segunda-feira, dezembro 26, 2005

Serenidade ou Melancolia?



Júlia Calçada (s/título)


Há estados melancólicos que desaguam numa profunda serenidade. Acabo sempre por me sentir bem, como se em repouso numa harmonia triste, nesses sítios melancólicos onde me refugio serenamente.

Outras vezes, vou em busca de serenidade e mergulho em melancolia. Fico, então, num limbo tranquilo e sombrio, alheia ao tempo que passa...


melancolia e serenidade: estados de alma que, em mim, se confundem e interpenetram.


Não é que me importe, mas será que não posso ir ao encontro de um sem me envolver com o outro?



quarta-feira, dezembro 21, 2005

Ilha das Pombas

A noite das Tempestades


Turner (Snowstorm)
Chegaste na noite das tempestades.

Lá fora, o céu desabava e transformava as ruas em rios.
O vento, enraivecido, executava um bailado,
a um tempo violento...e doce.

Dentro de mim, outra tempestade.
A garganta seca. A tremura do lábio. As mãos geladas e húmidas. As faces ruborizadas.
O vento da emoção, enraivecido, executava um bailado,
a um tempo violento... e doce.

De repente, veio a bonança.
Fora e dentro de mim.

Desejei que não existisse mais mundo do que aquele:
dois
desconhecidos,
estranhos,
conhecidos,
íntimos,
quase amigos,
quase amantes,
a esquecerem as tempestades,
de fora e de dentro,
nos olhos um do outro,
nos sorrisos trocados à socapa,
nas vozes cúmplices do Nuno, da Diana e do Caetano,
nas mãos que se encontravam,
apertavam
e acariciavam sonhos...

Partiste na noite das tempestades.
No vazio que a seguir ficou...
Quando das minhas mãos
desapareceu
O perfume das tuas...

terça-feira, dezembro 20, 2005

Dia de Sol no Inverno


Saravá, generoso sol de inverno!
Não aqueces o meu corpo entorpecido, mas aconchegas-me, e trazes serenidade a esta alma inquieta.

Gente Crescida


Crescemos.
Estamos agora muito civilizados.
Sentamo-nos à varanda,
Aquela que dá para o parque
E bebemos chávenas de chá.
Desse chá
Com que nos embriagamos
Todas as tardes.
Inventamos milagres
E desafiamos o nosso lado divino
No quarto de um hotel. À beira-mar.
Crescemos muito.
A saudade é maior agora.
E a memória.

segunda-feira, dezembro 19, 2005

Midsummer


(From those days when I was much younger and used to be called Marie)
Midsummer
is not the only reason
I’m going home
(Rod Mckuen)



Fenêtre (Bonnard)

I found myself looking at the shadow drawn on the sand. My own shadow.
A few kids were playing in the ponds the high tide had left.
John’s gone. John’s gone and probably will never come back.
Why does it happen? Why is always someone leaving someone behind?
A soft breeze threw some fine drops of water into my face.
If it hadn’t been for that brunette with long black hair and dark deep eyes he would be with me now.
He would be caressing me and making me feel the luckiest human being on earth. John was so tender, so lovely and seemed to be so sincere. Why then?
Why should some stupid brunette show up and take him away from me?
Midsummer
Is not the only reason
I'm going home
Mammy and Daddy miss me for sure. I didn’t read the last letter mammy wrote.
John wouldn’t let me. He was kissing too hard and I dropped the sheet of paper.
It must have slipped underneath the bed. I never thought about it again. What a tremendous fault to forget completely about one’s mother’s letter.
I definitely must go and see them. They’re always so generous to me, so full of understanding and all. I won’t need to tell them exactly what happened. They will know, somehow, that some George, or John or Michael has deserted me. I must go back to my apartment and look for mammy’s letter. I’m longing to know what she says about her and daddy. Suppose they’re ill, or worse…
Did he leave me because my hair is short and fair and my eyes are not black and deep? Maybe he did. Or maybe not. After all, looks aren’t everything and it ends up by being irrelevant when you’re young and handsome and it is Midsummer. Midsummer is meant for people to make changes. To have new loves, new experiences.
( When we made love I felt like when I’m swimming: frightened, lost, but awfully, tremendously happy. All his.
Thought he was all mine, too…)

sexta-feira, dezembro 16, 2005

Tempus fugit

(memorial em forma de carta dirigida a um amor feliz)

“Que o tempo, carrasco implacável, saiba ser, simultaneamente, guardião das memórias de amores felizes.
...O resto é o tempo a fugir...”

