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segunda-feira, maio 30, 2011

A nossa praia, Amor, a nossa praia!

Nota: Importante ver/ouvir o vídeo: o som do mar, o seu espraiar-se na areia... são beijos, carícias!


Vídeo de António Rodrigues, na Praia do Molhe Leste, Peniche, em 28 de Maio de 2011


(Título em paráfrase do soneto de Florbela Espanca: "A nossa casa, Amor, a nossa casa".)

A nossa casa, Amor, a nossa casa!
Onde está ela, Amor, que não a vejo?
Na minha doida fantasia em brasa
Constrói-a, num instante, o meu desejo!

Onde está ela, Amor, a nossa casa,
O bem que neste mundo mais invejo? 
O brando ninho aonde o nosso beijo
Será mais puro e doce que uma asa?
  
Sonho...que eu e tu, dois pobrezinhos,
Andamos de mãos dadas, nos caminhos
Duma terra de rosas, num jardim,

Num país de ilusão que nunca vi...
E que eu moro -- tão bom! -- dentro de ti
E tu, ó meu Amor, dentro de mim...


Florbela Espanca



Foto de António Rodrigues - Praia do Molhe Leste, Peniche, em 28/05/2011

segunda-feira, outubro 05, 2009

Pássaros feridos

O meu grande amigo Alberto Pereira ganhou, nos Concursos de 2009 do "Ora, Vejamos..." o 2º prémio no género poesia e o 1º prémio no género conto. A querida Zélia Santos diz os seus poemas como ninguém e aqui está, para nosso bel-prazer, um excelente vídeo que produziu. A não perder!



PÁSSAROS FERIDOS

Estremeço,
já não vejo os pássaros que nasciam na garganta
quando dizias meu amor.
Esses partiram há muito
e no seu lugar, quero dizer-te,
sonham tempestades.

Nunca a eternidade se demorara na pele
como nesse tempo.
Trazíamos o céu entre os anéis
e a força com que apertávamos o paraíso.
Deus sentava-se no coração
a adiantar as horas,
a manhã chegava mais cedo.
Era urgente não adormecer,
viviam-se muitos anos num dia
e cada pensamento
coleccionava o mundo inteiro.

O sangue ruiu quando partiste.
Descobri então que o corpo
não tinha lista de espera para as cicatrizes.
Até Deus enlouqueceu,
grita que a escuridão é mais fácil de respirar.

Somos delírios
e a morte um vício para sempre.

Autoria: Alberto Pereira


terça-feira, setembro 22, 2009

sexta-feira, junho 05, 2009

De volta para o meu aconchego

Nota: Para ver o PPS noutro web site clique no título acima.


Fotografia: Sandra Farinha

De Volta Pró Meu Aconchego
Elba Ramalho
Composição: Dominguinhos - Nando Cordel

Estou de volta pro meu aconchego
Trazendo na mala bastante saudade
Querendo Um sorriso sincero, um abraço,
Para aliviar meu cansaço
E toda essa minha vontade.
Que bom, poder tá contigo de novo,
Roçando o teu corpo e beijando você,
Prá mim tu és a estrela mais linda
Seus olhos me prendem, fascinam,
A paz que eu gosto de ter.
É duro, ficar sem você
Vez em quando.
Parece que falta um pedaço de mim
Me alegro na hora de regressar
Parece que eu vou mergulhar
Na felicidade sem fim.



sábado, janeiro 31, 2009

Utopia


Fotografia de António Calçada - "Mar de Inverno na Areia Branca"

Nasci das ondas do mar
as conchas foram meu berço
que o mar sereno embalou;
as algas de verde me vestiram
e o azul do mar trouxe os laços
com que me enfeitou.
Na espuma branca e leve
espalhada na praia me sentei
e o mar inquieto a chamar por mim
estendeu-me os braços,
pr'a longe, muito longe me levou.
Por sobre as ondas andei
nas águas do Oceano,
ouvindo do mar o canto
de tudo alheia, esquecida
de que algures n'outros lugares
também havia vida
debaixo do mesmo céu.
Agora, nada parecia ter fim,
o sol era só meu,
as estrelas luziam só p'ra mim
.... a luz do meu engano.
Subi na crista das ondas,
nelas a sede matei,
mas foram elas que um dia
só, na praia me deixaram
com a fria nudez do desencanto.
E os meus sonhos de menina,
a morrer de nostalgia,
chorando,
ali na areia ficaram.

