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segunda-feira, outubro 24, 2016

Histórias do meu Tonho




Tempestade. Forte sopra o vento sobre a vila piscatória, grandes ondas, mar agitado. Neptuno parece zangado.

Em terra, pescadores observam a branca espuma quebrando o negro da noite. Espera-se. Aguarda-se por melhoria do tempo, tempo esse que escasseia para uma faina normal.
"Porque não vamos? Ou vamos para o mar, ou vamos para casa". Ouve-se em murmúrios. Ao vento e ao frio,  pescadores anseiam por ordens dos seus mestres.
Meia-noite. Ouvem-se as doze badaladas do velho sino da igreja. Um novo dia começa. A ansiedade termina: "Regressamos a casa. Ordens para as nove da manhã!". Debandada geral rumo ao calor do lar, ao porto de abrigo, que são as suas famílias.

Joaquim inicia o seu habitual trajecto em direcção ao velho bairro onde habita. Fracas luzes iluminam os seus passos. O vento parece ajudá-lo a encurtar a distância a percorrer. Ei-lo chegado à escada de sua casa, com a cesta do farnel numa mão e já com a chave na outra. Basta-lhe subir ao primeiro andar para chegar a bom porto.
Já à porta, Joaquim insere a chave na fechadura e roda-a, num misto de exaustão e alegria.

Abre a porta e detém-se, imobilizado. A sala encontra-se iluminada àquela hora tardia. Encosta-se, para não cair, enquanto das mãos lhe escorrega a cesta. No seu típico gaguejar, diz "À... à... à c'anzana, Maria... à c'anzana, e eu nada!" Tinha acabado de apanhar a mulher em pleno acto de adultério, com um gigante, musculado, de calças arreadas, e agora imóvel, homem de raça negra.

Maria, sem sair da caricata posição em que tinha sido encontrada,  questiona o marido, em tom furioso,  virando o pescoço para trás e lançando-lhe um olhar de ódio "O que estás a fazer aqui, desgraçado? Não foste ao mar porquê, pilante?"

Joaquim responde, ainda encostado à porta, com os olhos fixos na inusitada imagem à sua frente "O mestre mandou para casa, e eu vim."

"E não sabias ficar no armazém, seu atrasado? Tinhas que vir para casa?"

"Queria ter sexo contigo, Maria. Mas acho que cheguei tarde!"

"Tu? Ah pá, achas que se valesses alguma coisa eu precisava de ajuda?"

Aqui começa a discussão. Maria opta por uma posição mais consentânea com o confronto que aí vem. Exalta-se e, erguendo-se, cresce para o Joaquim e maltrata-o verbalmente.
Os vizinhos, que entretanto se apercebem da gritaria, acercam-se das escadas. A voz de Maria ecoa por todo o bairro. Joaquim, ao aperceber-se da  presença da vizinhança, atenta ao que se passa naquele primeiro andar, riposta aos berros, chamando puta e galdéria à sua mulher. O gigante negro continua imóvel, como se de uma estátua de ébano se tratasse. Em baixo, os vizinhos vão seguindo alegremente o degradante espectáculo e, entre alhos e bugalhos, Maria esbofeteia Joaquim, para gáudio dos assistentes.

O nível da discussão aumenta. Maria agride em crescendo, verbal e fisicamente o seu homem. Joaquim tenta defender-se, limitando-se a balbuciar meias-palavras, devido à gaguez de que padece, acrescida de profundo nervosismo perante a situação.
A multidão, instalada na rua, ri a bom rir. Joaquim, implacavelmente ferido no seu orgulho de macho, consegue finalmente sobrepor a sua voz ao ruído da discussão e articular uma frase completa: "Tu és uma puta!". Maria, ofendida, aplica um forte soco no rosto do homem, que o desequilibra e faz com que desça as escadas, contando os vinte degraus, um a um, com os costados.

Sentado no chão, completamente dorido e vendo os vizinhos a rir, Joaquim tenta, a custo, levantar-se. Embora ferido, e emocionalmente destroçado, consegue erguer-se e, olhando para o cimo da escada, onde Maria, com as mãos na cintura, o contempla com ar desafiante, diz em voz bem alta, miraculosamente sem gaguejar: "Isto não acaba aqui. Amanhã levas mais, ouviste?". E parte, sozinho, a cambalear, para se embrenhar mais à frente na noite escura.

Amanhece. Na velha ribeira algo de novo parece passar-se. Ouvem-se, aqui e ali, murmúrios e risadas, saídos dos pequenos aglomerados de pescadores e varinas. Há festa, sem dela haver sinais evidentes. A azáfama do vaivém das chatas, levando e trazendo os pescadores, faz parte do cenário de um dia normal naquele porto de pesca. Apenas as sonoras gargalhadas soltas pelas potentes vozes das varinas intrigam os transeuntes que por ali passam.

Joaquim cumpre as ordens. Às 9 horas da manhã chega à ribeira e, em vez do habitual bom dia, é cumprimentado pelos camaradas com a inesperada frase: "À c'anzana, Esquim, à c'anzana... e tu, nada!",  frase esta que é repetida até ao limite da sua paciência. Triste, Joaquim baixa a cabeça (enquanto mentes maldosas pensam, embora não o digam que, literalmente, baixa os cornos) e continua a andar, ferido por dentro, até alcançar uma pequena lancha, onde se senta, na mais profunda solidão.

Lança o olhar para a multidão que, atentamente, o observa e vê colegas, amigos e pessoas anónimas, com ar de diversão. É ele o motivo da chacota de toda aquela gente e, no seu canto, não pára de ouvir a frase que o tortura "À c'anzana, Maria, à c'anzana... e eu nada!".

De repente, como que numa visão, Maria surge de entre o amontoado de gente, sorridente e com ar vitorioso, elevada à categoria de heroína por um acto de adultério. Joaquim não consegue conter a ira que dele se apodera perante tal contra-senso. Furioso,  ergue-se e pega num pequeno remo existente na lancha onde se tinha sentado. É com o corpo todo a tremer que se dirige à mulher, de forma agressiva, empunhando bem alto o remo e gritando, num tom suficientemente audível para chamar sobre si a atenção da turba agitada, que recua em conjunto.

Maria fica isolada num frente a frente com o seu homem. Faz-se silêncio na ribeira. A expectativa aumenta. Maria, imóvel, apenas olha para ele. O espaço entre ambos diminui.

A tensão cresce no recinto, quando Joaquim solta uma frase, erguendo mais alto o remo "Ah, puta de merda! Agora é que vais ver!"

Instala-se um silêncio de morte na ribeira. Até as gaivotas, que por ali esvoaçam, deixam de grasnar, como que em cumplicidade. O mar bate no molhe sem se fazer ouvir, e as pessoas acotovelam-se, inertes,  suspensas do desenrolar da cena entre o casal.

O remo começa a descer ao encontro do corpo de Maria. Paira no ar um augúrio de tragédia. Subitamente, o remo é travado na sua descida.  Um par de mãos  se junta às de Joaquim. São as mãos de uma varina, são as mãos de Maria que, conseguindo interceptar a trajectória do remo em direcção ao seu corpo, com um forte puxão o arranca das mãos trémulas de Joaquim.

