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sexta-feira, janeiro 19, 2018

Sou rio (sorrio)


Foto de António Rodrigues: "Nos teus olhos, sou rio"

Sou rio.

Broto da escarpa rochosa:
ténue fiozinho de água
deslizando pela encosta,
molhando fragas e arbustos
até alcançar o vale
na procura de um riacho.

Irmãos-de-água fundidos
corremos alegremente,
na inocência da infância,
cantando e rumorejando
por sobre as pedras do leito
que nos indica o caminho.

Engrossei o meu caudal,
já tenho curvas e praias.
Rápidos alucinantes,
num rodopio de volúpia,
precipitam-me na queda
em vertiginosa cascata,
numa lagoa serena.

É dali que parto, eufórico,
enriquecido pelas águas
de outros rios solitários
que comigo se reúnem
e num só se consolidam:
imenso, forte, profundo.

Em desassossego e exaltação
o mar agora procuro
para nele, em largo manto,
consumar o meu destino:
confundir os nossos fluidos,
acertar nossas marés.

Sou rio.


(De costas voltadas
para a porta
pressinto a tua chegada:
aproximação doce e suave
que me faz estremecer
em prazer antecipado.

Enlaças-me pela cintura,
teu rosto encostado ao meu cabelo.
Um murmúrio terno e quente
me roça ao de leve o ouvido.
Lábios macios e ardentes
beijam-me a nuca, ansiosa.

Rio que sou, a ti me entrego:
Estuário vigoroso, excessivo, apressado
que o teu mar acolhe em festa.

Sorrio.)



Maria Carvalhosa
(originalmente publicado neste blogue em 21 de Maio de 2008)

segunda-feira, maio 30, 2011

A nossa praia, Amor, a nossa praia!

Nota: Importante ver/ouvir o vídeo: o som do mar, o seu espraiar-se na areia... são beijos, carícias!


Vídeo de António Rodrigues, na Praia do Molhe Leste, Peniche, em 28 de Maio de 2011


(Título em paráfrase do soneto de Florbela Espanca: "A nossa casa, Amor, a nossa casa".)

A nossa casa, Amor, a nossa casa!
Onde está ela, Amor, que não a vejo?
Na minha doida fantasia em brasa
Constrói-a, num instante, o meu desejo!

Onde está ela, Amor, a nossa casa,
O bem que neste mundo mais invejo? 
O brando ninho aonde o nosso beijo
Será mais puro e doce que uma asa?
  
Sonho...que eu e tu, dois pobrezinhos,
Andamos de mãos dadas, nos caminhos
Duma terra de rosas, num jardim,

Num país de ilusão que nunca vi...
E que eu moro -- tão bom! -- dentro de ti
E tu, ó meu Amor, dentro de mim...


Florbela Espanca



Foto de António Rodrigues - Praia do Molhe Leste, Peniche, em 28/05/2011

segunda-feira, abril 18, 2011

Naquele tempo


Berthe Morisot - Reading


Naquele tempo
passava os dias a ler o que escrevias.
Deixava-me extasiar
com o teu verbo fluente,
a simplicidade da tua arquitectura poética,
os múltiplos e profundos sentimentos
que em mim fazias despertar.

Naquele tempo
acreditava que HOJE podia ser SEMPRE
e que nós tínhamos vindo para ficar.

Era assim naquele tempo...


(inspirado num poema de João Villalobos, publicado no blogue "as penas do flamingo", em 03/06/2010)

quinta-feira, fevereiro 03, 2011

Arquipélago do Amor


"varanda de pilatos" - foto de António Rodrigues

Não me perguntes pelos dias passados na solidão do meu quarto.
Fala-me dos corvos plantados ao sol, num rochedo inóspito;
diz-me do som das ondas, poderosas e alvas, a desfazer-se na areia;
recorda-me do cheiro a maresia, quando a praia fica imensa, na maré-baixa; 
traz até mim a brisa morna do fim da tarde, nas dunas;
conta-me da hora do ocaso, no horizonte, do arquipélago que é a nossa casa;
sussurra-me palavras ternas, no aconchego da sala, iluminada pelo fogo na lareira; 
beija-me infindavelmente;
toma-me nos teus braços e deixa-me adormecer, de cansaço, aninhada em ti:
a cabeça no teu peito;
a alma leve, radiante, saciada. 

segunda-feira, outubro 05, 2009

Pássaros feridos

O meu grande amigo Alberto Pereira ganhou, nos Concursos de 2009 do "Ora, Vejamos..." o 2º prémio no género poesia e o 1º prémio no género conto. A querida Zélia Santos diz os seus poemas como ninguém e aqui está, para nosso bel-prazer, um excelente vídeo que produziu. A não perder!