Maria Teodora (Novembro de 2008)

quinta-feira, julho 31, 2008

A Tela da Vida


João Cristino da Silva (1829-1877)
Cinco Artistas em Sintra - 1855
Óleo sobre tela, 863 x 1288mm

"A obra Cinco Artistas em Sintra é, indiscutivelmente, uma obra emblemática do Romantismo português. Trata-se do primeiro retrato de grupo na pintura, foi elaborado com o objectivo de representar Portugal na Exposição Universal de Paris em 1855.Nela podemos observar cinco artistas rodeados por gente do povo e num ambiente agreste.A composição foi esboçada no local e apresenta-se de forma cenográfica, sugerindo o processo de trabalho típico do romantismo: pintura de paisagem ao ar livre, recolhida "do natural" e, posteriormente, elaborada em atelier. Esta obra é uma homenagem ao mestre Tomás de Anunciação que está no centro da composição (a pintar), e junto dele Francisco Metrass, com adereços do próprio autor - Cristino da Silva, que os gostava de exibir (chapéu à Rubens e capa larga). No segundo grupo encontramos Vítor Bastos (escultor), José Rodrigues (pintor), sentado no chão e Cristino da Silva (o autor da obra), encostado à rocha, elaborando um esboço, em pose artística.Nesta tranquila paisagem destaca-se o rochedo que de alguma forma confere unidade e coesão à obra. A presença de aldeãos que olham fascinados para o trabalho do senhor da cidade, representa uma espécie de ideal de ruralidade que fascinava os representantes do Romantismo português. Ao fundo, vislumbra-se o Palácio da Pena, um dos símbolos máximos do Romantismo, edificado por D. Fernando. As cores do quadro são terrosas, com predominância de tons de verde e castanho, sem grandes contrastes. A iluminação é estudada, dando o tom dourado de fim de tarde a toda a composição."

(Texto extraído de "Museus na Escola" museusnaescola.eselx.ipl.pt/static/instance/M...)


A Tela da Vida

A nossa vida é uma tela,
uma tela de mil cores,
todos nós pintamos nela,
somos bons ou maus pintores.

Com mais ou menos talento,
com tinta clara ou garrida,
por vezes com desalento
pintamos a nossa vida.

Há quem pinte com amor;
há quem pinte com paixão;
só não sabemos dar cor
ao que sente o coração.

Sabemos nós qual a cor
para pintar a amizade?
que tons daremos à dor?
como se pinta a saudade?

Ai, pobre de quem na vida
só tem negro p’ra pintar:
uma tela entristecida,
feita talvez a chorar.

(poema da autoria de Maria Teodora)

terça-feira, julho 15, 2008

A sensualidade na poesia feminina do Japão - "O Tanka"



PERÍODO HEIAN NO JAPÃO - FINAL DO SÉCULO VIII ATÉ FINAL DO SÉCULO XII - (Plena Idade Média na Europa)

A forma poética "tanka" constituída por 31 sílabas japonesas de apresentação vertical, é apresentada em tradução nas línguas ocidentais por cinco linhas que, mantendo tanto quanto possível o registo sonoro original, correspondem a cinco versos metricamente alternados de 5,7,5,7,7 sílabas.

As duas autoras que nos são apresentadas por Luísa Freire, Ono no Komachi (834? -?) e Izumi Shibiku (974? - 1034?) "foram as grandes representantes da poesia da corte de então e marcos importantes na poesia japonesa de todos os tempos que, ao longo dos séculos, se foram tornando uma lenda e uma referência. [...] " Ambas são figuras centrais dessa Idade de Ouro, durante a qual as mulheres escritoras tiveram um papel decisivo na fixação do japonês como língua poética".

[...]

"Há mil anos, a cidade capital Heian-Kyo (hoje Kyoto) era mais populosa do que qualquer cidade da Europa e um dos centros altamente civilizados do mundo. Os aristocratas aspiravam ao favor político que lhes trouxesse posição e poder e as filhas dessas famílias eram mandadas aos catorze anos para a corte, para servir os membros imperiais. Como era através do casamento que a sua posição e o seu estatuto se afirmavam, as raparigas eram cuidadosamente educadas e cultivadas para, esteticamente, competirem com os homens em termos de igualdade. Na corte, divertiam-se e divertiam a imperatriz com música e versos, mas a sua atenção ia para os assuntos do coração. Os "casos amorosos" eram aceites às mulheres solteiras e a poligamia era habitual nos homens. Assim sendo, compreende-se que o erotismo fosse tópico literário, reflectindo todo o ambiente que se vivia."

