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quinta-feira, março 10, 2011

"Mil nomes, um rosto" ou "Confidências de um esquizofrénico"



Tenho tantos nomes que já lhes perdi a conta.
Sei que já fui Luís, Manuel, Diogo, José, Francisco e até Joaquim.
Também fui Julieta, Margarida, Leonor, Isabel e talvez mesmo Idalina.
Posso ser muito mais gente, com outros nomes, outras vidas, noutros lugares.
Consigo falar qualquer língua, ter vindo de qualquer sítio, estar de partida para onde quiser.

E, no entanto, sou sempre eu.
Este rosto que vejo ao espelho, este corpo que me enclausura, esta âncora que sou incapaz de soltar.

Por vezes, sento-me no alto de um penhasco, à beira-mar.
Despeço-me do dia que finda e da persona que me habitou.
Uma dor aguda oprime-me o peito, seca-se-me a garganta e a respiração torna-se penosa.
Quase sufoco, enquanto uma lágrima, que não seguro, me queima a face.
Sei agora (sempre soube) que  sinto saudades de quem parte. Temo que não regresse.

Tenho medo de ficar a sós comigo.
Afinal, eu sou só eu. E isso é muito pouco.

Volto a encontrar-me no reflexo deste rosto, na prisão deste corpo, que me transporta.
Adensa-se o receio de jamais conseguir içar a âncora.

quinta-feira, setembro 04, 2008

Grão de Areia


Agarro um punhado de areia e, lentamente, deixo-o escapar-se-me entre os dedos até voltar a ficar com a mão cheia de nada.

Observo a mão vazia e reparo que uma, apenas uma pequena partícula daquele finíssimo pó, se manteve presa ao dedo anelar.

Tento retirá-la com o polegar, mas, teimosa que deve ser, parece ter ficado colada... talvez para sempre.

Sorrio de mim para comigo ao pensar nas múltiplas interpretações que poderiam ser atribuídas a este facto, aparentemente sem qualquer importância. A simbologia dos acontecimentos, por mais simples que pareçam ser, pode adquirir contornos e proporções inimagináveis, quando utilizada por mentes férteis.

Qualquer pessoa (eu própria) poderia agarrar neste minúsculo acontecimento e escrever um conto, por exemplo, ou fazer um poema, se para tal me sentisse inclinada...

Decido nada fazer. O meu pensamento voa para ti, em tropel, e entre nós dois, como se de um segredo se tratasse, fica o signo deste momento - o significado de um significante: grão de areia, imagem acústica sem relevância, embora de agradável sonoridade. O resto é o silêncio...

quarta-feira, janeiro 16, 2008

Inverno


Hoje apetece-me Inverno (hoje apetece-me Eugénio...)

Quero ficar dentro de casa e apenas observar, pela janela, a chuva que cai, em abundância, lá fora.

Quero ficar enroscada no sofá, frente à lareira que, para além de me oferecer o calor de que preciso, me faz sonhar, imaginar histórias que um dia poderei vir a escrever, enquanto observo as labaredas que vão executando o seu eterno bailado.

Quero beber um chá quente, entre a leitura de poemas de Eugénio de Andrade e a constatação da chuva que continua a caír, lá fora, e do fogo que continua a arder, cá dentro.

Quero sentir-me protegida, confortável, segura ... mau grado o ameaçador som do vento que, rugindo com fúria, prenuncia um vendaval.

Hoje apetece-me Inverno (hoje apetece-me Eugénio...).

terça-feira, outubro 31, 2006

Memórias de um Bacalhoeiro

Avistá-lo já é um encanto;
aproximar-me dele, saber que vou pisar o seu convés e sentir o seu doce baloiçar, uma ansiedade crescente.

Admirar a beleza do leme, reprimir a vontade de lhe tocar: o receio de que os meus dedos, ignorantes dos seus profundos mistérios, profanem, com um simples gesto, a memória intocável dos seus muitos segredos.


Avançar até à proa, guardando secretamente, com mal-contida emoção, a visão quase furtiva da ilha do paraíso.

Deambular por entre os mastros, as cordas, arriscar uma descida pela escada íngreme a que a porta aberta convida.


Partilhar uma aguardente, em amena cavaqueira, com os velhos lobos do mar. Eles sim, com a cabeça repleta de recordações dos tempos em que o amigo bacalhoeiro os transportava a outros mares, outras paragens; aventuras de uma vida que levariam a vida toda a contar.

Deixar a ilha para trás: outras gentes, noutros lugares, esperam a chegada do bacalhoeiro para, também elas, sonharem as memórias do antigo barco de pesca.


Esta é a minha sentida homenagem ao Creoula, e a todos os marinheiros e pescadores que, a bordo deste navio, dedicaram as suas vidas à captura e transporte do bacalhau para alimentar o povo da nossa terra que, como nenhum outro, soube glorificar este peixe e transformá-lo numa iguaria sem par em qualquer outro lugar do planeta.