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domingo, abril 02, 2017

sábado, maio 28, 2016

O Planeta Verde



Este texto foi escrito, e publicado na minha página do Facebook, no dia 13 de Janeiro de 2014. Na altura não o partilhei neste espaço porque, por razões que eu própria desconheço, tinha este meu blogue inactivo. Senti, agora, chegado o momento de o adicionar a todos os outros textos que aqui tenho divulgado.

O PLANETA VERDE
Meu querido Papá,
Hoje é o 7º dia após o seu falecimento e, talvez também por isso, esta noite lembrei-me de mais uma das muitas coisas que ao longo das nossas vidas tivemos em comum. Sim, ambos gostámos sempre muito de dormir e isso talvez porque, para ambos, dormir significa sonhar. E nós sempre tivemos a ventura de ter sonhos lindos, maravilhosos, fantásticos e, em sequência, sempre nos deu imenso prazer partilhá-los. Claro que também sonhamos acordados mas, neste caso, reporto-me especificamente aos sonhos ocorridos durante o sono.
Lembro-me, claramente, da primeira vez em que nos falou de um sonho fabuloso, talvez o mais extraordinário que alguma vez havia tido. Eu e os meus irmãos, ainda crianças, ouvíamos, extasiados, à volta da mesa do almoço, os prodígios, até ali inimagináveis, que o Papá nos contava sobre um incrível Planeta Verde, repleto de formosuras e encantos só comparáveis, para nós, aos dos contos de fadas.
Fui sabendo, no decurso do tempo, que as suas visitas nocturnas a este planeta se tornaram recorrentes, e que este era um dos locais preferidos de devaneio do seu inconsciente, enquanto dormia.
De tal forma se tornou um hábito, que fui crescendo com a nítida certeza de que, pelo menos para si, e para mim, por simpatia, este planeta existia mesmo. Confesso que, sem qualquer ponta de ciúme, cheguei a imaginar que nele tinha constituído uma segunda família, em quase tudo semelhante à nossa, com a diferença de que mais feliz, porque lá, no Planeta Verde, seria tudo mais perfeito: sem poluição, sem guerras, sem desigualdades sociais, sem mesquinhez, porque um planeta exemplar só poderia ser assim. Sei que o Papá, por mais de uma vez, chegou a dizer-nos "Gostava tanto de vos levar lá!".
Mais tarde, após ter lido "A Utopia", de Thomas More, recordo-me de ter pensado que o seu Planeta Verde conseguia ser ainda mais irrepreensível do que a ilha do escritor inglês, porquanto nessa existia escravatura, o que não sucedia no seu lugar de eleição.
Hoje, exactamente uma semana após a sua partida, gosto de pensar que, por fim, conseguiu viajar irreversivelmente para o seu Planeta Verde, e que não precisa mais de acordar como um comum terráqueo, neste Planeta a que, orgulhosamente, nos habituámos a chamar azul, apesar de tanto o maltratarmos. Sinto, igualmente, uma alegria ímpar quando penso que, um dia, quem sabe, poderá ser que me junte a si nesse planeta de sonho, quando o sono final sobre mim também se abater e a nossa cumplicidade onírica, enfim, se cumprir.
Aproveite bem, enquanto eu não chegar, meu querido Pai.
Depois, quando eu também já for habitante desse lugar de belezas únicas, desfrutá-lo-emos juntos. Que contentamento há-de ser o nosso, tenho a certeza!
Até lá... com muito, muito, muito Amor!
Fami
P.S: Seja quanto tempo for, vai passar num instante, face à eternidade que teremos, para nele podermos viver intensamente a felicidade!

segunda-feira, março 19, 2012

19 DE MARÇO... E O PAI?



Era o primeiro Dia do Pai desde que o seu havia partido para sempre.
Na escola, há alguns dias que, sob orientações da professora, meninas e meninos tinham dado asas à sua criatividade e preparavam, com determinação e carinho, o presente que iria pintar um imenso sorriso no rosto do seu progenitor. 
Durante quase um dia inteiro, Duarte não conseguiu por mãos à obra, indeciso relativamente à posição a tomar perante a inexistência do pai vivo, mas igualmente incapaz de enfrentar, perante amigos e professora, a dura e cruel realidade da sua morte prematura, que nele havia deixado um estigma, uma cicatriz a ferro e fogo marcada.
Por fim, sem o entusiasmo radiante dos colegas, mas sem, por outro lado, dar mostras de contrariedade, o menino foi dando forma ao seu presente: numa cartolina vermelha tinha desenhado uma gravata. Depois, tinha-a recortado e, no suposto lugar do nó, tinha colado uma pequena moldura redonda, dentro da qual estava uma fotografia sua, recentemente tirada pelo fotógrafo da escola com esse mesmo propósito. Como remate, uma argolinha metálica permitia que pudesse ser pendurado num minúsculo prego, em qualquer parede.
Estava feito, portanto!
Chegado a casa, deu um apressado beijo no rosto da mãe e correu a refugiar-se no quarto, onde permaneceu num silêncio pouco habitual.
No quarto ao lado, a irmã estudava e, também ela particularmente taciturna nesse dia, secretamente entregue ao seu habitual sentimento de saudade, não deu mostras de ter notado que o irmãozinho mais novo tinha regressado da escola.
A mãe, atarefada com o jantar, não saiu da cozinha para tentar perceber a razão de tamanha urgência em passar despercebido.
Volvida uma meia hora, Duarte percorreu, pé ante pé, o corredor. Entrou na cozinha e, sem uma palavra, postou-se ao lado da mãe, que se encontrava perdida entre as folhas de couve e as lágrimas provocadas pela severa acidez de uma cebola, semidescascada.
Ao aperceber-se da sua silenciosa presença, a mãe olhou para Duarte. Viu o braço completamente estendido na sua direção e, na palma da mão, um embrulho com um laço.
Não percebeu imediatamente. Perguntou: “o que é isso?”.
Duarte encolheu os ombros, com um sorriso triste, e esticou ainda mais o braço, como que a dizer: “abre e não perguntes mais nada”.
A mãe secou as mãos, pegou no embrulho e abriu-o, intrigada. Ao ver o presente, deu graças por não estar a descascar uma cenoura, uma batata, ou mesmo um alho francês. Baixou-se e abraçou Duarte, murmurando “obrigada, querido filho, é lindo”. Fungou e limpou a face da criança, sorrindo, enquanto refilava “estas cebolas são mesmo agressivas. Da próxima, não trago das roxas”.
Deu a mão a Duarte e dirigiu-se ao quarto onde, na porta, uma pequena placa continuava a indicar “Quarto dos Pais”. Disse-lhe: “vamos já pendurar a tua fotografia. Estás tão bonito!". De seguida, chamou: "Mariana, anda ver o trabalho lindo que o mano trouxe."
Notou apenas para consigo que, desta vez, o presente não se tinha feito acompanhar do cartão que, invariavelmente, ostentava a frase: “Para o melhor Pai do Mundo”.


