sábado, novembro 24, 2007

Johannes Vermeer - realidade e ficção

É interessante constatar como o grande pintor Johannes Vermeer utilizava, com raríssimas excepções, o mesmo cenário em todos os seus quadros: o estúdio, a janela do mesmo, fazem parte integrante da maioria das suas pinturas. O filme "Rapariga com Brinco de Pérola", cuja magistral direcção de fotografia mereceu ao português Eduardo Serra a 2ª nomeação para um óscar nessa categoria, mostra-nos esse espaço como "o espaço" do artista, numa reprodução exímia do recanto que podemos apreciar, repetidamente, nos seus quadros.










Curiosamente, num dos mais famosos quadros de Ian Vermeer, precisamente o "Rapariga com Brinco de Pérola", patente ao público no Museu de Haia, o pintor opta por ocultar dos olhares de quem observa a pintura o cenário mais habitual dos seus quadros, escolhendo, alternativamente, um fundo negro, do qual a figura sobressai em toda a sua plenitude. Quem era aquela rapariga? O célebre pintor holandês retratou uma rapariga de turbante e brinco de pérola. O famoso quadro tem sido, frequentemente, designado como a "Mona Lisa holandesa" e é considerado por muitos especialistas em arte como a obra-prima do pintor. Das várias hipóteses elaboradas para responder à pergunta, uma aparece no filme de Peter Webber...


História e ficção misturam-se, de forma inseparável, no reputado romance, "Rapariga com brinco de pérola", de Tracy Chevalier. A sociedade de Delft, na Holanda do Séc. XVII, é bastante preconceituosa, cria fossos profundos entre ricos e pobres, cristãos e protestantes e patrões e empregados. Quando Griet, uma menina de 16 anos, vai trabalhar como criada na casa do mais importante pintor da cidade, espera-se que esta saiba o seu lugar. Mas na casa de Johannes Vermeer, dirigida pela sua esposa, mentalmente desequilibrada, e pela sogra dominadora, a jovem logo desperta a atenção do patrão. Cativado pela sua atitude calma, intuição e fascínio pela arte, Vermeer leva-a aos poucos para o seu mundo – um lugar tranquilo, de cor exótica e luz ofuscante, sombras que mudam, e uma beleza inimaginável. O que ninguém suspeita, devido à imprescrutável personalidade de Griet, é que o seu fascínio pelos quadros de Vermeer irá levá-la ao mundo privado do pintor. É desta forma que, à medida que se torna testemunha do processo criativo do grande mestre, a sua paixão reprimida será o catalisador de um escândalo que atingirá em cheio a cidade e mudará, irremediavelmente, o curso da sua existência.


Diz-se que Tracy Chevalier teve a ideia de escrever um romance envolvendo a rapariga do retrato porque, desde os 19 anos, convivia com o poster de Vermeer na parede do seu quarto. Um dia, ao pensar sobre um novo trabalho, deu consigo a observar mais de perto a rapariga com brinco de pérola e, talentosa e atrevida como é, começou a imaginar que a história daquela rapariga daria um belo livro se descrevesse quem ela era, quais as sensações que teve ao ser retratada, se levasse os leitores a interrogar-se sobre a possibilidade de o seu sorriso ser apenas inocente, ou, pelo contrário, voluntariamente sedutor. Investigou sobre a vida do pintor, estudou o ambiente da cidade onde ele nasceu, algumas situações da época e manteve os nomes verdadeiros de sua mulher e sogra – Catarina e Maria Thins, respectivamente. Talvez tenha absusado da imaginação... não importa. Quando se trata de um romance, o rigor histórico não é exigido ao seu autor, sendo-lhe concedida total liberdade para ficcionar.

O Realizador do filme, Peter Webber, foi de uma delicadeza extrema na sua narrativa. A fotografia de Eduardo Serra é, ela própria, uma pintura. Scarlet Johansson tem uma interpretação irrepreensível, ao lado de um Colin Firth no seu melhor, no papel do pintor. Pode dizer-se, sem exageros, que o filme "enche as medidas" aos amantes da sétima arte.

Quanto à pintura de Vermeer, essa é imortal, perdurará muito para além dos livros que se escrevam e dos filmes que se façam sobre a sua vida!



segunda-feira, novembro 12, 2007