quarta-feira, março 28, 2007

As penas duma gaivota


Gaivota que alegre voas
e um canto às ondas entoas
quando nelas vais poisar.
Cuidado com a densa bruma,
num mar revolto, de espuma,
podes ir e não voltar.

Tu passas rasando as águas
sem saber se existem mágoas,
se alguém tem penas ou não...
quando uma pena te cai,
com ela tudo se esvai
vendo-a perdida no chão.

Não te amargures assim tanto,
logo outra vem, entretanto
volta alegre ao teu abrigo.
Pudesse eu não ter nenhuma,
perder todas, uma a uma,
todas que trago comigo.

Somos diferentes as duas:
tu quando perdes as tuas
é de mágoa o teu sentir;
enquanto eu, silenciosa,
ando no mundo ansiosa
por ver as minhas cair.

poema da autoria de Maria Teodora - 1999

terça-feira, março 20, 2007

Livre

" ...livre... " fotografia de Sandra - Olhar Atento


livre

como a pomba que esvoaça
como o ribeiro que corre
como o vento que assobia

livre

como uma nuvem que passa
como um deus que nunca morre
como uma mente vazia

livre

não ter venda nem mordaça
subir ao alto da torre
ver nascer o sol e o dia


sexta-feira, março 16, 2007

Le Navire Nigth, um "filme falhado" de Marguerite Duras

"Le Navire Night", de Marguerite Duras
Copyright: Jean Mascolo
Chaque nuit à Paris, des centaines d’hommes et de femmes utilisent l’anonymat de lignes téléphoniques non attribuées qui datent de l’occupation allemande, pour se parler, s’aimer. Ces gens, ces naufragés de l’amour, du désir, se meurent d’aimer, de sortir du gouffre de la solitude.
"A pessoa que se desvela no abismo não se reclama de nenhuma identidade. Não se reclama senão disso, de ser semelhante. Semelhante àquele que lhe responderá. A todos. Há uma desobstrução fabulosa que se opera a partir do momento em que se ousa falar, ou antes a partir do momento em que aí se chega. Porque a partir do momento em que chamamos, tornamo-nos, somos já semelhantes. A quem? A quê? Àquilo de que nada sabemos. E é tornando-nos semelhantes que deixamos o deserto, a sociedade. Escrever é ser ninguém. "Estar morto", dizia Thomas Mann. Quando escrevemos, quando chamamos, somos já semelhantes. Tentemos. Tentemos quando estamos sós no nosso quarto, livres, sem qualquer controlo do exterior, chamar ou responder por cima do abismo. Misturar-nos à vertigem, à maré imensa dos apelos. Essa primeira palavra, esse primeiro grito, não sabemos gritá-lo. É a mesma coisa que chamar por Deus. É impossível. E faz-se".
M.D.