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sexta-feira, janeiro 19, 2018

Sou rio (sorrio)


Foto de António Rodrigues: "Nos teus olhos, sou rio"

Sou rio.

Broto da escarpa rochosa:
ténue fiozinho de água
deslizando pela encosta,
molhando fragas e arbustos
até alcançar o vale
na procura de um riacho.

Irmãos-de-água fundidos
corremos alegremente,
na inocência da infância,
cantando e rumorejando
por sobre as pedras do leito
que nos indica o caminho.

Engrossei o meu caudal,
já tenho curvas e praias.
Rápidos alucinantes,
num rodopio de volúpia,
precipitam-me na queda
em vertiginosa cascata,
numa lagoa serena.

É dali que parto, eufórico,
enriquecido pelas águas
de outros rios solitários
que comigo se reúnem
e num só se consolidam:
imenso, forte, profundo.

Em desassossego e exaltação
o mar agora procuro
para nele, em largo manto,
consumar o meu destino:
confundir os nossos fluidos,
acertar nossas marés.

Sou rio.


(De costas voltadas
para a porta
pressinto a tua chegada:
aproximação doce e suave
que me faz estremecer
em prazer antecipado.

Enlaças-me pela cintura,
teu rosto encostado ao meu cabelo.
Um murmúrio terno e quente
me roça ao de leve o ouvido.
Lábios macios e ardentes
beijam-me a nuca, ansiosa.

Rio que sou, a ti me entrego:
Estuário vigoroso, excessivo, apressado
que o teu mar acolhe em festa.

Sorrio.)



Maria Carvalhosa
(originalmente publicado neste blogue em 21 de Maio de 2008)

sexta-feira, outubro 06, 2017

Diz-se livre como um pássaro!



Bateu com a porta ao sair de casa. Com a cabeça a rebentar de pensamentos negativos, que tentava afastar sem resultado, dirigiu-se para a garagem, para se meter no carro e conduzir sem destino.
Poderia mesmo espetar-se numa árvore, ou despenhar-se numa ravina.
Pouco lhe importava, até que bateu com os olhos na sua asa delta, há tanto tempo esquecida e sem préstimo.
Sorriu e deu consigo a pensar que, afinal, ainda algo podia fazer sentido na sua vida. 
Uma hora depois, voando sobre a Baía que conhecia como os dedos das suas mãos, gritou a plenos pulmões, imbuído de um sentimento entre o eufórico e o tranquilo, talvez mesmo feliz:
" Sou livre como um pássaro!"

domingo, junho 11, 2017

Um rio de sentidos



Num qualquer Domingo soalheiro de um agradável mês de Junho, num certo ano do início do Século XXI, na encantadora cidade de Lisboa, em Portugal, na velha Europa: 
"Vamos dar um passeio à beira-rio, Margarida?"
"Boa ideia, Henrique. Vamos no meu ou no teu?"
"Haha. Nada disso. Cada um leva a sua."
"Entendi-te. É sempre a descer. O pior vai ser no regresso. Mas bora lá. Hoje sinto-me com energia. E a brisa do rio dá uma ajuda, se for preciso."
Como não era possível irem de mãos dadas, e a premência do contacto físico, que a sua idade e estado de enamoramento assim o exigiam, de vinte em vinte metros paravam as bicicletas e uniam as bocas, num longo, doce e molhado beijo, ao mesmo tempo que se tocavam, apertando o braço um do outro.
Ao fim de, sensivelmente, dez paragens, forçadas pela tal urgência de partilha corporal, Henrique atreveu-se "Quando chegarmos ao cais das colunas, largamos as bikes e vamos estender-nos na rampa, com as ondinhas do rio a fazerem-nos cócegas nos pés. Damos um abraço tão apertado que ficamos transformados num só. E fazemos amor, ali mesmo, sem que ninguém dê por isso. Parece-te bem?"
"Lindamente" respondeu Margarida com um risinho nervoso. E, logo de seguida, já com três pedaladas e dois metros de avanço "O último a chegar paga o gelado na "Suíça" ao fim da tarde!"


Foto de António Rodrigues, no blogue "Olhares de Maresia"

sexta-feira, abril 07, 2017

NUNCA É TARDE

Já não poderia ser considerado propriamente jovem, quando tomou a decisão de mudar, de modo radical, o seu estilo de vida. 

A verdade é que tinha estado, durante demasiado tempo, amarrado a convenções e preconceitos e agora, qual Bela Adormecida acabada de acordar de um sono de cem anos, descobria todo um novo mundo, que se abria perante  os seus olhos desmesuradamente abertos, ávidos de novidade, de aventura, de liberdade.

Começou por despedir-se do emprego onde, anos a fio, com um zelo inexplicável, tinha deixado escapar a fogosidade e a irreverência próprias da tenra idade. De seguida, desfez-se da casa, do carro topo de gama e de quase todos os outros bens materiais que o prendiam a lugares, a estatutos, a círculos de pessoas por quem já não sentia qualquer tipo de afinidade.

Comprou, então, uma velha carrinha, onde coubessem os poucos pertences que lhe restavam, mas que tivesse espaço suficiente para algumas pranchas de surf. Pintou, ele próprio, a sua nova casa com as cores de que sempre gostara, e nela fez desenhos quase infantis, com os quais nunca tinha, sequer, ousado sonhar.

