quarta-feira, janeiro 04, 2006

O acto da escrita

[...] “C’est curieux un écrivain. C’est une contradiction et aussi un non-sens. Écrire c’est aussi ne pas parler. C’est se taire. C’est hurler sans bruit. C’est reposant un écrivain, souvent, ça écoute beaucoup. Ça ne parle pas beaucoup parce que c’est impossible de parler à quelq’un d’un livre qu’on a ecrit et surtout d’un livre qu’on est en train d’écrire. C’est impossible. C’est à l’opposé du cinema, à l’opposé du theatre, et autres spectacles. C’est à l’opposé de toutes les lectures. C’est le plus difficile de tout. C’est le pire. Parce qu’un livre c’est l’inconnu, c’est la nuit, c’est clos, c’est ça. C’est le livre qui avance, qui grandit, qui avance dans les directions qu’on croyait avoir explorées, qui avance vers sa propre destinée et celle de son auteur, alors anéanti par sa publication: sa séparation d’avec lui, le livre revê, comme l’enfant dernier-né, toujours le plus aimé”. […]
[…] Il y aura une écriture du non-écrit. Un jour ça arrivera. Une écriture brève, sans grammaire, une écriture de mots seuls. Des mots sans grammaire de soutien. Égarés. Là, écrits. Et quittés aussitôt. [...]
Marguerite Duras, in “Écrire”

Gosto das palavras. Gosto das palavras escritas. Gosto de um texto escrito com palavras. Primeiro, as letras, depois, as palavras formadas pelas letras e, por último, o texto acabado, construído com palavras, que começaram por não ser mais do que objectos dançando, de forma aleatória, na mente labiríntica do escritor.
Também gosto das não-palavras, que são formadas por não-letras e constroem um não-texto da autoria de um não-escritor. Por vezes não-escrevo, até, romances assim. Não têm para mim o encanto de um romance escrito mas, nem por isso, deixam de ter o seu lugar nesta urbe louca que é a minha cabeça.
No seu magnífico último romance, escrito em forma epistolar, "Si sta Facendo Sempre piú Tarde", Antonio Tabucchi conta, numa das suas cartas, a história de um contador de histórias que não as escreve, mas que as mantem vivas, palavra por palavra, na sua memória que as imaginou. Diz ele, a certa altura, na carta "Livros Nunca Escritos, Viagens Nunca Feitas", dirigida ao seu amor: [...]" Era um romance um pouco romântico, talvez até demasiado romântico, não achas?, mas não foi por isso que eu não o escrevi: na realidade este romance teria sido a obra-prima de todos os meus romances não escritos, a obra-mestra do silêncio que eu tinha escolhido para a vida toda. Uma pequena obra-prima, entenda-se, nada daqueles enormes romances monumentais que fazem a alegria dos editores e que nem remotamente alguma vez pensei não escrever: resumindo, uma coisa pequena que não excedesse os dez capítulos em cem páginas: uma medida de ouro. Quatro meses exactos foi quanto levei para não escrever este romance, de Maio a Agosto; (...) E depois fui ter contigo precisamente nessa noite, como te deves recordar, tinha passado esses quatro meses naquela casa de campo, com um calor húmido que sufoca a garganta e ensopa os ossos, tu telefonavas-me todos os dias e perguntavas-me: porque é que não apareces?; já te disse, repetia-te, pus-me a não escrever um romance complicado que me está a fazer suar as estopinhas, mais ainda do que o calor infernal desta terra, mas garanto-te que vai ser um romance bonito, ou estranho, talvez, mais estranho do que eu, uma criatura esquisita, uma espécie de coleóptero desconhecido fossilizado numa pedra, assim que chegar eu conto." [...]
É assim a escrita. O acto de, ou não, escrever. Como o é o de toda a criação artística: um mistério milenar que continua a deixar embasbacados os que com esse fenómeno se preocupam. Mas a verdade é que se preocupam deveras. E escrevem sobre isso. E debatem. E voltam a preocupar-se e a procurar explicações, justificações, razões, agarram-se a qualquer coisa que os possa levar ao conhecimento (e domínio?) do que está subjacente a este acontecimento inegável: - o acto de criar. Talvez para que, uma vez descoberto o segredo, possam afastar as permanentes angústias da incapacidade (ainda que temporária) de criar?

2 comentários:

Alma disse...

O acto da escrita é o libertar da alma.

João Villalobos disse...

Gostei muito destas suas observações, Maria. E do novo look do blogue também :)