terça-feira, outubro 31, 2006

Memórias de um Bacalhoeiro

Avistá-lo já é um encanto;
aproximar-me dele, saber que vou pisar o seu convés e sentir o seu doce baloiçar, uma ansiedade crescente.

Admirar a beleza do leme, reprimir a vontade de lhe tocar: o receio de que os meus dedos, ignorantes dos seus profundos mistérios, profanem, com um simples gesto, a memória intocável dos seus muitos segredos.


Avançar até à proa, guardando secretamente, com mal-contida emoção, a visão quase furtiva da ilha do paraíso.

Deambular por entre os mastros, as cordas, arriscar uma descida pela escada íngreme a que a porta aberta convida.


Partilhar uma aguardente, em amena cavaqueira, com os velhos lobos do mar. Eles sim, com a cabeça repleta de recordações dos tempos em que o amigo bacalhoeiro os transportava a outros mares, outras paragens; aventuras de uma vida que levariam a vida toda a contar.

Deixar a ilha para trás: outras gentes, noutros lugares, esperam a chegada do bacalhoeiro para, também elas, sonharem as memórias do antigo barco de pesca.


Esta é a minha sentida homenagem ao Creoula, e a todos os marinheiros e pescadores que, a bordo deste navio, dedicaram as suas vidas à captura e transporte do bacalhau para alimentar o povo da nossa terra que, como nenhum outro, soube glorificar este peixe e transformá-lo numa iguaria sem par em qualquer outro lugar do planeta.

terça-feira, outubro 17, 2006

às tantas da madrugada...



Quando abri os olhos percorri a sala. Vazia. Já todos tinham recolhido aos quartos há algum tempo, sem dúvida. O televisor continuava ligado. Um daqueles irritantes programas de televendas. Na lareira, um único tronco ainda ardia, labaredas pequeninas, linguetas de fogo que se soltavam de quando em vez, quase imperceptíveis suspiros moribundos. Estendida no sofá, tentei endireitar-me e senti que a prolongada posição de decúbito dorsal, que adoptara nas últimas horas, tinha deixado as suas marcas nas minhas costas, de tão doridas que estavam, e no pescoço, que deu um estalido quando tentei levantar a cabeça.
"Já devem ser umas tantas da madrugada" pensei, ensaiando um bocejo, "ora vamos lá ver se me consigo arrastar escada acima até ao quarto". No completo silêncio da noite só os meus passos se faziam ouvir. Isso e o "clique" dos interruptores, à medida que ia acendendo umas luzes e apagando outras. Finalmente, num estado de semi-sonambulismo, consegui alcançar a tão desejada cama.
Na minha mente confusa, a cena repetiu-se-se e repetiu-se numa rotina sem-sentido, aumentando de velocidade de cada vez que a recordava, na escuridão do quarto. Pouco antes de voltar a adormecer profundamente, já me via como uma personagem de filme do cinema mudo, a fazer todos os gestos a correr e a andar de forma desajeitada. Acabei por adormecer com uma sensação de extremo cansaço, embalada que tinha estado no carrocel de um louco sonho de sessões contínuas.

segunda-feira, outubro 09, 2006

Outubro Doce





Outubro chega
com a suavidade

dos tons quentes,

a luminosidadebranda e meiga,




a tranquilidade do mar, feito lago,as ondas serenas,
a temperatura amena.

Em Outubro
procuras-me,
com gestos de amor,
chegas-te a mim com ternura.

Eu enrosco-me,

liquefeita,
aconchego-me ao teu peito,
aninho-me,

com prazer,
na tua doçura.

sexta-feira, outubro 06, 2006

Espelho líquido


Assombro desmedido.

Pura magia?

Esfrego os olhos.
Fechos-os por um instante.

Volto a abri-los.
Deslumbramento.

Será que a natureza teima,
até à exaustão,
imitar a arte?

(Ironicamente, aqui reproduzo "a arte a retratar a natureza a imitar a arte")

domingo, outubro 01, 2006

Final da trilogia México

Aqui termino a trilogia, com a poesia de José Juan Tablada, insigne escritor mexicano, homem do mundo, amante da natureza, apaixonado pelo Japão e autor de muitos dos mais belos haikus escritos em língua estrangeira (que não o Japonês, é claro!)


IDENTIDAD
Lágrimas que vertía
la prostituta negra,
blancas..., ¡como las mías...!
HOJAS SECAS

El jardín esta lleno de hojas secas;
nunca vi tantas hojas en sus árboles
verdes, en primavera.
(lua do Cabo, México)
LA LUNA
Es mar la noche negra;
la nube es una concha;
la luna es una perla...

Ainda o México, com o amor de sempre (II)

[...] Pero amar es también cerrar los ojos,
dejar que el sueño invada nuestro cuerpo
como un río de olvido y de tinieblas,
y navegar sin rumbo, a la deriva:
porque amar es, al fin, una indolencia.

(Xavier Villaurrutia)
En tus ojos hay años de sequía
en tus manos un desierto extenso
por eso te enferma la lluvia
y te duele tanto el agua
(Dante Salgado)


No amo mi Patria. Su fulgor abstracto es inasible. Pero (aunque suene mal) daría la vida por diez lugares suyos, cierta gente, puertos, bosques de pinos, fortalezas, una ciudad deshecha, gris, monstruosa, varias figuras de su historia, montañas (y tres o cuatro ríos).
(José Emilio Pacheco)
Al mar
hay que volver al mar
y ahogarse de verdad
para saber lo que es la vida
(Dante Salgado)

De puerta en puerta,
extiende su mano
y pide su limosna de vida.
A veces ciego,
quizá tullido,
en una lata mete sus rencores.
Busca, llama
de tristeza en tristeza.
(Meztly Vianey Suarez)