quinta-feira, julho 27, 2006

Técnicas de Sedução

As técnicas mudam, ao sabor das tecnologias da moda que lhes podem servir de veículo, alterando assim a forma, mas o conteúdo... esse permanece igual ao longo dos séculos.
Mariana recebeu um SMS e encostou o carro à direita para poder lê-lo. Já tinha anoitecido e, naquela rua das traseiras de uma zona industrial, praticamente não havia trânsito.
Identificou o emissor e sorriu. Depois, à medida que foi lendo o texto, foi ficando mais e mais surpreendida: ora não querem lá ver que o "puto" João lhe tinha enviado nada mais que a "Cantigua partindo-se" de João Roiz de Castell-Branco, sem a falha de uma palavra ou de uma vírgula sequer.
Mas por que raio? perguntava-se, quando do seu lado esquerdo, exactamente ao lado da janela, parou uma moto. O condutor tirou o capacete e surgiu o rosto esperado. Era mesmo o "puto" João.
Mariana abriu o vidro e, com riso nas palavras, perguntou, "mas afinal o que é que te deu? de ti, poderia esperar muitas brincadeiras, mas não esta".
"Não se trata de uma brincadeira", retorquiu João com ar sério. "Mau... já chega!" disse Mariana.
"É precisamente porque nunca nada chega para ti que decidi enviar-te esse SMS. Pelo menos, fez-te parar e pensar em mim por uns momentos. Mas quero mais. Quero conversar contigo. Se soubesses o que tenho para te dizer!!! Sim... posso começar por te falar da poesia portuguesa dos Sécs. XV e XVI e seguir por aí fora e nunca mais parar, até que tu queiras falar comigo". Fez um silêncio e depois continuou, num tom um pouco mais baixo e intimista "até que queiras estar comigo".
Mariana parecia ter emudecido de espanto. Não conseguiu articular palavra nem João descortinou o vislumbre de qualquer expressão indicativa do efeito que aquela sua abordagem estava a provocar na mulher madura que, sentada ao volante, tinha adquirido um ar de escultura de cera.
Na ausência de estímulo para continuar, mas igualmente de qualquer travão, João prosseguiu "estava a pensar convidar-te para jantar... hoje. Parece-te razoável?"
Mariana, finalmente, deu mostras de estar consciente, acenando a cabeça em sinal afirmativo. Ainda não se atrevia a soltar a voz, com receio de que o som emitido pela mesma traísse, de alguma forma, o que lhe ía no espírito.
"Então segue-me", ordenou João, confiante e tentando ocultar um sorriso de triunfo. "Vou levar-te a um restaurante brasileiro fantástico, ali à beira-mar. Para além de comida divina têm música ao vivo, para embalar a conversa de quem os visita. Vais gostar, tenho a certeza."
E lá foram, Mariana seguindo a moto, com uma súbita falta de forças e uma incontrolável tremura, um pouco por todo o corpo. O coração apertado e pequenino: à espera, quem sabe, de grandes emoções.
O que se passou depois fica com eles. Para sempre... atrever-me-ia a afirmar.

terça-feira, julho 25, 2006

Procurando a luz... e a Luz cada vez mais perto!

"Procurando a luz", aguarela de Júlia Calçada

Admiro, ao mesmo tempo que estranho, esta tua persistência na busca incessante da luz. A luz já lá está, mas tu não sabes. Não a vês, ou não a sentes, porque não a podes tocar, e a ausência dessa confirmação material leva-te a concluir que não a encontras. Os outros chegam a ofuscar-se com a tua luz, porque é de ti que ela emana, mas tu continuas no desespero da procura. E continuarás, eu sei, porque essa é a tua meta, inatingível, seguramente. Ou terás que iniciar uma outra busca, que consideres igualmente inacessível, sempre no desvario da descoberta do que te falta para apaziguar a tua alma inquieta.

terça-feira, julho 18, 2006

A maldição da coruja



Havia um nome todas as noites.
Ao entardecer, quando recolhia a casa, Mateus rezava para que, mais uma vez, não fosse o seu.
Sabia que a sorte não podia durar para sempre. A população da aldeia era escassa e já não restavam muitos nomes. Chegou a pensar em fugir para o outro lado das montanhas, onde a voz da coruja não se fizesse ouvir. Ainda assim não era certo que escapasse à morte quando a ave agoirenta gritasse "Mateus".
Havia rumores de outros que tinham fugido e tinham acabado por morrer na mais completa solidão, longe daqueles que amavam e sem uma mão amiga para agarrar no momento da partida. Ninguém sabia como esses relatos ali chegavam. Mas... e se fossem autênticos?
No desespero de uma saída alternativa, à hora de dormir, beijava os filhos, acariciava-lhes os cabelos e sorria-lhes, com ternura. Depois, ia deitar-se ao lado da mulher, passava-lhe o braço pela cintura e pegava-lhe na mão, com força, como se pela última vez. Tentava adormecer e, no mais profundo pânico, esperava.
(inspirado no romance "I heard the owl call my name", de Margaret Craven)