Experimentou um sentimento desconhecido, doce e agradável quando, após ter comprado um chapéu de palha, de abas largas, se sentou ao volante do recém-adquirido, mas já amado, "pão de forma".

Deixou para trás a cidade e fez-se à estrada, em direcção à costa, sua futura morada, sem paradeiro certo nem permanente. Ao encetar a viagem, sorriu para o passageiro a seu lado, igualmente satisfeito e ansioso. Acariciando-lhe o sedoso pelo castanho, apenas murmurou em tom carinhoso, mas determinado "Vamos lá, que se faz tarde!"


Foto "Estilo de Vida" de António Rodrigues


domingo, abril 02, 2017

segunda-feira, outubro 24, 2016

Histórias do meu Tonho




Tempestade. Forte sopra o vento sobre a vila piscatória, grandes ondas, mar agitado. Neptuno parece zangado.

Em terra, pescadores observam a branca espuma quebrando o negro da noite. Espera-se. Aguarda-se por melhoria do tempo, tempo esse que escasseia para uma faina normal.
"Porque não vamos? Ou vamos para o mar, ou vamos para casa". Ouve-se em murmúrios. Ao vento e ao frio,  pescadores anseiam por ordens dos seus mestres.
Meia-noite. Ouvem-se as doze badaladas do velho sino da igreja. Um novo dia começa. A ansiedade termina: "Regressamos a casa. Ordens para as nove da manhã!". Debandada geral rumo ao calor do lar, ao porto de abrigo, que são as suas famílias.

Joaquim inicia o seu habitual trajecto em direcção ao velho bairro onde habita. Fracas luzes iluminam os seus passos. O vento parece ajudá-lo a encurtar a distância a percorrer. Ei-lo chegado à escada de sua casa, com a cesta do farnel numa mão e já com a chave na outra. Basta-lhe subir ao primeiro andar para chegar a bom porto.
Já à porta, Joaquim insere a chave na fechadura e roda-a, num misto de exaustão e alegria.

Abre a porta e detém-se, imobilizado. A sala encontra-se iluminada àquela hora tardia. Encosta-se, para não cair, enquanto das mãos lhe escorrega a cesta. No seu típico gaguejar, diz "À... à... à c'anzana, Maria... à c'anzana, e eu nada!" Tinha acabado de apanhar a mulher em pleno acto de adultério, com um gigante, musculado, de calças arreadas, e agora imóvel, homem de raça negra.

Maria, sem sair da caricata posição em que tinha sido encontrada,  questiona o marido, em tom furioso,  virando o pescoço para trás e lançando-lhe um olhar de ódio "O que estás a fazer aqui, desgraçado? Não foste ao mar porquê, pilante?"

Joaquim responde, ainda encostado à porta, com os olhos fixos na inusitada imagem à sua frente "O mestre mandou para casa, e eu vim."

"E não sabias ficar no armazém, seu atrasado? Tinhas que vir para casa?"

"Queria ter sexo contigo, Maria. Mas acho que cheguei tarde!"

"Tu? Ah pá, achas que se valesses alguma coisa eu precisava de ajuda?"

Aqui começa a discussão. Maria opta por uma posição mais consentânea com o confronto que aí vem. Exalta-se e, erguendo-se, cresce para o Joaquim e maltrata-o verbalmente.
Os vizinhos, que entretanto se apercebem da gritaria, acercam-se das escadas. A voz de Maria ecoa por todo o bairro. Joaquim, ao aperceber-se da  presença da vizinhança, atenta ao que se passa naquele primeiro andar, riposta aos berros, chamando puta e galdéria à sua mulher. O gigante negro continua imóvel, como se de uma estátua de ébano se tratasse. Em baixo, os vizinhos vão seguindo alegremente o degradante espectáculo e, entre alhos e bugalhos, Maria esbofeteia Joaquim, para gáudio dos assistentes.

O nível da discussão aumenta. Maria agride em crescendo, verbal e fisicamente o seu homem. Joaquim tenta defender-se, limitando-se a balbuciar meias-palavras, devido à gaguez de que padece, acrescida de profundo nervosismo perante a situação.
A multidão, instalada na rua, ri a bom rir. Joaquim, implacavelmente ferido no seu orgulho de macho, consegue finalmente sobrepor a sua voz ao ruído da discussão e articular uma frase completa: "Tu és uma puta!". Maria, ofendida, aplica um forte soco no rosto do homem, que o desequilibra e faz com que desça as escadas, contando os vinte degraus, um a um, com os costados.

Sentado no chão, completamente dorido e vendo os vizinhos a rir, Joaquim tenta, a custo, levantar-se. Embora ferido, e emocionalmente destroçado, consegue erguer-se e, olhando para o cimo da escada, onde Maria, com as mãos na cintura, o contempla com ar desafiante, diz em voz bem alta, miraculosamente sem gaguejar: "Isto não acaba aqui. Amanhã levas mais, ouviste?". E parte, sozinho, a cambalear, para se embrenhar mais à frente na noite escura.

Amanhece. Na velha ribeira algo de novo parece passar-se. Ouvem-se, aqui e ali, murmúrios e risadas, saídos dos pequenos aglomerados de pescadores e varinas. Há festa, sem dela haver sinais evidentes. A azáfama do vaivém das chatas, levando e trazendo os pescadores, faz parte do cenário de um dia normal naquele porto de pesca. Apenas as sonoras gargalhadas soltas pelas potentes vozes das varinas intrigam os transeuntes que por ali passam.