Imagem: web



terça-feira, janeiro 06, 2009

Reencontro na Serra Nevada



Quando chegaste, trazias a roupa molhada e alguns flocos de neve ainda por derreter, no cabelo.

Nada perguntei.

Puxei um banquinho para o pé da lareira e disse "senta-te." Depois, fui buscar uma toalha e acabei de te secar o cabelo negro e luzidio. Apeteceu-me roçar nele o meu rosto, beijá-lo, descer um pouco a minha boca e beijar também os teus olhos fechados.

De seguida, se as tuas pálpebras continuassem cerradas, os meus lábios desceriam até aos teus, e neles selariam um gesto de amor, num beijo doce e interminável.

Mas olhaste-me, de frente, no espelho sobre a lareira, e fiquei sem jeito. Perguntei-te se a neve estava boa para esquiar, se a prova te tinha corrido bem, se tinhas ganho algum prémio.

Sorriste e disseste: "não... faltavas lá tu." Puxaste-me para ti e disseste "ainda não acreditas que és o grande amor da minha vida!?"

Eu consegui libertar-me, a contragosto, com movimentos suaves, acreditando, no entanto, nas tuas palavras porque, da mesma forma, tu eras o homem que eu mais tinha amado, por quem tinha sentido emoções mais fortes e profundas de entre os que conheci - a pessoa que em mim tinha despertado sensações mais arrebatadoras e inolvidáveis e por quem mais sofri quando decidimos que tudo tinha terminado.

E agora? O que fazer? Voltar atrás era impensável! Como dizia Heraclito "Ninguém se banha duas vezes nas mesmas águas de um rio".

Sorriste-me longamente e olhaste-me nos olhos. Por fim, beijaste-me na testa e murmuraste "Até sempre".


Saíste a porta e seguiste pelo carreiro recentemente limpo da neve. Fiquei a observar-te até mais não ser visível de ti senão um pontinho minúsculo no horizonte. Lágrimas frias rolavam-me pelas faces quentes. Não sei se assim era, mas gostei de pensar que, no vulto de gente que eras, lá ao longe, rolavam lágrimas quentes pelas tuas faces geladas.

domingo, novembro 23, 2008

À Luz da Leitura


Taça de Luz V - foto de Paulo de Carvalho
No endereço
http://psdecarvalho.multiply.com/calendar/item/10009/10009,
pode encontrar-se o texto que passo a transcrever:

Quote
Dia 13 de dezembro de 2008
Local: Centro Cultural do Serpro - Lapa - RJ

Em Almoço de Confraternização promovido pela Associação dos Ex-alunos do Instituto Benjamin Constant, será feita a entrega dos 50 cd´s do Projeto À Luz da leitura como presente de final de ano aos Deficientes Visuais. Os cd's terão o formato de página da WEB, contendo na Home Page um texto alusivo ao Projeto, texto da Instituição, Relação dos Poetas/escritores participantes em forma de link (todo o conteúdo estará no próprio cd).

Ao clicar no nome de cada um dos Poetas/participantes, os usuários navegarão até a página do respectivo autor onde terão acesso aos Dados do Autor (com link para as respectivas páginas e/ou blog na internet), poemas falados e na forma de texto.

Poetas/escritores participantes:
1- Abigail
2- Alberto Pereira
3- Eliana Mora
4- Fabio Rocha
5- Graça Pires
6- Maria Carvalhosa
7- Mariana Botelho
8- Mercedes Lorenzo
9- Paulo de Carvalho
10- Pavitra

obs 1: O Projeto À Luz da leitura é SEM FINS LUCRATIVOS e NÃO INSTITUCIONAL.
obs 2: O formato do projeto em cd foi desenvolvido por Paulo de Carvalho.

Obrigado a todos.
Atenciosamente,
Paulo de Carvalho
Unquote


Gostaria de aqui salientar que este projecto só foi possível graças à imensa generosidade, espírito de entrega e de solidariedade, bem como de exemplo de humanidade, por parte de quem o concebeu e liderou: o meu amigo Paulo de Carvalho, por quem tenho a maior das admirações.

Agradeço, igualmente, a todos os outos escritores/poetas que tenho a honra de ter como co-participantes nesta iniciativa, muito especialmente aos queridos amigos Graça Pires e Alberto Pereira que, mediante a minha sugestão, imediatamente aceitaram o convite do Paulo e disponibilizaram toda a sua obra poética para esta causa.

