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sexta-feira, outubro 06, 2017

Diz-se livre como um pássaro!



Bateu com a porta ao sair de casa. Com a cabeça a rebentar de pensamentos negativos, que tentava afastar sem resultado, dirigiu-se para a garagem, para se meter no carro e conduzir sem destino.
Poderia mesmo espetar-se numa árvore, ou despenhar-se numa ravina.
Pouco lhe importava, até que bateu com os olhos na sua asa delta, há tanto tempo esquecida e sem préstimo.
Sorriu e deu consigo a pensar que, afinal, ainda algo podia fazer sentido na sua vida. 
Uma hora depois, voando sobre a Baía que conhecia como os dedos das suas mãos, gritou a plenos pulmões, imbuído de um sentimento entre o eufórico e o tranquilo, talvez mesmo feliz:
" Sou livre como um pássaro!"

domingo, junho 11, 2017

Um rio de sentidos



Num qualquer Domingo soalheiro de um agradável mês de Junho, num certo ano do início do Século XXI, na encantadora cidade de Lisboa, em Portugal, na velha Europa: 
"Vamos dar um passeio à beira-rio, Margarida?"
"Boa ideia, Henrique. Vamos no meu ou no teu?"
"Haha. Nada disso. Cada um leva a sua."
"Entendi-te. É sempre a descer. O pior vai ser no regresso. Mas bora lá. Hoje sinto-me com energia. E a brisa do rio dá uma ajuda, se for preciso."
Como não era possível irem de mãos dadas, e a premência do contacto físico, que a sua idade e estado de enamoramento assim o exigiam, de vinte em vinte metros paravam as bicicletas e uniam as bocas, num longo, doce e molhado beijo, ao mesmo tempo que se tocavam, apertando o braço um do outro.
Ao fim de, sensivelmente, dez paragens, forçadas pela tal urgência de partilha corporal, Henrique atreveu-se "Quando chegarmos ao cais das colunas, largamos as bikes e vamos estender-nos na rampa, com as ondinhas do rio a fazerem-nos cócegas nos pés. Damos um abraço tão apertado que ficamos transformados num só. E fazemos amor, ali mesmo, sem que ninguém dê por isso. Parece-te bem?"
"Lindamente" respondeu Margarida com um risinho nervoso. E, logo de seguida, já com três pedaladas e dois metros de avanço "O último a chegar paga o gelado na "Suíça" ao fim da tarde!"


Foto de António Rodrigues, no blogue "Olhares de Maresia"

sexta-feira, abril 07, 2017

NUNCA É TARDE

Já não poderia ser considerado propriamente jovem, quando tomou a decisão de mudar, de modo radical, o seu estilo de vida. 

A verdade é que tinha estado, durante demasiado tempo, amarrado a convenções e preconceitos e agora, qual Bela Adormecida acabada de acordar de um sono de cem anos, descobria todo um novo mundo, que se abria perante  os seus olhos desmesuradamente abertos, ávidos de novidade, de aventura, de liberdade.

Começou por despedir-se do emprego onde, anos a fio, com um zelo inexplicável, tinha deixado escapar a fogosidade e a irreverência próprias da tenra idade. De seguida, desfez-se da casa, do carro topo de gama e de quase todos os outros bens materiais que o prendiam a lugares, a estatutos, a círculos de pessoas por quem já não sentia qualquer tipo de afinidade.

Comprou, então, uma velha carrinha, onde coubessem os poucos pertences que lhe restavam, mas que tivesse espaço suficiente para algumas pranchas de surf. Pintou, ele próprio, a sua nova casa com as cores de que sempre gostara, e nela fez desenhos quase infantis, com os quais nunca tinha, sequer, ousado sonhar.

Experimentou um sentimento desconhecido, doce e agradável quando, após ter comprado um chapéu de palha, de abas largas, se sentou ao volante do recém-adquirido, mas já amado, "pão de forma".

Deixou para trás a cidade e fez-se à estrada, em direcção à costa, sua futura morada, sem paradeiro certo nem permanente. Ao encetar a viagem, sorriu para o passageiro a seu lado, igualmente satisfeito e ansioso. Acariciando-lhe o sedoso pelo castanho, apenas murmurou em tom carinhoso, mas determinado "Vamos lá, que se faz tarde!"


Foto "Estilo de Vida" de António Rodrigues


sábado, maio 28, 2016

O Planeta Verde



Este texto foi escrito, e publicado na minha página do Facebook, no dia 13 de Janeiro de 2014. Na altura não o partilhei neste espaço porque, por razões que eu própria desconheço, tinha este meu blogue inactivo. Senti, agora, chegado o momento de o adicionar a todos os outros textos que aqui tenho divulgado.

O PLANETA VERDE
Meu querido Papá,
Hoje é o 7º dia após o seu falecimento e, talvez também por isso, esta noite lembrei-me de mais uma das muitas coisas que ao longo das nossas vidas tivemos em comum. Sim, ambos gostámos sempre muito de dormir e isso talvez porque, para ambos, dormir significa sonhar. E nós sempre tivemos a ventura de ter sonhos lindos, maravilhosos, fantásticos e, em sequência, sempre nos deu imenso prazer partilhá-los. Claro que também sonhamos acordados mas, neste caso, reporto-me especificamente aos sonhos ocorridos durante o sono.
Lembro-me, claramente, da primeira vez em que nos falou de um sonho fabuloso, talvez o mais extraordinário que alguma vez havia tido. Eu e os meus irmãos, ainda crianças, ouvíamos, extasiados, à volta da mesa do almoço, os prodígios, até ali inimagináveis, que o Papá nos contava sobre um incrível Planeta Verde, repleto de formosuras e encantos só comparáveis, para nós, aos dos contos de fadas.
Fui sabendo, no decurso do tempo, que as suas visitas nocturnas a este planeta se tornaram recorrentes, e que este era um dos locais preferidos de devaneio do seu inconsciente, enquanto dormia.
De tal forma se tornou um hábito, que fui crescendo com a nítida certeza de que, pelo menos para si, e para mim, por simpatia, este planeta existia mesmo. Confesso que, sem qualquer ponta de ciúme, cheguei a imaginar que nele tinha constituído uma segunda família, em quase tudo semelhante à nossa, com a diferença de que mais feliz, porque lá, no Planeta Verde, seria tudo mais perfeito: sem poluição, sem guerras, sem desigualdades sociais, sem mesquinhez, porque um planeta exemplar só poderia ser assim. Sei que o Papá, por mais de uma vez, chegou a dizer-nos "Gostava tanto de vos levar lá!".
Mais tarde, após ter lido "A Utopia", de Thomas More, recordo-me de ter pensado que o seu Planeta Verde conseguia ser ainda mais irrepreensível do que a ilha do escritor inglês, porquanto nessa existia escravatura, o que não sucedia no seu lugar de eleição.
Hoje, exactamente uma semana após a sua partida, gosto de pensar que, por fim, conseguiu viajar irreversivelmente para o seu Planeta Verde, e que não precisa mais de acordar como um comum terráqueo, neste Planeta a que, orgulhosamente, nos habituámos a chamar azul, apesar de tanto o maltratarmos. Sinto, igualmente, uma alegria ímpar quando penso que, um dia, quem sabe, poderá ser que me junte a si nesse planeta de sonho, quando o sono final sobre mim também se abater e a nossa cumplicidade onírica, enfim, se cumprir.
Aproveite bem, enquanto eu não chegar, meu querido Pai.
Depois, quando eu também já for habitante desse lugar de belezas únicas, desfrutá-lo-emos juntos. Que contentamento há-de ser o nosso, tenho a certeza!
Até lá... com muito, muito, muito Amor!
Fami
P.S: Seja quanto tempo for, vai passar num instante, face à eternidade que teremos, para nele podermos viver intensamente a felicidade!