Vira-se o feitiço contra o feiticeiro.  Agora, é Maria quem segura o remo e, com ele, desata a bater desalmadamente no marido, num sobe e desce estonteante sobre o corpo de um Joaquim cada vez mais magoado, ferido, humilhado.

O povo, a tudo assistindo entre o impávido e o incrédulo, não reage, pois entre marido e mulher ninguém deve meter a colher, assim diz o ditado, que aqui impera como lei.

Joaquim quebra perante a violência da mulher. Cada pancada daquele remo é mais uma tonelada, de peso e de dor, sobre o seu corpo cada vez mais frágil. Acaba por cair, no chão da calçada. Ali jaz, perdendo os sentidos.

Maria lança-lhe um olhar de desprezo, cospe para o lado e atira o remo para longe. Tarefa cumprida, vira-lhe as costas e afasta-se, sem uma palavra.

A ausência de qualquer som parece intensificar-se nos momentos que se seguem. Todos os olhos se fixam no corpo inanimado. Uma voz, vinda do nada, quebra o silêncio a medo "o Esquim tá morto!".

Mas não. Sobrepondo-se a toda a dor, a muito custo, Joaquim consegue abrir os olhos e observa a multidão que, insensível e imperturbada, assiste à sua tragédia. Apenas uma suave brisa corta o silêncio. Estranha manhã aquela!

Sentindo o amargo sabor do orgulho ferido, num apelo ao que resta das suas forças,  Joaquim senta-se no chão frio, ergue a cabeça e procura Maria com o olhar, que se detém ao encontrá-la. O suspense aumenta entre a assistência. Nunca aquela ruidosa ribeira conhecera tal quietude.

Joaquim levanta um braço, dorido e oscilante, em direcção à mulher. Aponta-lhe um dedo e, quebrando todo o mutismo, solta bem alto as palavras:

 "Maria, não te esqueças... e lá em casa levas mais!"


FIM

Foto: Tempestade, de António Rodrigues

quinta-feira, maio 26, 2016

ABANDONO



No dia em que me deixaste.
Sim, no dia em que disseste que ias deixar-me, em que assumiste que ias viver um novo amor, que ias trocar a nossa vida já sem graça por outra, resplandecente de paixão e beleza, pensei que podia morrer.
Quando saíste com as malas e bateste com a porta atrás de ti, senti que o meu mundo tinha desabado, irremediavelmente e para sempre. Fiquei sentada no último degrau da escada (o mais próximo da porta que tinha acabado de se fechar sobre os últimos anos da minha vida) durante horas, talvez mesmo dias, não sei.
A dor que me apertava o peito era tão forte, que cheguei a imaginar que, naquele mesmo sítio, sozinha, ia sofrer um enfarte, e para ali ficaria fria, sem vida, até que alguém notasse a minha ausência e decidisse saber de mim.
Não chorei, não gritei, não me manifestei de alguma forma audível. Penso que, a dada altura, tentei enroscar-me, ficando quase na posição fetal, sobre o mármore gelado da escada.
Não sei quanto tempo depois, o telefone tocou e o som funcionou como o de um despertador. Pus-me de pé, aconcheguei o robe sobre o pijama e, num gesto maquinal, agarrei nas chaves e deixei-as escorregar para dentro dum bolso. De seguida, saí para a rua, em chinelos de quarto, deambulando como um fantasma. Desconheço se alguém me viu, mas estou certa de que ninguém me interpelou, com o ar de louca, ou de sem-abrigo, que devia ostentar.
No meu desvario, dirigi-me para o portinho do meio, onde me deparei com um pequeno barco abandonado, degradado pela passagem do tempo, pelas marés, pelo sol e pela chuva, que parecia aguardar-me, para me acolher como um berço a um bebé.
Entrei nele e deitei-me ao comprido, assim ficando escondida de algum olhar curioso. O dia estava cinzento e triste - pareceu-me, mas não havia vento e a temperatura podia até ser considerada agradável.
Devo ter adormecido. Mais uma vez, não sei por quanto tempo, pois esse tinha-se tornado um conceito sem valor para mim.
Acredito que tenha sonhado, porque julguei que ia contigo numa embarcação maior e confortável, rumo às Berlengas. Íamos abraçados e tu beijavas-me, com ternura, enquanto me sussurravas palavras meigas. Eu correspondia-te, despreocupada e alegre, ansiosa por desembarcar na ilha que tanto amávamos e onde, sempre, tínhamos vivido momentos de felicidade intensa.
De repente, senti-me salpicar por gotas de água que, com a mente ainda entorpecida pelo sonho que me tinha embalado, julgava salgadas. Soergui-me, no pequeno barco abandonado do portinho do meio, e, surpreendida, constatei que estava completamente encharcada, não por causa de pequenas gotas salgadas, mas por autênticos pingos grossos de chuva. Daqueles que atravessam a roupa e a pele e nos ensopam até aos ossos.
"Que disparate!", disse em voz alta, como que para me ouvir melhor "Ainda apanho para aqui alguma pneumonia, vou parar ao Hospital e depois morro para lá. O melhor é ir já depressa para casa e meter-me debaixo do chuveiro para um duche bem quente. Depois, tomo uma aspirina e enfio-me na cama. Amanhã, hei-de acordar fresca como uma alface e vou trabalhar, como de costume."
No caminho de regresso, indiferente ao aspecto da minha figura grotesca, sentia-me leve e descontraída, quase aliviada, como se tivesse acordado de um pesadelo.
Foi a partir daí que passei a referir-me, sem mágoa, àquele episódio como "o dia em que me deixaste".
Maria Carvalhosa (inédito)
Foto: "Abandonado", do blogue http://olharesdemaresia.blogspot.pt, de António Rodrigues

segunda-feira, maio 23, 2016

DECISÃO


Depois de ter vagueado pela beira-mar durante um bom par de horas, sentou-se no pontão do Molhe Leste, à hora do crepúsculo. Um turbilhão de pensamentos povoava-lhe a cabeça, tornando-lhe impossível concentrar-se num único, que fizesse sentido e se apresentasse como a solução para o seu intrincado problema. Uma questão, em particular, a martirizava: "como iriam reagir os pais?" E logo de seguida surgia outra, igualmente premente: "e o curso, o curso ainda por acabar!?"
Simultaneamente, era-lhe difícil não pensar no Diogo e na inesperada reacção que ele tivera ao tomar conhecimento do assunto. Como era possível nunca se ter apercebido de quanto ele era insensível? Por que razão tinha sempre acreditado que a amava na mesma medida em que ela o fazia e que, juntos, conseguiriam fazer frente ao mundo, em qualquer situação? Tanta ingenuidade!
Não chorava. Não entendia porquê, mas as lágrimas não lhe afloravam aos olhos, que mantinha baixos, perdidos na contemplação do nada, que eram as suas pernas cruzadas sobre o cimento do molhe.
De súbito, precisou de olhar o sol, que começava a esconder-se para lá do mar, na linha do horizonte e, inusitadamente, ocorreu-lhe que estaria a nascer do outro lado do mundo, onde uma qualquer rapariga japonesa, com um nome muito diferente do seu, poderia estar a olhá-lo, naquele preciso momento, e a interrogar-se sobre questões em tudo idênticas às suas.
Sorriu timidamente perante o absurdo da ideia. E depois parou de sorrir. Impôs uma ordem lógica ao seu raciocínio, até aí errante, conseguindo, pela primeira vez naquela tarde, sentir-se confiante, sem receios e quase feliz.
Voltou a olhar para a vastidão do mar, num misto de desafio e cumplicidade para com aquela imensidão, sua única confidente.
Agora sim, estava segura. Havia ainda muitas respostas por dar, muitos caminhos por percorrer, mas de uma coisa tinha a certeza: queria aquele filho acima de tudo no mundo e nada, nem ninguém, com panóplias de argumentos e conselhos mais ou menos avisados, a iria fazer abdicar, sob que pretexto fosse, daquela decisão!
O sol, para a Ana, em Peniche, numa das praias mais ocidentais da Europa, não muito longe de Lisboa, tinha acabado de desaparecer por detrás da massa de água que a sua vista alcançava. Estaria a surgir, seguramente, em toda a sua plenitude, à jovem Natsuki, que o observava em Ichinomiya Chiba, numa das praias mais orientais da Ásia, não muito longe de Tóquio .
Levantou-se, contente por si e pela sua amiga imaginária, que só poderia ter tomado uma decisão igual à sua.
Enquanto caminhava de volta a casa, na semi-obscuridade do ocaso, sentiu que duas lágrimas doces lhe rolavam pelas faces.
Sorriu novamente, desta vez num sorriso aberto, erguendo a cabeça com alegria e determinação.
Maria Carvalhosa (inédito)
Foto: "Silhueta", do blogue http://olharesdemaresia.blogspot.pt, de António Rodrigues

