aquele solo com o qual pressentia uma tão forte afinidade. Ignorou a mão que Tiago lhe estendia e saltou para terra com um genuíno sorriso nos lábios e um brilho ímpar nos olhos azuis. O rapaz fingiu-se ofendido e comentou, em tom de resmungo "pois, agora já não queres saber de mim!". Voltou-se para ele, soltando uma sonora gargalhada, beijou-o com paixão e segredou-lhe "obrigada, meu amor, por me teres trazido ao paraíso. Agora, vamos já, já, para a praia, que estou mortinha por mergulhar naquelas águas límpidas!".

O dia passou a correr. O jovem casal fruiu, intensamente, todas as maravilhas que a ilha tem para oferecer a quem a visita. Subiram até ao alto, de onde se desfruta uma vista de fazer suster a respiração. Sentaram-se a observar, deliciados, o voo planado das muitas gaivotas que povoam a ilha, e outras aves, como as pardelas e os corvos marinhos, que com elas coabitam. Desceram, sempre de mãos entrelaçadas e com risadas alegres, até ao Forte de S. João Baptista, que percorreram  de uma ponta à outra e, por fim, no cais da fortaleza, apanharam uma pequena lancha que os levou a visitar as grutas - cada uma mais fascinante e misteriosa que a anterior.  

Quando entraram no barco, para o regresso a Peniche, foi uma Joana extenuada mas intensamente feliz que pediu a Tiago, com doçura, "querido, trazes-me cá novamente no próximo fim-de-semana? Por favor!" 


12 de Julho de 2011

segunda-feira, maio 30, 2011

A nossa praia, Amor, a nossa praia!

Nota: Importante ver/ouvir o vídeo: o som do mar, o seu espraiar-se na areia... são beijos, carícias!


Vídeo de António Rodrigues, na Praia do Molhe Leste, Peniche, em 28 de Maio de 2011


(Título em paráfrase do soneto de Florbela Espanca: "A nossa casa, Amor, a nossa casa".)

A nossa casa, Amor, a nossa casa!
Onde está ela, Amor, que não a vejo?
Na minha doida fantasia em brasa
Constrói-a, num instante, o meu desejo!

Onde está ela, Amor, a nossa casa,
O bem que neste mundo mais invejo? 
O brando ninho aonde o nosso beijo
Será mais puro e doce que uma asa?
  
Sonho...que eu e tu, dois pobrezinhos,
Andamos de mãos dadas, nos caminhos
Duma terra de rosas, num jardim,

Num país de ilusão que nunca vi...
E que eu moro -- tão bom! -- dentro de ti
E tu, ó meu Amor, dentro de mim...


Florbela Espanca



Foto de António Rodrigues - Praia do Molhe Leste, Peniche, em 28/05/2011

quinta-feira, maio 12, 2011

As tardes


Pôr-do-sol no Molhe Leste - Foto de António Rodrigues

Passo agora as tardes à beira-mar. Dou longos passeios pela baía - pés na água e cabeça nas nuvens. Apanho búzios vazios. Desenvolvi, recentemente, um afecto especial por este tipo de conchas. Chego a comover-me quando encontro alguns destes lindos habitáculos, outrora com vida. Beijo-os, quais amuletos. Começo a desenhar aquilo a que já chamo "a minha colecção de búzios da praia do Molhe Leste". Na Praia Norte, igualmente rica em belezas outras, apenas existem seixos, pequenos calhaus rolados, ou cascas de bivalves partidas. Tem a ver com a força da rebentação, explicou-me o António, que já foi pescador e que, tal como o marinheiro de Mishima, por amor perdeu as graças do mar. Estou eu agora a recuperá-las, as graças, penso eu para comigo, com um sorriso não de todo inocente.

Avançando no prazer da água, que me banha e de mim aparta as mágoas, perco a noção do tempo, rejuvenesço, sinto-me vigorosa e bela.

Ao entardecer, quando chegam as gaivotas e as traineiras regressam da faina,  ainda por lá estou. Não arredo pé antes da hora do ocaso e, quase sempre, sou  brindada com um vislumbre do paraíso: o sol a esconder-se na linha do horizonte, pintando toda a paisagem em tons de fogo, contrastando com o azul do mar profundo, a brancura da espuma das ondas, o ouro-velho do areal imenso.