É com muita alegria que divulgo a materialização de tão nobre projecto e com genuíno orgulho que me
encontro nele inserida.

Obrigada, Paulo.

terça-feira, novembro 11, 2008

A irrelevância de um prefixo


Julguei conhecê-la. Vagamente. Passou-me ao lado na vida. Cruzámo-nos, algumas vezes.
Doutras, chegámos a estar tão próximas como estou da minha imagem num espelho.

Nunca gostei dela.
Nem ela de mim, suponho.

Agora, suporto-a melhor. Afinal, acabámos por envelhecer juntas e, se eu pensava que ela me tinha passado ao lado na vida, estava enganada: foi a seu lado que a minha existência sempre se desenrolou.

Não é a minha sombra, muito menos o meu reflexo. É a minha antítese, o contra-ponto com o qual convivo todos os dias e que me influencia de tal modo subreptício que chega a tomar, por mim, decisões que afectam, irremediavelmente, o meu quotidiano e medidas de longo prazo.

Cheguei a ter medo dela.
Agora é quase afeição o sentimento que desperta em mim.

Noutros tempos, quando pensava nela, só me ocorriam palavras começadas por "in" para a qualificar e, sem recorrer ao dicionário, saíam-me, de enxorrada, uma lista de defeitos que, dirigidos a alguém de verdade, soariam a insultos:

insensível
incapaz
indolente
inflexível
insuportável
indecorosa
incompetente
ingrata
insatisfeita
inconstante
inconsciente
incontrolável
inconsequente
incompreensível
inconsistente
indisciplinada
inconveniente
incorrecta
infernal
infecta
insana
insonsa
interesseira
impudente
intolerável
infiel
...

e poderia ficar a desfiar o rosário durante horas.

Mas que perda de tempo, penso hoje. E dou comigo a tentar encontrar-lhe qualidades, todas igualmente começadas pelo prefixo "in"que, dirigidas a alguém de verdade, poderiam soar a elogios:

inteligente
insubornável
interessante
inspiradora
incansável
insinuante
inovadora
inigualável
informada
ingénua
influente
infalível
irresistível
intensa
inaudita
independente
indestrutível
indulgente
incisiva
indescritível
instruída
inimitável
inesquecível
inocente
inestimável
insubstituível
...

e, mais uma vez, a lista poderia alongar-se até ao limite da vontade.

Sei que um dia partiremos juntas. Julgo igualmente saber que, quem nos recordar, não saberá de qual de nós fala, nem sequer que éramos duas, de cada vez que utilizar um dos adjectivos da primeira ou da segunda lista. Pouco me importa se isso suceder. Não seremos nós, na verdade, as duas faces de uma mesma moeda?

Margarida Costa in "A Outra"

quinta-feira, outubro 09, 2008

Mentira


Hieronymus Bosch - O Julgamento Final

A mentira do tempo.
O olhar perdido no espaço,
também ele imaginado.
A fuga enquanto solução temporária.
A mentira da vida.
A vida inteira numa mentira.
A suspeita, a dúvida, a incerteza.
O engano, o medo, a traição.
A ténue linha
que separa o sonho do real.
O pesadelo como real,
sem linha a separá-lo de um real outro.
A falácia da paixão eterna.
A mentira dentro da mentira.
O inferno da vida.
A descrença em algo diferente da vida no inferno.
O desejo, a tentação, o julgamento, o castigo.
A loucura como desculpa
para o inexplicável.
As noites infindáveis e os dias sem sol.
A mentira do amor.
A frase nunca proferida,
mil vezes ouvida,
ecoando, ininterruptamente, na mente transtornada:
"Já não é pra ti que eu corro,
não será por ti que morro".
A mentira da mentira.
Eu...

Margarida Costa in "A Outra"

quinta-feira, julho 31, 2008

A Tela da Vida


João Cristino da Silva (1829-1877)
Cinco Artistas em Sintra - 1855
Óleo sobre tela, 863 x 1288mm

"A obra Cinco Artistas em Sintra é, indiscutivelmente, uma obra emblemática do Romantismo português. Trata-se do primeiro retrato de grupo na pintura, foi elaborado com o objectivo de representar Portugal na Exposição Universal de Paris em 1855.Nela podemos observar cinco artistas rodeados por gente do povo e num ambiente agreste.A composição foi esboçada no local e apresenta-se de forma cenográfica, sugerindo o processo de trabalho típico do romantismo: pintura de paisagem ao ar livre, recolhida "do natural" e, posteriormente, elaborada em atelier. Esta obra é uma homenagem ao mestre Tomás de Anunciação que está no centro da composição (a pintar), e junto dele Francisco Metrass, com adereços do próprio autor - Cristino da Silva, que os gostava de exibir (chapéu à Rubens e capa larga). No segundo grupo encontramos Vítor Bastos (escultor), José Rodrigues (pintor), sentado no chão e Cristino da Silva (o autor da obra), encostado à rocha, elaborando um esboço, em pose artística.Nesta tranquila paisagem destaca-se o rochedo que de alguma forma confere unidade e coesão à obra. A presença de aldeãos que olham fascinados para o trabalho do senhor da cidade, representa uma espécie de ideal de ruralidade que fascinava os representantes do Romantismo português. Ao fundo, vislumbra-se o Palácio da Pena, um dos símbolos máximos do Romantismo, edificado por D. Fernando. As cores do quadro são terrosas, com predominância de tons de verde e castanho, sem grandes contrastes. A iluminação é estudada, dando o tom dourado de fim de tarde a toda a composição."