PÁSSAROS FERIDOS

Estremeço,
já não vejo os pássaros que nasciam na garganta
quando dizias meu amor.
Esses partiram há muito
e no seu lugar, quero dizer-te,
sonham tempestades.

Nunca a eternidade se demorara na pele
como nesse tempo.
Trazíamos o céu entre os anéis
e a força com que apertávamos o paraíso.
Deus sentava-se no coração
a adiantar as horas,
a manhã chegava mais cedo.
Era urgente não adormecer,
viviam-se muitos anos num dia
e cada pensamento
coleccionava o mundo inteiro.

O sangue ruiu quando partiste.
Descobri então que o corpo
não tinha lista de espera para as cicatrizes.
Até Deus enlouqueceu,
grita que a escuridão é mais fácil de respirar.

Somos delírios
e a morte um vício para sempre.

Autoria: Alberto Pereira


terça-feira, setembro 22, 2009

sábado, janeiro 31, 2009

Utopia


Fotografia de António Calçada - "Mar de Inverno na Areia Branca"

Nasci das ondas do mar
as conchas foram meu berço
que o mar sereno embalou;
as algas de verde me vestiram
e o azul do mar trouxe os laços
com que me enfeitou.
Na espuma branca e leve
espalhada na praia me sentei
e o mar inquieto a chamar por mim
estendeu-me os braços,
pr'a longe, muito longe me levou.
Por sobre as ondas andei
nas águas do Oceano,
ouvindo do mar o canto
de tudo alheia, esquecida
de que algures n'outros lugares
também havia vida
debaixo do mesmo céu.
Agora, nada parecia ter fim,
o sol era só meu,
as estrelas luziam só p'ra mim
.... a luz do meu engano.
Subi na crista das ondas,
nelas a sede matei,
mas foram elas que um dia
só, na praia me deixaram
com a fria nudez do desencanto.
E os meus sonhos de menina,
a morrer de nostalgia,
chorando,
ali na areia ficaram.

Maria Teodora (Novembro de 2008)

terça-feira, novembro 11, 2008

A irrelevância de um prefixo


Julguei conhecê-la. Vagamente. Passou-me ao lado na vida. Cruzámo-nos, algumas vezes.
Doutras, chegámos a estar tão próximas como estou da minha imagem num espelho.

Nunca gostei dela.
Nem ela de mim, suponho.

Agora, suporto-a melhor. Afinal, acabámos por envelhecer juntas e, se eu pensava que ela me tinha passado ao lado na vida, estava enganada: foi a seu lado que a minha existência sempre se desenrolou.

Não é a minha sombra, muito menos o meu reflexo. É a minha antítese, o contra-ponto com o qual convivo todos os dias e que me influencia de tal modo subreptício que chega a tomar, por mim, decisões que afectam, irremediavelmente, o meu quotidiano e medidas de longo prazo.

Cheguei a ter medo dela.
Agora é quase afeição o sentimento que desperta em mim.

Noutros tempos, quando pensava nela, só me ocorriam palavras começadas por "in" para a qualificar e, sem recorrer ao dicionário, saíam-me, de enxorrada, uma lista de defeitos que, dirigidos a alguém de verdade, soariam a insultos:

insensível
incapaz
indolente
inflexível
insuportável
indecorosa
incompetente
ingrata
insatisfeita
inconstante
inconsciente
incontrolável
inconsequente
incompreensível
inconsistente
indisciplinada
inconveniente
incorrecta
infernal
infecta
insana
insonsa
interesseira
impudente
intolerável
infiel
...

e poderia ficar a desfiar o rosário durante horas.