Joaquim cumpre as ordens. Às 9 horas da manhã chega à ribeira e, em vez do habitual bom dia, é cumprimentado pelos camaradas com a inesperada frase: "À c'anzana, Esquim, à c'anzana... e tu, nada!",  frase esta que é repetida até ao limite da sua paciência. Triste, Joaquim baixa a cabeça (enquanto mentes maldosas pensam, embora não o digam que, literalmente, baixa os cornos) e continua a andar, ferido por dentro, até alcançar uma pequena lancha, onde se senta, na mais profunda solidão.

Lança o olhar para a multidão que, atentamente, o observa e vê colegas, amigos e pessoas anónimas, com ar de diversão. É ele o motivo da chacota de toda aquela gente e, no seu canto, não pára de ouvir a frase que o tortura "À c'anzana, Maria, à c'anzana... e eu nada!".

De repente, como que numa visão, Maria surge de entre o amontoado de gente, sorridente e com ar vitorioso, elevada à categoria de heroína por um acto de adultério. Joaquim não consegue conter a ira que dele se apodera perante tal contra-senso. Furioso,  ergue-se e pega num pequeno remo existente na lancha onde se tinha sentado. É com o corpo todo a tremer que se dirige à mulher, de forma agressiva, empunhando bem alto o remo e gritando, num tom suficientemente audível para chamar sobre si a atenção da turba agitada, que recua em conjunto.

Maria fica isolada num frente a frente com o seu homem. Faz-se silêncio na ribeira. A expectativa aumenta. Maria, imóvel, apenas olha para ele. O espaço entre ambos diminui.

A tensão cresce no recinto, quando Joaquim solta uma frase, erguendo mais alto o remo "Ah, puta de merda! Agora é que vais ver!"

Instala-se um silêncio de morte na ribeira. Até as gaivotas, que por ali esvoaçam, deixam de grasnar, como que em cumplicidade. O mar bate no molhe sem se fazer ouvir, e as pessoas acotovelam-se, inertes,  suspensas do desenrolar da cena entre o casal.

O remo começa a descer ao encontro do corpo de Maria. Paira no ar um augúrio de tragédia. Subitamente, o remo é travado na sua descida.  Um par de mãos  se junta às de Joaquim. São as mãos de uma varina, são as mãos de Maria que, conseguindo interceptar a trajectória do remo em direcção ao seu corpo, com um forte puxão o arranca das mãos trémulas de Joaquim.

Vira-se o feitiço contra o feiticeiro.  Agora, é Maria quem segura o remo e, com ele, desata a bater desalmadamente no marido, num sobe e desce estonteante sobre o corpo de um Joaquim cada vez mais magoado, ferido, humilhado.

O povo, a tudo assistindo entre o impávido e o incrédulo, não reage, pois entre marido e mulher ninguém deve meter a colher, assim diz o ditado, que aqui impera como lei.

Joaquim quebra perante a violência da mulher. Cada pancada daquele remo é mais uma tonelada, de peso e de dor, sobre o seu corpo cada vez mais frágil. Acaba por cair, no chão da calçada. Ali jaz, perdendo os sentidos.

Maria lança-lhe um olhar de desprezo, cospe para o lado e atira o remo para longe. Tarefa cumprida, vira-lhe as costas e afasta-se, sem uma palavra.

A ausência de qualquer som parece intensificar-se nos momentos que se seguem. Todos os olhos se fixam no corpo inanimado. Uma voz, vinda do nada, quebra o silêncio a medo "o Esquim tá morto!".

Mas não. Sobrepondo-se a toda a dor, a muito custo, Joaquim consegue abrir os olhos e observa a multidão que, insensível e imperturbada, assiste à sua tragédia. Apenas uma suave brisa corta o silêncio. Estranha manhã aquela!

Sentindo o amargo sabor do orgulho ferido, num apelo ao que resta das suas forças,  Joaquim senta-se no chão frio, ergue a cabeça e procura Maria com o olhar, que se detém ao encontrá-la. O suspense aumenta entre a assistência. Nunca aquela ruidosa ribeira conhecera tal quietude.

Joaquim levanta um braço, dorido e oscilante, em direcção à mulher. Aponta-lhe um dedo e, quebrando todo o mutismo, solta bem alto as palavras:

 "Maria, não te esqueças... e lá em casa levas mais!"