(Texto extraído de "Museus na Escola" museusnaescola.eselx.ipl.pt/static/instance/M...)


A Tela da Vida

A nossa vida é uma tela,
uma tela de mil cores,
todos nós pintamos nela,
somos bons ou maus pintores.

Com mais ou menos talento,
com tinta clara ou garrida,
por vezes com desalento
pintamos a nossa vida.

Há quem pinte com amor;
há quem pinte com paixão;
só não sabemos dar cor
ao que sente o coração.

Sabemos nós qual a cor
para pintar a amizade?
que tons daremos à dor?
como se pinta a saudade?

Ai, pobre de quem na vida
só tem negro p’ra pintar:
uma tela entristecida,
feita talvez a chorar.

(poema da autoria de Maria Teodora)

terça-feira, julho 15, 2008

A sensualidade na poesia feminina do Japão - "O Tanka"



PERÍODO HEIAN NO JAPÃO - FINAL DO SÉCULO VIII ATÉ FINAL DO SÉCULO XII - (Plena Idade Média na Europa)

A forma poética "tanka" constituída por 31 sílabas japonesas de apresentação vertical, é apresentada em tradução nas línguas ocidentais por cinco linhas que, mantendo tanto quanto possível o registo sonoro original, correspondem a cinco versos metricamente alternados de 5,7,5,7,7 sílabas.

As duas autoras que nos são apresentadas por Luísa Freire, Ono no Komachi (834? -?) e Izumi Shibiku (974? - 1034?) "foram as grandes representantes da poesia da corte de então e marcos importantes na poesia japonesa de todos os tempos que, ao longo dos séculos, se foram tornando uma lenda e uma referência. [...] " Ambas são figuras centrais dessa Idade de Ouro, durante a qual as mulheres escritoras tiveram um papel decisivo na fixação do japonês como língua poética".

[...]

"Há mil anos, a cidade capital Heian-Kyo (hoje Kyoto) era mais populosa do que qualquer cidade da Europa e um dos centros altamente civilizados do mundo. Os aristocratas aspiravam ao favor político que lhes trouxesse posição e poder e as filhas dessas famílias eram mandadas aos catorze anos para a corte, para servir os membros imperiais. Como era através do casamento que a sua posição e o seu estatuto se afirmavam, as raparigas eram cuidadosamente educadas e cultivadas para, esteticamente, competirem com os homens em termos de igualdade. Na corte, divertiam-se e divertiam a imperatriz com música e versos, mas a sua atenção ia para os assuntos do coração. Os "casos amorosos" eram aceites às mulheres solteiras e a poligamia era habitual nos homens. Assim sendo, compreende-se que o erotismo fosse tópico literário, reflectindo todo o ambiente que se vivia."

Passo, então, a transcrever, apenas à laia de exemplo, alguns dos tanka que considero de maior beleza e sensibilidade amorosa:



De Komachi:


Será que apareceu

só porque eu adormeci

a pensar nele?

Se eu soubesse que sonhava,

nunca teria acordado.

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Quando o meu desejo

se torna intenso de mais,

visto a roupa de dormir

virada pelo avesso,

escura casca da noite.

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O meu desejo de ti

é forte para contê-lo -

assim ninguém vai culpar-me

se à noite for ter contigo

pela estrada dos meus sonhos.

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Não há como vê-lo

nesta noite sem luar -

estou deitada e desperta,

os seios ardendo em desejo

e o coração em chamas.

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A noite mergulha

com um veado a chamar

em som agudo

e, ao ouvi-lo, escuto

um lado do próprio amor.

-----------------------------------------

Pescador não deixa

a baía plena de algas...

Vais abandonar

este corpo flutuante

à espera das tuas mãos?

---------------------------------------

Triste a pescadora que,

longe, na Baía Suma,

perdeu um remo do barco -

assim é este meu corpo

sem ter a quem recorrer.

---------------------

Nos campos de Outuno,

se uma centena de flores

solta suas cores,

não posso também gozar

sem ter medo da vergonha?

-----------------------
Este meu corpo

tão frágil e flutuante,

é uma cana sem raízes...

Se um rio acaso pedir

que o siga, eu acho que irei.


Fim da selecção de Komachi


DE SHIKIBU:

Deitada e sozinha

de cabelo negro solto

e emaranhado,

sinto desejo daquele

que primeiro o veio tocar.

----------------------

Porque não terei

pensado nisto já antes?

Este corpo meu

ao recordar tanto o teu

tem a marca que deixaste.

----------------------

Não há diferença -

a borboleta nocturna

que se veio queimar,

e aqui este meu corpo

que o amor veio transformar.

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Não fiques corado!

Todos adivinharão

que dormimos juntos

sob as pregas enrugadas

deste manto avermelhado

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Se o cavalo dele

tivesse sido domado

pela minha mão -

eu tê-lo-ia ensinado

a não seguir mais ninguém.

---------------------------------------------

Sem ser perturbado,

o meu jardim fica cheio

de mato estival -

como eu desejo que alguém

desbrave a erva profunda!

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Desejando vê-lo

para ser vista por ele -

se ele ao menos fosse

o espelho onde eu me olho

e que olho cada manhã!

---------------------------------------------

A gota de orvalho

permanece mais tempo

na folha de bambu

do que tu, que logo partes

antes do amanhecer.

----------------------------------------------

Este coração

de tanto te desejar

vai-se quebrando

em milhares pedacinhos -

mas nem um só vou perder.

----------------------------------------------

Mesmo quando um rio

de lágrimas atravessa

e molha este corpo,

não chega para apagar

todo o fogo do amor.

