domingo, abril 29, 2007

Blogues que fazem pensar

Os amigos Isabel e José António nomearam, no seu "O caminho do Coração" o meu espaço como um dos que, passo a citar "nos fazem reflectir ou de alguma forma nos inspiram".

Agradeço, sensibilizada, a simpatia desta nomeação e, para não quebrar a corrente, vou nomear outros cinco blogues que, após análise "apurada" ;), concluí serem os que, na realidade mais me fazem pensar.
Convém aqui referir que os espaços que visito assiduamente, e que estão listados do lado direito do meu blogue, se dividem em três grupos:
1. Os blogues do sentir, puro e duro, que vão direitinhos ao meu lado mais emocional e nos quais posso ficar, por tempo indeterminado, a deixar fluir o prazer do sentimento;
2. Os blogues do sentir e pensar, que frequentemente conseguem estabelecer, na minha cabeça, um equilíbrio razoável entre o sentimento e o pensamento mas que, por vezes, após uma luta titânica, acabam por me deixar ainda mais perdida entre a emoção e a razão;
3. Os blogues do pensar, que têm atalho imediato para o domínio do cognitivo e que são, de facto, os que mais trabalho dão a este pobre cérebro, geralmente tão inapto para reflexões filosóficas, metafísicas e outras que tais...
Assim sendo, é de entre os grupos 2. e 3. que vou nomear os meus cinco favoritos (no género, obviamente) que optarão, consoante o seu desejo ou convicções, por dar continuidade à corrente ou quebrá-la.
Aceitei o desafio e arrisco nomear-vos. Se decidirem "alinhar", por favor copiem o selo do "pensador" e avancem com as vossas cinco nomeações.
Então aqui vão, por ordem alfabética:
Obrigada e continuem a dar-me "muito que pensar".

terça-feira, abril 24, 2007

Escrito na pedra (ou na água?)


Estavam sentados na esplanada do costume, junto à falésia, à beira-mar. Há longos minutos que ela olhava o o horizonte, sem uma palavra. Ele olhava-a, como se nada mais existisse para além da presença dela, a seu lado. Ela sentia o seu olhar fixo no rosto, no corpo, mas o facto não a incomodava. Naquele momento, o silêncio, a inexistência de troca de palavras entre ambos era o que realmente importava.
A empregada passou e a mulher pediu mais um whisky, sem gelo. O homem, num gesto de solidariedade, pediu mais uma água, sem gás.
Estiveram assim muito tempo.
A dada altura ela disse "deve estar a interrogar-se sobre o que vai na minha mente. Gostaria de o poder adivinhar, não?"
"Precisamente", respondeu o homem.
"Pois bem, tenho estado ocupada com pensamentos acerca dos meus afectos: os pais, os irmãos, os amigos, as memórias dos namorados, amantes e maridos e os filhos, claro. Acima de tudo, a ausência dos meus filhos ocupa-me muito tempo, preocupa-me, perturba-me".
"Compreendo, embora não saiba o que isso é. Sou filho único, como sabe, os meus pais já partiram há muito, nunca casei e não tenho filhos, mas..." aqui deteve-se abruptamente. A mulher olhou para ele e deparou-se com a expressão aterrorizada de quem está à beira de um precipício, a quem basta um minúsculo passo para se atirar.
"Mas...?" insistiu ela, com determinação.
"Mas acho que sou capaz de entender o que sente. Além do mais, há as personagens dos seus romances e argumentos, não é?"
"Ah, sim, essas, a quem dei vida e para quem fui construindo um mundo. Tornaram-se exigentes, ganharam vida própria e agora são elas que me levam a reescrever, das mais variadas formas, a mesma história de sempre."
"Deve ser cansativo".
"Sim, por vezes fico exausta. Como já deve ter reparado, para aguentar a pressão, cada vez bebo mais e - disto não sabe - passo noites inteiras a escrever".
"Os homens gostam das mulheres que escrevem...", murmurou ele.
"Sim, a Marguerite Duras afirmava-o e acrescentava: ...mesmo que não o admitam. Uma escritora é um país estrangeiro."
"Eu amo-a". Disse ele, de rompante, quase num sussurro.
A mulher não deu mostras de ter ouvido aquela confissão inesperada e surpreendente.
Já que tinha dado o tal passo e estava a deixar-se escorregar pelo abismo, o homem continuou, com eloquência e num tom de voz um pouco mais alto "Não imagina a vontade que sinto de agarrar as suas mãos entre as minhas e apertá-las, com força, de encostar o rosto ao seu cabelo e sentir-lhe o aroma, de lhe afagar o rosto, beijar os olhos, o pescoço, a boca. Não faz ideia de como a desejo... de como sonho, noite após noite, que estamos a fazer amor."
"É provável que eu também o ame", respondeu a mulher, com frieza, o olhar novamente fixo no mar.
"Como assim?" perguntou ele, perplexo, "o amor é apenas uma probabilidade?"
"Agora é a minha vez de citar a Marguerite Duras: Donde pode nascer o amor? Talvez de uma súbita falha do universo, talvez de um erro, nunca de um acto de vontade."
"Acredita realmente nisso?"
"Talvez... mas deixemos a Marguerite Duras com os seus axiomas, que são óptimos de utilizar quando não sabemos o que dizer ou não queremos aprofundar as nossas próprias verdades. E para quê o recurso a um arquétipo? O mesmo de sempre, afinal. Eu não sou ela, não sou nem nunca serei alcoólica, nunca amei como ela o fez e jamais escreverei como só ela sabia escrever".
Ele ajeitou-se na cadeira, um pouco incomodado com o rumo que a conversa estava a tomar.
Ela aproveitou o ensejo, levantou-se e fez sinal à empregada para trazer a conta. De seguida, em tom suave, como se tivessem somente passado mais uma das muitas tardes calmas à beira-mar, disse ao homem que havia acabado de lhe fazer uma declaração de amor, "Vamos andando? Está a levantar-se uma brisa fresca".
Contas feitas, e já a saír do café, ainda lhe confidenciou "tenho lá em casa uma garrafa de whisky irlandês por abrir e espera-me uma longa noite de escrita".