Foi assim, com esta frase carregada de mágoa e angústia, que me despedi.
Imagino que, para quem parte, seja difícil entender o que deixou no espírito de quem fica e que, por vezes, até se exaspere com as demonstrações de sofrimento, de perda, de saudade por parte do outro...
Ainda assim, consciente de poder estar a aborrecer-te, não consigo deixar de te dizer o que me dói a tua ausência, o que daria para te ter de volta, com um amor feliz, como o das memórias que preservo.
Não vou coibir-me de te dizer o quanto choro, todos os dias, amargamente, porque não te tenho mais comigo e porque não há esperança de, alguma vez, voltar a ter. Sinto uma tristeza sem precedentes. A falta da tua presença dói-me muito, desde que acordo até que adormeço (e até a dormir) mas, principalmente, quando deambulo pela casa e tudo me fala de ti, de nós.
(No liceu, em Psicologia, lembro-me de ter registado como verdade incontestável a afirmação de um “sábio”, de quem nem sequer retive o nome, porque isso era de somenos importância. O que me interessou, a ponto de o interiorizar e ainda hoje recordar, foi a lei absoluta que ele, algum dia, ditou: “só se esquece o que se substitui”. Pois eu agora digo: "nunca se esquece, e não há substituições." Em termos de afectos, é possível amar outras pessoas, que podem até vir a ocupar um lugar semelhante nas nossas vidas, mas nunca substituirão as que amámos. Neste caso, sou peremptória: "ninguém é substituível"!)
Coincidentemente, ou não, li esta semana um artigo num jornal, que falava de como o sofrimento por amor tinha passado de moda, tendo visto o seu lugar destronado, nesta sociedade racional e materialista, por um outro sentimento que procura ser definido através de expressões como “depressão” provocada pelo “fim de uma relação”.
Tudo isto porque as pessoas passaram a ter vergonha de assumir a sua fragilidade perante a dor causada pela perda. Que falta de "tomates" a de quem pensa assim!... Não é porra nenhuma de depressão associada ao fim da relação, é mesmo desgosto de amor, como os de Camilo ou de Florbela Espanca!

O mais doloroso de tudo, amor da minha vida, é ter acreditado que era possível viver assim, para sempre, um grande amor na vida, em que se dá e se recebe tudo (os célebres 100% em que me ensinaste a acreditar) e depois, de um dia para o outro, acontecem coisas mais (ou menos) importantes na nossa pobre vidinha, como uma dificuldade profissional, uma verdadeira preocupação com os filhos, ou uma alegria, e não há com quem partilhar - só porque não faz qualquer sentido partilhá-lo com mais ninguém - e somos obrigados a aceitar o que sempre soubemos: nada é eterno!
Uma confidência tonta: quando, há dias, soube que ia ser promovida senti-me, momentaneamente, tão contente, que o meu coração pulsou mais forte, a ponto de quase o ouvir. Isto durou os segundos em que eu, maquinalmente, peguei no telefone para comentar contigo (com quem mais poderia ser?) a novidade. Ainda o número não tinha acabado de ser marcado quando caí na realidade e desliguei. Chorei. De uma infinita tristeza. Sozinha, no meu gabinete. Por não poder celebrar contigo uma coisa tão simples e tão sem importância, mas que teria sido tão bonita se tu ainda estivesses ao meu lado, do outro lado da linha!!!
Perdoa-me, e tenta entender, se te for possível neste momento, que não se trata de exagero dramático. São sentimentos de desespero. É mesmo dor. Quando se ama com esta força e entrega total, como eu descobri que te amo, não é fácil fazer o luto. Sofre-se a sério. Sofre-se muito. E demora a passar...sejam quais forem as aparências, conseguidas através daquela força interior que nos ajuda a enfrentar os outros de cabeça levantada e olhos secos (só se chora na casa-de-banho, não é?)
Gostaria de te fazer um pedido: guarda contigo, se puderes, este escrito para, (quem sabe?) num dia de sol, o releres e, por milagre, aflorarem à tua memória, para recordar com carinho, as lembranças de um amor feliz.


Salão


Durava há muito tempo aquele jogo. Tratava-se, de facto, de um jogo de sedução, que ambos conheciam e do qual dominavam as regras.