----------------------------------------

Penso: "nos meus sonhos

poderemos encontrar-nos"...

Virando a almofada,

eu ando às voltas na cama

incapaz de adormecer.

-----------------------------------------------

Deixada aqui

a envelhecer no mundo

sem ti ao meu lado,

as flores perdem a beleza

tingidas de negra cor.

---------------------------

Meu corpo perdido

só conhece agora a noite -

por isso as mangas no escuro

permanecem encharcadas,

impossíveis de secar.

-----------------------------

Ao lembrar-me de ti...

Os pirilampos do campo

parecem centelhas vivas

que se desprendem e soltam

dos desejos de meu corpo.


Fim da Selecção de Shikibu


quarta-feira, junho 04, 2008

Poema ao Sol














(Willows at Sunset - Vincent van Gogh)



Te bendigo, ó Sol, que a beijar aqueces
esta terra sedenta dos teus beijos.
Em cada amanhecer quando apareces
palpita nela a vida em mil desejos.

Desponta o Sol radioso, cintilante
em cristais d’orvalho, a manhã começa;
bela, a flor abriu, sorriu deslumbrante
à luz que se espalhou numa promessa.

Crescem os cardos em qualquer lugar:
no chão mais pobre, áspero e daninho;
ao calor do Sol vão desabrochar
humildes flores na poeira do caminho.

Da terra brota água fresca e pura;
mas a semente que um dia alguém semeia
o Sol lhe dá vida, dá-lhe altura,
e cada vida é chama que ele ateia.

Tens o poder criador, ó Sol bendito,
a louvar-te sempre em cada hora, insisto;
és fonte de vida, bem infinito,
é porque tu existes que eu existo.

E quando no horizonte o Sol desmaia
ao fim da tarde, luminosa e quente,
- como se coada em fina cambraia -
cai sobre a terra a luz doce do poente.


(Maria Teodora)

quarta-feira, maio 21, 2008

Sou Rio (Sorrio)


Sou rio.

Broto da escarpa rochosa:
ténue fiozinho de água
deslizando pela encosta,
molhando fragas e arbustos
até alcançar o vale
na procura de um riacho.

Irmãos-de-água fundidos
corremos alegremente,
na inocência da infância,
cantando e rumorejando
por sobre as pedras do leito
que nos indica o caminho.

Engrossei o meu caudal,
já tenho curvas e praias.
Rápidos alucinantes,
num rodopio de volúpia,
precipitam-me na queda
em vertiginosa cascata,
numa lagoa serena.

É dali que parto, eufórico,
enriquecido pelas águas
de outros rios solitários
que comigo se reúnem
e num só se consolidam:
imenso, forte, profundo.

Em desassossego e exaltação
o mar agora procuro
para nele, em largo manto,
consumar o meu destino:
confundir os nossos fluidos,
acertar nossas marés.

Sou rio.

(De costas voltadas
para a porta
pressinto a tua chegada:
aproximação doce e suave
que me faz estremecer
em prazer antecipado.

Enlaças-me pela cintura,
teu rosto encostado ao meu cabelo.
Um murmúrio terno e quente
me roça ao de leve o ouvido.
Lábios macios e ardentes
beijam-me a nuca, ansiosa.

Rio que sou, a ti me entrego:
Estuário vigoroso, excessivo, apressado
que o teu mar acolhe em festa.

Sorrio.)

quinta-feira, abril 17, 2008

Na paz da aldeia

Camille Pissaro
Era uma aldeia pacata. Os velhos, acomodados nas suas casas de originais telhados azuis, olhavam para os pomares floridos e sorriam: "mais uma primavera". Os novos, cansados do que consideravam a intediante tranquilidade da vida no campo, fugiam para a cidade, à primeira oportunidade de estudos ou trabalho. Alguns voltavam, por escassos dias, nas férias, e logo tornavam a partir.

Eugénia e Faustino eram um casal de meia-idade, sem filhos. Trabalhavam no campo, nos terrenos que haviam sido dos pais de ambos e dos respectivos avós antes destes. Mais para trás não sabiam e o facto pouco ou nada lhes interessava. Contentavam-se com a retribuição que a terra lhes dava, não conheciam outros lugares, a não ser as aldeias das redondezas e a vila onde, de quando em vez, se deslocavam para tratar de assuntos importantes, como pagar as contribuições, ou comprar uns pares de botas, para substituir os velhos botins por onde a água já entrava, quando os pés se lhes enterravam na lama.

Tinham aprendido a ler e a escrever na escola local, agora fechada, por ausência de crianças que a frequentem. Para além dos livros escolares, impecavelmente arrumados numa gaveta, não existiam mais livros lá em casa, com a devida excepção do missal, ao qual davam uso aos Domingos, altura em que aproveitavam para vestir alguma roupita nova, comprada nos saldos dos restos da colecção passada na loja da vila, da última vez que lá haviam ido.

Naquela quinta-feira, de manhã bem cedo, Faustino saíu de casa, sachola ao ombro, pronto a ir cortar umas ervas daninhas que circundavam as floridas árvores do pomar em frente à casa. Eugénia manteve-se na cozinha, a arrumar a loicita do pequeno-almoço e a dar umas vassouradas nas migalhas que pejavam o chão, de ambos os lados da mesa.

De repente, no silêncio da aldeia ainda semi-adormecida, ouviu-se um grito de horror.

