Pintura de Júlia Calçada - JC
Flectir.
Re-flectir.
Repetir a flexão. Uma vez, duas... mais dez. Só mais dez.
Repetir a flexão. Uma vez, duas... mais dez. Só mais dez.
Outra vez: uma, duas... e dez.
O espelho devolve-me a imagem:
cada gesto, cada passo, cada sorriso ensaiado.
Um corpo que, maquinalmente, flecte e reflecte. Uma alma que o vê reflectido na crueza do imenso vidro espelhado para que, em consciência, nada se perca, nenhum movimento falhado, no reflexo, como na vida.
Cansada, sento-me no chão.
Dou por mim a reflectir na rotina de mais um dia de treinos.
Assim tem sido nos últimos 20 anos. Hora após hora, dia após dia.
Momento de reflexão. Não de arrependimento, não de desespero.
Adoro o que faço. Foi para dançar que nasci. É para bailar que vivo.
As noites de espectáculo, essas são sublimes. As luzes iluminam o palco e seguem a dança deste meu corpo, ao som da música que o transporta, que o eleva, que o faz executar o bailado, como uma gaivota num voo planado: sem fadiga, sem esforço, com um sorriso autêntico desenhado nos lábios, com um brilho verdadeiro reflectido no olhar.
Vem a apoteose, o aplauso entusiástico do público. Os sinceros "bravo" de quem apreciou. As flores a meus pés...
Reflicto: a vida pode ser bela. Uns minutos de felicidade apagam toda a mágoa acumulada ao longo de dias de ensaios intensivos e de noites infindáveis, sem dormir.
Quando danço, quase esquecida que o faço, reflicto a minha maneira de ser, de pensar, de sentir. Sou eu toda, ali, sozinha, perante uma plateia que me observa atentamente.
É nesses momentos que estou, afinal, a reflectir o meu verdadeiro íntimo, para o exterior, como uma dádiva, que estou a libertar os meus fantasmas, medos, desânimos. Também a minha alegria de viver, a paixão pela dança, a razão da minha existência...
Nessas ocasiões não reflicto. Liberta de barreiras, apenas sou.
