Todas as fotografias trazem histórias agarradas.
Por coincidência, duas das últimas com que entrei no jogo "Fotodicionário", do blogue Palavra Puxa Palavra têm, por detrás, histórias de família ("linhas" e "rosto").
Relativamente a esta última, andava eu a "meter o nariz" no conteúdo de uns caixotes que estavam no sótão da nossa casa na Quinta da Ponte do Arco (quem quiser conhecê-la pode visitar o meu post "A Obra" - (Ponte do Arco), de Fevereiro de 2007), quando me deparei com este retrato a carvão, amarrotado e mal-tratado pelo tempo e pela ausência de estima, assinado pela minha tia-bisavó Albertina Augusta (coitada da senhora... que nome lhe haviam de ter posto!). Fiquei, desde logo, fascinada. Mais deliciada ainda quando reparei na data do dito retrato: nada mais nada menos que o dia exacto do meu aniversário, mas quase cinquenta anos antes de eu ter nascido... de imediato me apaixonei por aquele rosto, de "buço" e olhos indubitavelmente muito claros - verdes, possivelmente - e baptizei-o de "Esmeralda".
Fiquei cheia de dúvidas quanto ao modelo, tal como alguns de vocês, meus amigos, que assim o manifestaram nos comentários à foto no referido jogo do PPP ("mas isto é homem ou mulher?" , "mulher com um bigode daqueles?".
Encontrei como resposta provável que tivesse sido um retrato desenhado às escondidas, pela minha tia-bisavó, recorrendo a uma empregada como modelo. Empregada doméstica não deveria ser, pois não apresentava o uniforme característico, poderia ser uma lavadeira ou, então, era uma encenação em que a/o modelo vestia roupas "arranjadinhas", embora modestas, escondia o cabelo numa espécie de turbante (à maneira das lavadeiras da época, julgo eu) e punha uns brincos compridos, a contrastar com o resto. Tudo meras possibilidades... a verdade partiu para sempre com a tia Albertina (que tive o prazer de conhecer e com quem convivi intensamente desde a minha infância até aos vinte e tal anos, dado que ela morreu com cerca de noventa).
Resta-me acrescentar, a título de curiosidade, que a autora do retrato a carvão era neta, filha e irmã de pintores famosos da nossa praça, todos eles alunos e, mais tarde, professores nas Belas-Artes (um dos irmãos até ganhou vários prémios Valmor, tendo sido um dos arquitectos bem conhecidos do "Estado Novo", autor de obras de época como a Praça do Areeiro e as chamadas "Avenidas Novas", bem como a sua própria residência em Lisboa, igualmente objecto de prémio Valmor).
A tia Albertina que, segundo consta, era a filha que tinha herdado do pai e do avô a verdadeira arte de pintar e desenhar (quadros de ambos, mas principalmente do avô, podem encontrar-se no Museu de Arte Contemporânea, no Chiado) - e eu tenho aguarelas e óleos pintados por ela, devidamente cuidados e amados, como merecem - viu negada a sua vontade de aceder, contrariamente aos irmãos do sexo masculino, às Belas-Artes, porque uma menina da aristocracia (ainda que praticamente arruinada), mesmo numa família de artistas pelo lado paterno, tinha mais era que casar e ter filhos e comportar-se como uma senhora de sociedade. O marido, inclusivamente, viria a proibi-la de pintar, razão pela qual penso que o retrato terá sido feito às escondidas... Enfim... outros tempos... em que a mulher, de forma submissa, tinha que obedecer e não questionar... primeiro, os pais, depois, o marido. Pobre tia Albertina Augusta!
Mas o orgulho que ela tinha nos muitos quadros do pai e do avô que lhe revestiam as paredes da casa era imenso! E o que eu e o meu irmão gostávamos de estar com ela!...: conversar, admirar os quadros, um por um, vezes sem conta, ver os muitos livros de arte, ouvir as suas deliciosas histórias! Não é vulgar, em crianças da nossa idade, trocar as brincadeiras com os amigos por tardes passadas em casa (e no jardim, é verdade) de uma tia quase octogenária.
Passávamos tardes inteiras com ela e nunca, nunca nos fartávamos. Havia, na parede de uma das salas, um quadro enorme, um óleo pintado pelo pai, retratando o claustro do Mosteiro da Batalha. Tinha umas cores fabulosas, em que me lembro de predominar um tom dourado. Nas tardes de sol de inverno, quando os raios estavam baixos e incidiam de uma certa forma no quadro, distinguia-se, no canto inferior direito, no sítio onde ele pintara um jarrão de flores, a figura de duas senhoras elegantemente vestidas (a esposa e a cunhada do pintor, segundo a tia) que o pai resolvera tapar com o jarrão numa fase avançada da vida em que já fazia (conforme ela nos assegurava) alguns "disparates".
Aquela casa de sonho tinha também quadros de outros artistas de renome, amigos da família, como os irmãos Bordalo Pinheiro, cada um no seu género, como sabemos, ou o Cottineli Telmo a quem ela, ternamente, chamava apenas "Telmo", quando contava algum episódio passado entre eles (desconfio que chegaram mesmo a ter namoro).
Quanto à Esmeralda, olho-a muitas vezes, numa parede da minha casa do Baleal (mal sabia ela, que nunca deve ter visto o mar, que iria acabar numa casa de praia). Adoro aquele contraste entre o buço e os olhos claros, sonhadores... de vez em quando vejo-a/o piscar-me o olho!!! ;)




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Acabei por conseguir ficar uma eternidade em frente ao Templo Dourado, a reler o livro de Mishima. Vi o jovem monge em toda a sua dimensão de ser humano considerado "esquisito", porque diferente dos outros, alvo de chacota, de desprezo, porque gaguejava, porque era tímido e porque a paixão que dele se apoderava perante o fascínio do que considerava maravilhoso, místico, sobrenatural, o fazia adoptar comportamentos fora do comum. Senti o seu amor desmedido pela beleza do local, percebi (julguei entender) a loucura que o tinha levado a incendiar o templo, objecto maior dos seus afectos, entidade metafísica perturbadora do seu equilíbrio emocional. E dei Graças pelo facto de o mesmo ter sido reconstruído e eu ali estar, a admirá-lo, como se nunca tal tragédia por ali tivesse passado.