FIM

Foto: Tempestade, de António Rodrigues

quinta-feira, maio 26, 2016

ABANDONO



No dia em que me deixaste.
Sim, no dia em que disseste que ias deixar-me, em que assumiste que ias viver um novo amor, que ias trocar a nossa vida já sem graça por outra, resplandecente de paixão e beleza, pensei que podia morrer.
Quando saíste com as malas e bateste com a porta atrás de ti, senti que o meu mundo tinha desabado, irremediavelmente e para sempre. Fiquei sentada no último degrau da escada (o mais próximo da porta que tinha acabado de se fechar sobre os últimos anos da minha vida) durante horas, talvez mesmo dias, não sei.
A dor que me apertava o peito era tão forte, que cheguei a imaginar que, naquele mesmo sítio, sozinha, ia sofrer um enfarte, e para ali ficaria fria, sem vida, até que alguém notasse a minha ausência e decidisse saber de mim.
Não chorei, não gritei, não me manifestei de alguma forma audível. Penso que, a dada altura, tentei enroscar-me, ficando quase na posição fetal, sobre o mármore gelado da escada.
Não sei quanto tempo depois, o telefone tocou e o som funcionou como o de um despertador. Pus-me de pé, aconcheguei o robe sobre o pijama e, num gesto maquinal, agarrei nas chaves e deixei-as escorregar para dentro dum bolso. De seguida, saí para a rua, em chinelos de quarto, deambulando como um fantasma. Desconheço se alguém me viu, mas estou certa de que ninguém me interpelou, com o ar de louca, ou de sem-abrigo, que devia ostentar.
No meu desvario, dirigi-me para o portinho do meio, onde me deparei com um pequeno barco abandonado, degradado pela passagem do tempo, pelas marés, pelo sol e pela chuva, que parecia aguardar-me, para me acolher como um berço a um bebé.
Entrei nele e deitei-me ao comprido, assim ficando escondida de algum olhar curioso. O dia estava cinzento e triste - pareceu-me, mas não havia vento e a temperatura podia até ser considerada agradável.
Devo ter adormecido. Mais uma vez, não sei por quanto tempo, pois esse tinha-se tornado um conceito sem valor para mim.
Acredito que tenha sonhado, porque julguei que ia contigo numa embarcação maior e confortável, rumo às Berlengas. Íamos abraçados e tu beijavas-me, com ternura, enquanto me sussurravas palavras meigas. Eu correspondia-te, despreocupada e alegre, ansiosa por desembarcar na ilha que tanto amávamos e onde, sempre, tínhamos vivido momentos de felicidade intensa.
De repente, senti-me salpicar por gotas de água que, com a mente ainda entorpecida pelo sonho que me tinha embalado, julgava salgadas. Soergui-me, no pequeno barco abandonado do portinho do meio, e, surpreendida, constatei que estava completamente encharcada, não por causa de pequenas gotas salgadas, mas por autênticos pingos grossos de chuva. Daqueles que atravessam a roupa e a pele e nos ensopam até aos ossos.
"Que disparate!", disse em voz alta, como que para me ouvir melhor "Ainda apanho para aqui alguma pneumonia, vou parar ao Hospital e depois morro para lá. O melhor é ir já depressa para casa e meter-me debaixo do chuveiro para um duche bem quente. Depois, tomo uma aspirina e enfio-me na cama. Amanhã, hei-de acordar fresca como uma alface e vou trabalhar, como de costume."
No caminho de regresso, indiferente ao aspecto da minha figura grotesca, sentia-me leve e descontraída, quase aliviada, como se tivesse acordado de um pesadelo.
Foi a partir daí que passei a referir-me, sem mágoa, àquele episódio como "o dia em que me deixaste".
Maria Carvalhosa (inédito)
Foto: "Abandonado", do blogue http://olharesdemaresia.blogspot.pt, de António Rodrigues

segunda-feira, maio 23, 2016

DECISÃO


Depois de ter vagueado pela beira-mar durante um bom par de horas, sentou-se no pontão do Molhe Leste, à hora do crepúsculo. Um turbilhão de pensamentos povoava-lhe a cabeça, tornando-lhe impossível concentrar-se num único, que fizesse sentido e se apresentasse como a solução para o seu intrincado problema. Uma questão, em particular, a martirizava: "como iriam reagir os pais?" E logo de seguida surgia outra, igualmente premente: "e o curso, o curso ainda por acabar!?"
Simultaneamente, era-lhe difícil não pensar no Diogo e na inesperada reacção que ele tivera ao tomar conhecimento do assunto. Como era possível nunca se ter apercebido de quanto ele era insensível? Por que razão tinha sempre acreditado que a amava na mesma medida em que ela o fazia e que, juntos, conseguiriam fazer frente ao mundo, em qualquer situação? Tanta ingenuidade!
Não chorava. Não entendia porquê, mas as lágrimas não lhe afloravam aos olhos, que mantinha baixos, perdidos na contemplação do nada, que eram as suas pernas cruzadas sobre o cimento do molhe.
De súbito, precisou de olhar o sol, que começava a esconder-se para lá do mar, na linha do horizonte e, inusitadamente, ocorreu-lhe que estaria a nascer do outro lado do mundo, onde uma qualquer rapariga japonesa, com um nome muito diferente do seu, poderia estar a olhá-lo, naquele preciso momento, e a interrogar-se sobre questões em tudo idênticas às suas.
Sorriu timidamente perante o absurdo da ideia. E depois parou de sorrir. Impôs uma ordem lógica ao seu raciocínio, até aí errante, conseguindo, pela primeira vez naquela tarde, sentir-se confiante, sem receios e quase feliz.
Voltou a olhar para a vastidão do mar, num misto de desafio e cumplicidade para com aquela imensidão, sua única confidente.
Agora sim, estava segura. Havia ainda muitas respostas por dar, muitos caminhos por percorrer, mas de uma coisa tinha a certeza: queria aquele filho acima de tudo no mundo e nada, nem ninguém, com panóplias de argumentos e conselhos mais ou menos avisados, a iria fazer abdicar, sob que pretexto fosse, daquela decisão!
O sol, para a Ana, em Peniche, numa das praias mais ocidentais da Europa, não muito longe de Lisboa, tinha acabado de desaparecer por detrás da massa de água que a sua vista alcançava. Estaria a surgir, seguramente, em toda a sua plenitude, à jovem Natsuki, que o observava em Ichinomiya Chiba, numa das praias mais orientais da Ásia, não muito longe de Tóquio .
Levantou-se, contente por si e pela sua amiga imaginária, que só poderia ter tomado uma decisão igual à sua.
Enquanto caminhava de volta a casa, na semi-obscuridade do ocaso, sentiu que duas lágrimas doces lhe rolavam pelas faces.
Sorriu novamente, desta vez num sorriso aberto, erguendo a cabeça com alegria e determinação.
Maria Carvalhosa (inédito)
Foto: "Silhueta", do blogue http://olharesdemaresia.blogspot.pt, de António Rodrigues

terça-feira, agosto 16, 2011

Berlenga - reserva natural da Biosfera



As Berlengas vistas da Varanda de Pilatos (Cabo Carvoeiro) - foto de António Rodrigues