quarta-feira, janeiro 14, 2009

Reencontro na Serra Nevada - PPS de Eliane Marques


Não resisto a transpor para aqui, pelo valor por ela acrescentado ao meu conto mais recente, o endereço onde poderá ser encontrado e apreciado este lindíssimo trabalho da minha querida amiga Eliane.
http://suallinda.multiply.com/journal/item/876/Reencontro_na_Serra_Nevada_Maria_Carvalhosa_-_PPS_em_attachment

Comovida e grata à minha irmã de espírito (como, por acreditarmos nesta verdade, nos habituámos a tratar-nos) agradeço antecipadamente a vossa visita ao seu espaço, belo e rico de cultura, criatividade, arte e emoção pura, no link que passo a indicar:
http://suallinda.multiply.com/

segunda-feira, dezembro 29, 2008

Camélia de Natal

Toda a gente conhece a "Flor de Natal", que se vende nos hipermercados e centros comerciais nesta época festiva. Na realidade, não se trata de uma flor, mas sim de uma planta sem flores, apenas com folhas, verdes, como é normal ao longo de todo o ano, à excepção do meio do Outono em que, gradualmente, a sua cor vai mudando de verde para vermelho-vivo, chegando, nalguns casos, a ficar com todas as folhas vermelhas até final de Dezembro.

No nosso Natal deste ano, lá na Ponte do Arco, não tivemos nenhuma destas "Flores" mas a natureza, que não gosta de deixar os seus créditos por mãos alheias, fez-nos uma bela surpresa:

No passado dia 25 , apesar da forte camada de geada que caíra durante a noite, lá estava, bem aberta e sorridente para o sol que a iluminava, uma inesperada camélia. Linda, fresca, feliz quanto uma flor pode ser... uma mensagem de esperança, feita beleza, a alegrar os corações que julgavam já ter recebido todos os presentes.


Fotografia de António Rodrigues

segunda-feira, outubro 20, 2008

A tradição da doçura de Outubro


Fotografia de António Rodrigues

"Outubro é o mês mais doce", repito em cada ano que passa.

Eu não sei porque amo assim Outubro, por que razão, neste mês de Outono, me sinto particularmente amada e feliz, por que gosto de tudo e de todos como se do primeiro, ou do último, mês da minha vida se tratasse. A verdade é que, invariavelmente, quando chega esta época, sinto uma vontade imperiosa de o assinalar, de o deixar registado, para a posteridade, não vá algum dia esquecer-me de que sempre assim senti.

quinta-feira, julho 31, 2008

A Tela da Vida


João Cristino da Silva (1829-1877)
Cinco Artistas em Sintra - 1855
Óleo sobre tela, 863 x 1288mm

"A obra Cinco Artistas em Sintra é, indiscutivelmente, uma obra emblemática do Romantismo português. Trata-se do primeiro retrato de grupo na pintura, foi elaborado com o objectivo de representar Portugal na Exposição Universal de Paris em 1855.Nela podemos observar cinco artistas rodeados por gente do povo e num ambiente agreste.A composição foi esboçada no local e apresenta-se de forma cenográfica, sugerindo o processo de trabalho típico do romantismo: pintura de paisagem ao ar livre, recolhida "do natural" e, posteriormente, elaborada em atelier. Esta obra é uma homenagem ao mestre Tomás de Anunciação que está no centro da composição (a pintar), e junto dele Francisco Metrass, com adereços do próprio autor - Cristino da Silva, que os gostava de exibir (chapéu à Rubens e capa larga). No segundo grupo encontramos Vítor Bastos (escultor), José Rodrigues (pintor), sentado no chão e Cristino da Silva (o autor da obra), encostado à rocha, elaborando um esboço, em pose artística.Nesta tranquila paisagem destaca-se o rochedo que de alguma forma confere unidade e coesão à obra. A presença de aldeãos que olham fascinados para o trabalho do senhor da cidade, representa uma espécie de ideal de ruralidade que fascinava os representantes do Romantismo português. Ao fundo, vislumbra-se o Palácio da Pena, um dos símbolos máximos do Romantismo, edificado por D. Fernando. As cores do quadro são terrosas, com predominância de tons de verde e castanho, sem grandes contrastes. A iluminação é estudada, dando o tom dourado de fim de tarde a toda a composição."

(Texto extraído de "Museus na Escola" museusnaescola.eselx.ipl.pt/static/instance/M...)


A Tela da Vida

A nossa vida é uma tela,
uma tela de mil cores,
todos nós pintamos nela,
somos bons ou maus pintores.

Com mais ou menos talento,
com tinta clara ou garrida,
por vezes com desalento
pintamos a nossa vida.

Há quem pinte com amor;
há quem pinte com paixão;
só não sabemos dar cor
ao que sente o coração.

