sábado, maio 26, 2007

Saber Amar

Les Orangers, de Caillebotte

Ah! Como é bom saber amar alguém,
ter dentro de si aquele amor ardente,
amar com todo ardor que a alma consente
sem temer ser loucura, mal... ou bem.

Mas há quem se iluda, quem diga que ama...
frouxa luz de candeia que se apaga,
simples amor que esvoaça, que divaga,
deixa morrer no coração a chama.

Amor é tudo o que se dá feito ternura,
é ficar preso d'alguém sem amargura,
sem se sentir como ave em cativeiro.

É o encontro de paixões iguais... sentidas;
depois, duas almas numa só unidas,
duas vidas que se entregam por inteiro.

Maria Teodora (2006)

quarta-feira, maio 23, 2007

O dia da partida

(*)

No dia em que partiste deambulei, como um fantasma, pela cidade. Fui até ao porto, mas não procurei abrigo em nenhum dos barcos que ali estavam atracados. Na fortaleza, desci até às celas da cave. Detive-me um pouco por lá, ouvindo o som das ondas a embater na parede exterior. Um forte cheiro a humidade tornou a minha permanência desconfortável e voltei para o ar livre, de onde espreitei o mar por entre uma ameia da muralha. Estava agitado e escuro, como que a prever um temporal. O coração apertou-se-me ainda mais. Porquê partir num dia de eminente borrasca? Poderiam ter esperado que a tempestade passasse... ou não? Será que no alto-mar as águas estavam calmas e era só ali, à volta da Península, que o tempo instável se fazia sentir? A minha ignorância sobre a matéria fazia, sem dúvida, que os medos me povoassem o espírito. Afinal, os marinheiros e pescadores não iriam aventurar-se à toa. Eles sim, eles melhor que ninguém, conheciam as idiossincrasias do mar que tratavam por tu.
Deixei-me perder nas ruas estreitinhas, onde pessoas entravam e saíam das lojas e dos bares. Chorei. Deixei que as lágrimas fossem rolando enquanto caminhava. Tinhas acabado de partir e eu já morria de saudades.
Por fim, aproximei-me de um canteiro de amores-perfeitos. Tinha chegado ao jardim. Pensei de mim para comigo que, para além daquelas flores, se algum amor houvesse que fosse perfeito, seria o nosso. Limpei o rosto molhado e sorri. Aproximei-me da cascata e sentei-me na relva de outro canteiro. Naquele jardim, todos os canteiros tinham amores-perfeitos, das mais diversas cores. Pareceu-me um bom augúrio. Voltei a sorrir e deixei que uma pequena lágrima, agora de provável alegria, me escapasse. Fiquei a observar a cascata e a ouvir os sons que o jardim me oferecia: pássaros que cantavam nas árvores, abelhas que zumbiam e procuravam o néctar das flores, a água que, livremente, se deixava caír pelas rochas, formando um pequeno lago esverdeado.
Dei por mim a pensar que duas semanas não eram uma eternidade para quem sabe esperar. E depois, a alegria do regresso sobrepunha-se a todas as dores sentidas, a todas as noites sem dormir, a todos os pesadelos com naufrágios e monstros marinhos. Vida de marinheiro, vida de pescador, vida de mulher de pescador..., era a que eu tinha escolhido. Para o bem e para o mal. Olhei para o relógio. Ai!... Perdida no tempo tinha-me esquecido que ele pode passar a correr. Estava na hora de ir buscar os miúdos à escola. Ao jantar, iria estar um lugar vago na mesa, mas a alegria das crianças, os seus beijos e abraços, as histórias das tropelias do dia, iriam atenuar a imensa falta de ti e ajudar a suportar a tua ausência, com ânimo e boa-disposição. Se não acontecesse nada (e longe fosse o agoiro) dali a quinze dias já estarias a jantar connosco, a contar as aventuras de mais uma viagem e a genuína alegria voltaria a inundar a nossa casa... (até à próxima viagem, mas nisso pensar-se-ia mais tarde!).

(*) Fotografias de António Rodrigues

domingo, maio 20, 2007

Meme

A minha amiga APC, do "Camuflagens" escreve, na brincadeira, ao passar-me a pasta, esta bem conhecida frase: "com amigos assim, quem precisa de inimigos?"
Nesta correntemania que reina, actualmente, na blogoesfera, eu alinho se sou desafiada por alguém de quem gosto, como é o caso, e quando o desafio se revela interessante, que é, de igual forma, o do meme. Pois... esse mesmo, que quem desconhecia passa a conhecer se fizer como a APC e eu própria fizemos, ou seja, vai ver aqui.
Este é o que seleccionei, assim de repente, de entre tantos outros que poderiam ocupar o mesmo espaço. Não foi, apesar de tudo, por acaso: o acto da criação artística, o acto da escrita em particular, é um tema recorrente nas minhas pesquisas e também em textos que vou alinhavando, aqui e ali.
Então vamos ao dito Meme:
" [...] Eu disse: Queria dizer-lhe que não bastava escrever bem ou mal, produzir escritos belos ou muito belos, que não bastava que fosse um livro para ler com uma avidez pessoal e não em comum. Que também não bastava escrever assim, fazer crer que não havia na escrita qualquer pensamento, que era guiada apenas pela mão, tal como era de mais escrever apenas com o pensamento na cabeça a vigiar a actividade da loucura. [...] Disse-lhe ainda que era preciso escrever sem corrigir, não necessariamente depressa, a toda a velocidade, não, mas conforme a própria pessoa e conforme o momento que se atravessa, lançar a escrita para fora, maltratá-la quase, sim, maltratá-la, nada retirar da sua massa inútil, nada, deixá-la inteira com o resto, nada ponderar, nem velocidade nem lentidão, deixar tudo no estado de aparição."
(Marguerite Duras, in Emily L.)
Ainda embuída do mesmo espírito da amiga que me lançou o desafio vou dar-lhe continuidade, nomeando outras seis "vítimas do meme"... :):
Ana Prado - Inteira Luz
Aquilária - Ínsua
Besnico di Roma - Memórias de um amnésico
Prólogo - Prólogo