Amigos,
Passo a transcrever o texto que submeti ao desafio lançado pelo Presidente da Câmara de Peniche, em colaboração com a administração da Comunidade "Descobrir Portugal", que foi distinguido com uma Menção Honrosa. Esta distinção traduziu-se, além do mais, numa visita às Berlengas a bordo da Caravela "Vera Cruz" , no dia 17 de Julho de 2011, acto que assinalou a merecida classificação do Arquipélago das Berlengas como RESERVA MUNDIAL DA BIOSFERA.


Agora que as Berlengas tinham sido classificadas pela UNESCO como Reserva Mundial da Biosfera, Joana, estudante de biologia marinha, não tinha como recusar o convite de Tiago para com ele ir, pela primeira vez, visitar aquele arquipélago de que sempre ouvira falar como um dos tesouros naturais de Portugal, não só em termos de beleza paisagística como de riqueza em biodiversidade.

Ainda no cais de Peniche, antes de embarcar, não conseguia evitar que as pernas lhe tremessem. Disfarçava como podia, tentava aparentar uma calma que estava muito longe de sentir. Sempre ouvira dizer que a travessia para as Berlengas era uma temerosa aventura e, de destemida, Joana nada tinha.

Na longa fila, pendurada no braço de Tiago enquanto esperava pela ordem de embarque, roía as unhas da mão que tinha disponível e, em silêncio, tentava rezar um Pai-Nosso, embora tivesse a certeza de que não estava a ser capaz de dizer a oração tal como a tinha aprendido.

Por fim a fila começou a mover-se em direcção ao barco. Alguns rapazes e raparigas, já lá dentro, soltavam gritos de euforia. Ela aconchegava-se mais e mais a Tiago enquanto caminhava, como se para o cadafalso se dirigisse.

Quando entraram pediu, com voz quase inaudível: "vamos lá para dentro, está bem?" O namorado sorriu, acariciou-lhe o cabelo e anuiu, embora tivesse preferido viajar na parte exterior, para sentir o vento e alguns salpicos de água salgada no rosto.  

Até ao Cabo Carvoeiro a embarcação parecia deslizar num rio, ou num lago, sem sobressaltos, e ela começou a relaxar um pouco. À passagem do Cabo, um grupo de pessoas no terraço da "Nau dos Corvos" acenava, alegremente, para os passageiros a bordo. Foi nesse momento que  o barco pareceu afundar-se a pique, para imediatamente voltar à tona, numa onda que lhe pareceu gigantesca e Joana sentiu o estômago aproximar-se perigosamente da garganta.
O episódio repetiu-se algumas vezes e Joana optou por manter os olhos fechados, embora essa táctica parecesse não resultar tão bem quanto desejaria.

Pouco tempo depois, Tiago murmurava-lhe ao ouvido "abre os olhos Joaninha, o espectáculo é admirável". Com relutância obedeceu e foi então que o medo, a má disposição de há segundos atrás, deram lugar a um olhar extasiado perante o cenário natural que tinha na sua frente: a ilha rosa, em todo o seu esplendor, rodeada de águas inimaginavelmente verdes e transparentes, parecia chamá-la. A atracção imediata fez com que nem desse pelos dez ou cinco minutos até à entrada no cais da Berlenga.  

Foi com desenvoltura que desembarcou, ansiosa por pisar aquele solo com o qual pressentia uma tão forte afinidade. Ignorou a mão que Tiago lhe estendia e saltou para terra com um genuíno sorriso nos lábios e um brilho ímpar nos olhos azuis. O rapaz fingiu-se ofendido e comentou, em tom de resmungo "pois, agora já não queres saber de mim!". Voltou-se para ele, soltando uma sonora gargalhada, beijou-o com paixão e segredou-lhe "obrigada, meu amor, por me teres trazido ao paraíso. Agora, vamos já, já, para a praia, que estou mortinha por mergulhar naquelas águas límpidas!".

O dia passou a correr. O jovem casal fruiu, intensamente, todas as maravilhas que a ilha tem para oferecer a quem a visita. Subiram até ao alto, de onde se desfruta uma vista de fazer suster a respiração. Sentaram-se a observar, deliciados, o voo planado das muitas gaivotas que povoam a ilha, e outras aves, como as pardelas e os corvos marinhos, que com elas coabitam. Desceram, sempre de mãos entrelaçadas e com risadas alegres, até ao Forte de S. João Baptista, que percorreram  de uma ponta à outra e, por fim, no cais da fortaleza, apanharam uma pequena lancha que os levou a visitar as grutas - cada uma mais fascinante e misteriosa que a anterior.  