sábado, abril 21, 2007

Quando os "sentires" (quase) podem ser gémeos


A minha amiga Maria, homónima, vizinha e cúmplice no(s) sentir(es), tem no seu Cheiro da Ilha uma lindíssima imagem que, mais uma vez, me dá que pensar, de tão sentimentalmente geminada com esta, captada pela objectiva do meu pescador. Ambas tiradas de dentro para fora, em espaços igualmente amados por ambas. No caso da sua, "Sentidos", estamos na Ilha da Berlenga, no interior de uma gruta, e vemos , através do arco esculpido pela natureza, o Forte de S. João Baptista, um barco e o mar... esse nosso eterno apaixonado e elemento desencadeador de paixões outras...

Nesta, estamos do lado de dentro da Fortaleza de S. Pedro em Peniche, na prainha do mesmo nome e, através de um arco esculpido pelo homem, vislumbramos, do lado de lá, um outro barco e o mesmo mar, imenso e profundo... esse nosso eterno apaixonado e elemento desencadeador de paixões outras...

Gloriosas coincidências!

terça-feira, abril 10, 2007

A quarta Arte

"Les Trois Arts" - óleo sobre tela de Júlia Calçada

Meus amigos,
Quero deixar-vos aqui um duplo convite: em primeiro lugar, que não deixem de visitar o blog jc, onde encontrarão uma série de pinturas magníficas dedicada por esta autora à arte do bailado; de seguida, e porque através deste seu quadro estamos perante três artes, lanço aqui um repto para que, inspirados numa, ou no conjunto das obras, dêem largas à vossa expressão artística por excelência, a escrita e, desta forma, contemplem aquela que, apenas por surgir sequencialmente às que a pintora nos enuncia, designo de quarta arte.
Como é natural, não resisto a responder, de imediato, ao desafio que acabo de lançar. Se tiverem curiosidade, vejam o post abaixo, "The Show is Over".
Ansiosa por ler os vossos escritos, digo-vos "até logo" com um grande abraço.

The Show is Over

Júlia Calçada - óleo sobre tela (2007)


Mais uma noite de glória que chegou ao fim. A “primeira” bailarina voltou a demonstrar que continuava a merecer, por inteiro, o destaque no corpo de bailado. O público, delirante, aplaudiu-a de pé durante largos minutos enquanto uma chuva de ramos de flores ia adornando o palco, à sua volta, e o som de “bravo” soava dos vários cantos da sala. O sonho da Margarida, menina, não poderia ter-se concretizado de forma mais absoluta.Tinha atingido o topo, excedidas que estavam as suas próprias expectativas. Dir-se-ia que não tinha senão razões para se sentir feliz.

Já a Margarida, mulher, dava por si claramente possuída de uma tristeza inexplicável. Agora que o espectáculo tinha acabado, ia voltar para casa onde, à sua espera, tinha a solidão. Depois de uns afagos ao gato, que sempre celebrava a sua entrada com visível prazer, iria beber um copo de leite morno e repousar o corpo no leito, demasiado espaçoso, demasiado vazio. O pensamento, esse manter-se-ia activo por tempo indefinido. Depois, viriam os sonhos, os que não controlava, os que lhe mostravam, como num espelho, de forma repetida e obsessiva, uma mulher igual a ela. Ao lado dessa Margarida, que ocupava o lado errado da cama, havia um homem. Conseguia ouvir a sua respiração e sentir-lhe o calor, de tão próximos que estavam. Não se tocavam e, na quase obscuridade do quarto, não conseguia distinguir os traços do rosto daquele cuja compleição física adivinhava perfeita.

Sete horas. O despertador voltava a acordá-la quando, no sonho, se preparava para acender a luz e ver, finalmente, o companheiro de mais uma noite. Ao correr para o chuveiro ainda olhava, de soslaio, para a cama, agora um espaço deserto. No teatro, esperava-a mais um dia de exaustivos ensaios, sem intervalos para outra actividade que não fosse a resposta às suas necessidades básicas de ser humano, e à noite... à noite voltaria a ser a rainha, a mais amada, admirada e invejada bailarina à face da Terra.