Sabemos nós qual a cor
para pintar a amizade?
que tons daremos à dor?
como se pinta a saudade?

Ai, pobre de quem na vida
só tem negro p’ra pintar:
uma tela entristecida,
feita talvez a chorar.

(poema da autoria de Maria Teodora)

terça-feira, julho 15, 2008

A sensualidade na poesia feminina do Japão - "O Tanka"



PERÍODO HEIAN NO JAPÃO - FINAL DO SÉCULO VIII ATÉ FINAL DO SÉCULO XII - (Plena Idade Média na Europa)

A forma poética "tanka" constituída por 31 sílabas japonesas de apresentação vertical, é apresentada em tradução nas línguas ocidentais por cinco linhas que, mantendo tanto quanto possível o registo sonoro original, correspondem a cinco versos metricamente alternados de 5,7,5,7,7 sílabas.

As duas autoras que nos são apresentadas por Luísa Freire, Ono no Komachi (834? -?) e Izumi Shibiku (974? - 1034?) "foram as grandes representantes da poesia da corte de então e marcos importantes na poesia japonesa de todos os tempos que, ao longo dos séculos, se foram tornando uma lenda e uma referência. [...] " Ambas são figuras centrais dessa Idade de Ouro, durante a qual as mulheres escritoras tiveram um papel decisivo na fixação do japonês como língua poética".

[...]

"Há mil anos, a cidade capital Heian-Kyo (hoje Kyoto) era mais populosa do que qualquer cidade da Europa e um dos centros altamente civilizados do mundo. Os aristocratas aspiravam ao favor político que lhes trouxesse posição e poder e as filhas dessas famílias eram mandadas aos catorze anos para a corte, para servir os membros imperiais. Como era através do casamento que a sua posição e o seu estatuto se afirmavam, as raparigas eram cuidadosamente educadas e cultivadas para, esteticamente, competirem com os homens em termos de igualdade. Na corte, divertiam-se e divertiam a imperatriz com música e versos, mas a sua atenção ia para os assuntos do coração. Os "casos amorosos" eram aceites às mulheres solteiras e a poligamia era habitual nos homens. Assim sendo, compreende-se que o erotismo fosse tópico literário, reflectindo todo o ambiente que se vivia."

Passo, então, a transcrever, apenas à laia de exemplo, alguns dos tanka que considero de maior beleza e sensibilidade amorosa:



De Komachi:


Será que apareceu

só porque eu adormeci

a pensar nele?

Se eu soubesse que sonhava,

nunca teria acordado.

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Quando o meu desejo

se torna intenso de mais,

visto a roupa de dormir

virada pelo avesso,

escura casca da noite.

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O meu desejo de ti

é forte para contê-lo -

assim ninguém vai culpar-me

se à noite for ter contigo

pela estrada dos meus sonhos.

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Não há como vê-lo

nesta noite sem luar -

estou deitada e desperta,

os seios ardendo em desejo

e o coração em chamas.

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A noite mergulha

com um veado a chamar

em som agudo

e, ao ouvi-lo, escuto

um lado do próprio amor.

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Pescador não deixa

a baía plena de algas...

Vais abandonar

este corpo flutuante

à espera das tuas mãos?

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Triste a pescadora que,

longe, na Baía Suma,

perdeu um remo do barco -

assim é este meu corpo

sem ter a quem recorrer.

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Nos campos de Outuno,

se uma centena de flores

solta suas cores,

não posso também gozar

sem ter medo da vergonha?

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Este meu corpo

tão frágil e flutuante,

é uma cana sem raízes...

Se um rio acaso pedir

que o siga, eu acho que irei.


Fim da selecção de Komachi


DE SHIKIBU:

Deitada e sozinha

de cabelo negro solto

e emaranhado,

sinto desejo daquele

que primeiro o veio tocar.

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Porque não terei

pensado nisto já antes?

Este corpo meu

ao recordar tanto o teu

tem a marca que deixaste.

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Não há diferença -

a borboleta nocturna

que se veio queimar,

e aqui este meu corpo

que o amor veio transformar.

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Não fiques corado!

Todos adivinharão

que dormimos juntos

sob as pregas enrugadas

deste manto avermelhado

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Se o cavalo dele

tivesse sido domado

pela minha mão -

eu tê-lo-ia ensinado

a não seguir mais ninguém.

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Sem ser perturbado,

o meu jardim fica cheio

de mato estival -

como eu desejo que alguém

desbrave a erva profunda!

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Desejando vê-lo

para ser vista por ele -

se ele ao menos fosse

o espelho onde eu me olho

e que olho cada manhã!

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A gota de orvalho

permanece mais tempo

na folha de bambu

do que tu, que logo partes

antes do amanhecer.

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Este coração

de tanto te desejar

vai-se quebrando

em milhares pedacinhos -

mas nem um só vou perder.

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Mesmo quando um rio

de lágrimas atravessa

e molha este corpo,

não chega para apagar

todo o fogo do amor.

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Penso: "nos meus sonhos

poderemos encontrar-nos"...

Virando a almofada,

eu ando às voltas na cama

incapaz de adormecer.

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Deixada aqui

a envelhecer no mundo

sem ti ao meu lado,

as flores perdem a beleza

tingidas de negra cor.

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Meu corpo perdido

só conhece agora a noite -

por isso as mangas no escuro

permanecem encharcadas,

impossíveis de secar.

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Ao lembrar-me de ti...

Os pirilampos do campo

parecem centelhas vivas

que se desprendem e soltam

dos desejos de meu corpo.


Fim da Selecção de Shikibu


segunda-feira, fevereiro 04, 2008

Pablo Neruda


Neruda - José Juan Torres (clicar para aceder ao link em que se ouve a excelente declamação de J.J. Torres)

Este post é dedicado à minha filha Sara, que faz hoje 25 anos e que, durante a sua infância, muitas vezes me ouviu "dizer" este poema. Também o dedico ao meu pai, que fez 78 anos no dia 31 de Janeiro e que, porque gostava de me ouvir "dizê-lo", tem-no gravado num dos seus álbuns de recordações áudio.

Parabéns a ambos, com todo o meu amor.


"Posso escrever os versos mais tristes esta noite "
Posso escrever os versos mais tristes esta noite.

