Foto de António Rodrigues
Tenho tantos nomes que já lhes perdi a conta.
Sei que já fui Luís, Manuel, Diogo, José, Francisco e até Joaquim.
Também fui Julieta, Margarida, Leonor, Isabel e talvez mesmo Idalina.
Posso ser muito mais gente, com outros nomes, outras vidas, noutros lugares.
Consigo falar qualquer língua, ter vindo de qualquer sítio, estar de partida para onde quiser.
E, no entanto, sou sempre eu.
Este rosto que vejo ao espelho, este corpo que me enclausura, esta âncora que sou incapaz de soltar.
Por vezes, sento-me no alto de um penhasco, à beira-mar.
Despeço-me do dia que finda e da persona que me habitou.
Uma dor aguda oprime-me o peito, seca-se-me a garganta e a respiração torna-se penosa.
Quase sufoco, enquanto uma lágrima, que não seguro, me queima a face.
Quase sufoco, enquanto uma lágrima, que não seguro, me queima a face.
Sei agora (sempre soube) que sinto saudades de quem parte. Temo que não regresse.
Tenho medo de ficar a sós comigo.
Afinal, eu sou só eu. E isso é muito pouco.
Volto a encontrar-me no reflexo deste rosto, na prisão deste corpo, que me transporta.
Adensa-se o receio de jamais conseguir içar a âncora.




Deambular por entre os mastros, as cordas, arriscar uma descida pela escada íngreme a que a porta aberta convida.