Mas que perda de tempo, penso hoje. E dou comigo a tentar encontrar-lhe qualidades, todas igualmente começadas pelo prefixo "in"que, dirigidas a alguém de verdade, poderiam soar a elogios:

inteligente
insubornável
interessante
inspiradora
incansável
insinuante
inovadora
inigualável
informada
ingénua
influente
infalível
irresistível
intensa
inaudita
independente
indestrutível
indulgente
incisiva
indescritível
instruída
inimitável
inesquecível
inocente
inestimável
insubstituível
...

e, mais uma vez, a lista poderia alongar-se até ao limite da vontade.

Sei que um dia partiremos juntas. Julgo igualmente saber que, quem nos recordar, não saberá de qual de nós fala, nem sequer que éramos duas, de cada vez que utilizar um dos adjectivos da primeira ou da segunda lista. Pouco me importa se isso suceder. Não seremos nós, na verdade, as duas faces de uma mesma moeda?

Margarida Costa in "A Outra"

quinta-feira, outubro 09, 2008

Mentira


Hieronymus Bosch - O Julgamento Final

A mentira do tempo.
O olhar perdido no espaço,
também ele imaginado.
A fuga enquanto solução temporária.
A mentira da vida.
A vida inteira numa mentira.
A suspeita, a dúvida, a incerteza.
O engano, o medo, a traição.
A ténue linha
que separa o sonho do real.
O pesadelo como real,
sem linha a separá-lo de um real outro.
A falácia da paixão eterna.
A mentira dentro da mentira.
O inferno da vida.
A descrença em algo diferente da vida no inferno.
O desejo, a tentação, o julgamento, o castigo.
A loucura como desculpa
para o inexplicável.
As noites infindáveis e os dias sem sol.
A mentira do amor.
A frase nunca proferida,
mil vezes ouvida,
ecoando, ininterruptamente, na mente transtornada:
"Já não é pra ti que eu corro,
não será por ti que morro".
A mentira da mentira.
Eu...

Margarida Costa in "A Outra"

quinta-feira, outubro 02, 2008

No meu jardim


Foto de António Rodrigues - "Outono na Ponte do Arco"
(Paráfrase inspirada no poema "Porque voam as Pétalas?", de Paulo de Carvalho):

No meu jardim
ouço o som da maré-cheia

e o grito das gaivotas;

vejo as árvores

que se despem

e os outros pássaros mudos,

tristes, pousados nos ramos.


O forte ruído da chuva

assusta-os, mantém-nos calados...


um relâmpago ilumina

de repente a tarde escura,


a maré-viva faz-se ouvir

com violência, contra as rochas,


o ribombar do trovão

faz coro com a tempestade.


As gaivotas continuam seu grasnar

numa luta contra o vento

que as impede

de alcançar porto seguro,


indiferentes que lhes é
a serenidade
repousada em meu jardim.

quinta-feira, julho 31, 2008

A Tela da Vida


João Cristino da Silva (1829-1877)
Cinco Artistas em Sintra - 1855
Óleo sobre tela, 863 x 1288mm

"A obra Cinco Artistas em Sintra é, indiscutivelmente, uma obra emblemática do Romantismo português. Trata-se do primeiro retrato de grupo na pintura, foi elaborado com o objectivo de representar Portugal na Exposição Universal de Paris em 1855.Nela podemos observar cinco artistas rodeados por gente do povo e num ambiente agreste.A composição foi esboçada no local e apresenta-se de forma cenográfica, sugerindo o processo de trabalho típico do romantismo: pintura de paisagem ao ar livre, recolhida "do natural" e, posteriormente, elaborada em atelier. Esta obra é uma homenagem ao mestre Tomás de Anunciação que está no centro da composição (a pintar), e junto dele Francisco Metrass, com adereços do próprio autor - Cristino da Silva, que os gostava de exibir (chapéu à Rubens e capa larga). No segundo grupo encontramos Vítor Bastos (escultor), José Rodrigues (pintor), sentado no chão e Cristino da Silva (o autor da obra), encostado à rocha, elaborando um esboço, em pose artística.Nesta tranquila paisagem destaca-se o rochedo que de alguma forma confere unidade e coesão à obra. A presença de aldeãos que olham fascinados para o trabalho do senhor da cidade, representa uma espécie de ideal de ruralidade que fascinava os representantes do Romantismo português. Ao fundo, vislumbra-se o Palácio da Pena, um dos símbolos máximos do Romantismo, edificado por D. Fernando. As cores do quadro são terrosas, com predominância de tons de verde e castanho, sem grandes contrastes. A iluminação é estudada, dando o tom dourado de fim de tarde a toda a composição."