No Verão da minha existência, vivo as mais lindas tardes deste fim de Primavera. À beira-mar. A coleccionar búzios.

segunda-feira, abril 18, 2011

Naquele tempo


Berthe Morisot - Reading


Naquele tempo
passava os dias a ler o que escrevias.
Deixava-me extasiar
com o teu verbo fluente,
a simplicidade da tua arquitectura poética,
os múltiplos e profundos sentimentos
que em mim fazias despertar.

Naquele tempo
acreditava que HOJE podia ser SEMPRE
e que nós tínhamos vindo para ficar.

Era assim naquele tempo...


(inspirado num poema de João Villalobos, publicado no blogue "as penas do flamingo", em 03/06/2010)

quinta-feira, março 10, 2011

"Mil nomes, um rosto" ou "Confidências de um esquizofrénico"



Tenho tantos nomes que já lhes perdi a conta.
Sei que já fui Luís, Manuel, Diogo, José, Francisco e até Joaquim.
Também fui Julieta, Margarida, Leonor, Isabel e talvez mesmo Idalina.
Posso ser muito mais gente, com outros nomes, outras vidas, noutros lugares.
Consigo falar qualquer língua, ter vindo de qualquer sítio, estar de partida para onde quiser.

E, no entanto, sou sempre eu.
Este rosto que vejo ao espelho, este corpo que me enclausura, esta âncora que sou incapaz de soltar.

Por vezes, sento-me no alto de um penhasco, à beira-mar.
Despeço-me do dia que finda e da persona que me habitou.
Uma dor aguda oprime-me o peito, seca-se-me a garganta e a respiração torna-se penosa.
Quase sufoco, enquanto uma lágrima, que não seguro, me queima a face.
Sei agora (sempre soube) que  sinto saudades de quem parte. Temo que não regresse.

Tenho medo de ficar a sós comigo.
Afinal, eu sou só eu. E isso é muito pouco.

Volto a encontrar-me no reflexo deste rosto, na prisão deste corpo, que me transporta.
Adensa-se o receio de jamais conseguir içar a âncora.

quinta-feira, fevereiro 03, 2011

Arquipélago do Amor


"varanda de pilatos" - foto de António Rodrigues

Não me perguntes pelos dias passados na solidão do meu quarto.
Fala-me dos corvos plantados ao sol, num rochedo inóspito;
diz-me do som das ondas, poderosas e alvas, a desfazer-se na areia;
recorda-me do cheiro a maresia, quando a praia fica imensa, na maré-baixa; 
traz até mim a brisa morna do fim da tarde, nas dunas;
conta-me da hora do ocaso, no horizonte, do arquipélago que é a nossa casa;
sussurra-me palavras ternas, no aconchego da sala, iluminada pelo fogo na lareira; 
beija-me infindavelmente;
toma-me nos teus braços e deixa-me adormecer, de cansaço, aninhada em ti:
a cabeça no teu peito;
a alma leve, radiante, saciada. 

sábado, janeiro 01, 2011

Réveillon



"Vem... vem comigo"
Óleo sobre tela de Júlia Calçada



Não estava frio mas era, sem dúvida, uma noite de inverno.

O céu, pintado de negro,  abria-se, de quando em vez,  para  deixar cair mantos de chuva cerrada que, rapidamente, escondiam estradas. Em seu lugar surgiam rios, com furiosos caudais que tudo arrastavam. Raios de luz cegavam, momentaneamente, quem os olhava de frente, que logo de seguida ensurdecia, sem possibilidade de aguardar uns segundos pelo estrondo dos trovões.

Poderia tratar-se de uma tempestade tropical, em pleno verão, num outro local. Mas era inverno -  a última noite do ano, no hemisfério norte do planeta que incessantemente nos transporta, em movimentos de rotação e de translação, sem que disso nos consigamos aperceber. 

Ela estava deslumbrante, vestida a rigor para uma noite de festa. Disse-lhe: "Vem... vem comigo!". Ele foi. Segui-la-ia, a nado, se necessário fosse, contra a força das enxurradas que, lá fora, iam cobrindo o mundo material até há minutos conhecido de ambos.

Afinal, nada de heróico seria necessário da sua parte para lhe fazer a vontade: era tão-somente para o andar de cima que ela o convidava. Subiu os degraus, no seu encalço, não arriscando perder o rasto do perfume que, na escuridão da casa, apenas entrecortada pela luz dos raios que não cessavam de imitar um esplendoroso fogo-de-artifício, lhe servia de guia e salvação.