Escrever, por exemplo: "A noite está estrelada, e tiritam,
azuis, os astros lá ao longe".

O vento da noite gira no céu e canta.

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Eu amei-a e por vezes ela também me amou.

Em noites como esta tive-a eu nos meus braços.
Beijei-a tantas vezes sob o céu infinito.

Ela amou-me, por vezes eu também a amava.
Como não ter amado os seus grandes olhos fixos.

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.

Pensar que não a tenho.
Sentir que a perdi já.

Ouvir a noite imensa, mais imensa sem ela.
E o verso cai na alma como no pasto o orvalho.

Importa lá que o meu amor não pudesse guardá-la.
A noite está estrelada e ela não está comigo. Isso é tudo.

Ao longe alguém canta. Ao longe.
A minha alma não se contenta com havê-la perdido.

Como para chegá-la a mim, o meu olhar procura-a.
O meu coração procura-a e ela não está comigo.

A mesma noite que faz branquejar as mesmas árvores.
Nós dois, os de então, já não somos os mesmos.

Já não a amo, é verdade, mas tanto que a amei.
Esta voz buscava o vento para tocar-lhe o ouvido.

De outro. Será de outro. Como antes dos meus beijos.
A voz, o corpo claro. Os seus olhos infinitos.

Já não a amo, é verdade, mas talvez a ame ainda.
É tão curto o amor, tão longo o esquecimento.

Porque em noites como esta a tive nos meus braços, a minha alma não se contenta com havê-la perdido.

Embora esta seja a última dor que me causa, e estes sejam os últimos versos que lhe escrevo.

Pablo Neruda in "Vinte Poemas de Amor e uma Canção Desesperada"

sábado, dezembro 29, 2007

Avôzinho

O meu avô Carvalhosa, pai da minha mãe, Noémia, era um jovem elegante, bonito, culto. Escrevia lindos versos, tocava banjo e bandolim, e cantava, com uma voz que diziam ser melodiosa e encantadora, o fado de coimbra.

Com estes atributos era, naturalmente, na segunda década do Séc. XX, um herdeiro muito cobiçado pelas inúmeras meninas que por ele suspiravam e quase desfaleciam a um sorriso seu ou a uma frase mais galante, fosse num descontraído piquenique na Serra de Montejunto, num serão passado em casa de alguma família do círculo de amigos, ou num baile de salão, numa das muitas quintas ainda habitadas pela aristocracia rural (em decadência social face à recém-constituída República, mas teimosamente resistente na manutenção dos seus usos e costumes).

Nos últimos dias deste ano de 2007 tenho-me lembrado dele com alguma frequência (e muita saudade). Não desse jovem garboso que, obviamente, não conheci, mas do meu "avôzinho", de coração puro e terno, com olhos de um azul muito claro que, agora, associo à transparência da sua alma e à generosidade do seu coração. Visitáva-nos diariamente, sempre com uma supresa no bolso, nem que fosse uma história nova, desencantada no seu vasto baú de recordações. De vez em quando também de lá saíam chocolates e outras guloseimas, porque, no fundo, ele bem conhecia a variedade de gostos da criançada...

Aqui lhe deixo uma sentida homenagem, através de uma fotografia que o retrata nos anos áureos de sedutor, e de um soneto de sua autoria publicado no jornal "O Alto Concelho de Alenquer", na mesma época.


VERSOS
Versos, quem os não lê com fé ardente,
com sacrosanto enleio e devoção?!
Soam tão docemente ao coração!
Versos... quem os não diz... quem os não sente?!

Porque se agita em nós, violentamente,
a alma, a crepitar como um vulcão,
ao ler d'esses Poetas a paixão
que vibra pelo espaço eternamente?!

Versos são preces loucas, desvairadas:
confidências subtis, apaixonadas,
repletas de fervor e de verdade!

E assim - quando a velhice se aproxima -
nós vamos evocando em cada rima,
uma cena feliz da mocidade.

Francisco Luiz de Carvalhosa (1926)

segunda-feira, dezembro 03, 2007

Rosa-sem-espinhos (trepadeira volta a florir)


É inacreditável! A trepadeira de rosas-sem-espinhos, que deu nome a este blogue e da qual vos falo logo na abertura do mesmo, voltou a florir, ao fim de muitos e muitos anos, confundida que deve estar com este Verão que aconteceu ao longo de todo o Outono e com esta (imaginada por ela?) Primavera. Não sei como descrever o que senti, no fim-de-semana que findou, quando me deparei com este pequeno "bouquet" e mais uns quantos botões a despontar... voltei à infância, por uns segundos, e pela janela aberta do meu quarto deixei que entrasse o inebriante perfume da minha especial e única rosa-sem-espinhos. Aqui deixo a sua imagem que, com a maior alegria, partilho com os meus amigos.

sábado, novembro 24, 2007

Johannes Vermeer - realidade e ficção

É interessante constatar como o grande pintor Johannes Vermeer utilizava, com raríssimas excepções, o mesmo cenário em todos os seus quadros: o estúdio, a janela do mesmo, fazem parte integrante da maioria das suas pinturas. O filme "Rapariga com Brinco de Pérola", cuja magistral direcção de fotografia mereceu ao português Eduardo Serra a 2ª nomeação para um óscar nessa categoria, mostra-nos esse espaço como "o espaço" do artista, numa reprodução exímia do recanto que podemos apreciar, repetidamente, nos seus quadros.










Curiosamente, num dos mais famosos quadros de Ian Vermeer, precisamente o "Rapariga com Brinco de Pérola", patente ao público no Museu de Haia, o pintor opta por ocultar dos olhares de quem observa a pintura o cenário mais habitual dos seus quadros, escolhendo, alternativamente, um fundo negro, do qual a figura sobressai em toda a sua plenitude. Quem era aquela rapariga? O célebre pintor holandês retratou uma rapariga de turbante e brinco de pérola. O famoso quadro tem sido, frequentemente, designado como a "Mona Lisa holandesa" e é considerado por muitos especialistas em arte como a obra-prima do pintor. Das várias hipóteses elaboradas para responder à pergunta, uma aparece no filme de Peter Webber...