Passo, então, a transcrever, apenas à laia de exemplo, alguns dos tanka que considero de maior beleza e sensibilidade amorosa:



De Komachi:


Será que apareceu

só porque eu adormeci

a pensar nele?

Se eu soubesse que sonhava,

nunca teria acordado.

-------------------------------------------------

Quando o meu desejo

se torna intenso de mais,

visto a roupa de dormir

virada pelo avesso,

escura casca da noite.

---------------------------------------

O meu desejo de ti

é forte para contê-lo -

assim ninguém vai culpar-me

se à noite for ter contigo

pela estrada dos meus sonhos.

-------------------------------------------------

Não há como vê-lo

nesta noite sem luar -

estou deitada e desperta,

os seios ardendo em desejo

e o coração em chamas.

--------------------------------------------

A noite mergulha

com um veado a chamar

em som agudo

e, ao ouvi-lo, escuto

um lado do próprio amor.

-----------------------------------------

Pescador não deixa

a baía plena de algas...

Vais abandonar

este corpo flutuante

à espera das tuas mãos?

---------------------------------------

Triste a pescadora que,

longe, na Baía Suma,

perdeu um remo do barco -

assim é este meu corpo

sem ter a quem recorrer.

---------------------

Nos campos de Outuno,

se uma centena de flores

solta suas cores,

não posso também gozar

sem ter medo da vergonha?

-----------------------
Este meu corpo

tão frágil e flutuante,

é uma cana sem raízes...

Se um rio acaso pedir

que o siga, eu acho que irei.


Fim da selecção de Komachi


DE SHIKIBU:

Deitada e sozinha

de cabelo negro solto

e emaranhado,

sinto desejo daquele

que primeiro o veio tocar.

----------------------

Porque não terei

pensado nisto já antes?

Este corpo meu

ao recordar tanto o teu

tem a marca que deixaste.

----------------------

Não há diferença -

a borboleta nocturna

que se veio queimar,

e aqui este meu corpo

que o amor veio transformar.

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Não fiques corado!

Todos adivinharão

que dormimos juntos

sob as pregas enrugadas

deste manto avermelhado

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Se o cavalo dele

tivesse sido domado

pela minha mão -

eu tê-lo-ia ensinado

a não seguir mais ninguém.

---------------------------------------------

Sem ser perturbado,

o meu jardim fica cheio

de mato estival -

como eu desejo que alguém

desbrave a erva profunda!

----------------------------------------

Desejando vê-lo

para ser vista por ele -

se ele ao menos fosse

o espelho onde eu me olho

e que olho cada manhã!

---------------------------------------------

A gota de orvalho

permanece mais tempo

na folha de bambu

do que tu, que logo partes

antes do amanhecer.

----------------------------------------------

Este coração

de tanto te desejar

vai-se quebrando

em milhares pedacinhos -

mas nem um só vou perder.

----------------------------------------------

Mesmo quando um rio

de lágrimas atravessa

e molha este corpo,

não chega para apagar

todo o fogo do amor.

----------------------------------------

Penso: "nos meus sonhos

poderemos encontrar-nos"...

Virando a almofada,

eu ando às voltas na cama

incapaz de adormecer.

-----------------------------------------------

Deixada aqui

a envelhecer no mundo

sem ti ao meu lado,

as flores perdem a beleza

tingidas de negra cor.

---------------------------

Meu corpo perdido

só conhece agora a noite -

por isso as mangas no escuro

permanecem encharcadas,

impossíveis de secar.

-----------------------------

Ao lembrar-me de ti...

Os pirilampos do campo

parecem centelhas vivas

que se desprendem e soltam

dos desejos de meu corpo.


Fim da Selecção de Shikibu


terça-feira, junho 17, 2008

Recordações


Desço às profundezas
do mar revolto
dos meus sonhos
e das minhas recordações.

Qual mergulhador,
aventureiro,
arrisco e pesquiso todos
os cantos e recantos
de rochas e corais.

Deslumbramento total!
Como tudo é diferente
agora, visto assim,
nesse repouso,
silencioso
e maravilhosamente belo!