(Texto extraído de "Museus na Escola" museusnaescola.eselx.ipl.pt/static/instance/M...)


A Tela da Vida

A nossa vida é uma tela,
uma tela de mil cores,
todos nós pintamos nela,
somos bons ou maus pintores.

Com mais ou menos talento,
com tinta clara ou garrida,
por vezes com desalento
pintamos a nossa vida.

Há quem pinte com amor;
há quem pinte com paixão;
só não sabemos dar cor
ao que sente o coração.

Sabemos nós qual a cor
para pintar a amizade?
que tons daremos à dor?
como se pinta a saudade?

Ai, pobre de quem na vida
só tem negro p’ra pintar:
uma tela entristecida,
feita talvez a chorar.

(poema da autoria de Maria Teodora)

terça-feira, julho 15, 2008

A sensualidade na poesia feminina do Japão - "O Tanka"



PERÍODO HEIAN NO JAPÃO - FINAL DO SÉCULO VIII ATÉ FINAL DO SÉCULO XII - (Plena Idade Média na Europa)

A forma poética "tanka" constituída por 31 sílabas japonesas de apresentação vertical, é apresentada em tradução nas línguas ocidentais por cinco linhas que, mantendo tanto quanto possível o registo sonoro original, correspondem a cinco versos metricamente alternados de 5,7,5,7,7 sílabas.

As duas autoras que nos são apresentadas por Luísa Freire, Ono no Komachi (834? -?) e Izumi Shibiku (974? - 1034?) "foram as grandes representantes da poesia da corte de então e marcos importantes na poesia japonesa de todos os tempos que, ao longo dos séculos, se foram tornando uma lenda e uma referência. [...] " Ambas são figuras centrais dessa Idade de Ouro, durante a qual as mulheres escritoras tiveram um papel decisivo na fixação do japonês como língua poética".

[...]

"Há mil anos, a cidade capital Heian-Kyo (hoje Kyoto) era mais populosa do que qualquer cidade da Europa e um dos centros altamente civilizados do mundo. Os aristocratas aspiravam ao favor político que lhes trouxesse posição e poder e as filhas dessas famílias eram mandadas aos catorze anos para a corte, para servir os membros imperiais. Como era através do casamento que a sua posição e o seu estatuto se afirmavam, as raparigas eram cuidadosamente educadas e cultivadas para, esteticamente, competirem com os homens em termos de igualdade. Na corte, divertiam-se e divertiam a imperatriz com música e versos, mas a sua atenção ia para os assuntos do coração. Os "casos amorosos" eram aceites às mulheres solteiras e a poligamia era habitual nos homens. Assim sendo, compreende-se que o erotismo fosse tópico literário, reflectindo todo o ambiente que se vivia."

Passo, então, a transcrever, apenas à laia de exemplo, alguns dos tanka que considero de maior beleza e sensibilidade amorosa:



De Komachi:


Será que apareceu

só porque eu adormeci

a pensar nele?

Se eu soubesse que sonhava,

nunca teria acordado.

-------------------------------------------------

Quando o meu desejo

se torna intenso de mais,

visto a roupa de dormir

virada pelo avesso,

escura casca da noite.

---------------------------------------

O meu desejo de ti

é forte para contê-lo -

assim ninguém vai culpar-me

se à noite for ter contigo

pela estrada dos meus sonhos.

-------------------------------------------------

Não há como vê-lo

nesta noite sem luar -

estou deitada e desperta,

os seios ardendo em desejo

e o coração em chamas.

--------------------------------------------

A noite mergulha

com um veado a chamar

em som agudo

e, ao ouvi-lo, escuto

um lado do próprio amor.

-----------------------------------------

Pescador não deixa

a baía plena de algas...

Vais abandonar

este corpo flutuante

à espera das tuas mãos?

---------------------------------------

Triste a pescadora que,

longe, na Baía Suma,

perdeu um remo do barco -

assim é este meu corpo

sem ter a quem recorrer.

---------------------

Nos campos de Outuno,

se uma centena de flores

solta suas cores,

não posso também gozar

sem ter medo da vergonha?

-----------------------
Este meu corpo

tão frágil e flutuante,

é uma cana sem raízes...

