quarta-feira, maio 31, 2006

Dia de Festa

































Hoje é dia de festa.
Os pássaros afinam os trinados;
as papoilas ondulam, ufanas, nos campos;
as ondas desfazem-se, em puro delírio, nas rochas que se deixam banhar com idêntico prazer;
as pessoas sorriem e cumprimentam-se, quando se cruzam, como se não se vissem há muito.

Estou cansada, desgastada, exausta.
Quem me dera poder dormir todo o dia e esquecer... que hoje é dia de festa!

Apesar de tudo, lá vou!
Invento um brilho nos olhos;
colo uma imitação de sorriso nos lábios;
canto, danço, misturo-me com a multidão...
e finjo que estou feliz.

Afinal... hoje é dia de festa!

terça-feira, maio 02, 2006

Fragmento


O voo planado da gaivota;
o azul indescritível

das águas profundas
que separam a costa da ilha-rosa,
logo ali,
a duas braçadas e meia de lonjura;
as mãos que avidamente se procuram
para agarrar
um momento inesquecível.

Riem de si próprios
e as gargalhadas ecoam como os gritos dos corvos e das gaivotas.

No abraço em que se enlaçam
os beijos molhados têm o sabor salgado
das lágrimas que algures,
no percurso dos rostos,
se misturam.

Em silêncio, sem palavras, eles sabem.


Sempre souberam da impossibilidade de guardar
a memória etérea de um instante feliz num relicário;
da incapacidade de qualquer alquimia materializar,
para esconder na caixa dos pequenos-grandes tesouros,
um fragmento de eternidade:
único e irrepetível.