História e ficção misturam-se, de forma inseparável, no reputado romance, "Rapariga com brinco de pérola", de Tracy Chevalier. A sociedade de Delft, na Holanda do Séc. XVII, é bastante preconceituosa, cria fossos profundos entre ricos e pobres, cristãos e protestantes e patrões e empregados. Quando Griet, uma menina de 16 anos, vai trabalhar como criada na casa do mais importante pintor da cidade, espera-se que esta saiba o seu lugar. Mas na casa de Johannes Vermeer, dirigida pela sua esposa, mentalmente desequilibrada, e pela sogra dominadora, a jovem logo desperta a atenção do patrão. Cativado pela sua atitude calma, intuição e fascínio pela arte, Vermeer leva-a aos poucos para o seu mundo – um lugar tranquilo, de cor exótica e luz ofuscante, sombras que mudam, e uma beleza inimaginável. O que ninguém suspeita, devido à imprescrutável personalidade de Griet, é que o seu fascínio pelos quadros de Vermeer irá levá-la ao mundo privado do pintor. É desta forma que, à medida que se torna testemunha do processo criativo do grande mestre, a sua paixão reprimida será o catalisador de um escândalo que atingirá em cheio a cidade e mudará, irremediavelmente, o curso da sua existência.


Diz-se que Tracy Chevalier teve a ideia de escrever um romance envolvendo a rapariga do retrato porque, desde os 19 anos, convivia com o poster de Vermeer na parede do seu quarto. Um dia, ao pensar sobre um novo trabalho, deu consigo a observar mais de perto a rapariga com brinco de pérola e, talentosa e atrevida como é, começou a imaginar que a história daquela rapariga daria um belo livro se descrevesse quem ela era, quais as sensações que teve ao ser retratada, se levasse os leitores a interrogar-se sobre a possibilidade de o seu sorriso ser apenas inocente, ou, pelo contrário, voluntariamente sedutor. Investigou sobre a vida do pintor, estudou o ambiente da cidade onde ele nasceu, algumas situações da época e manteve os nomes verdadeiros de sua mulher e sogra – Catarina e Maria Thins, respectivamente. Talvez tenha absusado da imaginação... não importa. Quando se trata de um romance, o rigor histórico não é exigido ao seu autor, sendo-lhe concedida total liberdade para ficcionar.

O Realizador do filme, Peter Webber, foi de uma delicadeza extrema na sua narrativa. A fotografia de Eduardo Serra é, ela própria, uma pintura. Scarlet Johansson tem uma interpretação irrepreensível, ao lado de um Colin Firth no seu melhor, no papel do pintor. Pode dizer-se, sem exageros, que o filme "enche as medidas" aos amantes da sétima arte.

Quanto à pintura de Vermeer, essa é imortal, perdurará muito para além dos livros que se escrevam e dos filmes que se façam sobre a sua vida!



terça-feira, outubro 30, 2007

A doçura de Outubro (ontem como hoje)



O ano passado publiquei um post a que dei o título de Outubro Doce.






Este ano voltou o sentimento, ao longo de todo o mês, como se me fosse dado viver, neste período, o que de mais pacífico e tranquilo existe na vida. É um tempo lânguido e terno. Um tempo de carinho e de doçura. Um tempo de harmonia e de bem-estar comigo e com os outros: com tudo o que sou e com o que me rodeia. Em Outubro sou feliz. Logo, logo, virá o Novembro, com os seus dias cinzento-escuros e a inevitável melancolia, que contamina a paisagem, traz consigo o desconforto da humidade, a tristeza dos dias curtos e escuros, o frio que penetra a roupa e se infiltra até aos ossos, até à alma.






Entretanto, celebro Outubro... os tons suaves do céu, do mar, da areia, dos tapetes de folhas que se formam em volta das árvores, os sorrisos das pessoas que amo, a calma de um entardecer morno e cúmplice, na maré-vazia, quando a luz é branda e o ar que respiro está impregnado de um misto do cheiro da maresia, numa brisa aconchegante, com o aroma das plantas que povoam as dunas: doce.

quinta-feira, outubro 11, 2007

Sintra... Nas Brumas da Memória

"A Fonte das Brumas" - Gustavo Fernandes


"O eco de Anesir" - Luís Vieira-Baptista


"Noites Mouriscas" - Victor Lages

Foi em 1995 (já lá vão 12 anos, é verdade) que aceitei o convite para estar presente na inaguração de uma exposição do "Grupo Artitude", em Sintra. Três artistas na flor da idade, com sensibilidades, vontades e um atelier em comum, tinham acatado o desafio da Câmara Municipal para, ao sabor da imaginação e da arte, recriarem Sintra... nas brumas da memória. Foi esse o tema da exposição e ali pude encontrar inúmeras pinturas maravilhosas, destes três homens que, desde logo, passaram a fazer parte dos pintores portugueses contemporâneos meus preferidos.
Nesse dia adquiri os três quadros cujas imagens aqui reproduzo (e tive que me apressar porque a procura era muita!). Apaixonei-me, à primeira vista, por estas três pinturas, cada uma de seu autor, por mera coincidência.
Depois, com o correr dos anos, fui seguindo as suas carreiras, que trilharam caminhos distintos, uma vez desfeito o grupo que os impulsionou, e apreciando a evolução de cada um, tendo levado para casa mais algumas pinturas de um deles, aquele com quem julgo ter maiores afinidades, o que melhor dialoga com a minha "corda sensível". Continuo a visitar as exposições individuais de cada um dos três autores, sempre que posso, mas há já algum tempo que não consigo trazer comigo a ilusão de mais um pedaço das suas almas, para me fazer companhia, o tempo todo, no meu canto: "indisponibilidades financeiras", nada de mais...
Resta-me, além disso, visitar os seus sites para ficar actualizada relativamente às obras que vão produzindo... e sonhar... que volto a poder trazer para casa a materialização de uma ou outra que gostaria de ter sempre ao alcance do olhar, da contemplação.

terça-feira, agosto 21, 2007

Dimensões


Post publicado (com diferenças mínimas, que ninguém se dará ao trabalho de procurar) no meu blogue A Palavra e a Imagem, em 01/08/07 - como está para lá esquecido, à míngua de visitantes, resolvi trazê-lo até aqui... talvez tenha melhor sorte!... :)
Em tempo de férias dá para fazer experiências e brincadeiras, com propósitos verdadeiramente inocentes, na languidez do "dolce fare niente" e o usufruto desse bem maior que se obtém em troca do que se dá nos restantes onze meses - descanso vs trabalho.
A dimensão, seja do que for, é tão relativa quanto o tempo e o espaço. Levo meia-hora a caminhar pela baía, desde as Portas de Peniche ao Baleal, sempre pela areia, e percorro uma distância de 4 Kms. E daí? Fico meia-hora mais velha, logo com menos meia-hora de vida, mas, ainda que não tivesse percorrido aquele espaço, a meia-hora ter-se-ia gasto, e restar-me-ia, da mesma forma, menos meia-hora de vida. Ou será que ganhei meia-hora de vida pelo facto de ter percorrido a baía em vez de ter ficado estiraçada ao sol?


