sexta-feira, dezembro 29, 2006

fim do dia... fim do ano


O fim disto é sempre o princípio daquilo: o fim do dia traz o princípio da noite; o fim da noite é o princípio de outro dia. O fim deste ano inicia o próximo. E assim, dia após dia, noite após noite, ano após ano, vamos transferindo os nossos sonhos, desejos e ansiedades. E, enquanto este fenómeno for sucedendo, o animal que é gente dentro de nós continua a sentir-se privilegiado, porque acredita que a ele, contrariamente aos outros seres vivos, é-lhe dada a possibilidade de adiar a felicidade e, (quem sabe?) chegar a alcançá-la um dia, uma noite, um ano... por vir!

quarta-feira, dezembro 06, 2006

Por causa da Ana Prado (Luz Fugaz)

relembrei Cacela Velha.
Senti saudades do que os olhos vêem, do cheiro a figos e a uvas e a ervas, da total ausência de vento ao crepúsculo, do sentimento de pertença que começa na infância e só termina não se sabe quando.
Senti saudades do Suão, que sopra do mediterrâneo nas noites do Sotavento, e das múltiplas estrelas cadentes que se podem contar nos breves instantes em que nos deitamos a olhar o céu, no areal imenso... das ondas grandes e matreiras do "Levante", que, sendo inofensivas, assustam os forasteiros.
Senti saudades da adolescente que fui, romântica, enamorada e tonta, naquele lugar. Da jovem mãe que, no mesmo sítio, ensinou os filhos a amar o vento quente, a água salgada e morna (tão doce), a cor (do mar, do céu, do campo até às dunas), o cheiro telúrico, meridional, (até mesmo a inexistência da fresca brisa atlântica...).
Senti saudades... e estou mais feliz por isso...
Obrigada, Ana Prado!

segunda-feira, dezembro 04, 2006

novembro-escuro

Vestiu-se de novembro-escuro, a condizer com a baía, e foi até à praia, juntar-se aos poucos pescadores que, como ele, insistiam na prática de fim-de-semana, de há muitos anos para cá.
Invadia-o uma tristeza inexplicável. Olhava o mar e uma angústia doía-lhe no peito enquanto um nó na garganta parecia querer estrangulá-lo.
Trocaram breves palavras. Cada um mais taciturno que o outro, deixaram que o peso da atmosfera carregada os esmagasse. Os outros dois partiram, à procura do calor de um copo de vinho, na taberna à beira-mar.
Os olhos do pescador, claros por natureza, tornaram-se escuros e sem brilho, em perfeita empatia com a quase ausência de luz.

Triste pescador triste, nem lutou contra o desânimo que, pouco a pouco, se apoderou de si. Encheu os bolsos de calhaus rolados, abotoou o casaco de baixo acima e caminhou, mar dentro, como se por uma estrada que conhecesse de cor.
No areal deserto, a assinalar a sua passagem vestido de novembro-escuro naquele domingo negro, restou, esquecida, a cana-de-pesca.