segunda-feira, março 19, 2012

19 DE MARÇO... E O PAI?



Era o primeiro Dia do Pai desde que o seu havia partido para sempre.
Na escola, há alguns dias que, sob orientações da professora, meninas e meninos tinham dado asas à sua criatividade e preparavam, com determinação e carinho, o presente que iria pintar um imenso sorriso no rosto do seu progenitor. 
Durante quase um dia inteiro, Duarte não conseguiu por mãos à obra, indeciso relativamente à posição a tomar perante a inexistência do pai vivo, mas igualmente incapaz de enfrentar, perante amigos e professora, a dura e cruel realidade da sua morte prematura, que nele havia deixado um estigma, uma cicatriz a ferro e fogo marcada.
Por fim, sem o entusiasmo radiante dos colegas, mas sem, por outro lado, dar mostras de contrariedade, o menino foi dando forma ao seu presente: numa cartolina vermelha tinha desenhado uma gravata. Depois, tinha-a recortado e, no suposto lugar do nó, tinha colado uma pequena moldura redonda, dentro da qual estava uma fotografia sua, recentemente tirada pelo fotógrafo da escola com esse mesmo propósito. Como remate, uma argolinha metálica permitia que pudesse ser pendurado num minúsculo prego, em qualquer parede.
Estava feito, portanto!
Chegado a casa, deu um apressado beijo no rosto da mãe e correu a refugiar-se no quarto, onde permaneceu num silêncio pouco habitual.
No quarto ao lado, a irmã estudava e, também ela particularmente taciturna nesse dia, secretamente entregue ao seu habitual sentimento de saudade, não deu mostras de ter notado que o irmãozinho mais novo tinha regressado da escola.
A mãe, atarefada com o jantar, não saiu da cozinha para tentar perceber a razão de tamanha urgência em passar despercebido.
Volvida uma meia hora, Duarte percorreu, pé ante pé, o corredor. Entrou na cozinha e, sem uma palavra, postou-se ao lado da mãe, que se encontrava perdida entre as folhas de couve e as lágrimas provocadas pela severa acidez de uma cebola, semidescascada.
Ao aperceber-se da sua silenciosa presença, a mãe olhou para Duarte. Viu o braço completamente estendido na sua direção e, na palma da mão, um embrulho com um laço.
Não percebeu imediatamente. Perguntou: “o que é isso?”.
Duarte encolheu os ombros, com um sorriso triste, e esticou ainda mais o braço, como que a dizer: “abre e não perguntes mais nada”.
A mãe secou as mãos, pegou no embrulho e abriu-o, intrigada. Ao ver o presente, deu graças por não estar a descascar uma cenoura, uma batata, ou mesmo um alho francês. Baixou-se e abraçou Duarte, murmurando “obrigada, querido filho, é lindo”. Fungou e limpou a face da criança, sorrindo, enquanto refilava “estas cebolas são mesmo agressivas. Da próxima, não trago das roxas”.
Deu a mão a Duarte e dirigiu-se ao quarto onde, na porta, uma pequena placa continuava a indicar “Quarto dos Pais”. Disse-lhe: “vamos já pendurar a tua fotografia. Estás tão bonito!". De seguida, chamou: "Mariana, anda ver o trabalho lindo que o mano trouxe."
Notou apenas para consigo que, desta vez, o presente não se tinha feito acompanhar do cartão que, invariavelmente, ostentava a frase: “Para o melhor Pai do Mundo”.


Imagem: web



terça-feira, agosto 16, 2011

Berlenga - reserva natural da Biosfera



As Berlengas vistas da Varanda de Pilatos (Cabo Carvoeiro) - foto de António Rodrigues

Amigos,
Passo a transcrever o texto que submeti ao desafio lançado pelo Presidente da Câmara de Peniche, em colaboração com a administração da Comunidade "Descobrir Portugal", que foi distinguido com uma Menção Honrosa. Esta distinção traduziu-se, além do mais, numa visita às Berlengas a bordo da Caravela "Vera Cruz" , no dia 17 de Julho de 2011, acto que assinalou a merecida classificação do Arquipélago das Berlengas como RESERVA MUNDIAL DA BIOSFERA.


Agora que as Berlengas tinham sido classificadas pela UNESCO como Reserva Mundial da Biosfera, Joana, estudante de biologia marinha, não tinha como recusar o convite de Tiago para com ele ir, pela primeira vez, visitar aquele arquipélago de que sempre ouvira falar como um dos tesouros naturais de Portugal, não só em termos de beleza paisagística como de riqueza em biodiversidade.

Ainda no cais de Peniche, antes de embarcar, não conseguia evitar que as pernas lhe tremessem. Disfarçava como podia, tentava aparentar uma calma que estava muito longe de sentir. Sempre ouvira dizer que a travessia para as Berlengas era uma temerosa aventura e, de destemida, Joana nada tinha.

Na longa fila, pendurada no braço de Tiago enquanto esperava pela ordem de embarque, roía as unhas da mão que tinha disponível e, em silêncio, tentava rezar um Pai-Nosso, embora tivesse a certeza de que não estava a ser capaz de dizer a oração tal como a tinha aprendido.

Por fim a fila começou a mover-se em direcção ao barco. Alguns rapazes e raparigas, já lá dentro, soltavam gritos de euforia. Ela aconchegava-se mais e mais a Tiago enquanto caminhava, como se para o cadafalso se dirigisse.

Quando entraram pediu, com voz quase inaudível: "vamos lá para dentro, está bem?" O namorado sorriu, acariciou-lhe o cabelo e anuiu, embora tivesse preferido viajar na parte exterior, para sentir o vento e alguns salpicos de água salgada no rosto.  