Pequenas questões as minhas, e, no entanto, tantas dúvidas, tantas respostas que os físicos e os matemáticos procuram, essas, sim, a ter em conta, mas também os gnósticos e os ascetas, de um modo diferente, com base nas antigas religiões e no que as respectivas doutrinas defendem e profetizam, e afinal, imagine-se, acabam por se encontrar todos na inenarrável Teoria de Tudo. E não é que o big bang e o big crunch e a segunda lei da termodinâmica dos cientistas nos levam exactamente aos mesmos pontos de partida e de chegada que o judaísmo, o islão, o hinduísmo, o budismo, o taoísmo?

Agora pergunto eu, o que fazemos nós aqui? Por que razão existimos? E se não existíssemos, se não passássemos de figuras imaginadas, sonhadas por Ele, o Senhor do Universo, farto de estar só nesta imensidão que, provavelmente, será infinita. Ou não. E se Ele anseia pela morte, pelo descanso ao qual poderá nunca ter direito? Somos completamente incompetentes para o ajudar. Nós, que nem sabemos quem somos, nem se foi Ele que nos inventou, para se distraír... e se Ele também não existe? O que é esta história? Uma farsa, uma tragicomédia inventada por quem nunca passou de um mito... e, no entanto, o Universo está aí, com todas as estrelas, nebulosas, planetas, cometas e galáxias em contínuo movimento... ou será que tudo não passa de uma ilusão? Mas ilusão porquê, para quê e para quem? E se o Princípio da Incerteza for a porta para a Teoria de Nada?

"Raios partam a vida e quem lá anda", dizia Álvaro de Campos, isto partindo do princípio que houve um Álvaro de Campos, apesar de, como todos sabemos, mais não ter sido que um dos heterónimos de um outro ser mais complexo que o criou, esse poeta de excepção a quem chamamos Fernando Pessoa, mas a quem poderíamos, por absurdo, chamar deus. Seremos todos nós pequenos deuses que inventamos o mundo à nossa imagem, de acordo com a criatividade e vontade de cada um?
Ná... os cientistas não vão nessa, e os teólogos também não.

O que eu sei, neste momento, é que a minha gata ocupa o espaço (quentinho) em cima do meu computador. Eu vejo isso e quero acreditar (porque preciso de acreditar nalguma coisa) que as dimensões são uma realidade, tal como o espaço que ocupam e o tempo que qualquer objecto demora a deslocar-se de um local para outro (ou será que pode estar em vários locais ao mesmo tempo, dependendo apenas da presença de um observador que comprove que ele existe, naquele sítio e momento, porque ele o vê, naquele exacto local, naquele preciso instante?)
Sabemos tão pouco de tudo. Por vezes, gostaria de ser como os que se contentam com o que têm, o que conhecem, o que julgam saber, e não se preocupam com os porquês. Tiveram, certamente, a idade dos porquês lá para os quatro ou cinco anos e ficaram satisfeitos com as respostas. Vivem felizes assim. (A minha idade dos porquês deverá durar os meus anos de vida e, apesar de tudo, não acredito no que acabei de afirmar, ou seja, que aqueles que a ultrapassaram na infância, vivam hoje felizes e contentes. Apenas se acomodaram a fazer de conta que sim!...).

terça-feira, julho 31, 2007

As brumas da Berlenga

Fotografia de António Rodrigues, o "madrugador"... ;)

Não. Não se trata de mais uma paráfrase a partir de "The Mists of Avalon". É que hoje a Berlenga amanheceu assim, envolta em brumas, e eu senti uma vontade imensa de ir até lá, mais logo, com o sol aberto. Manhãs nostálgicas as desta terra, que logo se dissipam quando os raios do astro-rei rompem as núvens e com eles trazem cor, vida, alegria de aqui estar, neste lugar abençoado pela mãe-natura.

domingo, julho 01, 2007

O verdadeiro rosto da tia Albertina



Porque surgiram alguns comentários ao post anterior, apontando soluções várias para a identidade da figura retratada e, inclusivamente, foi sugerido que fosse um auto-retrato, sinto que a minha homenagem não ficava completa se aqui não publicasse o verdadeiro auto-retrato da tia Albertina.

Tudo o que disse sobre o retrato de Esmeralda corresponde à realidade, isto é, nem sequer sei o seu verdadeiro nome nem quem poderia ter sido o modelo. A tia Albertina nunca nos falou daquele retrato e só o encontrei, no tal caixote no sótão, muitos anos após a sua morte. A minha imaginação sentiu necessidade de criar o resto, que é muito pouco, mas que confere alguma identidade (ainda que meramente hipotética) àquele rosto anónimo e misterioso.

Quanto a este óleo, não há qualquer margem para dúvida, porque foi oferecido pela própria à minha irmã, que era sua afilhada, tal como os lindíssimos brincos aqui retratados (não posso deixar de referir, a par com a perfeição dos brincos, a maravilhosa gola de renda, cujos pormenores só poderiam ter sido assim transpostos para a tela por verdadeira mão de artista) . Nenhum de nós (refiro-me aos três irmãos de que faço parte) conheceu a tia Albertina na sua juventude, como é natural. A verdade é que aos setenta e muitos anos, e mesmo aos oitenta, quando a conhecemos bem de perto e tivemos o privilégio de com ela conviver intensamente (a que teve menor oportunidade de estar com ela foi, por ironia, a minha irmã, sua afilhada como referi, porque era a mais novinha...) mantinha muitos dos traços que podemos observar neste auto-retrato. Foi sempre alta e magra, duma elegância que fazia inveja a muitas raparigas de vinte anos. O porte altivo que aqui podemos apreciar, era nela uma constante, e manteve-o até ao fim dos seus dias de pessoa saudável e "senhora do seu nariz" . Os olhos, embora mais encovados, também nunca perderam o tom verde-azeitona nem o brilho que os incendiava quando relatava emoções. A voz, essa não está no retrato, mas o seu timbre ainda ecoa nos meus ouvidos: segura, firme, com laivos de ternura quando se dirigia a qualquer um de nós, os seus queridos sobrinhos.