Como tudo
me parece diferente
nos seus contornos
quase irrreais!...

Não me atrevo
a tocar-lhes.
Religiosamente descansam
e eu, limito-me
a contemplar,
respeitando assim
o sossego
de tantas atribulações,

encantos e desencantos.

(Noémia Carvalhosa)

quarta-feira, junho 04, 2008

Poema ao Sol














(Willows at Sunset - Vincent van Gogh)



Te bendigo, ó Sol, que a beijar aqueces
esta terra sedenta dos teus beijos.
Em cada amanhecer quando apareces
palpita nela a vida em mil desejos.

Desponta o Sol radioso, cintilante
em cristais d’orvalho, a manhã começa;
bela, a flor abriu, sorriu deslumbrante
à luz que se espalhou numa promessa.

Crescem os cardos em qualquer lugar:
no chão mais pobre, áspero e daninho;
ao calor do Sol vão desabrochar
humildes flores na poeira do caminho.

Da terra brota água fresca e pura;
mas a semente que um dia alguém semeia
o Sol lhe dá vida, dá-lhe altura,
e cada vida é chama que ele ateia.

Tens o poder criador, ó Sol bendito,
a louvar-te sempre em cada hora, insisto;
és fonte de vida, bem infinito,
é porque tu existes que eu existo.

E quando no horizonte o Sol desmaia
ao fim da tarde, luminosa e quente,
- como se coada em fina cambraia -
cai sobre a terra a luz doce do poente.


(Maria Teodora)

segunda-feira, fevereiro 04, 2008

Pablo Neruda


Neruda - José Juan Torres (clicar para aceder ao link em que se ouve a excelente declamação de J.J. Torres)

Este post é dedicado à minha filha Sara, que faz hoje 25 anos e que, durante a sua infância, muitas vezes me ouviu "dizer" este poema. Também o dedico ao meu pai, que fez 78 anos no dia 31 de Janeiro e que, porque gostava de me ouvir "dizê-lo", tem-no gravado num dos seus álbuns de recordações áudio.

Parabéns a ambos, com todo o meu amor.


"Posso escrever os versos mais tristes esta noite "
Posso escrever os versos mais tristes esta noite.

Escrever, por exemplo: "A noite está estrelada, e tiritam,
azuis, os astros lá ao longe".

O vento da noite gira no céu e canta.

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Eu amei-a e por vezes ela também me amou.

Em noites como esta tive-a eu nos meus braços.
Beijei-a tantas vezes sob o céu infinito.

Ela amou-me, por vezes eu também a amava.
Como não ter amado os seus grandes olhos fixos.

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.

Pensar que não a tenho.
Sentir que a perdi já.

Ouvir a noite imensa, mais imensa sem ela.
E o verso cai na alma como no pasto o orvalho.

Importa lá que o meu amor não pudesse guardá-la.
A noite está estrelada e ela não está comigo. Isso é tudo.

Ao longe alguém canta. Ao longe.
A minha alma não se contenta com havê-la perdido.

Como para chegá-la a mim, o meu olhar procura-a.
O meu coração procura-a e ela não está comigo.

A mesma noite que faz branquejar as mesmas árvores.
Nós dois, os de então, já não somos os mesmos.

Já não a amo, é verdade, mas tanto que a amei.
Esta voz buscava o vento para tocar-lhe o ouvido.

De outro. Será de outro. Como antes dos meus beijos.
A voz, o corpo claro. Os seus olhos infinitos.

Já não a amo, é verdade, mas talvez a ame ainda.
É tão curto o amor, tão longo o esquecimento.

Porque em noites como esta a tive nos meus braços, a minha alma não se contenta com havê-la perdido.

Embora esta seja a última dor que me causa, e estes sejam os últimos versos que lhe escrevo.

Pablo Neruda in "Vinte Poemas de Amor e uma Canção Desesperada"

sábado, janeiro 19, 2008

Despertar

Nota prévia: decidi publicar nesta data este poema da tia Mariazinha por ser hoje o aniversário das suas duas filhas gémeas - Sílvia e Isabel (minhas primas igualmente muito queridas).
Parabéns à mãe e às filhas!


Chegou a Primavera verde e florida
e caprichosa pôs em cada flor
doce harmonia de perfume e cor
... mágico acordar da terra adormecida.

Vibrante despertar do secreto sono
em manhã de sol de sublime encanto
no cantar das aves... só que entretanto
tudo empalidece em chegando o Outono.