Se um rio acaso pedir

que o siga, eu acho que irei.


Fim da selecção de Komachi


DE SHIKIBU:

Deitada e sozinha

de cabelo negro solto

e emaranhado,

sinto desejo daquele

que primeiro o veio tocar.

----------------------

Porque não terei

pensado nisto já antes?

Este corpo meu

ao recordar tanto o teu

tem a marca que deixaste.

----------------------

Não há diferença -

a borboleta nocturna

que se veio queimar,

e aqui este meu corpo

que o amor veio transformar.

-----------------------------------------------
Não fiques corado!

Todos adivinharão

que dormimos juntos

sob as pregas enrugadas

deste manto avermelhado

--------------------------------

Se o cavalo dele

tivesse sido domado

pela minha mão -

eu tê-lo-ia ensinado

a não seguir mais ninguém.

---------------------------------------------

Sem ser perturbado,

o meu jardim fica cheio

de mato estival -

como eu desejo que alguém

desbrave a erva profunda!

----------------------------------------

Desejando vê-lo

para ser vista por ele -

se ele ao menos fosse

o espelho onde eu me olho

e que olho cada manhã!

---------------------------------------------

A gota de orvalho

permanece mais tempo

na folha de bambu

do que tu, que logo partes

antes do amanhecer.

----------------------------------------------

Este coração

de tanto te desejar

vai-se quebrando

em milhares pedacinhos -

mas nem um só vou perder.

----------------------------------------------

Mesmo quando um rio

de lágrimas atravessa

e molha este corpo,

não chega para apagar

todo o fogo do amor.

----------------------------------------

Penso: "nos meus sonhos

poderemos encontrar-nos"...

Virando a almofada,

eu ando às voltas na cama

incapaz de adormecer.

-----------------------------------------------

Deixada aqui

a envelhecer no mundo

sem ti ao meu lado,

as flores perdem a beleza

tingidas de negra cor.

---------------------------

Meu corpo perdido

só conhece agora a noite -

por isso as mangas no escuro

permanecem encharcadas,

impossíveis de secar.

-----------------------------

Ao lembrar-me de ti...

Os pirilampos do campo

parecem centelhas vivas

que se desprendem e soltam

dos desejos de meu corpo.


Fim da Selecção de Shikibu


terça-feira, junho 17, 2008

Recordações


Desço às profundezas
do mar revolto
dos meus sonhos
e das minhas recordações.

Qual mergulhador,
aventureiro,
arrisco e pesquiso todos
os cantos e recantos
de rochas e corais.

Deslumbramento total!
Como tudo é diferente
agora, visto assim,
nesse repouso,
silencioso
e maravilhosamente belo!

Como tudo
me parece diferente
nos seus contornos
quase irrreais!...

Não me atrevo
a tocar-lhes.
Religiosamente descansam
e eu, limito-me
a contemplar,
respeitando assim
o sossego
de tantas atribulações,

encantos e desencantos.

(Noémia Carvalhosa)

quarta-feira, junho 04, 2008

Poema ao Sol














(Willows at Sunset - Vincent van Gogh)



Te bendigo, ó Sol, que a beijar aqueces
esta terra sedenta dos teus beijos.
Em cada amanhecer quando apareces
palpita nela a vida em mil desejos.

Desponta o Sol radioso, cintilante
em cristais d’orvalho, a manhã começa;
bela, a flor abriu, sorriu deslumbrante
à luz que se espalhou numa promessa.

Crescem os cardos em qualquer lugar:
no chão mais pobre, áspero e daninho;
ao calor do Sol vão desabrochar
humildes flores na poeira do caminho.

Da terra brota água fresca e pura;
mas a semente que um dia alguém semeia
o Sol lhe dá vida, dá-lhe altura,
e cada vida é chama que ele ateia.

Tens o poder criador, ó Sol bendito,
a louvar-te sempre em cada hora, insisto;
és fonte de vida, bem infinito,
é porque tu existes que eu existo.

E quando no horizonte o Sol desmaia
ao fim da tarde, luminosa e quente,
- como se coada em fina cambraia -
cai sobre a terra a luz doce do poente.


(Maria Teodora)

quinta-feira, maio 29, 2008

Um Abraço de Vida


Deitada na areia molhada
deixo que pequenas ondas
me invadam corpo e alma
num torpor enlanguescido.