Ele dizia: ”Fala comigo. Diz-me tudo o que quiseres. Murmura-me aquelas coisas secretas. Faz de mim um confessor, como se eu fosse um padre, um psicanalista, um amigo”.

Ela dizia: “Falar contigo é bom, mas torna-me insaciável. Quero sempre falar mais. Quero falar contigo, sem barreiras, sem restrições”.

Às vezes telefonavam-se, só para dizer que queriam dizer, e ficavam assim, doídos com desejo. Desejo de falar, só.

Um dia ela disse: “É completamente louca esta metalinguagem que usamos. Porque não falamos, em vez de, interminavelmente, falarmos de falar?”

Ele perguntou: “De que precisamos?”

“De um salão”, respondeu ela. “Um salão vazio, completamente vazio, onde possamos tirar as roupas, arranjar um canto seguro e confortável e deixar que as palavras, finalmente, se soltem”.

Passou algum tempo. Um dia ele disse-lhe: ”Temos o salão”.

Foram. Falaram. Um pouco.

Tiraram as roupas. Falaram um pouco mais.

Depois deixaram de falar. Começaram a descobrir os corpos, sem roupa. A textura da pele, os beijos molhados e o cheiro dos corpos substituíram as palavras.

Encontraram-se outras vezes, no salão. De cada vez o apelo dos corpos ocupava mais o espaço das palavras, e dos silêncios, até parecer que só isso existia: o prazer físico, a busca do êxtase orgástico como objectivo último do encontro.

De vez em quando encontravam-se noutros locais. Quase sempre em circunstâncias propiciadas externamente. Nesses momentos, o encontro era penoso, amargurado. Ela ficava com os olhos rasos de água, a olhá-lo e, quando conseguia, balbuciava monossílabos sem nexo.

Ele olhava-a intensamente. Sorria. Por vezes beijava-a, levemente, e ela achava os lábios dele frios. Como seriam os de um cadáver.

Numa tarde de chuva ela telefonou. Disse-lhe: “Perdemo-nos.”

Ele protestou. Ela insistiu: ”Perdemo-nos quando deixámos que o encontro dos corpos fosse o mais importante. Foi um terrível equívoco. Fizemos tudo errado e agora tenho saudades de ti, mas é tarde. Já não sei quem tu eras, antes dos corpos.”

Ele sugeriu que se encontrassem para falar do assunto. No salão. Ela recusou. Disse: “No salão nunca mais. Terá que ser num sítio público, com gente à volta”.

No dia combinado, ela chegou ao restaurante mais cedo.

Sentou-se, olhando o Jardim de Inverno através da janela e sentindo uma pesada nostalgia. Podia chorar. Sofria pela perda de um amor nunca verbalizado. Parecia-lhe inaceitável que tivesse sido a ausência da palavra, afinal o princípio de tudo, que tivesse comprometido, amputado, talvez destruído para sempre a beleza do sentimento que os ligara.

Entregue a estes pensamentos, sentiu uma presença a seu lado. A mão que, timidamente, lhe aflorava os cabelos e a voz doce e suave que sussurrava “Olá, Princesa” devolveram-lhe instantaneamente a presença de espírito. “Que bom ver-te”, disse, exibindo um sorriso determinado. “Hoje vamos falar”.