Entraram no quarto dela onde, providencialmente, velas haviam sido distribuídas, fornecendo a luz suficiente para que pudessem usufruir do jantar, servido na mesa redonda, junto a uma janela adornada com grossos cortinados de veludo.

Ele ainda pensou, por momentos, nas possíveis tragédias que, naquela inimaginável noite de passagem de ano, poderiam estar a ocorrer fora do aconchego da casa, do quarto onde se encontrava, suavemente iluminado e docemente aromatizado,  num ambiente quase mágico.

Completamente à mercê dos sentidos, seduzido pela beleza e sensualidade da sua anfitriã, ao segundo copo de champanhe já esquecera a tempestade, o mundo lá fora, a desgraça iminente das gentes, esses outros que não tinham um refúgio.

As doze badaladas fizeram-se ouvir no relógio antigo, próximo deles, na parede junto à janela. Brindaram ao novo ano, como se mais ninguém existisse no mundo e a vida pudesse ser sempre assim!

Francisco acordou sobressaltado, com o ruído das águas que, de rompante, lhe entravam no quarto, prestes a atingir a cama, a escassos três palmos do chão. Ouviu gritos lá fora, alguém que pedia ajuda... como é que pudera adormecer com aquele temporal, sozinho no seu casebre, no fundo duma rua estreita e íngreme, leito natural de qualquer cheia? Com a fugaz luz dum relâmpago vislumbrou a sua companheira de réveillon: uma garrafa de aguardente, completamente vazia. 

Em menos de um minuto apercebeu-se de tudo. Não havia agora em que pensar, o necessário era agir. Num único salto, saiu da cama e em breve alcançou a porta da rua, que começava a ceder com a força da enchente. Ao abri-la, tombou-lhe nos braços uma jovem mulher que, agarrada com ambas as mãos ao batente da sua porta, começava a perder as forças e teria sucumbido à força da corrente, se mais dois minutos tivessem decorrido.

Pegou-lhe ao colo, subiu em corrida as escadas que  levavam ao sótão, onde a sentou a salvo, num velho sofá. Tirou-lhe a roupa molhada e embrulhou-a bem numa manta. Depois, aconchegou-se a ela e começou a falar-lhe, a tentar que ela se mantivesse acordada, lúcida, quente e, sobretudo, viva.

Logo, logo, ao raiar da manhã, no primeiro dia do novo ano, chegariam, seguramente, os socorros da autarquia!


quinta-feira, setembro 16, 2010

Ouvi dizer...!



Pintura de Júlia Calçada 
Óleo sobre tela
140 cm x 100 cm

Esta noite sonhei contigo de novo.

Ouvi dizer que, quando se sonha com alguém com tanta frequência e intensidade, é porque essa pessoa ocupou, ou ocupa, um lugar muito especial na nossa vida. Parece lógico, dito assim. Deixa de o ser quando pensamos que, no dia-a-dia, raramente nos lembramos dessa pessoa e, se o fazemos, é no contexto de página virada, de livro terminado e arrumado na estante.

Quando isto sucede, acordo sempre com uma dor no peito, com um anseio por ti, com uma indescritível saudade, que permanece ao longo do dia e me faz parecer desprendida, solta do chamado "mundo real", como se levitasse a uns escassos centímetros do solo e me deixasse levar para o mar por uma rajada de vento mais forte!

Continuo a sonhar ao longo do dia. Vejo e revejo imagens, sentimentos, emoções: tento refazer o sonho, como se efectuasse a montagem de um filme querido, cena a cena.

Por vezes desperto em lágrimas, outras há em que choro, convulsivamente, quando dou por terminado o tal trabalho de reconstrução, e o sonho não passa de um guião para um filme que nunca chegarei a realizar.

Ouvi dizer que compraste um veleiro e agora és Capitão. Que partiste com ela, a decrépita, alcoólica e quase demente Emily L, e que tencionam passar o resto das vossas vidas apenas um com o outro, ao sabor das ondas e dos ventos, atracando em cada porto e, aí, visitando cada bar.

Sempre me disseram que nenhum homem troca a sua jovem companheira por uma mulher consideravelmente mais velha!

Sei agora que  não se pode acreditar em tudo o que se ouve dizer!...