Até ao Cabo Carvoeiro a embarcação parecia deslizar num rio, ou num lago, sem sobressaltos, e ela começou a relaxar um pouco. À passagem do Cabo, um grupo de pessoas no terraço da "Nau dos Corvos" acenava, alegremente, para os passageiros a bordo. Foi nesse momento que  o barco pareceu afundar-se a pique, para imediatamente voltar à tona, numa onda que lhe pareceu gigantesca e Joana sentiu o estômago aproximar-se perigosamente da garganta.
O episódio repetiu-se algumas vezes e Joana optou por manter os olhos fechados, embora essa táctica parecesse não resultar tão bem quanto desejaria.

Pouco tempo depois, Tiago murmurava-lhe ao ouvido "abre os olhos Joaninha, o espectáculo é admirável". Com relutância obedeceu e foi então que o medo, a má disposição de há segundos atrás, deram lugar a um olhar extasiado perante o cenário natural que tinha na sua frente: a ilha rosa, em todo o seu esplendor, rodeada de águas inimaginavelmente verdes e transparentes, parecia chamá-la. A atracção imediata fez com que nem desse pelos dez ou cinco minutos até à entrada no cais da Berlenga.  

Foi com desenvoltura que desembarcou, ansiosa por pisar aquele solo com o qual pressentia uma tão forte afinidade. Ignorou a mão que Tiago lhe estendia e saltou para terra com um genuíno sorriso nos lábios e um brilho ímpar nos olhos azuis. O rapaz fingiu-se ofendido e comentou, em tom de resmungo "pois, agora já não queres saber de mim!". Voltou-se para ele, soltando uma sonora gargalhada, beijou-o com paixão e segredou-lhe "obrigada, meu amor, por me teres trazido ao paraíso. Agora, vamos já, já, para a praia, que estou mortinha por mergulhar naquelas águas límpidas!".

O dia passou a correr. O jovem casal fruiu, intensamente, todas as maravilhas que a ilha tem para oferecer a quem a visita. Subiram até ao alto, de onde se desfruta uma vista de fazer suster a respiração. Sentaram-se a observar, deliciados, o voo planado das muitas gaivotas que povoam a ilha, e outras aves, como as pardelas e os corvos marinhos, que com elas coabitam. Desceram, sempre de mãos entrelaçadas e com risadas alegres, até ao Forte de S. João Baptista, que percorreram  de uma ponta à outra e, por fim, no cais da fortaleza, apanharam uma pequena lancha que os levou a visitar as grutas - cada uma mais fascinante e misteriosa que a anterior.  

Quando entraram no barco, para o regresso a Peniche, foi uma Joana extenuada mas intensamente feliz que pediu a Tiago, com doçura, "querido, trazes-me cá novamente no próximo fim-de-semana? Por favor!" 


12 de Julho de 2011

quinta-feira, maio 12, 2011

As tardes


Pôr-do-sol no Molhe Leste - Foto de António Rodrigues

Passo agora as tardes à beira-mar. Dou longos passeios pela baía - pés na água e cabeça nas nuvens. Apanho búzios vazios. Desenvolvi, recentemente, um afecto especial por este tipo de conchas. Chego a comover-me quando encontro alguns destes lindos habitáculos, outrora com vida. Beijo-os, quais amuletos. Começo a desenhar aquilo a que já chamo "a minha colecção de búzios da praia do Molhe Leste". Na Praia Norte, igualmente rica em belezas outras, apenas existem seixos, pequenos calhaus rolados, ou cascas de bivalves partidas. Tem a ver com a força da rebentação, explicou-me o António, que já foi pescador e que, tal como o marinheiro de Mishima, por amor perdeu as graças do mar. Estou eu agora a recuperá-las, as graças, penso eu para comigo, com um sorriso não de todo inocente.

Avançando no prazer da água, que me banha e de mim aparta as mágoas, perco a noção do tempo, rejuvenesço, sinto-me vigorosa e bela.

Ao entardecer, quando chegam as gaivotas e as traineiras regressam da faina,  ainda por lá estou. Não arredo pé antes da hora do ocaso e, quase sempre, sou  brindada com um vislumbre do paraíso: o sol a esconder-se na linha do horizonte, pintando toda a paisagem em tons de fogo, contrastando com o azul do mar profundo, a brancura da espuma das ondas, o ouro-velho do areal imenso.

No Verão da minha existência, vivo as mais lindas tardes deste fim de Primavera. À beira-mar. A coleccionar búzios.

sábado, janeiro 01, 2011

Réveillon



"Vem... vem comigo"
Óleo sobre tela de Júlia Calçada



Não estava frio mas era, sem dúvida, uma noite de inverno.

O céu, pintado de negro,  abria-se, de quando em vez,  para  deixar cair mantos de chuva cerrada que, rapidamente, escondiam estradas. Em seu lugar surgiam rios, com furiosos caudais que tudo arrastavam. Raios de luz cegavam, momentaneamente, quem os olhava de frente, que logo de seguida ensurdecia, sem possibilidade de aguardar uns segundos pelo estrondo dos trovões.

Poderia tratar-se de uma tempestade tropical, em pleno verão, num outro local. Mas era inverno -  a última noite do ano, no hemisfério norte do planeta que incessantemente nos transporta, em movimentos de rotação e de translação, sem que disso nos consigamos aperceber. 

Ela estava deslumbrante, vestida a rigor para uma noite de festa. Disse-lhe: "Vem... vem comigo!". Ele foi. Segui-la-ia, a nado, se necessário fosse, contra a força das enxurradas que, lá fora, iam cobrindo o mundo material até há minutos conhecido de ambos.

Afinal, nada de heróico seria necessário da sua parte para lhe fazer a vontade: era tão-somente para o andar de cima que ela o convidava. Subiu os degraus, no seu encalço, não arriscando perder o rasto do perfume que, na escuridão da casa, apenas entrecortada pela luz dos raios que não cessavam de imitar um esplendoroso fogo-de-artifício, lhe servia de guia e salvação.

Entraram no quarto dela onde, providencialmente, velas haviam sido distribuídas, fornecendo a luz suficiente para que pudessem usufruir do jantar, servido na mesa redonda, junto a uma janela adornada com grossos cortinados de veludo.

Ele ainda pensou, por momentos, nas possíveis tragédias que, naquela inimaginável noite de passagem de ano, poderiam estar a ocorrer fora do aconchego da casa, do quarto onde se encontrava, suavemente iluminado e docemente aromatizado,  num ambiente quase mágico.

Completamente à mercê dos sentidos, seduzido pela beleza e sensualidade da sua anfitriã, ao segundo copo de champanhe já esquecera a tempestade, o mundo lá fora, a desgraça iminente das gentes, esses outros que não tinham um refúgio.

As doze badaladas fizeram-se ouvir no relógio antigo, próximo deles, na parede junto à janela. Brindaram ao novo ano, como se mais ninguém existisse no mundo e a vida pudesse ser sempre assim!

Francisco acordou sobressaltado, com o ruído das águas que, de rompante, lhe entravam no quarto, prestes a atingir a cama, a escassos três palmos do chão. Ouviu gritos lá fora, alguém que pedia ajuda... como é que pudera adormecer com aquele temporal, sozinho no seu casebre, no fundo duma rua estreita e íngreme, leito natural de qualquer cheia? Com a fugaz luz dum relâmpago vislumbrou a sua companheira de réveillon: uma garrafa de aguardente, completamente vazia. 