Em poucos minutos, os poucos habitantes da aldeia, tinham-se juntado a Faustino e contemplavam, com expressões faciais que íam do espanto ao terror, os restos mortais daquela cabrinha preta, que pertencia ao tio Joaquim e jazia, pele e osso esticados, por baixo de uma ameixeira.
"Só pode ter sido obra do chupa-cabras..., deixou-a sequinha por dentro!" comentou a Alexandrina, que aproveitava a ocasião para fazer jus à sua fama de bem-informada.
"Mas se eu tenho a certeza de que a fechei ontem com as outras no curral, mulher! Como pode ela ter escapado?" perguntava o Joaquim, perplexo, coçando a cabeça, para voltar a enfiar nela o boné.

"Ai Deus nos livre de o mafarrico andar por aí outra vez!" sussurrou, benzendo-se, uma septagenária vestida de negro.

"Não diga disparates, tia Henriqueta, que uma coisa destas nunca se viu", ripostou Faustino. "Cá para mim, isto é mas é obra dos extra-terrestres. Noutro dia lá na vila ouvi dizer que tinham aparecido umas reportagens na televisão e que eles andam por aí."
"Pois foi", acrescentou Eugénia, "até nos disseram que apareceram pessoas a contar que tinham visto luzes estranhas e objectos a passar por cima das casas, sem barulho nem nada, que até pareciam coisas do outro mundo".

"E eram", a velha Henriqueta voltava a falar, "vai tudo dar no mesmo. Vocês não me acreditam, mas o mafarrico pode tomar as formas mais esquisitas. Coisa deste mundo é que isto não é. Ora olhem-me lá para o pobre animal! E como é que ele pode aqui estar se o Joaquim tem a certeza de tê-lo fechado com os outros bichos ontem à tarde, não me dirão?"

Durante alguns momentos fez-se silêncio. Por fim, o Faustino disse:
"Bom, não vamos ficar aqui todo o dia a olhar para a cabra morta. Vamos tratar de enterrá-la e ir à nossa vida, que temos mais que fazer".
Os outros concordaram e estavam já a abrir a cova quando a tia Henriqueta deu um grito:

"Esperem. Deixem, ao menos, chamar o padre João para benzer o bicho."
"Benzer uma cabra, tia Henriqueta? perguntou Eugénia, atónita, "nunca tal se ouviu dizer".
"Não é bem por causa da cabra, que eu também não acredito que ela tenha alma, é para afastar os espíritos deste sítio, para expurgar a maldição com água-benta, para correr com o chupa-cabras, o mafarrico, os extra-terrestres ou seja lá o que for... mal não faz, e sempre a gente volta para casa mais descansada."

"Está bem, tia Henriqueta", disse Faustino, condescendente. "A Eugénia dá lá um pulinho a chamar o padre que, a bem dizer, também devia ter aparecido por aqui!... " Riu-se com ar maldoso e comentou, virando-se para os homens: "mas a esta hora ainda deve estar com os pés quentinhos, enrolado na "prima Clementina", que lhe cuida da casa e não só!..." os outros riram-se a bom rir. As mulheres encolheram os ombros, abanaram as cabeças a olhar umas para as outras e debandaram para as suas casas.

Só a tia Henriqueta, arrastando-se com a bengala, ainda vociferou para o Faustino, antes de abandonar a cena "Ah, língua viperina! Ainda hás-de ser castigado por essa blasfémia" e foi-se, sempre a resmungar "ora não querem lá ver... coitado do Padre João, quem é que havia de tomar conta dele se não fosse aquela prima com um coração abençoado? Deus nos livre de caír na boca deste povo!".

domingo, abril 13, 2008

Berlenga - Reserva da Biosfera

Transcrição de uma Nota de Imprensa divulgada pela Câmara Municipal de Peniche:


Peniche prepara candidatura da Berlenga a Reserva da Biosfera (UNESCO)

O Município de Peniche pretende que o Arquipélago da Reserva Natural das Berlengas seja classificado como Reserva da Biosfera no âmbito do programa “Man and Biosphere - MAB” promovido pela UNESCO. O primeiro passo será dado no próximo dia 14 de Abril de 2008, com a assinatura do protocolo de colaboração entre as entidades responsáveis pela elaboração do dossier de candidatura, nomeadamente Câmara Municipal de Peniche, o Instituto do Ambiente e Desenvolvimento (IDAD – Universidade de Aveiro), o Instituto Conservação da Natureza e Biodiversidade e o Instituto Politécnico de Leiria – Escola Superior Tecnologia do Mar (Peniche). Até ao final do ano de 2008 será elaborado o respectivo dossier de candidatura, esperando-se que a Berlenga seja classificada como Reserva da Biosfera em Abril de 2009. De modo a fomentar o Desenvolvimento Sustentável, a promover e demonstrar o equilíbrio entre as relações do Homem com a Biosfera no Arquipélago da Reserva Natural das Berlengas, o Município de Peniche irá apresentar em 2009 à UNESCO uma candidatura do Arquipélago das Berlengas ao galardão Reserva da Biosfera. Para a elaboração do dossier de candidatura, o Município de Peniche convidou um conjunto de entidades para elaborar a mesma - Instituto da Conservação da Natureza e Biodiversidade (ICNB), Instituto do Ambiente e Desenvolvimento (IDAD – Universidade de Aveiro) e a Escola Superior de Tecnologia do Mar (ESTM) – Instituto Politécnico de Leiria. A assinatura do protocolo de colaboração decorrerá no próximo dia 14 de Abril, 15 horas, no Salão Nobre da Câmara Municipal de Peniche. Nesta cerimónia estarão presentes os mais altos representantes das instituições que integrarão esta parceria.


segunda-feira, fevereiro 04, 2008

Pablo Neruda


Neruda - José Juan Torres (clicar para aceder ao link em que se ouve a excelente declamação de J.J. Torres)

Este post é dedicado à minha filha Sara, que faz hoje 25 anos e que, durante a sua infância, muitas vezes me ouviu "dizer" este poema. Também o dedico ao meu pai, que fez 78 anos no dia 31 de Janeiro e que, porque gostava de me ouvir "dizê-lo", tem-no gravado num dos seus álbuns de recordações áudio.

