segunda-feira, outubro 20, 2008

A tradição da doçura de Outubro


Fotografia de António Rodrigues

"Outubro é o mês mais doce", repito em cada ano que passa.

Eu não sei porque amo assim Outubro, por que razão, neste mês de Outono, me sinto particularmente amada e feliz, por que gosto de tudo e de todos como se do primeiro, ou do último, mês da minha vida se tratasse. A verdade é que, invariavelmente, quando chega esta época, sinto uma vontade imperiosa de o assinalar, de o deixar registado, para a posteridade, não vá algum dia esquecer-me de que sempre assim senti.

domingo, outubro 12, 2008

Espera sem Sentido

Before # 3 (*)

Preparava-me para a entrada em palco. Os últimos detalhes: o ajeitar do cabelo, o retocar da maquilhagem, o atar da sapatilha. Um estranho pressentimento havia-se instalado na minha alma. Um arrepio percorria-me o corpo, de cada vez que olhava para o relógio e via que os ponteiros avançavam vertiginosamente para a hora do início do espectáculo e, pela primeira vez, tu não tinhas telefonado.

Às 22h00 em ponto, sem nada dizer a ninguém, despi, atabalhoadamente, a roupa de dança, troquei-a pelas calças e pela camisola que tinha trazido, enfiei os pés nos sapatos e foi com o coração em ritmo acelerado que corri para o carro. Depois, para casa, onde entrei para me refugiar no nosso quarto. As minhas pernas não paravam de tremer, de uma forma incontrolável.

O telefone tocou. Alegrei-me, por um momento, supondo que eras tu...

Era o Director da Companhia de Bailado. Optei por não atender. Depois disso, tocou mais algumas vezes, mas nunca levantei o auscultador. Foram ficando sucessivas mensagens, ditadas pela sua voz grave e austera: primeiro de aborrecimento pelo meu inusitado desaparecimento; depois, de verdadeira zanga pelo facto de eu faltar ao espectáculo sem nada ter dito; por último, de alguma preocupação, acompanhadas de um pedido para que entrasse em contacto logo que possível.

Ao fim de, sensivelmente, duas horas, o telefone tinha deixado de tinir.

Waiting (*)
Estou cansada desta espera.
O desespero começa a apoderar-se de mim.
Por vezes vacilo, quase desisto, mas não consigo.
Aqui continuo, neste cansaço da espera: a espera de ti.

Quando compreendi que tinhas ido embora, sem deixar, sequer, um bilhete explicativo dos motivos que te levavam a abandonar-me, sem qualquer sinal de que havias, mesmo, ido para longe de mim, não quis acreditar.

Fiquei sentada no quarto, na cadeira de balouço, a olhar pela janela para as árvores que se agitavam com o vento, na vã expectativa de ouvir a chave rodar na fechadura, ouvir os teus passos na sala e ver-te entrar, com o meigo sorriso de sempre e uma justificação para o inesperado atraso.

Acabei por me esticar na cama, forçando o sono que teimava em não chegar.

Esperei toda a noite, sem conseguir adormecer.
Na manhã seguinte, decidi não ir ao Teatro. Que razão poderia eu invocar para atenuar a gravidade da minha falta? Em vez disso, vesti a roupa com que mais gostas de me ver dançar, calcei as sapatilhas e fui sentar-me no chão da sala. À tua espera: quando, finalmente, entrasses, começaria a dançar para ti, sem parar, até caír de exaustão nos teus braços, que me apertariam contra o teu corpo, como se nada tivesse sucedido.
O dia passou, lentamente, deixei de contar os minutos e as horas em que, ali sentada, com o meu mais lindo vestido, aguardava o teu regresso.

Veio a noite e continuei a longa espera.
Talvez se lhe tenham sucedido mais alguns dias e noites.
Perdi a noção do tempo.

Entregue à desilusão da tua ausência, ao desespero da solidão daquela casa, inexplicavelmente quieta, muda, sem vida, continuo, já sem forças, a aguardar o teu regresso, até ser sacudida, na escuridão da sala, pela fulminante luz de um relâmpago, imediatamente seguida do ruído ensurdecedor de um trovão.
Levanto-me e dirijo-me à varanda, ajudada como que por uma força exterior a mim, para fechar as janelas, abertas de par em par, e assim impedir que a chuva, que cai copiosamente, me invada o espaço, único bem que julgo restar-me.
Quando lá chego, grossas bátegas de água, trazidas pelo vento, açoitam-me o rosto, o corpo exposto, quase nú, o vestido de que tanto gostavas...

É então que pareço compreender: morreste. Estou liberta.

Não mais faz sentido a condenação àquela espera auto-infligida. A mágoa de teres desaparecido termina aqui, agora, à medida que a tempestade também vai amainando.

De repente, tudo fica claro: tu não mais voltarás e o mundo, lá fora, aguarda o meu retorno!


Dancing (*)

Recomecei os ensaios, de forma intensiva. Queria voltar a ser a bailarina que o público amava e se dava, plenamente, em palco, como forma de retribuir e agradecer esse afecto.