Em menos de um minuto apercebeu-se de tudo. Não havia agora em que pensar, o necessário era agir. Num único salto, saiu da cama e em breve alcançou a porta da rua, que começava a ceder com a força da enchente. Ao abri-la, tombou-lhe nos braços uma jovem mulher que, agarrada com ambas as mãos ao batente da sua porta, começava a perder as forças e teria sucumbido à força da corrente, se mais dois minutos tivessem decorrido.

Pegou-lhe ao colo, subiu em corrida as escadas que  levavam ao sótão, onde a sentou a salvo, num velho sofá. Tirou-lhe a roupa molhada e embrulhou-a bem numa manta. Depois, aconchegou-se a ela e começou a falar-lhe, a tentar que ela se mantivesse acordada, lúcida, quente e, sobretudo, viva.

Logo, logo, ao raiar da manhã, no primeiro dia do novo ano, chegariam, seguramente, os socorros da autarquia!


quinta-feira, setembro 16, 2010

Ouvi dizer...!



Pintura de Júlia Calçada 
Óleo sobre tela
140 cm x 100 cm

Esta noite sonhei contigo de novo.

Ouvi dizer que, quando se sonha com alguém com tanta frequência e intensidade, é porque essa pessoa ocupou, ou ocupa, um lugar muito especial na nossa vida. Parece lógico, dito assim. Deixa de o ser quando pensamos que, no dia-a-dia, raramente nos lembramos dessa pessoa e, se o fazemos, é no contexto de página virada, de livro terminado e arrumado na estante.

Quando isto sucede, acordo sempre com uma dor no peito, com um anseio por ti, com uma indescritível saudade, que permanece ao longo do dia e me faz parecer desprendida, solta do chamado "mundo real", como se levitasse a uns escassos centímetros do solo e me deixasse levar para o mar por uma rajada de vento mais forte!

Continuo a sonhar ao longo do dia. Vejo e revejo imagens, sentimentos, emoções: tento refazer o sonho, como se efectuasse a montagem de um filme querido, cena a cena.

Por vezes desperto em lágrimas, outras há em que choro, convulsivamente, quando dou por terminado o tal trabalho de reconstrução, e o sonho não passa de um guião para um filme que nunca chegarei a realizar.

Ouvi dizer que compraste um veleiro e agora és Capitão. Que partiste com ela, a decrépita, alcoólica e quase demente Emily L, e que tencionam passar o resto das vossas vidas apenas um com o outro, ao sabor das ondas e dos ventos, atracando em cada porto e, aí, visitando cada bar.

Sempre me disseram que nenhum homem troca a sua jovem companheira por uma mulher consideravelmente mais velha!

Sei agora que  não se pode acreditar em tudo o que se ouve dizer!...

sexta-feira, junho 05, 2009

De volta para o meu aconchego

Nota: Para ver o PPS noutro web site clique no título acima.


Fotografia: Sandra Farinha

De Volta Pró Meu Aconchego
Elba Ramalho
Composição: Dominguinhos - Nando Cordel

Estou de volta pro meu aconchego
Trazendo na mala bastante saudade
Querendo Um sorriso sincero, um abraço,
Para aliviar meu cansaço
E toda essa minha vontade.
Que bom, poder tá contigo de novo,
Roçando o teu corpo e beijando você,
Prá mim tu és a estrela mais linda
Seus olhos me prendem, fascinam,
A paz que eu gosto de ter.
É duro, ficar sem você
Vez em quando.
Parece que falta um pedaço de mim
Me alegro na hora de regressar
Parece que eu vou mergulhar
Na felicidade sem fim.



segunda-feira, abril 06, 2009

Um hotel sobre o mar

Foto de António Rodrigues
Olhou, demoradamente, a magnífica paisagem que a janela do seu gabinete lhe oferecia. "Pela última vez. Sem pressas. Ela que espere." Disse para si próprio, enquanto uma pontada desconfortável lhe oprimia o peito, um nó na garganta o impedia de engolir a água que havia acabado de levar aos lábios e uma irreprimível neblina lhe começava a toldar a vista ocultando, assim, parte da beleza que tanto queria que a sua retina guardasse.

