
Agarro um punhado de areia e, lentamente, deixo-o escapar-se-me entre os dedos até voltar a ficar com a mão cheia de nada.
Observo a mão vazia e reparo que uma, apenas uma pequena partícula daquele finíssimo pó, se manteve presa ao dedo anelar.
Tento retirá-la com o polegar, mas, teimosa que deve ser, parece ter ficado colada... talvez para sempre.
Sorrio de mim para comigo ao pensar nas múltiplas interpretações que poderiam ser atribuídas a este facto, aparentemente sem qualquer importância. A simbologia dos acontecimentos, por mais simples que pareçam ser, pode adquirir contornos e proporções inimagináveis, quando utilizada por mentes férteis.
Qualquer pessoa (eu própria) poderia agarrar neste minúsculo acontecimento e escrever um conto, por exemplo, ou fazer um poema, se para tal me sentisse inclinada...
Decido nada fazer. O meu pensamento voa para ti, em tropel, e entre nós dois, como se de um segredo se tratasse, fica o signo deste momento - o significado de um significante: grão de areia, imagem acústica sem relevância, embora de agradável sonoridade. O resto é o silêncio...