Parabéns a ambos, com todo o meu amor.


"Posso escrever os versos mais tristes esta noite "
Posso escrever os versos mais tristes esta noite.

Escrever, por exemplo: "A noite está estrelada, e tiritam,
azuis, os astros lá ao longe".

O vento da noite gira no céu e canta.

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Eu amei-a e por vezes ela também me amou.

Em noites como esta tive-a eu nos meus braços.
Beijei-a tantas vezes sob o céu infinito.

Ela amou-me, por vezes eu também a amava.
Como não ter amado os seus grandes olhos fixos.

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.

Pensar que não a tenho.
Sentir que a perdi já.

Ouvir a noite imensa, mais imensa sem ela.
E o verso cai na alma como no pasto o orvalho.

Importa lá que o meu amor não pudesse guardá-la.
A noite está estrelada e ela não está comigo. Isso é tudo.

Ao longe alguém canta. Ao longe.
A minha alma não se contenta com havê-la perdido.

Como para chegá-la a mim, o meu olhar procura-a.
O meu coração procura-a e ela não está comigo.

A mesma noite que faz branquejar as mesmas árvores.
Nós dois, os de então, já não somos os mesmos.

Já não a amo, é verdade, mas tanto que a amei.
Esta voz buscava o vento para tocar-lhe o ouvido.

De outro. Será de outro. Como antes dos meus beijos.
A voz, o corpo claro. Os seus olhos infinitos.

Já não a amo, é verdade, mas talvez a ame ainda.
É tão curto o amor, tão longo o esquecimento.

Porque em noites como esta a tive nos meus braços, a minha alma não se contenta com havê-la perdido.

Embora esta seja a última dor que me causa, e estes sejam os últimos versos que lhe escrevo.

Pablo Neruda in "Vinte Poemas de Amor e uma Canção Desesperada"

sábado, janeiro 19, 2008

Despertar

Nota prévia: decidi publicar nesta data este poema da tia Mariazinha por ser hoje o aniversário das suas duas filhas gémeas - Sílvia e Isabel (minhas primas igualmente muito queridas).
Parabéns à mãe e às filhas!


Chegou a Primavera verde e florida
e caprichosa pôs em cada flor
doce harmonia de perfume e cor
... mágico acordar da terra adormecida.

Vibrante despertar do secreto sono
em manhã de sol de sublime encanto
no cantar das aves... só que entretanto
tudo empalidece em chegando o Outono.

Mas se há em nós um verão - fruto maduro,
saboreemo-lo no seu aroma puro
enquanto tem sabor e apetece.

Porque a vida é um sopro... morre num ai;
fôlego que mal se respira... s' esvai,
efémera luz que logo desvanece.

Maria Teodora
Agosto de 2007

sábado, dezembro 15, 2007

A Insustentável Leveza do Ser - Milan Kundera


Pág. 165, 5ª linha (Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1985, tradução de Joana Varela)

"Porque quero olhar para si, disse o adolescente. Amo-a".

terça-feira, agosto 21, 2007

Dimensões


Post publicado (com diferenças mínimas, que ninguém se dará ao trabalho de procurar) no meu blogue A Palavra e a Imagem, em 01/08/07 - como está para lá esquecido, à míngua de visitantes, resolvi trazê-lo até aqui... talvez tenha melhor sorte!... :)
Em tempo de férias dá para fazer experiências e brincadeiras, com propósitos verdadeiramente inocentes, na languidez do "dolce fare niente" e o usufruto desse bem maior que se obtém em troca do que se dá nos restantes onze meses - descanso vs trabalho.
A dimensão, seja do que for, é tão relativa quanto o tempo e o espaço. Levo meia-hora a caminhar pela baía, desde as Portas de Peniche ao Baleal, sempre pela areia, e percorro uma distância de 4 Kms. E daí? Fico meia-hora mais velha, logo com menos meia-hora de vida, mas, ainda que não tivesse percorrido aquele espaço, a meia-hora ter-se-ia gasto, e restar-me-ia, da mesma forma, menos meia-hora de vida. Ou será que ganhei meia-hora de vida pelo facto de ter percorrido a baía em vez de ter ficado estiraçada ao sol?


Pequenas questões as minhas, e, no entanto, tantas dúvidas, tantas respostas que os físicos e os matemáticos procuram, essas, sim, a ter em conta, mas também os gnósticos e os ascetas, de um modo diferente, com base nas antigas religiões e no que as respectivas doutrinas defendem e profetizam, e afinal, imagine-se, acabam por se encontrar todos na inenarrável Teoria de Tudo. E não é que o big bang e o big crunch e a segunda lei da termodinâmica dos cientistas nos levam exactamente aos mesmos pontos de partida e de chegada que o judaísmo, o islão, o hinduísmo, o budismo, o taoísmo?

Agora pergunto eu, o que fazemos nós aqui? Por que razão existimos? E se não existíssemos, se não passássemos de figuras imaginadas, sonhadas por Ele, o Senhor do Universo, farto de estar só nesta imensidão que, provavelmente, será infinita. Ou não. E se Ele anseia pela morte, pelo descanso ao qual poderá nunca ter direito? Somos completamente incompetentes para o ajudar. Nós, que nem sabemos quem somos, nem se foi Ele que nos inventou, para se distraír... e se Ele também não existe? O que é esta história? Uma farsa, uma tragicomédia inventada por quem nunca passou de um mito... e, no entanto, o Universo está aí, com todas as estrelas, nebulosas, planetas, cometas e galáxias em contínuo movimento... ou será que tudo não passa de uma ilusão? Mas ilusão porquê, para quê e para quem? E se o Princípio da Incerteza for a porta para a Teoria de Nada?