Mas se há em nós um verão - fruto maduro,
saboreemo-lo no seu aroma puro
enquanto tem sabor e apetece.

Porque a vida é um sopro... morre num ai;
fôlego que mal se respira... s' esvai,
efémera luz que logo desvanece.

Maria Teodora
Agosto de 2007

sábado, dezembro 29, 2007

Avôzinho

O meu avô Carvalhosa, pai da minha mãe, Noémia, era um jovem elegante, bonito, culto. Escrevia lindos versos, tocava banjo e bandolim, e cantava, com uma voz que diziam ser melodiosa e encantadora, o fado de coimbra.

Com estes atributos era, naturalmente, na segunda década do Séc. XX, um herdeiro muito cobiçado pelas inúmeras meninas que por ele suspiravam e quase desfaleciam a um sorriso seu ou a uma frase mais galante, fosse num descontraído piquenique na Serra de Montejunto, num serão passado em casa de alguma família do círculo de amigos, ou num baile de salão, numa das muitas quintas ainda habitadas pela aristocracia rural (em decadência social face à recém-constituída República, mas teimosamente resistente na manutenção dos seus usos e costumes).

Nos últimos dias deste ano de 2007 tenho-me lembrado dele com alguma frequência (e muita saudade). Não desse jovem garboso que, obviamente, não conheci, mas do meu "avôzinho", de coração puro e terno, com olhos de um azul muito claro que, agora, associo à transparência da sua alma e à generosidade do seu coração. Visitáva-nos diariamente, sempre com uma supresa no bolso, nem que fosse uma história nova, desencantada no seu vasto baú de recordações. De vez em quando também de lá saíam chocolates e outras guloseimas, porque, no fundo, ele bem conhecia a variedade de gostos da criançada...

Aqui lhe deixo uma sentida homenagem, através de uma fotografia que o retrata nos anos áureos de sedutor, e de um soneto de sua autoria publicado no jornal "O Alto Concelho de Alenquer", na mesma época.


VERSOS
Versos, quem os não lê com fé ardente,
com sacrosanto enleio e devoção?!
Soam tão docemente ao coração!
Versos... quem os não diz... quem os não sente?!

Porque se agita em nós, violentamente,
a alma, a crepitar como um vulcão,
ao ler d'esses Poetas a paixão
que vibra pelo espaço eternamente?!

Versos são preces loucas, desvairadas:
confidências subtis, apaixonadas,
repletas de fervor e de verdade!

E assim - quando a velhice se aproxima -
nós vamos evocando em cada rima,
uma cena feliz da mocidade.

Francisco Luiz de Carvalhosa (1926)

segunda-feira, outubro 01, 2007

Luz d'Outono

Laughing Whitefish State Park Upper Peninsula Michigan Fall colors 2005
No entardecer nostálgico d'Outono
calmo, de luz doirada, transparente,
na mística e doce luz do sol poente,
naquela paz descanso, me abandono.
Longe, no horizonte vai o sol morrer,
somente uma poalha d'oiro anda no ar;
e na penumbra me perco a procurar
sempre a mesma luz, outro amanhecer.
Um crepúsculo, agora, me adormece
naquela vaga luz quando anoitece
se não me acordam fortes vendavais.
Luz que sendo tão frouxa, indefinida,
nela durmo o sono breve desta vida,
com medo de acordar cedo de mais.
Maria Teodora, 2003

segunda-feira, setembro 10, 2007

Mar


Mar, assustas-me.

Há muitos anos
não tinha medo de ti.

O sussurro das águas.
O vaivém das ondas.
A imensidão
dos teus domínios;
Fascinavas-me...

Entrava nas tuas águas,
sentia a união do meu corpo e do teu ser,
num desafio à luta,
à volúpia
dos teus remoínhos,
dos teus abraços,
ora violentos, ora suaves.

Hoje assustas-me...
Tu és incansável e o meu corpo
já não acompanha os teus desafios.

Mar, não perdeste encanto
nem fascínio.


Na mera contemplação do teu mundo,
continuam a encontrar-se as nossas almas,
numa calma e doce

harmonia e comunhão.

(Texto de Noémia Carvalhosa, Baleal, Julho de 1996)
fotos de Maria Carvalhosa, Agosto de 2007

terça-feira, julho 24, 2007

Paráfrases, a seis mãos... três pares de asas

NOTA: Este post foi inteiramente "roubado" ao blog Voo de Dédalo, da minha amiga Esvoaçante.