Quando entraram no barco, para o regresso a Peniche, foi uma Joana extenuada mas intensamente feliz que pediu a Tiago, com doçura, "querido, trazes-me cá novamente no próximo fim-de-semana? Por favor!" 


12 de Julho de 2011

quinta-feira, maio 12, 2011

As tardes


Pôr-do-sol no Molhe Leste - Foto de António Rodrigues

Passo agora as tardes à beira-mar. Dou longos passeios pela baía - pés na água e cabeça nas nuvens. Apanho búzios vazios. Desenvolvi, recentemente, um afecto especial por este tipo de conchas. Chego a comover-me quando encontro alguns destes lindos habitáculos, outrora com vida. Beijo-os, quais amuletos. Começo a desenhar aquilo a que já chamo "a minha colecção de búzios da praia do Molhe Leste". Na Praia Norte, igualmente rica em belezas outras, apenas existem seixos, pequenos calhaus rolados, ou cascas de bivalves partidas. Tem a ver com a força da rebentação, explicou-me o António, que já foi pescador e que, tal como o marinheiro de Mishima, por amor perdeu as graças do mar. Estou eu agora a recuperá-las, as graças, penso eu para comigo, com um sorriso não de todo inocente.

Avançando no prazer da água, que me banha e de mim aparta as mágoas, perco a noção do tempo, rejuvenesço, sinto-me vigorosa e bela.

Ao entardecer, quando chegam as gaivotas e as traineiras regressam da faina,  ainda por lá estou. Não arredo pé antes da hora do ocaso e, quase sempre, sou  brindada com um vislumbre do paraíso: o sol a esconder-se na linha do horizonte, pintando toda a paisagem em tons de fogo, contrastando com o azul do mar profundo, a brancura da espuma das ondas, o ouro-velho do areal imenso.

No Verão da minha existência, vivo as mais lindas tardes deste fim de Primavera. À beira-mar. A coleccionar búzios.

quinta-feira, março 10, 2011

"Mil nomes, um rosto" ou "Confidências de um esquizofrénico"



Tenho tantos nomes que já lhes perdi a conta.
Sei que já fui Luís, Manuel, Diogo, José, Francisco e até Joaquim.
Também fui Julieta, Margarida, Leonor, Isabel e talvez mesmo Idalina.
Posso ser muito mais gente, com outros nomes, outras vidas, noutros lugares.
Consigo falar qualquer língua, ter vindo de qualquer sítio, estar de partida para onde quiser.

E, no entanto, sou sempre eu.
Este rosto que vejo ao espelho, este corpo que me enclausura, esta âncora que sou incapaz de soltar.

Por vezes, sento-me no alto de um penhasco, à beira-mar.
Despeço-me do dia que finda e da persona que me habitou.
Uma dor aguda oprime-me o peito, seca-se-me a garganta e a respiração torna-se penosa.
Quase sufoco, enquanto uma lágrima, que não seguro, me queima a face.
Sei agora (sempre soube) que  sinto saudades de quem parte. Temo que não regresse.

Tenho medo de ficar a sós comigo.
Afinal, eu sou só eu. E isso é muito pouco.

Volto a encontrar-me no reflexo deste rosto, na prisão deste corpo, que me transporta.
Adensa-se o receio de jamais conseguir içar a âncora.

quinta-feira, fevereiro 03, 2011

Arquipélago do Amor


"varanda de pilatos" - foto de António Rodrigues

Não me perguntes pelos dias passados na solidão do meu quarto.
Fala-me dos corvos plantados ao sol, num rochedo inóspito;
diz-me do som das ondas, poderosas e alvas, a desfazer-se na areia;
recorda-me do cheiro a maresia, quando a praia fica imensa, na maré-baixa; 
traz até mim a brisa morna do fim da tarde, nas dunas;
conta-me da hora do ocaso, no horizonte, do arquipélago que é a nossa casa;
sussurra-me palavras ternas, no aconchego da sala, iluminada pelo fogo na lareira; 
beija-me infindavelmente;
toma-me nos teus braços e deixa-me adormecer, de cansaço, aninhada em ti:
a cabeça no teu peito;
a alma leve, radiante, saciada. 

terça-feira, setembro 22, 2009

sexta-feira, junho 05, 2009

De volta para o meu aconchego

Nota: Para ver o PPS noutro web site clique no título acima.


Fotografia: Sandra Farinha

De Volta Pró Meu Aconchego
Elba Ramalho
Composição: Dominguinhos - Nando Cordel

Estou de volta pro meu aconchego
Trazendo na mala bastante saudade
Querendo Um sorriso sincero, um abraço,
Para aliviar meu cansaço
E toda essa minha vontade.
Que bom, poder tá contigo de novo,
Roçando o teu corpo e beijando você,
Prá mim tu és a estrela mais linda
Seus olhos me prendem, fascinam,
A paz que eu gosto de ter.
É duro, ficar sem você
Vez em quando.
Parece que falta um pedaço de mim
Me alegro na hora de regressar
Parece que eu vou mergulhar
Na felicidade sem fim.



segunda-feira, abril 06, 2009

Um hotel sobre o mar

Foto de António Rodrigues
Olhou, demoradamente, a magnífica paisagem que a janela do seu gabinete lhe oferecia. "Pela última vez. Sem pressas. Ela que espere." Disse para si próprio, enquanto uma pontada desconfortável lhe oprimia o peito, um nó na garganta o impedia de engolir a água que havia acabado de levar aos lábios e uma irreprimível neblina lhe começava a toldar a vista ocultando, assim, parte da beleza que tanto queria que a sua retina guardasse.