Tabucchi

Pensou que queria ir ao Instituto Italiano de Cultura. Falar com o Sr. Tabucchi, é claro. Vê-lo. Perguntar por ele, para ver se ele existia e, existindo, se era mesmo uma pessoa.
Imaginou, com detalhe, o percurso. Olhou demoradamente a fachada do edifício e, quando entrou, notou que as pernas lhe tremiam um pouco.
Dirigiu-se à Biblioteca, por falta de à-vontade para enfrentar o objectivo da visita. Aproveitou para dar uma olhadela, procurando, inevitavelmente, a prateleira do Tabucchi. Estavam lá quase todos. Em italiano, bem se vê.
Retirou um, não importa qual, pode ter sido um dos primeiros que lera “Donna di Porto Pim” ou “I Volatili del Beato Angelico”.
Folheou-o e, ao fazê-lo, deu-se conta de que uma onda de emoção a percorria.
Sentiu uma intensa afinidade erótica com as palavras que, pela primeira vez, lhe apareciam como originalmente escritas: nunca estivera tão próxima de Tabucchi e essa quase intimidade apresentava-se como comovente e excitante.
“Vou procurar o António”, pensou. E imediatamente estranhou aquele tratamento pelo primeiro nome, que a fazia estremecer como se se encontrasse na presença do próprio.
Saíu da Biblioteca e subiu a escadaria que levava aos Gabinetes da Direcção do Instituto.
Ao longo de um corredor, várias portas fechadas, com tabuletas que ostentavam, invariavelmente, nomes italianos.
“O do Presidente deve ser o último”, concluíu depois de ter passado uns seis gabinetes.
Entrou na última porta, curiosamente aberta e sem tabuleta.
Deparou com uma senhora dos seus cinquenta anos, de cabelos grisalhos apanhados em carrapito que, literalmente, “batia” em teclas de uma antiquada máquina de escrever eléctrica.
“Boa tarde”, disse, possuída de um intenso nervosismo. “Queria falar com o Sr. Tabucchi”.
Aqui, a imaginação deteve-se, abruptamente. Por mais que tentasse, não conseguia passar do olhar impenetrável da senhora do carrapito grisalho para o hipotético encontro com um dos autores que muito amava.

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Estava um dia cinzento, com uma chuvinha aborrecida e desconfortante. Ainda assim, saíu sem levar guarda-chuva.
Esperou que passasse um táxi vazio e lá foi, rumo à Rua do Salitre.
Quando desceu do carro e olhou o edifício cor-de-rosa sentiu que, no seu devaneio, não tinha andado muito longe do que via.
Entrou e dirigiu-se à Biblioteca. Era uma sala decepcionantemente pequena, com estantes com portas de vidro fechadas à chave.
Percorreu as prateleiras até encontrar os livros do Tabucchi.
Eram escassos e o vidro interpunha-se entre a sua mão e o objecto desejado.
“Dá-me ganas de ir embora” disse, em voz alta.
“Em que posso ajudá-la?” perguntou uma rapariga franzina que acabara de entrar na Biblioteca e teria, certamente, ouvido o seu desabafo.
“Queria saber como é que faço para ter acesso aos livros”, murmurou, sentindo um incómodo rubor nas faces.
“É aluna?”
“Não”.
“Então terá que se fazer sócia dos “Amigos do Instituto”. Com isso, receberá convites para os eventos culturais e poderá requisitar livros de ficção”.
Havia uma secura e um desembaraço no tom da rapariga que intimidavam, mais do que convidavam.
Enquanto preenchia a papelada, ganhou coragem e perguntou.
“Quem é o Vosso Director?”
“Agora não temos.” A rapariga encolheu os ombros e prosseguiu: “Quer dizer, temos um interino, mas estamos à espera que nomeiem o novo.”
“A medo, avançou: “O Sr. Tabucchi já cá não está?”
“Não, depois dele já tivemos três.”
Feitas as assinaturas e as contas, voltou à Biblioteca.
Que desilusão! E ainda por cima teria que pedir àquela embirrante miúda franzina que fizesse o favor de abrir as portas de vidro da estante para tirar “Il filo del’orizonte”. A esta hora, a rapariga já teria decerto imaginado que ela nutria uma secreta paixão por Tabucchi e suportar o seu olhar irónico seria confrangedor.
Antes de abandonar o Instituto ainda subiu a escada, que levava a uma sala de leitura e às salas de aula. Ao descer, parou a meio da escada, onde dois espelhos exactamente paralelos mostravam o infinito.
“Que se dane!” pensou. “Um dia destes vou a Itália e compro todos os livros dele em italiano. Depois, vou procurá-lo na Universidade. Para ver se existe e, existindo, se é mesmo uma pessoa.”
Começou a imaginar, com detalhe, o percurso...