"Raios partam a vida e quem lá anda", dizia Álvaro de Campos, isto partindo do princípio que houve um Álvaro de Campos, apesar de, como todos sabemos, mais não ter sido que um dos heterónimos de um outro ser mais complexo que o criou, esse poeta de excepção a quem chamamos Fernando Pessoa, mas a quem poderíamos, por absurdo, chamar deus. Seremos todos nós pequenos deuses que inventamos o mundo à nossa imagem, de acordo com a criatividade e vontade de cada um?
Ná... os cientistas não vão nessa, e os teólogos também não.

O que eu sei, neste momento, é que a minha gata ocupa o espaço (quentinho) em cima do meu computador. Eu vejo isso e quero acreditar (porque preciso de acreditar nalguma coisa) que as dimensões são uma realidade, tal como o espaço que ocupam e o tempo que qualquer objecto demora a deslocar-se de um local para outro (ou será que pode estar em vários locais ao mesmo tempo, dependendo apenas da presença de um observador que comprove que ele existe, naquele sítio e momento, porque ele o vê, naquele exacto local, naquele preciso instante?)
Sabemos tão pouco de tudo. Por vezes, gostaria de ser como os que se contentam com o que têm, o que conhecem, o que julgam saber, e não se preocupam com os porquês. Tiveram, certamente, a idade dos porquês lá para os quatro ou cinco anos e ficaram satisfeitos com as respostas. Vivem felizes assim. (A minha idade dos porquês deverá durar os meus anos de vida e, apesar de tudo, não acredito no que acabei de afirmar, ou seja, que aqueles que a ultrapassaram na infância, vivam hoje felizes e contentes. Apenas se acomodaram a fazer de conta que sim!...).

terça-feira, julho 24, 2007

Paráfrases, a seis mãos... três pares de asas

NOTA: Este post foi inteiramente "roubado" ao blog Voo de Dédalo, da minha amiga Esvoaçante.

Dá-me a tua mão:
Vou agora te contar como entrei no inexpressivo que sempre foi a minha busca cega e secreta.
De como entrei naquilo que existe entre o número um e o número dois, de como vi a linha de mistério e fogo, e que é uma linha sub-reptícia.Entre duas notas de música existe uma nota, entre dois factos existe um facto, entre dois grãos de areia por mais juntos que estejam existe um intervalo de espaço, existe um sentir que é entre o sentir-nos interstícios da matéria primordial está a linha de mistério e fogo que é a respiração do mundo, e a respiração contínua do mundo e aquilo que ouvimos e chamamos silêncio.

Clarice Lispector ( A paixão segundo G.H.)
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Dá-me a tua mão:
vou contar-te como procuro e temo encontrar, sei do som dos passos e
ensurdeço ao amanhecer. De como se sente o estalejar dos minutos e o
latejar dos dias.

Dá-me os teus olhos:
vou agora deixá-los percorrer as paisagens de olvido e de segredo,
desvelá-los nas profundezas de um azul sombrio.

Dá-me os teus braços:
vou agora acolher-me neles, como em muralha inexpugnável e imune ao
passar dos tempos.

Não, não me dês nada do que é teu e te faz falta.
Podes vir a dar contigo como cidadela desconstruída e exposta às
estrelas.

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Dá-me a tua mão.
Olharei, com todo o furor do meu pensamento, para os teus dedos.
Escolherei, para cada um, a nota musical adequada à frequência que
ressoa no meu coração.

Dás-me cada dedo
E as notas que eles tocam nada mais são que pedaços da minha pele,
cuja cor se altera mesmo antes de ser atingida. Não são teclas
monocromáticas nem cordas que se/me prendam...
O que me dás
É aquilo que me transforma e emudece. E basta-me o quase toque de
um dedo da tua mão para que a ilusão de que sou inatingível
desapareça.

Dar e ser
Tendem a transformar-se em tons e meio tons que formam escalas
e escadas. Damos e somos. E sonhamos.
(Carteiro) ou Senhor dos Selos

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Dá-me a tua mão:
saberei encontrar o caminho
dos segredos que guardamos.

Dá-me o teu sorriso:
encontrarei a alma pura
da água que corre da fonte.

Dá-me o teu olhar:
conseguirei rasgar as núvens
e alcançar o céu, lá,
onde é mais azul.

terça-feira, maio 08, 2007

Ternura

I

Ternura nos olhos, no sorriso, nos gestos.
Ternura na voz.
Ternura nas palavras escritas.
Ternura no afagar das teclas de um piano.
Ternura ao friccionar o arco nas cordas de um violino.
Ternura ao colorir de pinceladas uma tela.
Ternura ao executar um elegante passo de bailado.
Ternura ao embalar o filho.
Ternura ao poisar os lábios na fronte fria do amor moribundo.
Mãos ternas que acariciam.
Boca de ternos beijos.

II

Sonhei com um cemitério bizarro.
As lápides eram negras e, por contraste, pairava sobre o espaço uma difusa neblina
que se aliava à brancura da neve que tudo cobria.
Havia uma pedra tumular onde mal se distinguia qualquer inscrição.
Não havia nome, datas, fotografia.
Apenas se podia ler o epitáfio:
“Em memória eterna de uma mulher terna”.