Dá-me a tua mão:
Vou agora te contar como entrei no inexpressivo que sempre foi a minha busca cega e secreta.
De como entrei naquilo que existe entre o número um e o número dois, de como vi a linha de mistério e fogo, e que é uma linha sub-reptícia.Entre duas notas de música existe uma nota, entre dois factos existe um facto, entre dois grãos de areia por mais juntos que estejam existe um intervalo de espaço, existe um sentir que é entre o sentir-nos interstícios da matéria primordial está a linha de mistério e fogo que é a respiração do mundo, e a respiração contínua do mundo e aquilo que ouvimos e chamamos silêncio.

Clarice Lispector ( A paixão segundo G.H.)
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Dá-me a tua mão:
vou contar-te como procuro e temo encontrar, sei do som dos passos e
ensurdeço ao amanhecer. De como se sente o estalejar dos minutos e o
latejar dos dias.

Dá-me os teus olhos:
vou agora deixá-los percorrer as paisagens de olvido e de segredo,
desvelá-los nas profundezas de um azul sombrio.

Dá-me os teus braços:
vou agora acolher-me neles, como em muralha inexpugnável e imune ao
passar dos tempos.

Não, não me dês nada do que é teu e te faz falta.
Podes vir a dar contigo como cidadela desconstruída e exposta às
estrelas.

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Dá-me a tua mão.
Olharei, com todo o furor do meu pensamento, para os teus dedos.
Escolherei, para cada um, a nota musical adequada à frequência que
ressoa no meu coração.

Dás-me cada dedo
E as notas que eles tocam nada mais são que pedaços da minha pele,
cuja cor se altera mesmo antes de ser atingida. Não são teclas
monocromáticas nem cordas que se/me prendam...
O que me dás
É aquilo que me transforma e emudece. E basta-me o quase toque de
um dedo da tua mão para que a ilusão de que sou inatingível
desapareça.

Dar e ser
Tendem a transformar-se em tons e meio tons que formam escalas
e escadas. Damos e somos. E sonhamos.
(Carteiro) ou Senhor dos Selos

--------

Dá-me a tua mão:
saberei encontrar o caminho
dos segredos que guardamos.

Dá-me o teu sorriso:
encontrarei a alma pura
da água que corre da fonte.

Dá-me o teu olhar:
conseguirei rasgar as núvens
e alcançar o céu, lá,
onde é mais azul.

sexta-feira, julho 13, 2007

Mar de Esperança

Fotografia subordinada ao tema "brancura", publicada no PalavraPuxaPalavra em 12-07-2007




Não sei que existe em ti que me fascina,
trago na boca este sabor a mar;
se nas tuas ondas esgoto o meu olhar
a força do teu canto me domina.

É de ti que me vem esta ansiedade
porque acredito na tua cor de esp'rança;
és tu que me transformas em bonança
se cá dentro me agito em tempestade.

No marulhar constante me baloiço,
descubro em ti segredos quando oiço
a tua voz segredar-me o que não digo.

E enquanto olho o vai-vém das águas
à espera que leves estas mágoas,
sou gaivota perdida sem abrigo.


(Maria Teodora - 1980)

quinta-feira, junho 21, 2007

Parafraseando a paráfrase

The Boatman (Corot)

A meu favor
Tenho o verde secreto dos teus olhos
Algumas palavras de ódio
algumas palavras de amor
O tapete que vai partir para o infinito
Esta noite ou uma noite qualquer
A meu favor
As paredes que insultam devagar
Certo refúgio acima do murmúrio
Que da vida corrente teime em vir
O barco escondido pela folhagem
O jardim onde a aventura recomeça.

(Alexandre O'Neill)
---------
de parafraseio... (em "Voo de Dédalo")
A meu favor...

tenho o vento que ruma para sul
olhares recheados que o tempo mantem
palavras ternas, de tom indelével;
tenho a ira e a indignação
a capacidade de se incendiar
florestas sombrias de clareiras solarengas
aqui e agora,

como ali e depois
tenho a meu favor
a teimosia persistente em não se deixar vencer
a deliberada rota de viagens em si
a cartografia dos afectos
do amor e da zanga, do riso e da raiva
dos voos e quedas,
do acto falhado transformado em ganho.

a meu favor
o favor de mim

(Esvoaçante)
---------

de paráfrase em paráfrase...
A meu favor
tenho o sótão cheio de memórias
o jardim do imaginário prenhe
das aventuras que hão-de vir,
tenho mil prateleiras a abarrotar
com os livros que vou ler
e outras tantas vazias
à espera dos que vou escrever;
tenho uma barcaça
no cais da esperança
e a água mansa e queda
à espera que me faça ao mar.