O telefone voltou a tocar. Era novamente a secretária de Laurinda: "Dr. Maurício, lamento a insistência mas a Presidente aguarda-o na sala de reuniões com o Dr. Fernando e dois advogados e parece-me que começa a ficar impaciente com a sua demora". "Obrigado, Paula. Estou a ir". Após ter desligado, tentou recompor-se do recente momento de fraqueza. Pigarreou, para aclarar a garganta, respirou bem fundo duas ou três vezes, passou um "kleenex" nos olhos para apagar qualquer vestígio de humidade, voltou as costas à janela e saíu, com passo firme e determinado, rumo à sala de reuniões.
Quando entrou, esperavam-no todos sentados do mesmo lado, de costas para uma outra janela panorâmica, com a mesma vista de sonho. Sentou-se do lado de cá, de frente para os oponentes e, consequentemente, para a deslumbrante vista que o acompanhava há três anos, desde que fora trabalhar para aquele hotel como director de marketing.
Laurinda começou: "Ora bem, agora que já estamos todos, não vamos perder mais tempo. Como sabe perfeitamente, os tempos são de crise e todas as medidas têm que ser tomadas o mais rapidamente possível". Deixou de a ouvir, "mas o que faz aqui o Fernando? Ainda ontem à noite bebemos um copo no bar e não me disse absolutamente nada. Olha o sacana! Poderia, ao menos, ter-me preparado minimanente, evitando assim que esta situação se me apresentasse tão constrangedora. Sempre pensei que era meu amigo. Grande amigo me saíu. Os directores de recursos humanos são todos iguais, quando chega a hora da verdade estão sempre do lado do patrão, a tentar proteger o seu lugar, pois é claro... e os amigos (amigos, o que é isso?) que se lixem!"
Voltou a ouvir a voz estridente de Laurinda "há que reduzir os custos" e voltou, imediatamente para os seus pensamentos "é evidente, agora já não precisam de mim. Fiz o trabalho de reconstrução todo. Consegui tirar este hotel da sarjeta e transformá-lo num dos locais mais procurados para sessões de trabalho das empresas e fins de semana de lazer durante todo o ano. No Verão, então, não cabe aqui um alfinete..." Laurinda continuava "por essa razão, os estagiários e recém-licenciados que demonstraram estar à altura" enquanto Maurício pensava para dentro "e agora, que os "meninos" já aprenderam comigo como dar continuidade ao trabalho e só têm que manter o barco em velocidade de cruzeiro, levo um xuto no cú e boa viagem".
O timbre de Laurinda, habitualmente inócuo para os seus ouvidos, agora quase lhe perfurava os tímpanos "os nossos advogados elaboraram o contrato que tem na sua frente e que lhe peço leia atentamente, antes de assinar". "O quê, indignou-se Maurício sem proferir palavra, mas isto é "atar e pôr ao fumeiro"? Estes gajos são mesmo demais. Num dia não sei de nada, no dia seguinte estou a assinar a minha sentença de morte. Só falta mesmo pegarem-me na mão e ajudarem-me a fazer uma cruz como assinatura!". De seguida lembrou-se dos filhos: depois do duro golpe da morte da mãe, a Mariana recuperara o equilíbrio emocional e estava a acabar o secundário, com planos para arquitectura e o João, já igualmente conformado com a perda, encontrava-se a meio do curso de Engenharia de Comunicações. Como é que ía conseguir chegar a casa e dizer-lhes: "meninos, vamos ter que rever as nossas prioridades. O subsídio de desemprego, que vou passar a receber, é muito mais do que insuficiente para o nível de encargos que criámos com base na realidade de ontem e para os projectos que tínhamos em vista para amanhã".
Foi então que a frase que saíu da boca de Laurinda colidiu com a sua linha de raciocínio. Como é que "a percentagem sobre a facturação pode parecer irrisória mas, quando aplicada sobre os lucros excelentes que temos conseguido desde que o contratámos..." jogava com um acordo de rescisão? Esforçou-se por deixar de ouvir a sua voz interior e passar a escutar Laurinda que, neste momento, dizia "além do mais, apesar de 20% do capital social não ser uma quota extraordinária, parece-me justa e adequada ao seu óptimo desempenho, funcionando assim como prémio e incentivo, já que o Maurício passa a ser, simultaneamente, meu sócio, e dos meus irmãos, na propriedade do hotel, ocupando o cargo de vice-presidente. A verdade é que eles não ligam nenhuma a isto e concordaram imediatamente em prescindir de parte das suas quotas para alijar responsabilidades. Sabe o que lhe digo? Parece muito mais que o sangue dos Ataíde corre nas suas veias do que nas deles".
Por esta altura, Maurício transpirava, tinha dificuldade em respirar e quase deixava que os seus olhos se marejassem de lágrimas, exactamente por motivos opostos aos que o tinham feito sentir sintomas idênticos há cerca de meia-hora atrás. Começava a pesar-lhe alguma má consciência por ter sido, embora que por breves momentos, injusto para com a Presidente que sempre lhe merecera a maior estima e o respeitara e, até, para o seu único verdadeiro amigo, com inúmeras provas dadas, desde o primeiro momento em que o integrara nos quadros do hotel, o director de recursos humanos.
"Perante o seu silêncio presumo que está de acordo, Maurício" prosseguia Laurinda Ataíde que, aqui, fez uma pequena pausa no discurso e sorriu. A voz dela, estranhamente, agora parecia-lhe suave e doce "assim sendo, vamos passar à assinatura dos contratos e os nossos advogados poderão, em sequência, marcar a escritura de doação de quotas. Quanto ao complemento de remuneração, o Dr. Fernando Meneses procederá, já este mês, ao processamento da comissão acordada sobre a facturação do mês transacto."
Maurício permanecia num mutismo inexplicável. Incapaz de balbuciar fosse o que fosse, levantou-se e dirigiu-se ao outro lado da mesa, com intenção de agradecer à Presidente, apertando-lhe a a mão. Laurinda, porém, antecipou-se-lhe. Recuou um pouco para junto da janela e, após uma olhadela rápida ao sol que estava prestes a esconder-se onde o mar parecia acabar, deixou-se ficar de perfil e, de braços abertos, disse, comovida "Parabéns, Maurício. Ora venham de lá esses ossos".
Nota da Autora: Este é um texto de ficção. Qualquer semelhança entre o local fotografado, personagens, ou conteúdo do conto com a realidade é pura coincidência.

quarta-feira, fevereiro 11, 2009

Sombra do Tempo



"A luz projectada na minha passagem deu-me a sombra, que me seguiu e guiou até hoje. A luz que continuo incessantemente à procura, essa, só a sinto através da sombra do tempo."

Pintura e legenda de Júlia Calçada


"É tarde", pensou. "Já não há tempo para que aconteça nesta vida. Talvez noutra... se a houver!"

Como num filme, em flashbacks, a sua mente foi atravessada por sombras do passado.

Depois, alheia ao ambiente movimentado do aeroporto onde aguardava pela entrada na máquina voadora que a levaria até aos antípodas, viu as sombras do presente. Deste momento que se lhe apresentava como a única saída, rumo a um futuro incerto e, seguramente, não planeado.

Tentou projectar o pensamento no futuro... e viu sombras desconhecidas, assustadoras... receio do porvir?

Afastou os cabelos da testa, num jeito peculiar, em períodos de tensão. Olhou o homem sentado a seu lado, o seu companheiro, aquele com quem já tinha partilhado sombras do passado, estava a repartir as sombras do presente e com quem iria dividir as sombras do futuro.

"Nada a fazer", pensou para si, novamente. "O meu destino para esta vida está traçado. Tenho assim tanto de que me queixar? Julgo que não... de qualquer forma, nunca conseguiria habitar vidas paralelas, em simultâneo. Resta-me, unicamente, a esperança de que, numa outra vida, com outra pessoa que, romanticamente, continuo a crer possa ser a minha alma gémea, possa concretizar um amor apenas imaginado, nunca materializado".

"Estão a chamar para o nosso vôo", disse o homem a seu lado, pousando a mão sobre a sua, com carinho, supondo que ela estava a dormitar, ou apenas em meditação profunda, facto que tantas vezes sucedia e que ele tentava respeitar, evitando qualquer pertubação brusca.

"Vamos, querido". Respondeu, com um sorriso, apertando a mão, que agora havia agarrado entre ambas as suas. Levantaram-se e ela enfiou o seu braço esquerdo no dele.

Ao caminhar em direcção ao balcão de entrada para o avião, olhou para trás. Vislumbrou umas sombras do passado, de um passado que poderia ter sido, mas nunca existiu a não ser na sua mente. Resolveu atirá-las para um futuro longínquo, improvável, todo ele construído sobre uma fantasia com que se deixava entreter nos momentos de insatisfação, de desânimo... ou talvez apenas quando se entregava a pensamentos de busca da felicidade, o tal mito de que ouvira falar, mas que acreditava nunca ter conhecido.

"Estás com medo?" perguntou ele. "Não tenhas, minha querida, vai correr tudo bem. Vamos, finalmente, ser felizes".

Não conseguiu responder. Limitou-se a acenar com a cabeça que não, que não estava com medo... enquanto, com a mão que tinha livre, limpava, rapidamente, uma teimosa lágrima que tinha insistido em escapar.

terça-feira, janeiro 06, 2009

Reencontro na Serra Nevada



Quando chegaste, trazias a roupa molhada e alguns flocos de neve ainda por derreter, no cabelo.

Nada perguntei.

Puxei um banquinho para o pé da lareira e disse "senta-te." Depois, fui buscar uma toalha e acabei de te secar o cabelo negro e luzidio. Apeteceu-me roçar nele o meu rosto, beijá-lo, descer um pouco a minha boca e beijar também os teus olhos fechados.

De seguida, se as tuas pálpebras continuassem cerradas, os meus lábios desceriam até aos teus, e neles selariam um gesto de amor, num beijo doce e interminável.

Mas olhaste-me, de frente, no espelho sobre a lareira, e fiquei sem jeito. Perguntei-te se a neve estava boa para esquiar, se a prova te tinha corrido bem, se tinhas ganho algum prémio.

Sorriste e disseste: "não... faltavas lá tu." Puxaste-me para ti e disseste "ainda não acreditas que és o grande amor da minha vida!?"