quinta-feira, dezembro 15, 2005

carta a um amigo

amigo,
a ti, que tão bem me conheces, pode parecer estranho, mas às vezes há alguém em mim que quer coisas inimagináveis. Insuspeitadas até por ti, amigo.
às vezes...
há alguém em mim que sabe que quer separar-se momentaneamente de tudo o que tem (e que, em termos afectivos, é tanto!) para estar a sós contigo…
às vezes...
há alguém que quer ficar calada ao teu lado, durante longos períodos, em que fruímos as músicas preferidas por qualquer um de nós, ou por ambos (o que pressinto que vai dar no mesmo), enquanto olhamos, fascinados, os quadros dos pintores que admiramos, reproduzidos em livros, alguém que quer encostar-se ao teu corpo, sobre uma carpete, no chão da sala, e sentir o teu calor... (com uma manta a aconchegar-nos os sentimentos).
às vezes...
há alguém que quer as tuas mãos entrelaçadas nas minhas, beijos teus, no cabelo, no rosto...
às vezes...
há alguém dentro de mim que quer ouvir-te dizer, nessa voz doce e quente, coisas sérias, ou bonitas, ou tolas e sem-sentido, baixinho, ao meu ouvido.
às vezes...
há alguém que quer ler-te trechos dos meus autores preferidos e sentir que sorves cada palavra com prazer.
às vezes...
há alguém que quer que me faças rir, com o teu humor, que sei incomparável e único, que quer que me faças chorar, se tiver que ser, com verdades que podem magoar...
às vezes...
há alguém que quer falar contigo sem barreiras, que quer dizer-te de mim: do que julgo que sou, do que gosto, do que detesto, do que me faz sentir bem, do que me faz sentir mal, do que preciso...
às vezes...
há alguém dentro de mim que quer rir e chorar contigo... por causa das tuas alegrias e das minhas mágoas ou das tuas mágoas e das minhas alegrias... ao ponto de já não sabermos a quem pertencem quais, sem compromissos, sem amanhãs, porque amigos não se comprometem nem fazem planos para o futuro, os amigos estão, hoje, e é isso que garante que estarão para sempre.
às vezes há alguém em mim que quer, que quer estar contigo, amigo.

Kyoto




“Em Kyoto, quando soubemos, como foi que soubemos que sabíamos?”
A emoção, na voz dela, era sentida ao fazer a pergunta.
As mãos dele responderam, desenhando com elas o rosto da mulher, lentamente. Paravam um pouco, depois recomeçavam a desenhá-lo, com a sabedoria de quem esculpe. Com a facilidade de quem conhece. Intimamente.
Ele disse: “Soubemos. Sabemos. Não é por acaso. Você acredita no acaso?”
Ela pensou que não sabia nada de acasos. Apenas tinha a convicção de que, por um qualquer motivo nunca aprofundado, sempre tinha evitado encarar qualquer acontecimento como o resultado de uma predestinação. A inevitabilidade associada a esse fatalismo assustava-a, como a assustavam as mãos dele que, naquele momento, desenhavam o seu rosto. Que poderiam ter desenhado todo o seu corpo com a legitimidade que lhes era conferida pelo acto de criar.
Disse: “Não sei nada de acasos. Acho que não acredito. Sei que não gosto de pensar nisso como coisa certa, preparada por Outrém, inevitável.”
Olharam-se demoradamente, perturbados pela força da memória comum que os invadia. Ela disse: ”Nunca tinha estado numa Terra assim: Santa, prenhe de magia, perfumada, peregrina.”

Então ele falou, em voz muito baixa, ao ouvido dela “Somos cúmplices do espírito de Kyoto. Isso é tudo.”
Ela não respondeu. Ficou muito quieta, por uns momentos.
Depois, agarrou as mãos que lhe desenhavam o rosto e beijou-as. Chorou. Molhou aquelas mãos de homem quase velho com as suas lágrimas e os seus beijos de mulher quase nova.
Ele beijava-lhe os olhos, de onde jorravam as lágrimas, e desenhava, com os seus lábios, a boca que lhe beijava as mãos.
Foi nessa altura que ela disse: “Podia morrer agora. De plenitude. De ter sentido o que senti. Que sentimos. Juntos. Um só.”
Ele começou a dizer coisas loucas, indizíveis, enquanto a abraçava, lhe acariciava os cabelos, lhe beijava os olhos e as mãos.
Ela não se movia. Deixava-se agarrar, beijar, sacudir, enquanto ouvia as palavras desconexas que ele murmurava, repetidamente.
Quando ele se detinha para a olhar, deparava com um sorriso de prazer desconhecido, e isso dava-lhe a certeza de que ela estava a fruir o momento como coisa única, certa, preparada por Outrém, inevitável.
Estiveram assim muito tempo. Talvez tenham dormido, também.
Depois, de repente, ela levantou-se e disse, com uma secura até para ela inédita: “Vou-me embora. Saio pela porta da frente. Fecho-a com violência e não olho mais para trás.”
Ele pediu-lhe que ficasse. Que não saísse pela porta da frente. Que não a fechasse com violência e, sobretudo, que, se o fizesse, ao menos olhasse para trás.
“Não posso.” Disse ela. “Tem que ser assim se não queremos estragar o que existiu. Foi muito bonito. Belo é insuficiente para qualificar o que tivemos, nós dois, os do passo trocado”.
Fez uma pausa enquanto olhava, fixamente, o horizonte.
Depois disse, em tom conclusivo:
“Assim deve ficar, como um Panneau do Castelo do Shogun, os Jardins de Sayonara, o Templo Dourado”.
Tendo dito isto, saíu pela porta da frente, sem a fechar.