A verdade é que este retrato precisa de ser restaurad0 com urgência. A minha irmã entregou-o aos meus cuidados com esse propósito. Confesso que fiquei com alguma má-consciência quando constatei que talvez a minha falta de actuação imediata tenha contribuído para a deterioração do mesmo, que hoje me pareceu francamente agravada. A tela, nalguns sítios (como ao pé da boca, do lado esquerdo do retrato, numa bem notória mancha na fotografia) está tão rarefeita que consegue ver-se à transparência. Não podemos deixar que uma peça deste valor (enquanto pintura, sem dúvida) mas em termos afectivos, acima de tudo, seja danificada, destruída. É nosso dever preservá-la, enquanto herdeiros de alguns dos seus quadros mas, principalmente, da memória de momentos que ela nos dizia terem marcado para sempre a sua personalidade e, acima de tudo, conhecedores que somos da sua história, da paixão da sua vida - a pintura - que sempre lhe foi vedada enquanto profissão , sendo que pouquíssimas pessoas terão tido a ventura de observar trabalhos seus.

Só mais duas ou três revelações: a tia Albertina teve dois filhos que morreram praticamente à nascença. Também o papel de mãe lhe foi negado, mas esse pela natureza. Não deixou descendência directa, portanto. Connosco, sobrinhos-bisnetos, descobriu o prazer de ter crianças junto de si e a felicidade dela reflectia-se como um espelho na alegria, no orgulho por nós sentido pelo facto de podermos partilhar as recordações da sua vida, da do seu pai e do seu avô. Penso que isso contribuiu para que, desde muito cedo, cada um de nós tivesse, a seu modo, começado a encarar a arte como um assunto muito sério, como uma (senão a) razão da existência. O meu irmão era, claramente, o seu sobrinho preferido, mas também, como não o ser, quando prescindia de tudo o resto, com seis anos de idade apenas, para ficar sentado a seu lado, a folhear livros de arte, a fazer-lhe perguntas inteligentes sobre o que ia observando, a sorver tudo o que ela tinha para contar e ensinar. Adoravam-se mutuamente, digo-o sem qualquer pejo. Vê-los juntos era um encanto (note-se que não há aqui lugar para qualquer ponta de ciúme, antes pelo contrário, deliciava-me aquela relação especial, da qual eu nunca fui excluída, mas cúmplice).

Última revelação, e que não é mais do que uma rectificação, assim do género "já agora, que fique tudo no seu devido lugar": a nossa verdadeira tia-bisavó era a sua mãe, Maria Antónia, irmã do nosso bisavô Luís Filipe, casada com o pintor Ribeiro Cristino (de quem também temos um retrato a carvão, desenhado pelo marido, na Ponte do Arco) mas que, como facilmente se depreenderá da idade que a tia Albertina tinha quando nascemos, nunca chegámos a conhecer. A Albertina Augusta, nossa prima, afinal, nunca suportou a ideia de que a tratássemos por "prima" (logo nós, que ela elegera, naquela avançada idade, como os filhos que gostaria de ter tido) e sempre deixou bem claro que nunca deveríamos tratá-la senão por "tia Albertina". Acabámos por esquecer-nos que não era, verdadeiramente, nossa tia, mas também, agora que penso nisso, ela foi muito mais nossa tia do que as tias-bisavós que conhecemos (essas sim, irmãs da bisavó Mafalda - e aqui volto a remeter para o post da Ponte do Arco, na tentativa de evitar que tudo isto fique muito confuso para quem lê, ao cair no clássico erro de que é tudo tão clarinho para os outros como para mim!)

O facto de partilhar convosco estas intimidades está, começo a ficar convicta, intrinsecamente ligado ao remorso que sinto pelo facto de não a ter acompanhado devidamente nos seus últimos tempos de vida e toda esta "pomposa" homenagem (parece-me agora, que reflicto sobre o assunto) estará a funcionar, simultâneamente, como um acto de contrição. Recém-casada e com a primeira filha nos braços, não me sobrava muita disponibilidade para pensar na querida tia Albertina... sei, disso tenho a certeza, que fui visitá-la ao hospital... julgo que uma única vez. A imagem fantasiada da sua hora da morte, completamente sozinha, naquela cama de hospital, ainda hoje me aflige, perturba e ensombra.