A água, morna, conforta-me.
Sinto que lhe pertenço:
dela vim, num sortilégio do passado,
a ela, em farrapos, voltarei um dia.

Admiro o céu, sem núvens,
imaculado no azul do entardecer.

Uma brisa quente varre, com doçura, o areal,
trazida pelo mar, tímida como a espuma
que com os dedos desfaço e me humedece os cabelos.

No horizonte, o sol é uma bola de fogo,
forjando um adormecer tranquilo:
diária magia que executa de mansinho,
escondendo-se atrás da linha vísível
para surgir, radioso, do outro lado do mundo.

Inspiro o cheiro a maresia:
o ar que penetra o meu ser
limpa e lava qualquer dor,
lembra-me aqueles que amo.

Tenho tudo, sou feliz:
terra, água, fogo e ar,
eterno ciclo de vida.

Com emoção retribuo, agradecida,
da natureza o carinhoso abraço.

quarta-feira, maio 21, 2008

Sou Rio (Sorrio)


Sou rio.

Broto da escarpa rochosa:
ténue fiozinho de água
deslizando pela encosta,
molhando fragas e arbustos
até alcançar o vale
na procura de um riacho.

Irmãos-de-água fundidos
corremos alegremente,
na inocência da infância,
cantando e rumorejando
por sobre as pedras do leito
que nos indica o caminho.

Engrossei o meu caudal,
já tenho curvas e praias.
Rápidos alucinantes,
num rodopio de volúpia,
precipitam-me na queda
em vertiginosa cascata,
numa lagoa serena.

É dali que parto, eufórico,
enriquecido pelas águas
de outros rios solitários
que comigo se reúnem
e num só se consolidam:
imenso, forte, profundo.

Em desassossego e exaltação
o mar agora procuro
para nele, em largo manto,
consumar o meu destino:
confundir os nossos fluidos,
acertar nossas marés.

Sou rio.

(De costas voltadas
para a porta
pressinto a tua chegada:
aproximação doce e suave
que me faz estremecer
em prazer antecipado.

Enlaças-me pela cintura,
teu rosto encostado ao meu cabelo.
Um murmúrio terno e quente
me roça ao de leve o ouvido.
Lábios macios e ardentes
beijam-me a nuca, ansiosa.

Rio que sou, a ti me entrego:
Estuário vigoroso, excessivo, apressado
que o teu mar acolhe em festa.

Sorrio.)

segunda-feira, fevereiro 04, 2008

Pablo Neruda


Neruda - José Juan Torres (clicar para aceder ao link em que se ouve a excelente declamação de J.J. Torres)

Este post é dedicado à minha filha Sara, que faz hoje 25 anos e que, durante a sua infância, muitas vezes me ouviu "dizer" este poema. Também o dedico ao meu pai, que fez 78 anos no dia 31 de Janeiro e que, porque gostava de me ouvir "dizê-lo", tem-no gravado num dos seus álbuns de recordações áudio.

Parabéns a ambos, com todo o meu amor.


"Posso escrever os versos mais tristes esta noite "
Posso escrever os versos mais tristes esta noite.

Escrever, por exemplo: "A noite está estrelada, e tiritam,
azuis, os astros lá ao longe".

O vento da noite gira no céu e canta.

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Eu amei-a e por vezes ela também me amou.

Em noites como esta tive-a eu nos meus braços.
Beijei-a tantas vezes sob o céu infinito.

Ela amou-me, por vezes eu também a amava.
Como não ter amado os seus grandes olhos fixos.

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.

Pensar que não a tenho.
Sentir que a perdi já.

Ouvir a noite imensa, mais imensa sem ela.
E o verso cai na alma como no pasto o orvalho.

Importa lá que o meu amor não pudesse guardá-la.
A noite está estrelada e ela não está comigo. Isso é tudo.

Ao longe alguém canta. Ao longe.
A minha alma não se contenta com havê-la perdido.

Como para chegá-la a mim, o meu olhar procura-a.
O meu coração procura-a e ela não está comigo.

A mesma noite que faz branquejar as mesmas árvores.
Nós dois, os de então, já não somos os mesmos.

Já não a amo, é verdade, mas tanto que a amei.
Esta voz buscava o vento para tocar-lhe o ouvido.