O telefone voltou a tocar. Era novamente a secretária de Laurinda: "Dr. Maurício, lamento a insistência mas a Presidente aguarda-o na sala de reuniões com o Dr. Fernando e dois advogados e parece-me que começa a ficar impaciente com a sua demora". "Obrigado, Paula. Estou a ir". Após ter desligado, tentou recompor-se do recente momento de fraqueza. Pigarreou, para aclarar a garganta, respirou bem fundo duas ou três vezes, passou um "kleenex" nos olhos para apagar qualquer vestígio de humidade, voltou as costas à janela e saíu, com passo firme e determinado, rumo à sala de reuniões.
Quando entrou, esperavam-no todos sentados do mesmo lado, de costas para uma outra janela panorâmica, com a mesma vista de sonho. Sentou-se do lado de cá, de frente para os oponentes e, consequentemente, para a deslumbrante vista que o acompanhava há três anos, desde que fora trabalhar para aquele hotel como director de marketing.
Laurinda começou: "Ora bem, agora que já estamos todos, não vamos perder mais tempo. Como sabe perfeitamente, os tempos são de crise e todas as medidas têm que ser tomadas o mais rapidamente possível". Deixou de a ouvir, "mas o que faz aqui o Fernando? Ainda ontem à noite bebemos um copo no bar e não me disse absolutamente nada. Olha o sacana! Poderia, ao menos, ter-me preparado minimanente, evitando assim que esta situação se me apresentasse tão constrangedora. Sempre pensei que era meu amigo. Grande amigo me saíu. Os directores de recursos humanos são todos iguais, quando chega a hora da verdade estão sempre do lado do patrão, a tentar proteger o seu lugar, pois é claro... e os amigos (amigos, o que é isso?) que se lixem!"
Voltou a ouvir a voz estridente de Laurinda "há que reduzir os custos" e voltou, imediatamente para os seus pensamentos "é evidente, agora já não precisam de mim. Fiz o trabalho de reconstrução todo. Consegui tirar este hotel da sarjeta e transformá-lo num dos locais mais procurados para sessões de trabalho das empresas e fins de semana de lazer durante todo o ano. No Verão, então, não cabe aqui um alfinete..." Laurinda continuava "por essa razão, os estagiários e recém-licenciados que demonstraram estar à altura" enquanto Maurício pensava para dentro "e agora, que os "meninos" já aprenderam comigo como dar continuidade ao trabalho e só têm que manter o barco em velocidade de cruzeiro, levo um xuto no cú e boa viagem".
O timbre de Laurinda, habitualmente inócuo para os seus ouvidos, agora quase lhe perfurava os tímpanos "os nossos advogados elaboraram o contrato que tem na sua frente e que lhe peço leia atentamente, antes de assinar". "O quê, indignou-se Maurício sem proferir palavra, mas isto é "atar e pôr ao fumeiro"? Estes gajos são mesmo demais. Num dia não sei de nada, no dia seguinte estou a assinar a minha sentença de morte. Só falta mesmo pegarem-me na mão e ajudarem-me a fazer uma cruz como assinatura!". De seguida lembrou-se dos filhos: depois do duro golpe da morte da mãe, a Mariana recuperara o equilíbrio emocional e estava a acabar o secundário, com planos para arquitectura e o João, já igualmente conformado com a perda, encontrava-se a meio do curso de Engenharia de Comunicações. Como é que ía conseguir chegar a casa e dizer-lhes: "meninos, vamos ter que rever as nossas prioridades. O subsídio de desemprego, que vou passar a receber, é muito mais do que insuficiente para o nível de encargos que criámos com base na realidade de ontem e para os projectos que tínhamos em vista para amanhã".
Foi então que a frase que saíu da boca de Laurinda colidiu com a sua linha de raciocínio. Como é que "a percentagem sobre a facturação pode parecer irrisória mas, quando aplicada sobre os lucros excelentes que temos conseguido desde que o contratámos..." jogava com um acordo de rescisão? Esforçou-se por deixar de ouvir a sua voz interior e passar a escutar Laurinda que, neste momento, dizia "além do mais, apesar de 20% do capital social não ser uma quota extraordinária, parece-me justa e adequada ao seu óptimo desempenho, funcionando assim como prémio e incentivo, já que o Maurício passa a ser, simultaneamente, meu sócio, e dos meus irmãos, na propriedade do hotel, ocupando o cargo de vice-presidente. A verdade é que eles não ligam nenhuma a isto e concordaram imediatamente em prescindir de parte das suas quotas para alijar responsabilidades. Sabe o que lhe digo? Parece muito mais que o sangue dos Ataíde corre nas suas veias do que nas deles".
Por esta altura, Maurício transpirava, tinha dificuldade em respirar e quase deixava que os seus olhos se marejassem de lágrimas, exactamente por motivos opostos aos que o tinham feito sentir sintomas idênticos há cerca de meia-hora atrás. Começava a pesar-lhe alguma má consciência por ter sido, embora que por breves momentos, injusto para com a Presidente que sempre lhe merecera a maior estima e o respeitara e, até, para o seu único verdadeiro amigo, com inúmeras provas dadas, desde o primeiro momento em que o integrara nos quadros do hotel, o director de recursos humanos.
"Perante o seu silêncio presumo que está de acordo, Maurício" prosseguia Laurinda Ataíde que, aqui, fez uma pequena pausa no discurso e sorriu. A voz dela, estranhamente, agora parecia-lhe suave e doce "assim sendo, vamos passar à assinatura dos contratos e os nossos advogados poderão, em sequência, marcar a escritura de doação de quotas. Quanto ao complemento de remuneração, o Dr. Fernando Meneses procederá, já este mês, ao processamento da comissão acordada sobre a facturação do mês transacto."
Maurício permanecia num mutismo inexplicável. Incapaz de balbuciar fosse o que fosse, levantou-se e dirigiu-se ao outro lado da mesa, com intenção de agradecer à Presidente, apertando-lhe a a mão. Laurinda, porém, antecipou-se-lhe. Recuou um pouco para junto da janela e, após uma olhadela rápida ao sol que estava prestes a esconder-se onde o mar parecia acabar, deixou-se ficar de perfil e, de braços abertos, disse, comovida "Parabéns, Maurício. Ora venham de lá esses ossos".
Nota da Autora: Este é um texto de ficção. Qualquer semelhança entre o local fotografado, personagens, ou conteúdo do conto com a realidade é pura coincidência.