Eu consegui libertar-me, a contragosto, com movimentos suaves, acreditando, no entanto, nas tuas palavras porque, da mesma forma, tu eras o homem que eu mais tinha amado, por quem tinha sentido emoções mais fortes e profundas de entre os que conheci - a pessoa que em mim tinha despertado sensações mais arrebatadoras e inolvidáveis e por quem mais sofri quando decidimos que tudo tinha terminado.

E agora? O que fazer? Voltar atrás era impensável! Como dizia Heraclito "Ninguém se banha duas vezes nas mesmas águas de um rio".

Sorriste-me longamente e olhaste-me nos olhos. Por fim, beijaste-me na testa e murmuraste "Até sempre".


Saíste a porta e seguiste pelo carreiro recentemente limpo da neve. Fiquei a observar-te até mais não ser visível de ti senão um pontinho minúsculo no horizonte. Lágrimas frias rolavam-me pelas faces quentes. Não sei se assim era, mas gostei de pensar que, no vulto de gente que eras, lá ao longe, rolavam lágrimas quentes pelas tuas faces geladas.

domingo, outubro 12, 2008

Espera sem Sentido

Before # 3 (*)

Preparava-me para a entrada em palco. Os últimos detalhes: o ajeitar do cabelo, o retocar da maquilhagem, o atar da sapatilha. Um estranho pressentimento havia-se instalado na minha alma. Um arrepio percorria-me o corpo, de cada vez que olhava para o relógio e via que os ponteiros avançavam vertiginosamente para a hora do início do espectáculo e, pela primeira vez, tu não tinhas telefonado.

Às 22h00 em ponto, sem nada dizer a ninguém, despi, atabalhoadamente, a roupa de dança, troquei-a pelas calças e pela camisola que tinha trazido, enfiei os pés nos sapatos e foi com o coração em ritmo acelerado que corri para o carro. Depois, para casa, onde entrei para me refugiar no nosso quarto. As minhas pernas não paravam de tremer, de uma forma incontrolável.

O telefone tocou. Alegrei-me, por um momento, supondo que eras tu...

Era o Director da Companhia de Bailado. Optei por não atender. Depois disso, tocou mais algumas vezes, mas nunca levantei o auscultador. Foram ficando sucessivas mensagens, ditadas pela sua voz grave e austera: primeiro de aborrecimento pelo meu inusitado desaparecimento; depois, de verdadeira zanga pelo facto de eu faltar ao espectáculo sem nada ter dito; por último, de alguma preocupação, acompanhadas de um pedido para que entrasse em contacto logo que possível.

Ao fim de, sensivelmente, duas horas, o telefone tinha deixado de tinir.

Waiting (*)
Estou cansada desta espera.
O desespero começa a apoderar-se de mim.
Por vezes vacilo, quase desisto, mas não consigo.
Aqui continuo, neste cansaço da espera: a espera de ti.

Quando compreendi que tinhas ido embora, sem deixar, sequer, um bilhete explicativo dos motivos que te levavam a abandonar-me, sem qualquer sinal de que havias, mesmo, ido para longe de mim, não quis acreditar.

Fiquei sentada no quarto, na cadeira de balouço, a olhar pela janela para as árvores que se agitavam com o vento, na vã expectativa de ouvir a chave rodar na fechadura, ouvir os teus passos na sala e ver-te entrar, com o meigo sorriso de sempre e uma justificação para o inesperado atraso.

Acabei por me esticar na cama, forçando o sono que teimava em não chegar.

Esperei toda a noite, sem conseguir adormecer.
Na manhã seguinte, decidi não ir ao Teatro. Que razão poderia eu invocar para atenuar a gravidade da minha falta? Em vez disso, vesti a roupa com que mais gostas de me ver dançar, calcei as sapatilhas e fui sentar-me no chão da sala. À tua espera: quando, finalmente, entrasses, começaria a dançar para ti, sem parar, até caír de exaustão nos teus braços, que me apertariam contra o teu corpo, como se nada tivesse sucedido.
O dia passou, lentamente, deixei de contar os minutos e as horas em que, ali sentada, com o meu mais lindo vestido, aguardava o teu regresso.

Veio a noite e continuei a longa espera.
Talvez se lhe tenham sucedido mais alguns dias e noites.
Perdi a noção do tempo.

Entregue à desilusão da tua ausência, ao desespero da solidão daquela casa, inexplicavelmente quieta, muda, sem vida, continuo, já sem forças, a aguardar o teu regresso, até ser sacudida, na escuridão da sala, pela fulminante luz de um relâmpago, imediatamente seguida do ruído ensurdecedor de um trovão.
Levanto-me e dirijo-me à varanda, ajudada como que por uma força exterior a mim, para fechar as janelas, abertas de par em par, e assim impedir que a chuva, que cai copiosamente, me invada o espaço, único bem que julgo restar-me.
Quando lá chego, grossas bátegas de água, trazidas pelo vento, açoitam-me o rosto, o corpo exposto, quase nú, o vestido de que tanto gostavas...

É então que pareço compreender: morreste. Estou liberta.

Não mais faz sentido a condenação àquela espera auto-infligida. A mágoa de teres desaparecido termina aqui, agora, à medida que a tempestade também vai amainando.

De repente, tudo fica claro: tu não mais voltarás e o mundo, lá fora, aguarda o meu retorno!


Dancing (*)

Recomecei os ensaios, de forma intensiva. Queria voltar a ser a bailarina que o público amava e se dava, plenamente, em palco, como forma de retribuir e agradecer esse afecto.

Ao fim de uns dias, tudo ficou a postos. Um novo espectáculo iria substituir o anteriormente interrompido, daquela forma brusca e nunca revelada. Mais um mistério adensava a minha vida... e esse facto espicaçava a curiosidade daqueles para quem eu me tinha tornado um mito.

Eu própria escolhi a música e desenhei a coreografia. Chamei-lhe "Espera Sem Sentido". O Director andava excitadíssimo com a perspectiva de um êxito de bilheteira. Os colegas eram gentis para comigo e não faziam perguntas: para minha surpresa inicial, acatavam as minhas directivas, sem qualquer contestação e, apesar de já ter coreagrafado de outras vezes, só agora compreendi que era considerada a líder do grupo.

Na noite da estreia voltei a sentir-me como noutros tempos. Durante o espectáculo fui um pássaro a voar naquele palco. Tive de novo a sensação de ter centenas de almas coladas à minha, a respirar em uníssono, comigo, suspensas de um passo, de um salto mais arrojado, de uma pirueta perfeita.

Nunca parei de sorrir enquanto dançava e, no entanto, lágrimas de pura felicidade rolavam-me pela face, ao mesmo tempo. Dançar era a minha vida. O que eu sabia e gostava de fazer. Mais: o prazer que dava àquela plateia, ávida de mim, era-me devolvido sob a forma de um sopro brando e morno, de genuíno êxtase.

No final da noite, foi uma mulher realizada que voltou ao camarim. Pedi que me deixassem a sós. Sentei-me na minha cadeira e deixei-me relaxar. Não tinha pressa e ninguém, ou nada, me esperava. Revi, calmamente, os acontecimentos recentes. De olhos fechados, percorri, como num filme dentro da minha cabeça, todos os detalhes daquela noite de glória.