segunda-feira, junho 25, 2007

O rosto de Esmeralda

Todas as fotografias trazem histórias agarradas.
Por coincidência, duas das últimas com que entrei no jogo "Fotodicionário", do blogue Palavra Puxa Palavra têm, por detrás, histórias de família ("linhas" e "rosto").
Relativamente a esta última, andava eu a "meter o nariz" no conteúdo de uns caixotes que estavam no sótão da nossa casa na Quinta da Ponte do Arco (quem quiser conhecê-la pode visitar o meu post "A Obra" - (Ponte do Arco), de Fevereiro de 2007), quando me deparei com este retrato a carvão, amarrotado e mal-tratado pelo tempo e pela ausência de estima, assinado pela minha tia-bisavó Albertina Augusta (coitada da senhora... que nome lhe haviam de ter posto!). Fiquei, desde logo, fascinada. Mais deliciada ainda quando reparei na data do dito retrato: nada mais nada menos que o dia exacto do meu aniversário, mas quase cinquenta anos antes de eu ter nascido... de imediato me apaixonei por aquele rosto, de "buço" e olhos indubitavelmente muito claros - verdes, possivelmente - e baptizei-o de "Esmeralda".
Fiquei cheia de dúvidas quanto ao modelo, tal como alguns de vocês, meus amigos, que assim o manifestaram nos comentários à foto no referido jogo do PPP ("mas isto é homem ou mulher?" , "mulher com um bigode daqueles?".
Encontrei como resposta provável que tivesse sido um retrato desenhado às escondidas, pela minha tia-bisavó, recorrendo a uma empregada como modelo. Empregada doméstica não deveria ser, pois não apresentava o uniforme característico, poderia ser uma lavadeira ou, então, era uma encenação em que a/o modelo vestia roupas "arranjadinhas", embora modestas, escondia o cabelo numa espécie de turbante (à maneira das lavadeiras da época, julgo eu) e punha uns brincos compridos, a contrastar com o resto. Tudo meras possibilidades... a verdade partiu para sempre com a tia Albertina (que tive o prazer de conhecer e com quem convivi intensamente desde a minha infância até aos vinte e tal anos, dado que ela morreu com cerca de noventa).
Resta-me acrescentar, a título de curiosidade, que a autora do retrato a carvão era neta, filha e irmã de pintores famosos da nossa praça, todos eles alunos e, mais tarde, professores nas Belas-Artes (um dos irmãos até ganhou vários prémios Valmor, tendo sido um dos arquitectos bem conhecidos do "Estado Novo", autor de obras de época como a Praça do Areeiro e as chamadas "Avenidas Novas", bem como a sua própria residência em Lisboa, igualmente objecto de prémio Valmor).
A tia Albertina que, segundo consta, era a filha que tinha herdado do pai e do avô a verdadeira arte de pintar e desenhar (quadros de ambos, mas principalmente do avô, podem encontrar-se no Museu de Arte Contemporânea, no Chiado) - e eu tenho aguarelas e óleos pintados por ela, devidamente cuidados e amados, como merecem - viu negada a sua vontade de aceder, contrariamente aos irmãos do sexo masculino, às Belas-Artes, porque uma menina da aristocracia (ainda que praticamente arruinada), mesmo numa família de artistas pelo lado paterno, tinha mais era que casar e ter filhos e comportar-se como uma senhora de sociedade. O marido, inclusivamente, viria a proibi-la de pintar, razão pela qual penso que o retrato terá sido feito às escondidas... Enfim... outros tempos... em que a mulher, de forma submissa, tinha que obedecer e não questionar... primeiro, os pais, depois, o marido. Pobre tia Albertina Augusta!
Mas o orgulho que ela tinha nos muitos quadros do pai e do avô que lhe revestiam as paredes da casa era imenso! E o que eu e o meu irmão gostávamos de estar com ela!...: conversar, admirar os quadros, um por um, vezes sem conta, ver os muitos livros de arte, ouvir as suas deliciosas histórias! Não é vulgar, em crianças da nossa idade, trocar as brincadeiras com os amigos por tardes passadas em casa (e no jardim, é verdade) de uma tia quase octogenária.
Passávamos tardes inteiras com ela e nunca, nunca nos fartávamos. Havia, na parede de uma das salas, um quadro enorme, um óleo pintado pelo pai, retratando o claustro do Mosteiro da Batalha. Tinha umas cores fabulosas, em que me lembro de predominar um tom dourado. Nas tardes de sol de inverno, quando os raios estavam baixos e incidiam de uma certa forma no quadro, distinguia-se, no canto inferior direito, no sítio onde ele pintara um jarrão de flores, a figura de duas senhoras elegantemente vestidas (a esposa e a cunhada do pintor, segundo a tia) que o pai resolvera tapar com o jarrão numa fase avançada da vida em que já fazia (conforme ela nos assegurava) alguns "disparates".
Aquela casa de sonho tinha também quadros de outros artistas de renome, amigos da família, como os irmãos Bordalo Pinheiro, cada um no seu género, como sabemos, ou o Cottineli Telmo a quem ela, ternamente, chamava apenas "Telmo", quando contava algum episódio passado entre eles (desconfio que chegaram mesmo a ter namoro).
Quanto à Esmeralda, olho-a muitas vezes, numa parede da minha casa do Baleal (mal sabia ela, que nunca deve ter visto o mar, que iria acabar numa casa de praia). Adoro aquele contraste entre o buço e os olhos claros, sonhadores... de vez em quando vejo-a/o piscar-me o olho!!! ;)

sexta-feira, junho 15, 2007

Regresso a Kyoto

Hoje tive que voltar a Kyoto. Um desassossego, uma saudade, uma vontade incontrolável de olhar e ver, contemplar, até conseguir acalmar o fogo que me queimava o peito na obssessiva necessidade de tentar que a memória reconstruísse, no presente, o que foi real no passado. Nada se repete e as fotografias podem não conseguir mais do que servir de repositório de memórias. Quem dera entrar nelas, conseguir recuar quinze anos no tempo, e regressar, por horas, minutos, segundos que fosse, ao lago do Templo Dourado. A imaginação, apoiada na memória preservada pelas fotografias, quase que consegue. Talvez chegue a conseguir, se a capacidade de concentração for elevada ao ponto de o espírito se deixar transportar, através da meditação, para o local desejado.



Hoje estive lá. Voltei a passear pelos Jardins de Sayonara, deixei-me enlear nos ramos das cerejeiras.
Andei em bicos de pés nos corredores do Castelo do Shogun, tentando não accionar os milhares de sininhos que, por debaixo das compridas tábuas de madeira, reagem ao menor movimento de quem as pisa.

Visitei um templo xintoísta e fiquei a observar, na minha total ignorância da sua Fé, as centenas de jovens que ali oravam, em silêncio.

Acabei por conseguir ficar uma eternidade em frente ao Templo Dourado, a reler o livro de Mishima. Vi o jovem monge em toda a sua dimensão de ser humano considerado "esquisito", porque diferente dos outros, alvo de chacota, de desprezo, porque gaguejava, porque era tímido e porque a paixão que dele se apoderava perante o fascínio do que considerava maravilhoso, místico, sobrenatural, o fazia adoptar comportamentos fora do comum. Senti o seu amor desmedido pela beleza do local, percebi (julguei entender) a loucura que o tinha levado a incendiar o templo, objecto maior dos seus afectos, entidade metafísica perturbadora do seu equilíbrio emocional. E dei Graças pelo facto de o mesmo ter sido reconstruído e eu ali estar, a admirá-lo, como se nunca tal tragédia por ali tivesse passado.


Depois vi-me lá, a deixar-me fotografar naquele lugar de adoração, uma mulher que tem tão pouco do que vejo em mim agora - quinze anos, muitas vivências e muitas memórias depois.