Ao fim de uns dias, tudo ficou a postos. Um novo espectáculo iria substituir o anteriormente interrompido, daquela forma brusca e nunca revelada. Mais um mistério adensava a minha vida... e esse facto espicaçava a curiosidade daqueles para quem eu me tinha tornado um mito.

Eu própria escolhi a música e desenhei a coreografia. Chamei-lhe "Espera Sem Sentido". O Director andava excitadíssimo com a perspectiva de um êxito de bilheteira. Os colegas eram gentis para comigo e não faziam perguntas: para minha surpresa inicial, acatavam as minhas directivas, sem qualquer contestação e, apesar de já ter coreagrafado de outras vezes, só agora compreendi que era considerada a líder do grupo.

Na noite da estreia voltei a sentir-me como noutros tempos. Durante o espectáculo fui um pássaro a voar naquele palco. Tive de novo a sensação de ter centenas de almas coladas à minha, a respirar em uníssono, comigo, suspensas de um passo, de um salto mais arrojado, de uma pirueta perfeita.

Nunca parei de sorrir enquanto dançava e, no entanto, lágrimas de pura felicidade rolavam-me pela face, ao mesmo tempo. Dançar era a minha vida. O que eu sabia e gostava de fazer. Mais: o prazer que dava àquela plateia, ávida de mim, era-me devolvido sob a forma de um sopro brando e morno, de genuíno êxtase.

No final da noite, foi uma mulher realizada que voltou ao camarim. Pedi que me deixassem a sós. Sentei-me na minha cadeira e deixei-me relaxar. Não tinha pressa e ninguém, ou nada, me esperava. Revi, calmamente, os acontecimentos recentes. De olhos fechados, percorri, como num filme dentro da minha cabeça, todos os detalhes daquela noite de glória.

Subitamente, bateram à porta. Chegava-me, do lado de fora, a voz da camareira, atrapalhada, que dizia: "Desculpe, minha Senhora, eu sei que pediu para não ser incomodada, mas está ali um senhor que afirma não abandonar o teatro sem a cumprimentar".

Sorri com gosto: por que não dar ao destino uma segunda oportunidade?

"Ele que entre, Cecília, mas só ele".

Quando a porta se abriu, os meus olhos embateram numa imensa braçada de lírios brancos.

O desconhecido baixou um pouco o ramo, e deixou-me entrever uns olhos azul-água, mais claros ainda porque marejados de lágrimas.

Depois, desceu-o ao nível do peito e vi o sorriso: aberto, terno, sem mácula. Único, afinal, insubstituível, porque mágico.

Levantei-me de um ímpeto e abracei-o. Do ramo de lírios, espalmado entre os nossos corpos unidos, subia um doce perfume, que me enlouquecia e fazia eternizar o beijo que conciliava as nossas bocas ansiosas.

Separámo-nos, por fim, e chorámos, rimos, dos lindos lírios amarfanhados, prestes a murchar com o calor que os nossos corpos haviam, sobre eles, exalado. Beijámo-nos muitas e muitas vezes, sempre a rir, e a chorar, e a balbuciar palavras loucas, nos curtos intervalos dos sôfregos beijos trocados.

Daquele dia em diante, passei a adicionar um acessório à minha indumentária de bailado: no cabelo, numa alça do vestido, preso junto ao coração, destacava-se, sempre, um perfumado e fresco lírio branco.

(*) pinturas de Júlia Calçada

quinta-feira, outubro 09, 2008

Mentira


Hieronymus Bosch - O Julgamento Final

A mentira do tempo.
O olhar perdido no espaço,
também ele imaginado.
A fuga enquanto solução temporária.
A mentira da vida.
A vida inteira numa mentira.
A suspeita, a dúvida, a incerteza.
O engano, o medo, a traição.
A ténue linha
que separa o sonho do real.
O pesadelo como real,
sem linha a separá-lo de um real outro.
A falácia da paixão eterna.
A mentira dentro da mentira.
O inferno da vida.
A descrença em algo diferente da vida no inferno.
O desejo, a tentação, o julgamento, o castigo.
A loucura como desculpa
para o inexplicável.
As noites infindáveis e os dias sem sol.
A mentira do amor.
A frase nunca proferida,
mil vezes ouvida,
ecoando, ininterruptamente, na mente transtornada:
"Já não é pra ti que eu corro,
não será por ti que morro".
A mentira da mentira.
Eu...

Margarida Costa in "A Outra"

quinta-feira, outubro 02, 2008

No meu jardim


Foto de António Rodrigues - "Outono na Ponte do Arco"
(Paráfrase inspirada no poema "Porque voam as Pétalas?", de Paulo de Carvalho):

No meu jardim
ouço o som da maré-cheia

e o grito das gaivotas;

vejo as árvores

que se despem

e os outros pássaros mudos,

tristes, pousados nos ramos.


O forte ruído da chuva

assusta-os, mantém-nos calados...


um relâmpago ilumina

de repente a tarde escura,


a maré-viva faz-se ouvir

com violência, contra as rochas,


o ribombar do trovão

faz coro com a tempestade.


As gaivotas continuam seu grasnar

numa luta contra o vento

que as impede

de alcançar porto seguro,


indiferentes que lhes é
a serenidade
repousada em meu jardim.