segunda-feira, março 30, 2009

Rosa-sem-espinhos (tema recorrente e cada vez mais actual)



Vejam só como, nesta Primavera, a minha velha amiga roseira-sem-espinhos, se deixou crescer, e transbordar, e extrapolar para além do muro - local seu desconhecido até agora.

É um gosto senti-la reflorescer, tomar como nova uma vida que, durante tantos anos, já sendo sua, nunca dela se tinha apropriado. Um verdadeiro deleite para os sentidos e um prazer indescritível para esta alma que habita num limbo - algures entre o Paraíso e o Inferno.



sábado, janeiro 31, 2009

Utopia


Fotografia de António Calçada - "Mar de Inverno na Areia Branca"

Nasci das ondas do mar
as conchas foram meu berço
que o mar sereno embalou;
as algas de verde me vestiram
e o azul do mar trouxe os laços
com que me enfeitou.
Na espuma branca e leve
espalhada na praia me sentei
e o mar inquieto a chamar por mim
estendeu-me os braços,
pr'a longe, muito longe me levou.
Por sobre as ondas andei
nas águas do Oceano,
ouvindo do mar o canto
de tudo alheia, esquecida
de que algures n'outros lugares
também havia vida
debaixo do mesmo céu.
Agora, nada parecia ter fim,
o sol era só meu,
as estrelas luziam só p'ra mim
.... a luz do meu engano.
Subi na crista das ondas,
nelas a sede matei,
mas foram elas que um dia
só, na praia me deixaram
com a fria nudez do desencanto.
E os meus sonhos de menina,
a morrer de nostalgia,
chorando,
ali na areia ficaram.

Maria Teodora (Novembro de 2008)

segunda-feira, dezembro 29, 2008

Camélia de Natal

Toda a gente conhece a "Flor de Natal", que se vende nos hipermercados e centros comerciais nesta época festiva. Na realidade, não se trata de uma flor, mas sim de uma planta sem flores, apenas com folhas, verdes, como é normal ao longo de todo o ano, à excepção do meio do Outono em que, gradualmente, a sua cor vai mudando de verde para vermelho-vivo, chegando, nalguns casos, a ficar com todas as folhas vermelhas até final de Dezembro.

No nosso Natal deste ano, lá na Ponte do Arco, não tivemos nenhuma destas "Flores" mas a natureza, que não gosta de deixar os seus créditos por mãos alheias, fez-nos uma bela surpresa:

No passado dia 25 , apesar da forte camada de geada que caíra durante a noite, lá estava, bem aberta e sorridente para o sol que a iluminava, uma inesperada camélia. Linda, fresca, feliz quanto uma flor pode ser... uma mensagem de esperança, feita beleza, a alegrar os corações que julgavam já ter recebido todos os presentes.


Fotografia de António Rodrigues

segunda-feira, outubro 20, 2008

A tradição da doçura de Outubro


Fotografia de António Rodrigues

"Outubro é o mês mais doce", repito em cada ano que passa.

Eu não sei porque amo assim Outubro, por que razão, neste mês de Outono, me sinto particularmente amada e feliz, por que gosto de tudo e de todos como se do primeiro, ou do último, mês da minha vida se tratasse. A verdade é que, invariavelmente, quando chega esta época, sinto uma vontade imperiosa de o assinalar, de o deixar registado, para a posteridade, não vá algum dia esquecer-me de que sempre assim senti.

quinta-feira, outubro 02, 2008

No meu jardim


Foto de António Rodrigues - "Outono na Ponte do Arco"
(Paráfrase inspirada no poema "Porque voam as Pétalas?", de Paulo de Carvalho):

No meu jardim
ouço o som da maré-cheia

e o grito das gaivotas;

vejo as árvores

que se despem

e os outros pássaros mudos,

tristes, pousados nos ramos.


O forte ruído da chuva

assusta-os, mantém-nos calados...


um relâmpago ilumina

de repente a tarde escura,


a maré-viva faz-se ouvir

com violência, contra as rochas,


o ribombar do trovão

faz coro com a tempestade.


As gaivotas continuam seu grasnar

numa luta contra o vento

que as impede

de alcançar porto seguro,


indiferentes que lhes é
a serenidade
repousada em meu jardim.