terça-feira, maio 15, 2007

Numa calma manhã de domingo (*)

Conseguiu limitar o extenso volume do seu corpo ao espaço exactamente deixado pelas portas que se fechavam, naquela fracção de segundo. Entrou. O suor escorria-lhe da testa e as mãos ainda lhe tremiam. Verificou, com agrado, que o metro ía quase vazio. Sentou-se no primeiro banco. Respirou fundo, recostou a cabeça e fechou os olhos. "Agora só saio no fim da linha, seja lá onde for", pensou e sorriu, de si para consigo, sempre de olhos cerrados. "Escapei de boa, sim. Doutra como esta não me volto a safar". Emitiu um som semelhante a uma risada gutural e aninhou-se no banco, como quem se prepara para dormir. Meteu a mão no bolso do casaco e sentiu o pesado cordão de ouro, com uma bonita cruz encrustada de pedras, sem dúvida preciosas. Devia valer para cima de um dinheirão. E afinal tinha sido tão fácil: um simples empurrão, um "desculpe" balbuciado enquanto desapertava o fecho facílimo de abrir, e a corrida final para as portas que, por muito pouco, não se recusaram a deixá-lo entrar.

Para trás ficava o cais, despido de gente naquela manhã de domingo. Os bancos de madeira estranhamente desocupados. Apenas uma mulher alta, elegante, vestida de branco, com o cabelo castanho claro apanhado em madeixas, com um ar nitidamente perdido, torcia um lenço de seda azul entre as mãos. Cerrava os maxilares para não gritar e sustinha, com um quase imperceptível tremor de queixo, as lágrimas que, teimosamente, queriam abandonar os seus olhos verde-claros e precipitar-se pelo rosto, infiltrar-se pela blusa, dois botões aberta, e ocupar o lugar recentemente adquirido, e logo abandonado, pelo fio. No peito, arfando suavemente, estavam contidos os soluços, ansiosos por uma oportunidade para se soltarem e soarem bem alto, no interminável corredor dos carris do comboio. Se tal sucedesse, iriam por certo assemelhar-se aos uivos de um animal aprisionado numa gruta sem fundo. Imobilizada, não sabia o que fazer. Alguém a terá encontrado e levado dali, algum tempo depois, sem perceber o que tanto poderia ter abalado aquela mulher.
Na morgue do hospital tiravam mais um cadáver do frigorífico para ser autopsiado. Quando o médico legista o destapou não pôde deixar de reparar na beleza da jovem cujo corpo exibia as sevícias de um homicídio violento. Ainda antes de se lançar ao trabalho, a sua atenção foi captada por um pormenor: no peito bronzeado da rapariga era visível a marca de um colar, ou de um fio grosso, e bem destacado, a branco, entre os seios, o desenho de uma cruz.
(*) Fotografia de António Rodrigues

terça-feira, maio 08, 2007

Ternura

I

Ternura nos olhos, no sorriso, nos gestos.
Ternura na voz.
Ternura nas palavras escritas.
Ternura no afagar das teclas de um piano.
Ternura ao friccionar o arco nas cordas de um violino.
Ternura ao colorir de pinceladas uma tela.
Ternura ao executar um elegante passo de bailado.
Ternura ao embalar o filho.
Ternura ao poisar os lábios na fronte fria do amor moribundo.
Mãos ternas que acariciam.
Boca de ternos beijos.

II

Sonhei com um cemitério bizarro.
As lápides eram negras e, por contraste, pairava sobre o espaço uma difusa neblina
que se aliava à brancura da neve que tudo cobria.
Havia uma pedra tumular onde mal se distinguia qualquer inscrição.
Não havia nome, datas, fotografia.
Apenas se podia ler o epitáfio:
“Em memória eterna de uma mulher terna”.

sexta-feira, maio 04, 2007

Blogues que fazem pensar (II)

E vão duas ... desta vez foi a doce Ana Prado, a quem agradeço a distinção, que decidiu nomear-me.

Ora bem, vou aproveitar para nomear outros cinco blogues, embora desta vez o critério seja diferente: a exemplo dos anteriormente indicados por mim, todos eles têm igualmente grande valor, são espaços que visito, admiro, e onde me detenho, e são relativamente pouco conhecidos: três pessoas da escrita, uma da fotografia e uma da pintura (esta última não podia falhar!!!) ;)
Já agora, para variar um pouco, vou indicá-los por ordem alfabética descendente. Aqui estão:
3. JC
Se quiserem dar continuidade à corrente, copiem o selo do "pensador" para a vossa casa e nomeiem os vossos cinco seleccionados.
Obrigada, amigos. Continuação de bom trabalho e de muito prazer em tudo o que fazem!