De outro. Será de outro. Como antes dos meus beijos.
A voz, o corpo claro. Os seus olhos infinitos.

Já não a amo, é verdade, mas talvez a ame ainda.
É tão curto o amor, tão longo o esquecimento.

Porque em noites como esta a tive nos meus braços, a minha alma não se contenta com havê-la perdido.

Embora esta seja a última dor que me causa, e estes sejam os últimos versos que lhe escrevo.

Pablo Neruda in "Vinte Poemas de Amor e uma Canção Desesperada"

sábado, janeiro 19, 2008

Despertar

Nota prévia: decidi publicar nesta data este poema da tia Mariazinha por ser hoje o aniversário das suas duas filhas gémeas - Sílvia e Isabel (minhas primas igualmente muito queridas).
Parabéns à mãe e às filhas!


Chegou a Primavera verde e florida
e caprichosa pôs em cada flor
doce harmonia de perfume e cor
... mágico acordar da terra adormecida.

Vibrante despertar do secreto sono
em manhã de sol de sublime encanto
no cantar das aves... só que entretanto
tudo empalidece em chegando o Outono.

Mas se há em nós um verão - fruto maduro,
saboreemo-lo no seu aroma puro
enquanto tem sabor e apetece.

Porque a vida é um sopro... morre num ai;
fôlego que mal se respira... s' esvai,
efémera luz que logo desvanece.

Maria Teodora
Agosto de 2007

sábado, dezembro 29, 2007

Avôzinho

O meu avô Carvalhosa, pai da minha mãe, Noémia, era um jovem elegante, bonito, culto. Escrevia lindos versos, tocava banjo e bandolim, e cantava, com uma voz que diziam ser melodiosa e encantadora, o fado de coimbra.

Com estes atributos era, naturalmente, na segunda década do Séc. XX, um herdeiro muito cobiçado pelas inúmeras meninas que por ele suspiravam e quase desfaleciam a um sorriso seu ou a uma frase mais galante, fosse num descontraído piquenique na Serra de Montejunto, num serão passado em casa de alguma família do círculo de amigos, ou num baile de salão, numa das muitas quintas ainda habitadas pela aristocracia rural (em decadência social face à recém-constituída República, mas teimosamente resistente na manutenção dos seus usos e costumes).

Nos últimos dias deste ano de 2007 tenho-me lembrado dele com alguma frequência (e muita saudade). Não desse jovem garboso que, obviamente, não conheci, mas do meu "avôzinho", de coração puro e terno, com olhos de um azul muito claro que, agora, associo à transparência da sua alma e à generosidade do seu coração. Visitáva-nos diariamente, sempre com uma supresa no bolso, nem que fosse uma história nova, desencantada no seu vasto baú de recordações. De vez em quando também de lá saíam chocolates e outras guloseimas, porque, no fundo, ele bem conhecia a variedade de gostos da criançada...

Aqui lhe deixo uma sentida homenagem, através de uma fotografia que o retrata nos anos áureos de sedutor, e de um soneto de sua autoria publicado no jornal "O Alto Concelho de Alenquer", na mesma época.


VERSOS
Versos, quem os não lê com fé ardente,
com sacrosanto enleio e devoção?!
Soam tão docemente ao coração!
Versos... quem os não diz... quem os não sente?!

Porque se agita em nós, violentamente,
a alma, a crepitar como um vulcão,
ao ler d'esses Poetas a paixão
que vibra pelo espaço eternamente?!

Versos são preces loucas, desvairadas:
confidências subtis, apaixonadas,
repletas de fervor e de verdade!

E assim - quando a velhice se aproxima -
nós vamos evocando em cada rima,
uma cena feliz da mocidade.

Francisco Luiz de Carvalhosa (1926)

segunda-feira, dezembro 10, 2007

Mãos

"Dá-me a tua mão" - óleo sobre tela de Júlia Calçada


Mãos que se tocam.
Mãos que se dão.
Mãos que se procuram e, por vezes, não se encontram.
A mão de uma criança procura a mão que a protege.
A mão de um adulto procura a de quem quer proteger,
ou a de quem quem quer agarrar, por um momento, ou para sempre,
ou mesmo aquela mão que já não é possível segurar...

Mãos que se tocam.
Mãos que se procuram.
Mãos que se encontram.