A meu favor
tenho o tempo
que me resta...
até a morte chegar

(Maria)

quarta-feira, junho 06, 2007

Dovoar


O Vasco Pontes é um poeta. Escreve como só ele sabe. As suas palavras apoderam-se da nossa alma e não mais é possível, depois de o ter lido uma vez, deixar de o procurar, exigir mais poemas seus, viver uma existência pacífica na ausência da sua escrita.

Aconteceu comigo. Descobri-o a escrever para si próprio e para mais dois ou três leitores esporádicos. Que lástima! Podia lá passar despercebida uma poesia daquele tamanho todo!

A verdade é que, quase dois anos volvidos, a poesia do Vasco ultrapassou todas as suas expectativas em termos de popularidade (imagino!), os seus leitores fiéis são às dezenas e é com grande alegria que o vejo publicar o seu primeiro livro.

Não percam, amigos, o lançamento, consultando os detalhes aqui e comprando, naturalmente, a sua primeira obra poética.

Obrigada, Vasco. Sabes que sempre acreditei que serias grande.

Um beijo de Parabéns.

sábado, maio 26, 2007

Saber Amar

Les Orangers, de Caillebotte

Ah! Como é bom saber amar alguém,
ter dentro de si aquele amor ardente,
amar com todo ardor que a alma consente
sem temer ser loucura, mal... ou bem.

Mas há quem se iluda, quem diga que ama...
frouxa luz de candeia que se apaga,
simples amor que esvoaça, que divaga,
deixa morrer no coração a chama.

Amor é tudo o que se dá feito ternura,
é ficar preso d'alguém sem amargura,
sem se sentir como ave em cativeiro.

É o encontro de paixões iguais... sentidas;
depois, duas almas numa só unidas,
duas vidas que se entregam por inteiro.

Maria Teodora (2006)

domingo, maio 20, 2007

Meme

A minha amiga APC, do "Camuflagens" escreve, na brincadeira, ao passar-me a pasta, esta bem conhecida frase: "com amigos assim, quem precisa de inimigos?"
Nesta correntemania que reina, actualmente, na blogoesfera, eu alinho se sou desafiada por alguém de quem gosto, como é o caso, e quando o desafio se revela interessante, que é, de igual forma, o do meme. Pois... esse mesmo, que quem desconhecia passa a conhecer se fizer como a APC e eu própria fizemos, ou seja, vai ver aqui.
Este é o que seleccionei, assim de repente, de entre tantos outros que poderiam ocupar o mesmo espaço. Não foi, apesar de tudo, por acaso: o acto da criação artística, o acto da escrita em particular, é um tema recorrente nas minhas pesquisas e também em textos que vou alinhavando, aqui e ali.
Então vamos ao dito Meme:
" [...] Eu disse: Queria dizer-lhe que não bastava escrever bem ou mal, produzir escritos belos ou muito belos, que não bastava que fosse um livro para ler com uma avidez pessoal e não em comum. Que também não bastava escrever assim, fazer crer que não havia na escrita qualquer pensamento, que era guiada apenas pela mão, tal como era de mais escrever apenas com o pensamento na cabeça a vigiar a actividade da loucura. [...] Disse-lhe ainda que era preciso escrever sem corrigir, não necessariamente depressa, a toda a velocidade, não, mas conforme a própria pessoa e conforme o momento que se atravessa, lançar a escrita para fora, maltratá-la quase, sim, maltratá-la, nada retirar da sua massa inútil, nada, deixá-la inteira com o resto, nada ponderar, nem velocidade nem lentidão, deixar tudo no estado de aparição."
(Marguerite Duras, in Emily L.)
Ainda embuída do mesmo espírito da amiga que me lançou o desafio vou dar-lhe continuidade, nomeando outras seis "vítimas do meme"... :):
Ana Prado - Inteira Luz
Aquilária - Ínsua
Besnico di Roma - Memórias de um amnésico
Prólogo - Prólogo