Subitamente, bateram à porta. Chegava-me, do lado de fora, a voz da camareira, atrapalhada, que dizia: "Desculpe, minha Senhora, eu sei que pediu para não ser incomodada, mas está ali um senhor que afirma não abandonar o teatro sem a cumprimentar".

Sorri com gosto: por que não dar ao destino uma segunda oportunidade?

"Ele que entre, Cecília, mas só ele".

Quando a porta se abriu, os meus olhos embateram numa imensa braçada de lírios brancos.

O desconhecido baixou um pouco o ramo, e deixou-me entrever uns olhos azul-água, mais claros ainda porque marejados de lágrimas.

Depois, desceu-o ao nível do peito e vi o sorriso: aberto, terno, sem mácula. Único, afinal, insubstituível, porque mágico.

Levantei-me de um ímpeto e abracei-o. Do ramo de lírios, espalmado entre os nossos corpos unidos, subia um doce perfume, que me enlouquecia e fazia eternizar o beijo que conciliava as nossas bocas ansiosas.

Separámo-nos, por fim, e chorámos, rimos, dos lindos lírios amarfanhados, prestes a murchar com o calor que os nossos corpos haviam, sobre eles, exalado. Beijámo-nos muitas e muitas vezes, sempre a rir, e a chorar, e a balbuciar palavras loucas, nos curtos intervalos dos sôfregos beijos trocados.

Daquele dia em diante, passei a adicionar um acessório à minha indumentária de bailado: no cabelo, numa alça do vestido, preso junto ao coração, destacava-se, sempre, um perfumado e fresco lírio branco.

(*) pinturas de Júlia Calçada

quinta-feira, abril 17, 2008

Na paz da aldeia

Camille Pissaro
Era uma aldeia pacata. Os velhos, acomodados nas suas casas de originais telhados azuis, olhavam para os pomares floridos e sorriam: "mais uma primavera". Os novos, cansados do que consideravam a intediante tranquilidade da vida no campo, fugiam para a cidade, à primeira oportunidade de estudos ou trabalho. Alguns voltavam, por escassos dias, nas férias, e logo tornavam a partir.

Eugénia e Faustino eram um casal de meia-idade, sem filhos. Trabalhavam no campo, nos terrenos que haviam sido dos pais de ambos e dos respectivos avós antes destes. Mais para trás não sabiam e o facto pouco ou nada lhes interessava. Contentavam-se com a retribuição que a terra lhes dava, não conheciam outros lugares, a não ser as aldeias das redondezas e a vila onde, de quando em vez, se deslocavam para tratar de assuntos importantes, como pagar as contribuições, ou comprar uns pares de botas, para substituir os velhos botins por onde a água já entrava, quando os pés se lhes enterravam na lama.

Tinham aprendido a ler e a escrever na escola local, agora fechada, por ausência de crianças que a frequentem. Para além dos livros escolares, impecavelmente arrumados numa gaveta, não existiam mais livros lá em casa, com a devida excepção do missal, ao qual davam uso aos Domingos, altura em que aproveitavam para vestir alguma roupita nova, comprada nos saldos dos restos da colecção passada na loja da vila, da última vez que lá haviam ido.

Naquela quinta-feira, de manhã bem cedo, Faustino saíu de casa, sachola ao ombro, pronto a ir cortar umas ervas daninhas que circundavam as floridas árvores do pomar em frente à casa. Eugénia manteve-se na cozinha, a arrumar a loicita do pequeno-almoço e a dar umas vassouradas nas migalhas que pejavam o chão, de ambos os lados da mesa.

De repente, no silêncio da aldeia ainda semi-adormecida, ouviu-se um grito de horror.

Em poucos minutos, os poucos habitantes da aldeia, tinham-se juntado a Faustino e contemplavam, com expressões faciais que íam do espanto ao terror, os restos mortais daquela cabrinha preta, que pertencia ao tio Joaquim e jazia, pele e osso esticados, por baixo de uma ameixeira.
"Só pode ter sido obra do chupa-cabras..., deixou-a sequinha por dentro!" comentou a Alexandrina, que aproveitava a ocasião para fazer jus à sua fama de bem-informada.
"Mas se eu tenho a certeza de que a fechei ontem com as outras no curral, mulher! Como pode ela ter escapado?" perguntava o Joaquim, perplexo, coçando a cabeça, para voltar a enfiar nela o boné.

"Ai Deus nos livre de o mafarrico andar por aí outra vez!" sussurrou, benzendo-se, uma septagenária vestida de negro.

"Não diga disparates, tia Henriqueta, que uma coisa destas nunca se viu", ripostou Faustino. "Cá para mim, isto é mas é obra dos extra-terrestres. Noutro dia lá na vila ouvi dizer que tinham aparecido umas reportagens na televisão e que eles andam por aí."
"Pois foi", acrescentou Eugénia, "até nos disseram que apareceram pessoas a contar que tinham visto luzes estranhas e objectos a passar por cima das casas, sem barulho nem nada, que até pareciam coisas do outro mundo".

"E eram", a velha Henriqueta voltava a falar, "vai tudo dar no mesmo. Vocês não me acreditam, mas o mafarrico pode tomar as formas mais esquisitas. Coisa deste mundo é que isto não é. Ora olhem-me lá para o pobre animal! E como é que ele pode aqui estar se o Joaquim tem a certeza de tê-lo fechado com os outros bichos ontem à tarde, não me dirão?"

Durante alguns momentos fez-se silêncio. Por fim, o Faustino disse:
"Bom, não vamos ficar aqui todo o dia a olhar para a cabra morta. Vamos tratar de enterrá-la e ir à nossa vida, que temos mais que fazer".
Os outros concordaram e estavam já a abrir a cova quando a tia Henriqueta deu um grito:

"Esperem. Deixem, ao menos, chamar o padre João para benzer o bicho."
"Benzer uma cabra, tia Henriqueta? perguntou Eugénia, atónita, "nunca tal se ouviu dizer".
"Não é bem por causa da cabra, que eu também não acredito que ela tenha alma, é para afastar os espíritos deste sítio, para expurgar a maldição com água-benta, para correr com o chupa-cabras, o mafarrico, os extra-terrestres ou seja lá o que for... mal não faz, e sempre a gente volta para casa mais descansada."

"Está bem, tia Henriqueta", disse Faustino, condescendente. "A Eugénia dá lá um pulinho a chamar o padre que, a bem dizer, também devia ter aparecido por aqui!... " Riu-se com ar maldoso e comentou, virando-se para os homens: "mas a esta hora ainda deve estar com os pés quentinhos, enrolado na "prima Clementina", que lhe cuida da casa e não só!..." os outros riram-se a bom rir. As mulheres encolheram os ombros, abanaram as cabeças a olhar umas para as outras e debandaram para as suas casas.

Só a tia Henriqueta, arrastando-se com a bengala, ainda vociferou para o Faustino, antes de abandonar a cena "Ah, língua viperina! Ainda hás-de ser castigado por essa blasfémia" e foi-se, sempre a resmungar "ora não querem lá ver... coitado do Padre João, quem é que havia de tomar conta dele se não fosse aquela prima com um coração abençoado? Deus nos livre de caír na boca deste povo!".