Teria dado uns dez passos quando se voltou para trás e lhe sorriu...

“Paris num dia de chuva” – legenda para um quadro de Caillebotte




O episódio tem lugar no dia 14 de Dezembro de 1904.

Diz quem passa momentos da sua vida a observar o quadro no Musée d’Orsay que, contrariamente às aparências, o par retratado não se trata de qualquer comum casal parisiense.

Trata-se de gente de bem – isso é ponto assente. Ela, no meio dos seus quarenta, teria ficado viúva há alguns anos. Ele, sensivelmente pela mesma idade, é um solteirão militante.

Devido a circunstâncias não apuradas, nem sequer relevantes para o caso, começaram a corresponder-se há algum tempo... e a escrita levou-os a concluir dos muitos gostos e interesses em comum, da similar forma de encarar a vida, a natureza, a arte. Cada missiva trocada, contribuía para um sentimento de necessidade de partilha, que ía crescendo em ambos, ao mesmo tempo que lhes instalava um sorriso na alma.

Nesse dia, o registado na imagem, tinham decidido encontrar-se para, finalmente, se conhecerem enquanto pessoas que, para além de espírito, também possuem um corpo.

Combinaram um almoço num restaurante ao acaso. Ele chegou pontualmente, Ela atrasou-se sobremaneira, facto que a deixou um pouco nervosa até ao momento em que se viram.

Apesar do estado de espírito com que ela chegou, o almoço decorreu com a maior tranquilidade. Quem os visse, diria que eram amigos de longa data. Eles próprios tiveram esse sentimento e comentaram-no, com serenidade e um olhar cúmplice. Quando a refeição chegou ao fim, e o empregado trouxe a conta, tiveram a sensação de que apenas uns breves minutos tinham passado. Não falaram disso na altura.

À saída do restaurante, foram apanhados por uma providencial forte chuvada. Ela, feminista ousada, não tardou em enfiar o braço no dele, para se proteger melhor da chuva e sentir o calor do corpo daquele homem alto e elegante, que tivera a felicidade de acabar de conhecer presencialmente. Ele, cavalheiro, cedeu-lhe o braço com gentileza, tentando fruir, secretamente, daquela inocente intimidade momentânea.
Dizem ainda, os tais apreciadores do pintor que passam horas a admirar o quadro, que, uns metros à frente, o par se separou, com o à-vontade e alegria de amigos que passaram um bom momento juntos e terão, certamente, muitas outras ocasiões de o repetir. Tinham caminhos diferentes a seguir naquela tarde - ele: inúmeros afazeres no Banco, ela: o chá-canasta de todas as sextas-feiras com as amigas.
Poderiam, no entanto, ter decidido continuar a passear à chuva pelas ruas de Paris, abeirar-se do Sena, atravessar uma das muitas pontes e parar, bem no meio, a observar a força da corrente, sem trocar uma palavra, ela com a cabeça no ombro dele, ele a aspirar o perfume dos seus cabelos, com o pensamento em uníssono. Depois seguiriam, em silêncio, durante muito tempo, até que se separariam, inevitavelmente, ao caír da tarde, com sinceras palavras de prazer pelo facto de terem vivido bonitos momentos juntos. A primeira vez de muitas... quiçá!!!
Comentário:
Quem vai para o Musée d’Orsay apreciar os quadros dos seus impressionistas preferidos pode ficar dias inteiros a imaginar histórias à volta das imagens que vê. Os argumentos podem até ir variando, na mente de uma mesma pessoa, face ao mesmo quadro, dependendo do estado de espírito que o preenche naquele dia.

