sábado, janeiro 19, 2008

Despertar

Nota prévia: decidi publicar nesta data este poema da tia Mariazinha por ser hoje o aniversário das suas duas filhas gémeas - Sílvia e Isabel (minhas primas igualmente muito queridas).
Parabéns à mãe e às filhas!


Chegou a Primavera verde e florida
e caprichosa pôs em cada flor
doce harmonia de perfume e cor
... mágico acordar da terra adormecida.

Vibrante despertar do secreto sono
em manhã de sol de sublime encanto
no cantar das aves... só que entretanto
tudo empalidece em chegando o Outono.

Mas se há em nós um verão - fruto maduro,
saboreemo-lo no seu aroma puro
enquanto tem sabor e apetece.

Porque a vida é um sopro... morre num ai;
fôlego que mal se respira... s' esvai,
efémera luz que logo desvanece.

Maria Teodora
Agosto de 2007

quarta-feira, janeiro 16, 2008

Inverno


Hoje apetece-me Inverno (hoje apetece-me Eugénio...)

Quero ficar dentro de casa e apenas observar, pela janela, a chuva que cai, em abundância, lá fora.

Quero ficar enroscada no sofá, frente à lareira que, para além de me oferecer o calor de que preciso, me faz sonhar, imaginar histórias que um dia poderei vir a escrever, enquanto observo as labaredas que vão executando o seu eterno bailado.

Quero beber um chá quente, entre a leitura de poemas de Eugénio de Andrade e a constatação da chuva que continua a caír, lá fora, e do fogo que continua a arder, cá dentro.

Quero sentir-me protegida, confortável, segura ... mau grado o ameaçador som do vento que, rugindo com fúria, prenuncia um vendaval.

Hoje apetece-me Inverno (hoje apetece-me Eugénio...).

terça-feira, janeiro 01, 2008

Resoluções de Ano Novo

(Fotografia de António Rodrigues)

No primeiro dia do novo ano, após o almoço com a família, Filipe vestiu o casaco de capuz, pegou no caderninho de linhas e num lápis, enfiou-os no bolso direito, onde ainda havia espaço para a mão, apesar de enluvada por grossa lã, e percorreu o caminho até ao molhe leste.

Olhou o farolim, ao fundo, mas não teve vontade de percorrer todo o caminho de cimento até lá chegar. Sentou-se quase no princípio do molhe, mesmo à beira, para inalar o cheiro a maresia emanado pelas vagas que fustigavam as rochas, logo ali, dois metros abaixo de si, virado para a praia dos Supertubos, onde alguns dos seus amigos davam as boas vindas ao ano recém-chegado no exercício do que mais gostam na vida: surfar.

O Filipe também gosta de apanhar ondas e, normalmente, acompanha-os. Neste dia, porém, a sua disposição era outra: desde que lera "O diário secreto de Adrian Mole aos 13 anos e 3/4", oferecido pela tia Helena no dia em que fizera treze anos, que se identificava com o herói da história (um adolescente tão cheio de borbulhas, inseguro e desgraçado quanto ele). Esperou, pacientemente, pelo primeiro dia do ano de 2008 (o aniversário tinha sido em Março) e dispôs-se, finalmente, a enumerar a sua lista de decisões pensadas e repensadas ao longo de vários meses.

Olhou fixamente o horizonte por uns instantes, respirou fundo, e começou a escrever, à imagem e semelhança do que, supostamente, fizera o seu imaginado companheiro de infortúnio, quando tinha a sua idade, há alguns anos, num outro país da Europa.

Acabou por escrever um plágio do início do citado livro, com umas pequeníssimas diferenças, perfeitamente explicáveis em termos cronológicos e geográficos, da seguinte forma:

"Terça-feira, 1 de Janeiro,

FERIADO EM INGLATERRA, IRLANDA, ESCÓCIA E PAÍS DE GALES (e também em PORTUGAL)


Estas são as minhas resoluções para o Ano Novo:


1. Estudar Matemática

2. Resistir ao consumo de tabaco, álcool e drogas

3. Visitar os meus avós, pelo menos, uma vez por semana

4. Deixar de fechar a minha irmã Joana no quarto de cada vez que me irrita

5. Passear o cão e ajudar a mudar o areão dos gatos

6. Não espremer as borbulhas

7. Tentar impedir que o meu pai maltrate a minha mãe quando bebe

8. Evitar, a todo o custo, corar, quando dou de caras com a Mónica"

E pronto, tal qual o Adrian, tinha acabado a listagem: 8 coisas. Por coincidência, parecia-lhe bem o número de resoluções, tendo em conta o ano que tinha acabado de entrar. Possivelmente, no ano seguinte, escreveria 9 resoluções... de seguida pensou: "que disparate! E em 2050 vou escrever 50 resoluções?" Logo a seguir deu uma gargalhada e voltou a chamar-se à razão: "outro disparate! É lógico que em 2050 já não vou escrever listas de resoluções!".

Fechou o caderninho, voltou a enfiá-lo, e ao lápis, no bolso direito e, ainda a sorrir, levantou-se, com um orgulhoso sentimento de dever cumprido ("ainda que mais ou menos copiado... quero lá saber! Náo é mau copiar o que é bom!... mas que raio de frase esquisita... será que nem a pensar consigo utilizar linguagem bonita, construir uma "sentença" com pés e cabeça? Se calhar deveria ter acrescentado português na primeira resolução, a que tinha a ver com o estudo!")

Antes de voltar para casa passou pelo café que ficava no caminho, para beber um leite com chocolate quente e comer um pãozinho com linguiça, acabadinho de fazer.

Foi então que deu de caras com a Mónica, sentada numa das mesas, em divertida brincadeira com as amigas. Ao sentir o rubor aflorar-lhe às faces pensou recuar, abdicar da apetecida merenda... depois, lembrou-se das resoluções de Ano Novo que acabara de escrever e entrou, dirigindo-se, em passo decidido, ao balcão, onde se sentou num banco alto. Enquanto o empregado não o atendia mirou-se ao espelho e viu uma borbulha, ENORME, no queixo.

Fez o pedido e, enquanto aguardava, ía dando, pelo espelho, uma espreitadela à mesa onde a Mónica e as amigas continuavam a rir.

Porque o leite e o pãozinho demoraram a chegar, atirou-se à borbulha furiosamente e espremeu-a com força, frente ao espelho, suportando a dor até fazer sangue.