Quanto à pintura, apenas uma certeza podemos ter: Caillebotte encontrou, naquele par com quem ocasionalmente se cruzou numa rua de Paris, algo que levou consigo para a sepultura mas, decerto, suficientemente interessante para o fazer captar a imagem daquele momento, registá-la e reproduzi-la na tela, para ser apreciada e sobre ela serem inventadas histórias por qualquer um de nós.

Maria, 15 de Dezembro de 2005 (um século e um dia depois)

quarta-feira, dezembro 14, 2005

Chuva de Verão





Chuva de verão...
até os grous se queixam
de terem as pernas curtas.

Matsuo Bashô in “O gosto Solitário do Orvalho”





Durante a noite tinha sonhado com o som da chuva a cair...
Sabia que tinha, com prazer, aconchegado mais a si a roupa e sorrido, interiormente, com a felicidade de quem recebe a visita de um ente querido há muito esperado!
Quando acordou, dirigiu-se imediatamente à varanda, salpicada de vasos com sardinheiras e amores-perfeitos...
E se, de facto, tivesse chovido?!
A dúvida durou breves instantes porque, imediatamente, subiu até ela um forte cheiro a terra molhada!
Sentou-se, primeiro que tudo, no chão húmido da varanda de granito. Inspirou profundamente, ainda de olhos fechados, para deixar entrar, pelo sentido a ele mais sensível, o doce odor da terra!
Quando abriu os olhos, para ver o campo à sua frente, havia uma espécie de névoa, que a impedia de visualizar com clareza as árvores, os arbustos, as flores: as lágrimas toldavam-lhe a vista ao mesmo tempo que o perfume exalado pela terra acabada de receber água... lhe inebriava a alma...
- Choveu mesmo!!! – gritou, da varanda do sótão para o vasto espaço da quinta, onde mais ninguém poderia ouvi-la!
Rapidamente, enfiou umas calças de ganga, uma camisa de flanela e vasculhou, durante uns cinco minutos, que lhe pareceram cinco horas, por todos os cantos e recantos daquela água-furtada, os velhos botins da avó.
Desceu as escadas a correr, abriu a porta da rua, e foi, como se ao encontro da alegria absoluta, embrenhar-se no velho pomar, enterrar as pernas na terra húmida até para além dos botins... pegar num pedaço de lama e cheirá-lo, com vontade de o beijar, de o mandar abençoar, se fosse rapariga de ter essas crenças!
Tocou as folhas molhadas das árvores e sorriu. Pegou numa rosa e juntou, às gotas de água, uma lágrima sua!
Que felicidade suprema, aquele inesperado aguaceiro nocturno!
Foi, com passo lento, e saboreando cada cheiro, cada som de ave aturdida pela chuva, que se dirigiu ao tanque da quinta, onde descalçou os botins e os lavou.
Depois, voltou para a velha casa de família, contente como se tivesse experimentado um momento único, porventura dos melhores da sua ainda jovem vida, e decidiu:
- Vou tomar um bom banho, acender o lume e preparar o pequeno-almoço para os outros...
Vão estranhar tanta azáfama da minha parte numa manhã de férias... mas o meu olhar e sorriso fá-los-ão pressentir que tive um encontro secreto com a minha Divindade...
Não perguntarão nada, porque respeitam a intimidade e entendem a importância da discrição.
Mas eu saberei que foi verdade, e a Natureza também...!



Não há Rosas sem Espinhos


É da sabedoria comum que não há rosas sem espinhos, como também o é o facto de não haver regra sem excepção.

Porque o povo tem sempre razão e tudo isto é mesmo assim porque o é, relembro, sem qualquer hesitação, que no jardim para o qual dava a janela do meu quarto de criança havia uma trepadeira que, em cada primavera, me deliciava com os seus perfumados cachos de rosas - sem espinhos.

Existe, sem dúvida, um objectivo e uma razão escondida

São "Retratos sem Pose" que pretendo aqui deixar. Antigos escritos, pouco ou nunca partilhados, novos sentimentos e emoções que decidi soltar, sob esta forma que amo, assumindo posições contidas ou despudoradas, ao sabor do momento e daquilo que o rege. A partir de hoje, uma parte de mim deixa de me pertencer em exclusivo. Que bem sabe romper grilhetas, perder medos velhos e dar asas à vontade de saír da escuridão!